Espuma dos dias — A Conveniente Quimera da “Nova Guerra Civil” da América. Por Finian Cunningham

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 m de leitura

 

A Conveniente Quimera da “Nova Guerra Civil” da América

 Por Finian Cunningham

Publicado por  em 14 de Setembro de 2022 (original aqui)

 

© Photo: SCF

 

Não há uma nenhuma “guerra civil” iminente nos Estados Unidos entre republicanos e democratas. Há apenas uma guerra que se arrasta há muitos anos: a guerra de classes.

Ouve-se falar muito do receio de ver os Estados Unidos estar a entrar numa “nova guerra civil”, especialmente à medida que se aproximam as altamente tensas eleições intercalares.

Os comentadores que dão rédea solta a esta ideia são culpados de contribuir a fazer crer que existem dois partidos diferentes pelos quais vale a pena lutar. Quando na realidade os dois partidos norte-americanos são da mesma cepa: defensores de um sistema opressivo e belicista.

Livrar-se desse sistema e substituí-lo por algo realmente democrático requer que a população reconheça que os dois partidos são partes iguais do mesmo problema. É necessário um movimento político genuinamente dirigido pelos trabalhadores por objectivos socialistas de justiça económica e anti-imperialismo.

Falar de guerra civil nos Estados Unidos é uma quimera conveniente para suprimir a verdadeira consciência política e o progresso democrático.

Donald Trump, Steve Bannon e um co-conspirador estrangeiro, Guo Wengui, têm permissão deambular por aí apesar de terem tentado derrubar o governo e apesar de numerosas de acusações graves de fraude. Porquê? Porque sem eles e os da sua laia não haveria “disfarce bipartidário controlado” para a oligarquia que realmente governa a América e o seu esquema capitalista.

Voltaremos a Trump, Bannon e Guo dentro de momentos. Primeiro, vamos fazer um balanço da fachada política de que estamos perante dois partidos “opostos”.

Os combatentes são supostos serem republicanos de direita e alegados democratas de “esquerda radical”. Os republicanos rotulam os democratas como “traidores” contra os valores tradicionais americanos (sejam eles quais forem) enquanto os democratas alegam que um partido republicano cada vez mais reaccionário sob a influência de Donald Trump ameaça a democracia dos EUA.

Os americanos comuns dir-lhe-ão de facto que a atmosfera política no seu país se tornou amargamente polarizada e volátil. E para uma nação que possui mais armas de fogo privadas do que os seus 330 milhões de habitantes, o potencial de conflito violento parece ameaçador.

No entanto, há boas razões para duvidar que uma guerra civil esteja iminente. Ao contrário da guerra de 1861-65, há pouca convicção de ambos os lados para se mobilizarem. Muitos americanos estão demasiado desorientados e desiludidos politicamente para serem capazes de organizar uma luta coerente. Pode haver tiroteios em massa esporádicos mas não haverá uma guerra civil.

E isso convém perfeitamente à classe dominante. As tensões desagradáveis entre os dois partidos políticos são apenas troca de argumentos sob a aparência de discussão para distrair a maioria dos americanos trabalhadores da sua condição de exploração económica e opressão. A oligarquia é proprietária de ambos os partidos, Republicano e Democrata, graças a doações generosas, muitas vezes feitas a ambos ao mesmo tempo. Não há “direita e esquerda”. Ambos os partidos são servidores capitalistas de direita. Fundamentalmente, cooperam para sustentar o sistema oligárquico de dominação sobre a grande maioria.

É certo que os republicanos são tonalmente mais de direita e pró-capitalistas. Enquanto os democratas têm um tom mais suave. Comentadores americanos como Robert Bridge, que escreve para esta revista, referem-se contínua e infundadamente aos democratas como “esquerdistas radicais”. Tal representação é um erro de concepção e uma direcção errada risíveis. Alimenta-se da falsa narrativa de “dois partidos opostos”. Os Democratas podem ter um verniz de presumível liberalismo proveniente de políticas que promovem políticas de género e de identidade. Mas é uma distinção superficial. Sim, leva a “guerras de cultura” infindáveis e furiosas sobre moral e estilos de vida, com os republicanos a tenderem a defender normas religiosas conservadoras.

Mas no que diz respeito à estrutura social básica do poder oligárquico e privilégios sob o capitalismo, ambas as partes não oferecem nenhum desafio. Longe disso, ambas as partes são fervorosos defensores do sistema. Nesse contexto tão importante, a suposta distinção esquerda-direita é esvaziada de sentido. É uma fachada que serve para encobrir o poder estabelecido das corporações, dos bilionários, das suas combinações mediáticas, e do motor do capitalismo americano – o complexo militar-industrial.

Basta olhar para o registo histórico. Sob ambas os partidos, os EUA têm estado continuamente em guerra ou envolvidos nalguma outra forma de militarismo década após década. Nos últimos anos, os presidentes de ambos os partidos têm prosseguido políticas de confronto arbitrário com a Rússia e a China. O congresso bipartidário rapidamente afasta qualquer disputa interna sobre assuntos relativamente insignificantes para apoiar consistentemente as despesas militares maciças e todas as guerras no estrangeiro. É o que une os dois como efectivamente um único Partido de Guerra.

O Presidente Trump foi ridiculamente acusado pelos Democratas ciumentos de ser um “agente russo”. Isto enquanto a administração de Trump armava o regime neonazi na Ucrânia para antagonizar a Rússia. Essa política foi assumida com entusiasmo pelo seu sucessor democrata Joe Biden, ao ponto de uma guerra em larga escala contra a Rússia estar agora em jogo.

O Presidente Democrata Barack Obama semeou a política agressiva inicial em relação à China com o seu Pivot para a Ásia em 2011. Trump elevou essa agressão a novas alturas com as suas práticas imprudentes de guerra comercial. Biden continua o ritmo beligerante com provocações deliberadas ao minar a soberania da China sobre Taiwan.

Evidentemente, ambas os partidos estão unidos quando se trata de implementar os interesses do poder imperial dos EUA. Isto porque ambos os partidos são propriedade da classe dominante, cuja riqueza depende em grande parte da realização de guerras e violência em todo o mundo para tornar o mundo obediente ao capital americano.

Em casa, os dois partidos presidem a uma guerra de classes contra a maioria dos cidadãos americanos. Tanto o Partido Republicano como o Partido Democrata são comprados e pagos pela riqueza oligárquica para assegurar que a estrutura da desigualdade obscena permaneça intacta. Ambos os partidos facilitaram leal e voluntariamente a transferência de uma enorme riqueza da maioria dos trabalhadores para uma relativamente pequena elite de multibilionários. É inconcebível para qualquer dos partidos questionar este sistema de roubo e pilhagem económica. Como podem eles morder a mão que os alimenta? Além disso, eles estão ideologicamente ligados ao sistema como uma norma.

Por estas razões de inerente interesse comum em proteger o sistema e a sua função de guerra no estrangeiro, não haverá guerra civil na América. Porque fundamentalmente eles estão do mesmo lado – o lado da oligarquia.

Oh sim, pode haver altercações e gritos sobre assuntos relativamente menores que têm que ver com “guerras de cultura”. Mas isto é apenas um espectáculo paralelo ao evento principal que é a guerra de classes do sistema capitalista e a sua condução imperialista de guerras pelo domínio global.

Basta ver como os democratas de Biden tergiversam sobre a sedição criminosa que teve lugar a 6 de Janeiro de 2021. É evidente que o Presidente cessante Trump tentou encenar um golpe contra o resultado das eleições de Novembro de 2020 em que perdeu para Biden. Apesar das conspirações sem fundamento sobre a fraude eleitoral, Biden ganhou as eleições (se é que serve para algo). O ataque ao Congresso a 6 de Janeiro por milhares de apoiantes de Trump foi uma tentativa de derrubar violentamente o governo. Trump está até ao pescoço nesse crime. No entanto, nos últimos dois anos, os democratas têm andado de bicos de pés sobre o que foi uma escandalosa violação da constituição.

Trump e os seus golpistas ainda estão a monte, livres para lançar os republicanos noutro frenesim para as próximas eleições de Novembro a meio do mandato.

Steve Bannon, um estratega de Trump, que estava profundamente envolvido na organização do golpe de estado, também permanece em liberdade. Actualmente, está a ser processado por fraude. E foi condenado por desacato a um inquérito do Congresso sobre o evento de 6 de Janeiro. Mas incrivelmente, Bannon ainda é livre de fazer afirmações falsas e observações incendiárias de que a administração democrata pretende levar a cabo “assassinatos políticos”.

Trump e Bannon e outros conspiradores de topo entre os ex-Casa Branca de Trump deveriam estar na prisão por sedição.

O patrocinador financeiro de Bannon é o fugitivo chinês Guo Wengui. Este alegado bilionário que agora diz estar falido para evitar pagar multas multimilionárias às autoridades dos EUA por fraude e outras burlas é também procurado na sua China natal. Guo fugiu da China em 2014 e acabou nos Estados Unidos, onde reside desde então. Ele é procurado pelo governo chinês por acusações de chantagem, suborno, fraude e violação.

Guo juntou-se a Bannon em 2018 para lançar uma série de sofisticados esquemas Ponzi relacionados com moedas digitais e novos meios de comunicação, bem como para construir um muro fictício de 25 milhões de dólares na fronteira mexicana para manter os imigrantes ilegais afastados. Agora, estes dois mafiosos estão a ser perseguidos legalmente pelos seus ganhos obtidos ilegalmente com a burla de milhares de investidores infelizes. Guo também forneceu a Bannon plataformas de comunicação social para promover mentiras sobre fraude eleitoral, bem como conspirações sobre a forma como a China alegadamente criou a pandemia de Covid-19 como guerra biológica contra os EUA.

A razão pela qual Trump e Bannon são autorizados a continuar a vender os seus produtos políticos tóxicos é que os Democratas são impotentes para fazer qualquer coisa a esse respeito. Porque os Democratas também fazem parte de todo a algazarra política sob o disfarce de um sistema bipartidário ao serviço do capitalismo.

O vigarista chinês Guo é autorizado a permanecer fora da prisão para continuar a gerir o seu império de fraude mediática, apesar da sua corrupção desenfreada e do seu envolvimento na tentativa de derrubar a Constituição dos EUA, porque é uma voz pública raivosa que apela a uma política hostil contra a China.

Guo é mais útil fora da prisão para o imperialismo dos EUA porque tenta irritar os expatriados chineses para apoiar os planos de guerra de Washington contra Pequim. Ele e Bannon criaram o chamado Estado Novo Federal da China em Nova Iorque, em 2020, que actua como um governo chinês no exílio. A provocação a Pequim deve dar a Washington uma petulante satisfação.

Quando a democrata sénior Nancy Pelosi fez a sua provocadora viagem a Taiwan, em Agosto, Guo estava a exultar nos seus meios de comunicação social para que os EUA utilizassem a força militar para apoiar o território chinês separatista.

Pense nisso. Se o establishment norte-americano tivesse de alguma forma algum princípio sobre lei e ordem e respeito pela democracia, Trump e Bannon e outros golpistas estariam na prisão a cumprir longas penas. Guo ou estaria na prisão como inimigo estrangeiro do Estado ou então teria sido extraditado para a China para enfrentar a acusação pelos seus muitos alegados crimes.

Não há uma “guerra civil” iminente nenhuma nos Estados Unidos entre republicanos e democratas. Há apenas uma guerra que se arrasta há muitos anos: a guerra de classes. E as guerras que lhe estão associadas em todo o mundo contra inimigos designados. A oligarquia americana gostaria de criar a quimera de uma guerra civil entre partidos porque distrai a maioria dos trabalhadores de identificarem e dirigirem o seu desprezo para onde realmente importa – o sistema capitalista.

Esta análise aplica-se à Europa e a muitos dos seus chamados partidos de direita e de esquerda.

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O autor: Finian Cunningham Antigo editor e escritor para as principais organizações noticiosas. Tem escrito extensivamente sobre assuntos internacionais, com artigos publicados em várias línguas. É licenciado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico para a Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir uma carreira no jornalismo. É também músico e compositor. Durante quase 20 anos, trabalhou como editor e escritor nas principais organizações de comunicação social, incluindo The Mirror, Irish Times e Independent. Vencedor do Prémio Serena Shim para a Integridade Incomprometida no Jornalismo (2019).

 

 

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