MPPM – NOS 40 ANOS DE SABRA E CHATILA: PARA QUANDO O FIM DA IMPUNIDADE DE ISRAEL?

 

Há 40 anos, na noite de 16 de Setembro de 1982, milícias falangistas cristãs libanesas invadiram os campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, nos arredores de Beirute, com o apoio do exército israelita que, desde Junho, ocupava a capital do Líbano.

Durante dois dias, os falangistas, instigados por Israel, levaram a cabo um hediondo massacre de que resultaram numerosas vítimas palestinas, em grande parte mulheres e crianças.

Soldados israelitas cercaram os campos para impedir que os refugiados saíssem, e durante a noite disparavam foguetes luminosos para ajudar a acção dos criminosos falangistas. Ao fim dos dois dias de massacre, Israel forneceu os buldózeres para cavar valas comuns.

O número exacto de vítimas é difícil de determinar pois, além do milhar de corpos enterrados em valas comuns, muitas vítimas ficaram soterradas nas casas derrubadas a buldózer pelas milícias e centenas de palestinos foram por elas levados para destino desconhecido de onde nunca regressaram. Uma estimativa credível aponta para 3500 vítimas.

Um cenário de horror

O massacre foi de uma barbaridade inaudita. Ao entrar no campo de Chatila no dia 19, a jornalista americana Janet Lee Stevens deparou-se com a cena de corpos com membros e cabeças cortadas, alguns rapazes castrados, corpos retalhados com cruzes. «Vi mulheres mortas nas suas casas com as saias levantadas até a cintura e as pernas abertas; dezenas de jovens mortos a tiro depois de terem sido alinhados contra uma parede; crianças com a garganta cortada, uma mulher grávida com a barriga esventrada, de olhos ainda muito abertos, o rosto enegrecido gritando silenciosamente de horror; inúmeros bebés e crianças pequenas que tinham sido esfaqueadas ou despedaçadas e que tinham sido atiradas para pilhas de lixo.»

Robert Fisk descreve um cenário de horror: «O que encontrámos no campo palestino de Chatila às 10 da manhã de 18 de Setembro, desafia qualquer descrição (…) Havia mulheres jazendo nas suas casas com as saias rasgadas até ao peito e as pernas todas abertas, crianças com as gargantas cortadas, filas de jovens baleados nas costas depois de alinhados numa parede de execução. Havia bebés (…) cujos corpos tinham sido lançados para pilhas de lixo, juntamente com latas vazias de rações do exército americano, equipamento médico do exército de Israel e garrafas vazias de whisky. (…). Havia uma pilha de corpos, mais de uma dúzia de jovens (…) mortos à queima-roupa (…) um tinha sido castrado (…) o mais novo teria só 12 ou 13 anos. (…). Encontrámos os corpos de cinco mulheres e várias crianças (…) Uma das mulheres tinha um bebé ao colo. A bala que lhe atravessou o peito matou também o bebé.»

No seu ensaio «Avenging Sabra and Shatila», citado por Ramzy Baroud em artigo recente evocativo da efeméride, Kifah Sobhi Afifi descreveu o ataque conjunto falangista-israelita ao seu campo de refugiados quando ela tinha apenas 12 anos de idade. «Por isso fugimos, tentando ficar o mais perto possível dos muros do campo. Foi então que vi as pilhas de cadáveres por todo o lado. Crianças, mulheres e homens, mutilados ou a gemer de dor enquanto morriam. As balas voavam por todo o lado. As pessoas estavam a cair à minha volta. Vi um pai a usar o seu corpo para proteger os seus filhos, mas eles foram todos alvejados e mortos na mesma».

As reacções internacionais

No mesmo artigo de Ramzy Baroud, ele refere que a Dra. Swee Chai Ang, que tinha acabado de chegar ao Líbano como cirurgiã voluntária e estava colocada no Hospital de Gaza em Sabra e Chatila, escreveu num artigo recente que, após a divulgação de fotografias dos «montes de cadáveres nos becos do campo», seguiu-se um ultraje mundial, mas tudo isso foi de curta duração. «As famílias e os sobreviventes das vítimas foram logo deixados sozinhos para se dedicarem às suas vidas e reviverem a memória daquela dupla tragédia do massacre e das 10 semanas precedentes de intenso bombardeamento terrestre, aéreo e marítimo e bloqueio de Beirute durante a invasão».

Em 19 de Setembro de 1982 o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou por unanimidade a Resolução 521 que «condena o massacre criminoso de civis palestinos em Beirute».

Em 16 de Dezembro desse mesmo ano, a Resolução 37/123 da Assembleia Geral da ONU «condena nos termos mais fortes o massacre em grande escala de civis palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila» e «resolve que o massacre foi um acto de genocídio».

No dia seguinte, a AG aprovou a Resolução 37/134 que «condena Israel pela sua invasão do Líbano que infligiu graves danos aos civis palestinos, incluindo pesadas perdas de vidas humanas, sofrimento intolerável e destruição material maciça».

E depois, o silêncio.

Os culpados

Quarenta anos passaram sobre o horror de Sabra e Chatila. Todos os responsáveis ficaram impunes. Os sobreviventes e os descendentes das vítimas continuam à espera que lhes seja feita justiça.

Robert Fisk não tem dúvidas: «Se os israelitas não tinham participado nas matanças, tinham certamente enviado milícias para o campo. Tinham-nas treinado, dado-lhes uniformes, entregado rações do exército americano e equipamento médico israelita. Depois tinham assistido aos assassinatos nos campos, tinham-lhes dado assistência militar – a força aérea israelita tinha lançado todos aqueles foguetes luminosos para ajudar os homens que estavam a assassinar os habitantes de Sabra e Chatila – e tinham estabelecido uma ligação militar com os assassinos nos campos.»

A Comissão de Inquérito Kahan, criada por Israel em 28 de Setembro de 1982, concluiu que a “responsabilidade directa” recaía sobre os falangistas, embora Israel tenha sido considerado “indirectamente responsável”. O Ministro da Defesa Ariel Sharon foi considerado como tendo “responsabilidade pessoal” por «ignorar o perigo de derramamento de sangue e vingança» e «não tomar as medidas adequadas para impedir o derramamento de sangue». Foi demitido do seu cargo, mas isso não obstou a que se tornasse Primeiro-Ministro de Israel em 2001.

Ariel Sharon, supremo comandante militar da invasão do Líbano, encontrava-se pessoalmente a poucas centenas de metros do local do crime e nada fez para impedir o massacre. Mas o seu envolvimento na morte de palestinos não começou nem terminou ali Uma publicação do Institute for Midle East Understanding enumera a longa lista de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade imputáveis a Ariel Sharon, desde que, em Outubro de 1953, no âmbito da chamada Operação Shoshana, foi o responsável directo pelo massacre de 69 palestinos, dos quais dois terços eram mulheres e crianças, na aldeia de Qibya.

O primeiro-ministro israelita na altura, Menachim Begin, também escapou impune à sua responsabilidade pela morte de mais de 17 000 libaneses, palestinos e sírios na invasão do Líbano em 1982.

A responsabilidade

O massacre de Sabra e Chatila foi uma consequência directa da impunidade concedida a Israel pelos EUA e pela comunidade internacional. Ainda que particularmente hediondo, o massacre de Sabra e Chatila não é uma excepção, antes se inclui numa longa série de crimes contra o povo palestino que caracteriza a história de Israel, ainda desde antes da sua criação em 14 de Maio de 1948.

«Teria Israel sido capaz de invadir e massacrar à vontade se não fosse o apoio militar, financeiro e político dos Estados Unidos e do Ocidente?», questiona Ramzy Baroud no artigo que vimos citando «A resposta é não. Aqueles que têm dúvidas quanto a tal conclusão só precisam de considerar a tentativa, em 2002, por parte dos sobreviventes do massacre dos campos de refugiados do Líbano, de responsabilizar Sharon. Levaram o seu caso à Bélgica, tirando partido de uma lei belga que permitia a acusação de alegados criminosos de guerra internacionais. Após muita discussão, muitos atrasos e intensa pressão por parte do governo dos EUA, o tribunal belga acabou por abandonar completamente o caso. Por fim, Bruxelas alterou as suas próprias leis para garantir que tal crise diplomática com Washington e Telavive não se repetiria.»

A memória

Quarenta anos depois, os nomes de Sabra e Chatila permanecem vivos na memória da humanidade como sinónimos da barbárie e da natureza criminosa do Estado sionista.

São também um testemunho da natureza volúvel da comunidade internacional que passa rapidamente do estado de choque para o olvido, quando não para a desculpabilização.

Mas Sabra e Chatila, bem como todos os episódios da ocupação da Palestina, são também um sinal de que, apesar do longo cortejo de atrocidades israelitas e da sua impunidade, a resistência do povo palestino não quebra.

 

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