Estados Unidos e vários países europeus importam Urânio enriquecido da Rússia para as suas centrais nucleares por António Mota Redol

Estados Unidos e vários países europeus importam Urânio enriquecido da Rússia

para as suas centrais nucleares

 

por António Mota Redol

 

 

Trabalhei na Junta de Energia Nuclear durante uns anos (e depois no Gabinete de Planeamento/ Órgão Central de Planeamento da CPE/EDP), onde me tornei especialista em economia da energia e planeamento energético e me dediquei durante anos ao estudo da energia nuclear, de que resultou a escrita de artigos para jornais e revistas sobre este tema (cerca de 50), de comunicações para Encontros e fui autor de dois capítulos do livro Energia Nuclear – Oportunidade em Portugal, da Moraes Editores, com colegas especialistas.

Opus-me à instalação de grupos nucleares em Portugal nos anos 70 e 80 e fui deputado na Assembleia da República durante um dia pelo MDP/CDE, quando este partido fez uma interpelação ao Governo sobre Energia Nuclear (26 de Abril de 1984), sessão em que fiz, além de outras mais curtas, duas intervenções de fundo de cerca de 20 minutos cada sobre a economia de centrais nucleares e a inclusão no Plano Energético Nacional de um programa de construção de grupos nucleares à custa de parâmetros económicos favoráveis à opção nuclear face às alternativas.

Tendo consultado recentemente a “internet” sobre enriquecimento de Urânio, verifiquei com espanto que os EUA importam Urânio enriquecido na Rússia em grande quantidade e que quase metade do Urânio importado pelos EUA vem da Rússia, Cazaquistão e Uzbequistão (informação cuja data me pareceu actual, mas que não consegui confirmar; no entanto, outras informações confirmam a continuação de dependência dos EUA relativamente àqueles países).

Ora os EUA também têm Urânio, mas é provável que o não possam explorar devido às pressões dos grupos ecologistas. Se assim é, se os EUA deixarem de comprar à Rússia o Urânio enriquecido, grande parte das suas centrais (normalmente uma central nuclear tem vários grupos nucleares) deixarão de funcionar.

Se estão a exigir aos países europeus que não importem gás natural e petróleo da Rússia, porque não dão o exemplo deixando de comprar Urânio enriquecido àquele país?

A restante parte do Urânio enriquecido importado pelos EUA vinha de fábricas europeias. Em 2010, foi inaugurada uma unidade no Novo México, que será a única nos EUA, mas que não será suficiente para produzir o Urânio enriquecido necessário aos seus muitos grupos nucleares.

França, Holanda e Reino Unido possuem unidades fabris de enriquecimento de urânio. Representam investimentos elevadíssimos que apenas certos países podem fazer. Um das unidades francesas, Tricastin, tinha 3 grupos nucleares de grande dimensão para a alimentar em energia eléctrica. Provavelmente, essas unidades europeias não terão produção para alimentar os grupos dos seus países e grupos dos EUA e da Europa na parte em que estes importam da Rússia.

Por outro lado, Finlândia, Ucrânia, República Checa, Hungria, Bulgária, Lituânia têm grupos nucleares de fabrico russo. São, certamente, alimentados com Urânio enriquecido russo.

Mas ninguém fala destas dependências da Rússia, mais uma, além de muitas outras. Só se fala de gás natural e petróleo.

É verdade que os grupos nucleares são alimentados de novo Urânio enriquecido apenas em cada 1,5 ano, quando se realiza a manutenção dos grupos e equipas entram na zona do núcleo radioactivo do reactor nuclear, sendo substituído cerca de 1/3 do combustível nuclear.

Também é verdade que muitos países devem ter Urânio enriquecido de reserva sob a forma dos designados elementos de combustível (tubos de aço com Urânio dentro que irão constituir o núcleo dos reactores), mas o problema subsiste. E estes elementos também é provável que sejam produzidos na Rússia.

A curto ou a médio prazo, vão parar muitos grupos nucleares na União Europeia e nos EUA se a Rússia deixar de fornecer o combustível. Seria óptimo em termos de redução de risco de acidente nuclear e de contradizer certas tendências que andam por aí! Mas parece pouco provável!

A curto prazo, que centros produtores vão produzir a energia eléctrica faltante?

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