Nota prévia:
100 anos depois da Marcha sobre Roma e da tomada de poder por Benito Mussolini, os fascistas italianos poderão conquistar hoje o poder. Democraticamente!
A pergunta ingénua que pode ser feita é se isso se deverá aos méritos da clique política fascista a ascender ao poder ou à irresponsabilidade da classe política situada do centro-esquerda à esquerda. Digo pergunta ingénua porque é, por definição, impossível encontrar méritos nas políticas defendidas por esta classe de gente política e resposta à pergunta é então: não é por mérito das políticas defendidas por essa gente, é por demérito de toda a restante classe política, em particular da esquerda oficial italiana.
Proponho-vos hoje quatro textos muito pequenos:
– um texto de Michael Roberts, um especialista da City, sobre a guinada à direita da Itália
– um texto de Munchau, ex-diretor do Financial Times para a Alemanha, em que nos diz não acreditar nos fascistas, mas que muito menos acredita na clique política de Bruxelas que gere os destinos da Europa.
– dois textos editados por Micromega, um sobre a desilusão das gentes de esquerda, e um outro um pouco difícil que nos diz que os alemães estão prontos para repor a velha ordem europeia dos Tratados Europeus, a que levou à crise de 2010 e ao esmagamento da Grécia, de Portugal e da Espanha.
Júlio Marques Mota
Em 25 de Setembro de 2022
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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
4 m de leitura
Texto 3. Carta aberta aos desiludidos com a política da esquerda
Por Autores Vários
Publicado por
em 14 de Setembro de 2022 (original aqui)
“Porque apoiamos a candidatura de Roberto Scarpinato ao Senado como um independente nas listas do M5S”.

Dirigimo-nos àqueles que, como nós, estão dececionados com a política de uma esquerda que, mais uma vez, se apresenta nas próximas eleições políticas dividida, fragmentada, e sem sequer uma identidade unitária mínima. Confrontados com uma direita que, embora não tenha maioria absoluta no país, se apresenta unida para a obter, explorando a injusta quota maioritária prevista pela lei eleitoral em vigor, teríamos esperado que as forças progressistas, pelo menos, encontrassem um acordo tático para travar o avanço das forças reacionárias que propõem explicitamente a distorção da nossa Constituição.
De facto, Meloni, Salvini e Berlusconi, embora tentando disfarçar-se e diferenciar-se para não assustar demasiado a opinião pública nacional e internacional, não escondem os seus principais objetivos comuns: uma forma de presidencialismo plebiscitário, no quadro de uma visão autoritária que tende a subordinar ao poder executivo o poder do Parlamento e o poder judicial (não é por acaso que a reforma da justiça prevista por Carlo Nordio, ministro previsto de um possível governo Meloni, visa desmantelar as garantias de independência e autonomia do poder judicial); uma reforma fiscal (o imposto uniforme) que contradiz o princípio constitucional da progressividade do sistema fiscal, exacerbando as já crescentes desigualdades sociais; um regionalismo diferenciado que apela a maiores recursos e poderes para as regiões mais ricas e mais fortes, acentuando as desigualdades territoriais entre o Norte e o Sul do país, quebrando o modelo de bem-estar universalista e solidário, que de acordo com os ditames constitucionais deveria garantir “igual dignidade social” (saúde, educação, trabalho, segurança social) a todos os cidadãos; a distorção, de facto se não formal, também dos “direitos invioláveis do homem”, portanto não só dos cidadãos italianos mas também dos estrangeiros e migrantes, para os quais a Constituição prevê “o cumprimento dos deveres inalienáveis de solidariedade política, económica e social”.
Neste cenário, perguntamo-nos sinceramente de que serve reivindicar tardiamente um “voto útil” para vencer a direita, tentando transformar instrumentalmente a votação de 25 de Setembro num referendo, quando sabemos que o único voto verdadeiramente útil teria sido possível se as forças progressistas se tivessem apresentado taticamente unidas para serem verdadeiramente competitivas na quota uninominal. Isto não aconteceu, discutiremos as responsabilidades, erros e razões mais tarde, mas agora seria desejável que todos os progressistas sinceros, enquanto marcham (infelizmente!) divididos, convergissem contra o adversário principal.
Com esta carta, dirigimo-nos àqueles que estão desiludidos com a política da esquerda, especialmente aqueles que não sabem se devem ir às urnas e em quem votar. Os riscos reais para a nossa Constituição deveriam convencer aqueles que se abstêm como protesto ou por resignação, de que devem voltar à carga, se não quiserem encontrar-se, talvez sem se aperceberem, numa transformação autoritária arrepiante da nossa democracia, numa “democracia” semelhante à polaca ou à húngara.
No que nos diz respeito, estando também incertos e desapontados mas não resignados, votaremos de forma diferenciada, de acordo com as nossas diferentes histórias e sensibilidades individuais, para a Câmara dos Deputados e para a Região Siciliana, mas todos nós apreciámos muito a candidatura de Roberto Scarpinato ao Senado como independente nas listas do M5S e apoiá-lo-emos com grande convicção e esperança.
Com convicção porque a sua história, a sua consistência, a sua independência intelectual e a sua competência serão muito úteis no novo Parlamento. E é muito apreciável que o Presidente do M5S, Giuseppe Conte, com esta candidatura tenha assumido o compromisso de trazer a luta contra as máfias e a corrupção de volta ao centro da agenda política, numa altura em que assistimos a uma preocupante descida da guarda, por parte das classes dirigentes, contra as ligações entre a política, as máfias e os negócios.
Com esperança, porque acreditamos que a sua contribuição pode ser um estímulo para a batalha comum que as forças progressistas, apesar das atuais divisões, terão de lutar não só pela defesa da Constituição mas pela sua plena implementação, pelo desenvolvimento de uma “democracia progressista” que ao remover “obstáculos económicos e sociais” permite a realização de uma efetiva igualdade dos cidadãos.
Giovanni Abbagnato, Riccardo Alessandro, Marina Allotta, Mario Azzolini, Giovanni Bellia, Beppe Cipolla, Gaetano Cipolla, Enrico Colajanni, Mari D’Agostino, Raffaella De Pasquale, Pino Di Martino, Vincenzo Gervasi, Filippo Grippi, Antonella Leto, Ernesto Melluso, Giancarlo Minaldi, Francesco Petruzzella, Claudio Riolo, Fulvia Rizzo, Rosana Rizzo, Pippo Russo, Gaetano Sabatino, Pippo Zimmardi, Bonaventura Zizzo.

