Espuma dos dias — Os três mitos utilizados pelos super-ricos para justificarem a sua super-riqueza.  Por Robert Reich

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 m de leitura

Os três mitos utilizados pelos super-ricos para justificarem a sua super-riqueza

(Lamento que você seja tão sensível, Elon)

 Por Robert Reich

Em 29 de Setembro de 2022 (original aqui)

 

Na terça-feira, o Gabinete do Orçamento do Congresso lançou um estudo sobre as tendências na distribuição da riqueza familiar entre 1989 e 2019. Ao longo desses trinta anos, a parte do total nacional detida pelas famílias no topo 1% aumentou de 27% para 34%, enquanto as famílias na metade inferior da economia detêm agora apenas 2%.

A bolsa de valores está em baixa mas não chore pelos mega-bilionários da América. Entretanto, uma parte recorde da riqueza da nação permanece nas mãos dos bilionários da nação, que também pagam uma taxa de imposto mais baixa do que a média americana.

Então, como justificam a sua riqueza e as suas baixas taxas de impostos? Utilizando três mitos. Todos eles são completamente absurdos.

1. O primeiro é a economia dita de gota-a-gota (tricke-down). Eles (e os seus apologistas) afirmam que a riqueza dos super-ricos goteja sobre toda a gente quando eles investem e criam empregos.

A sério? Durante mais de quarenta anos, à medida que a riqueza dos mais ricos tem aumentado, quase nada tem melhorado. Ajustado à inflação, o salário mediano de hoje dificilmente é mais elevado do que era há quatro décadas. Trump proporcionou um corte gigantesco nos impostos aos americanos mais ricos, prometendo que iria gerar um aumento de rendimento de 4.000 dólares para todos os outros. Você recebeu-os?

Na realidade, a super-riqueza não cria empregos nem aumenta os salários. Os empregos são criados quando pessoas trabalhadoras médias ganham dinheiro suficiente para comprar todos os bens e serviços que produzem, forçando as empresas a contratar mais pessoas e a pagar-lhes salários mais elevados.

2. O segundo mito é o “mercado livre”. A afirmação dos ultra-ricos de que estão a ser recompensados pelo mercado impessoal por criarem e fazerem aquilo pelo qual as pessoas estão dispostas a pagar-lhes. Os salários de outros americanos estagnaram, dizem eles, porque a maioria dos americanos vale menos no mercado agora que as novas tecnologias e a globalização tornaram os seus empregos redundantes.

Tretas. Mesmo que estejam a ser recompensados, não há razão para que o “mercado livre” recompense vastos múltiplos do que os ricos foram recompensados há décadas. O mercado pode induzir grandes feitos de invenção e empreendedorismo com prémios de centenas de milhares ou mesmo milhões de dólares – mas não milhares de milhões. E quanto à população restante a sucumbir à globalização e às tecnologias que levam à redução do trabalho, nenhuma outra nação avançada apresenta um grau de desigualdade tão elevado como o que se verifica o nos Estados Unidos, e no entanto todas estas nações foram expostas às mesmas forças da globalização e da mudança tecnológica.

Na realidade, os ultra-ricos manipularam o chamado “mercado livre” na América em seu próprio benefício.

As contribuições de campanha dos bilionários subiram de 31 milhões de dólares relativamente modestos nas eleições de 2010 para 1,2 mil milhões de dólares no ciclo presidencial mais recente – um aumento de quase 40 vezes. O que é que eles conseguiram em troca pelo seu dinheiro? Cortes de impostos, liberdade para esmagar sindicatos e monopolizar mercados, e resgates governamentais. Os seus bolsos têm sido ainda mais forrados pela privatização e desregulamentação.

3. O terceiro mito é o de que são seres humanos superiores – indivíduos robustos que “se fizeram por si mesmos” e, portanto, merecem os seus milhares de milhões.

Nada. Seis dos 10 americanos mais ricos vivos hoje em dia são herdeiros de fortunas que lhes foram transmitidas pelos antepassados ricos.

Outros tiveram as vantagens que vêm com os pais ricos. O arranque de Jeff Bezos com base na garagem foi financiado por um investimento de um quarto de milhão de dólares dos seus pais. A mãe de Bill Gates usou as suas ligações comerciais para ajudar a conseguir um negócio de software com a IBM a partir do qual se fez a Microsoft.

Elon Musk veio de uma família que alegadamente possuía ações de uma mina de esmeraldas na África do Sul. (A propósito, quando mencionei isto num vídeo recente, Elon enfureceu-se – colocando no tweeter que “você é um idiota e um mentiroso “. Hmmm. Será que toquei num qualquer nervo, Elon?)

 

Não caia em nenhum destes três mitos. A economia do escorrer gota a gota (trickle down) é uma piada cruel. O chamado “mercado livre” tem sido distorcido por enormes contribuições de campanha por parte dos ultra-ricos. Não veja os ultra -como seres humanos superiores “que se fizeram por conta própria” e que por isso merecem os seus milhares de milhões. Tiveram sorte e tiveram ajudas.

Na realidade, não há justificação para a extraordinária concentração de riqueza que hoje se verifica no topo da distribuição do rendimento. Está a distorcer a nossa política, a manipular os nossos mercados, e a conceder poder sem precedentes a um punhado de pessoas.

A última vez que a América enfrentou algo comparável, foi no início do século XX. Em 1910, o antigo Presidente Theodore Roosevelt advertiu que “uma pequena classe de homens enormemente ricos e economicamente poderosos, cujo principal objetivo é manter e aumentar o seu poder” poderia destruir a democracia americana.

A resposta de Roosevelt foi a de tributar a riqueza. O imposto patrimonial foi decretado em 1916, e o imposto sobre ganhos de capital em 1922. Desde essa altura, ambos sofreram erosão. Como os ricos acumularam mais riqueza, acumularam também mais poder político – e usaram esse poder político para reduzir os seus impostos.

Anos mais tarde, Franklin D. Roosevelt viu o colapso de 1929 não só como uma crise financeira mas como uma ocasião para renegociar a relação entre capitalismo e democracia. Aceitando a renomeação em 1936, falou da necessidade de redimir a democracia americana do despotismo do poder económico concentrado.

Através de novas utilizações de grandes empresas, bancos e de bolsas”, disse ele, agora uma “ditadura industrial” “que agora se estende para controlar o próprio Governo”. … [A] igualdade política que outrora tínhamos ganho não fazia sentido face à desigualdade económica. Um pequeno grupo tinha concentrado nas suas próprias mãos um controlo quase completo sobre a propriedade de outras pessoas, o dinheiro de outras pessoas, o trabalho de outras pessoas – a vida de outras pessoas… Contra uma tirania económica como esta, o cidadão americano só podia apelar ao poder organizado do Governo. O colapso de 1929 mostrou o despotismo desta ditadura. A eleição de 1932 foi o mandato do povo para lhe pôr fim“.

FDR deu aos trabalhadores o poder de se organizarem em sindicatos, a semana de trabalho de 40 horas (com uma majoração de 50% para o trabalho extra), Segurança Social, seguro de desemprego, e indemnização dos trabalhadores por acidentes de trabalho. Aumentou os impostos no topo.

Mas desde então, estas reformas também sofreram erosão.

Os dois Roosevelts compreenderam algo sobre a economia americana e sobre a camada da população ultra-rica, que agora reemergiu, ainda mais extrema e mais perigosa. Temos também de o compreender – e agir

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O autor: Robert Reich, antigo Secretário de Trabalho dos Estados Unidos [com Bill Clinton], é professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, em Berkeley e autor de Saving Capitalism: For the Many, Not the Few e de The Common Good. O seu mais recente livro é The System: Who Rigged It, How We Fix It. É colunista no The Guardian e a sua newsletter é robertreich.substack.com

 

 

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