Espuma dos dias — “Jubileu da Velha Ordem — Desce o pano em Buckingham”, por Carlos Matos Gomes

Seleção de Francisco Tavares

3 m de leitura

Jubileu da Velha Ordem — Desce o pano em Buckingham

Por Carlos Matos Gomes

Em 4 de Junho de 2022 (original aqui)

 

Na política não há acasos. Os acontecimentos têm uma finalidade. Os ingleses são mestres na encenação dos poderes e na transmissão da mensagem dos poderosos aos súbitos. A Royal Family inglesa é uma montra de manequins de plástico devidamente aparelhados para transmitirem uma imagem de segurança ao povo. (Podiam estar nos armazéns de Oxford Street ou no Harrods — este de má memória, dadas as liberalidades de princesa Diana, dita do povo, com o filho do dono).

O terceiro Jubileu do reinado da Rainha Isabel II foi encenado como um grande espetáculo do West End para acalmar as turbas das ilhas britânicas num tempo de grande incerteza e de ameaças de tempestade. O Brexit, a crise económica, um primeiro-ministro apalhaçado e sem tino, a sujeição de vassalagem sem dignidade aos Estados Unidos, agora a guerra na Ucrânia, as ameaças de sessão da Irlanda do Norte e da Escócia, o desemprego, criaram o amargo caldo de decadência que está a ser servido aos britânicos.

Mas há uma geração de ingleses e de europeus para quem Londres foi uma lufada de ar fresco cultural e um espaço de liberdade individual e coletiva. Anos 60: A Londres do Soho e de Carnaby Street, a Londres dos musicais, do Cats, por exemplo, dos bares e das caves, a Londres da Twiggy da mini- saia, a Londres e a Inglaterra dos Beatles e dos Monty Phyton, a Londres dos Hara Krishna.

Essa Londres e essa Inglaterra desapareceram às mãos de Margareth Tatcher, de Blair, de Cameron. A fotografia da varanda de Buckingham do terceiro jubileu do reinado de Isabel II podia servir de anúncio a uma troupe de circo, com os domadores de dólmenes vermelhos e faixas azuis, as partenaires de chapéu à banda. Faltará, talvez, o som de bombos e gaitas de foles, mas a fotografia é muda. Houve, ao que se sabe, disparos de pólvora seca dos artilheiros de sua majestade.

O friso que surge na varanda de Buckingham, transposto em breve para o museu de cera de Madame Tussauds, tem, no entanto, outra leitura, que se percebe nas entrevistas que os repórteres de televisão enviados para cobrir o espetáculo fazem aos ingleses: “Esta malta da varanda, com a nossa querida rainha à frente, é o que nos resta do nosso passado e é o único ponto de luz na escuridão do futuro. Estão a dar as últimas e viemos despedir-nos!”

Este Jubileu foi a representação de uma grandeza passada e que todos sabem não ser ressuscitável, foi uma ilusão idêntica à das reconstituições históricas com carros alegóricos e personagens mascaradas. Foi um apelo à reunião do grupo — dos ingleses — em torno da velha ordem e dos seus próceres. O funeral da rainha será outro momento de toque a reunir, mas marcará o início de uma nova época. Estes “manequins na varanda” não mais serão levados a sério. Serão um empecilho.

Julgo que em Inglaterra existe um sentimento de dias do fim de uma época e que por isso houve tanta emoção e participação popular no último jubileu.

O Teatro-Circo de Buckingham vai entrar em decadência acelerada, os domadores de dólmen vermelho vão sair de cena com as suas senhoras de fatos cintilantes. Numa das fotos vê-se uma criança a chorar e com as mãos nos ouvidos: É o futuro, por esse gesto foi repreendido. Há que manter as aparências até ao fim!

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O autor: Carlos Matos Gomes [1946-] é coronel do exército reformado, cumpriu três missões na Guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais dos “Comandos”. Ficou ferido em combate e foi condecorado com as Medalhas de Cruz de Guerra de 1.ª e 2.ª Classe.

Capital de Abril pertenceu à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné.

Investigador de história contemporânea de Portugal. É escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz.

Autor de: Nó Cego (1982), Os Lobos não Usam Coleira (1995), Soldadó (1996), Flamingos Dourados (2004), Fala-me de África (2007), Basta-me Viver (2010), A Mulher do Legionário (2013), A Estrada dos Silêncios (2015), A Última Viúva de África (2017, Prémio Fernando Namora 2018), Que fazer contigo, pá? (2019), Angoche-Os fantasmas do Império (2021).

Em co-autoria com Aniceto Afonso:

Guerra Colonial (2000), Guerra Colonial – Um Repóter em Angola (2001), Portugal e a Grande Guerra 1914-1918 (2013), Os Anos da Guerra Colonial 1961-1975 (2010), Alcora. O Acordo Secreto do Colonialismo. Portugal, África do Sul e Rodésia na última fase da guerra colonial (2013), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. Uma História Diferente (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. As Trincheiras (2014), Portugal e a Grande Guerra 1917 – 1918. Uma Guerra Mundial (2014), Portugal e a Grande Guerra 1919-. O Pós-Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1918 – 1919. O fim da Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914- O Início da Guerra (2014), A Conquista das Almas. Cartazes e panfletos da acção psicológica na guerra colonial (2016).

 

 

 

 

 

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