Espuma dos dias – Os Democratas deixaram de ouvir os eleitores da América. Por Edward Luce

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 m de leitura

Os Democratas deixaram de ouvir os eleitores da América

O partido está a caminho de um colapso nas próximas eleições intercalares mas não mostra nenhum interesse pela análise das causas

 Por Edward Luce

Publicado por  em 16 de Junho de 2022 (original aqui)

Republicado por  em 18 de Julho de 2022 (original aqui)

 

O Presidente Biden fala aos repórteres antes de embarcar no Air Force One depois de participar na Cimeira das Américas em Los Angeles, Califórnia, na semana passada. Os democratas estão muito mal posicionados nas sondagens antes das eleições de Novembro. © Kevin Lamarque/Reuters

 

Como saber se os liberais culturais americanos foram longe demais? Quando são os habitantes de S. Francisco a tirá-los da Presidência. As recentes eleições de renovação do procurador distrital e do responsável pela educação em S. Francisco não podem ser consideradas como uma idiossincrasia da cidade mais azul da América, que elegeu pela última vez um presidente de câmara republicano em 1959. Há uma razão para os democratas estarem a definhar nas sondagens nacionais. São Francisco é apenas o que está escrito nos muros.

Dados os instintos autoritários do partido republicano de hoje, o facto de os democratas estarem a ficar para trás deveria ser uma causa urgente para se autoquestionarem. O partido está a caminhar para o que as sondagens dizem que poderia ser uma derrota esmagadora nas eleições intercalares do próximo mês de Novembro. No entanto, há poucos sinais de autoanálise. A culpa é de todos, exceto dos democratas. Os eleitores são submetidos a lavagem cerebral para pensar que Joe Biden é demasiado velho para o cargo de presidente, começam a estar fartos do preço elevado da gasolina, exagerando quanto à falta de leite especial para bebés ou simplesmente que ele é demasiado à direita para ser acessível ao cidadão comum.

Há uma outra explicação – que as intercalares são tipicamente referendos sobre a economia e os Democratas não têm uma mensagem económica que seja de fácil digestão. Em contraste, os eleitores pensam que sabem o que o partido considera sobre a imigração ilegal, sobre a falta de financiamento da polícia, sobre a participação de transexuais no desporto feminino e sobre os sindicatos de professores enviesados pela aplicação eletrónica Zoom. A maioria não gosta destas posições. Isto aplica-se tanto aos não brancos como aos eleitores brancos.

Como diz Ruy Teixeira, um veterano cientista político: a marca democrata está “algures entre o pouco convincente e o tóxica para largas camadas de eleitores americanos, que podem potencialmente ser os seus aliados”. O facto de Teixeira estar a dizer isto deveria fazer com que os democratas tomassem nota. Ele foi coautor de uma obra fundamental, The Emerging Democratic Majority, onde se defendia que as tendências raciais tornariam inevitável o domínio democrata. Este continua a ser um artigo de fé entre os consultores eleitorais. No entanto, Teixeira mudou de ideias.

Como podiam os Democratas estar a alienar as pessoas de que necessitam para vencer? Uma grande parte da resposta é que eles deixaram de ouvir os eleitores comuns. Isto seria menos problemático se a liderança do partido fosse uma secção transversal da sociedade norte-americana. Mas os seus escalões superiores são dominados por uma classe de ativistas brancos com formação universitária que está habituada a falar consigo mesma. Os dias de andar a bater às portas de potenciais novos eleitores acabaram, em grande parte. Desde a época de Barack Obama, os democratas agarraram-se a um modelo digital que menospreza os compromissos à moda antiga.

Isto desconecta o Partido da realidade. Um corolário é que a maioria dos democratas acredita que apenas têm de conseguir mobilizar as bases (“get out the base”). Estimular as bases significa dirigir-se aos militantes do partido, que são um mundo à parte do eleitor mediano. Alison Collins, a diretora do Conselho de Educação de São Francisco que foi expulsa no início deste ano, disse que “o “mérito” é uma construção intrinsecamente racista concebida e centrada no enquadramento supremacista branco”. Foi este tipo de pensamento que levou Collins a mudar a maior escola seletiva de São Francisco de um sistema de candidatura baseada no mérito para um sistema de lotaria. Os liberais de todo o país estão a pressionar para acabar completamente com os testes padronizados. No entanto, a maioria dos eleitores, incluindo afro-americanos, rejeitam esta ideia por ser uma forma de baixar as expectativas de grupos desfavorecidos, encorajando implicitamente estes grupos a não atingirem o seu máximo potencial.

O ativista de esquerda também passa em silêncio a onda crescente de criminalidade na América. Os homicídios urbanos aumentaram mais de 40% nos últimos dois anos e meio, o que é uma grande razão pela qual os eleitores dizem que os EUA estão no caminho errado, com as margens de progressão mais contantes desde o início dos anos 90, quando a América sofria da sua última vaga de criminalidade. Chesa Boudin, procuradora de São Francisco, foi demitida das suas funções na semana passada por ter recusado processar os infractores reincidentes. Embora Boudin tivesse razão em queixar-se de que as prisões americanas estão cheias de pessoas que não deveriam lá estar, uma tal empatia não é resposta à insegurança que as pessoas sentem quando saem das suas casas.

À esquerda falta também uma ideia com a qual reagir à provável revogação da lei Roe vs Wade pelo Supremo Tribunal, que consagrou o direito federal ao aborto. Os grupos temáticos liberais, entre os quais se destaca a União Americana das Liberdades Civis (ACLU), disseram que a medida seria mais prejudicial para os grupos marginalizados, como os povos indígenas e a comunidade LGBTQ. As mulheres, que representam mais de metade dos eleitores, não foram sequer mencionadas no tuit da ACLU. A linguagem de hoje para as mães é “pessoas que dão à luz”, pessoas que “alimentam com o peito”. Tais termos só poderiam prosperar num mundo de clausura. Uma política bem sucedida tem a ver com ganhar convertidos. Erradicar a heresia é uma má maneira de o fazer.

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O autor: Edward Luce (1968-), é um jornalista inglês e comentador chefe para os EUA do Financial Times, sediado em Washington D.C. Licenciado em Filosofia, Política e Economia pelo New College, Oxford. É autor dos seguintes livros: In Spite of the Gods: The Strange Rise of Modern India (Little, Brown, 2006,); Time To Start Thinking: America and the Spectre of Decline (Little, Brown, 2012, publicado com título diferente na América do Norte: Time to Start Thinking: America in the Age of Descent);The Retreat of Western Liberalism, (Little, Brown, 2017.

 

 

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