Espuma dos dias — O Islão e as febras de porco. Por Carlos Matos Gomes

Seleção de Francisco Tavares

3 min de leitura

O Islão e as febras de porco

 Por Carlos Matos Gomes

Publicado em 4 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

 

A notícia de que o governo do Irão autorizou as mulheres a andarem de cabeça descoberta e a mostrarem os cabelos causa-me perplexidade e esperança. Le Monde aqui.

 

O Irão é uma “república islâmica”, onde lei é a do Alcorão interpretado pelo seu clero devidamente certificado. No caso da versão xiita do islamismo o supra-sumo dos intérpretes, os infalíveis, é constituído por seres designados ayatollah (em inglês) e aiatola em português. Um aiatola é, segundo os próprios, um homem que estudou o Alcorão, é sensato e descende de Maomé, o profeta de Alá, o seu Deus. Quer isto dizer que as leis numa república islâmica, ou monarquia, são divinas e os aiatolas apenas têm de impor o seu cumprimento e castigar os hereges.

Esta alteração da lei que, vinda de Alá através de Maomé, o seu profeta, obrigava as mulheres a andarem de hijab, ou de burka, tapadinhas, não depende de outra entidade que não Alá. Os aiatolas encarregaram-se durante anos de zelar pelo cumprimento desta regra indispensável para a ida para o paraíso. No Afeganistão, os talibans, os fanáticos locais de serviço a Alá e ao seu profeta, obrigam as mulheres a andarem dentro de uma gaiola, a burka. Pelas monarquias do petróleo os religiosos impõem as suas modas, sendo todas elas definitivas e não sujeitas a escrutínio. Quem não cumpre é condenado pelos aiatolas à forca, é degolado, lapidado em nome de Alá.

Parte da sociedade sensata do Irão rebelou-se contra a lei do Alcorão que determinava a moda feminina, interpretada pelos aitolas. Estes barbudos fizeram o que é costume dos detentores do poder fazer: reprimiram os rebeldes como hereges e mataram cerca de 200 deles. A Justiça Divina a manifestar-se canonicamente através dos seus agentes, os guardiões da moral e da verdade. O Alá não pode ver mulheres em cabelo e os aiatolas estão no Irão para zelar pelo rigoroso cumprimento dessa santa norma. Mas, eis que a amplitude da contestação ameaça as cabeças dos aiatolas e o que fazem estes? Em vez de clamarem por mais ajuda de Alá e do profeta para apagar da face do mundo as e os hereges, pensam em salvar a sua cabeça e os seus privilégios e decidem alterar a lei do Alcorão. Se para o rei Henrique IV, calvinista, Paris valia uma missa católica, para os aiatolas do Irão os cabelos de uma mulher valem uma emenda ao Alcorão! Os aiatolas são pragmáticos e descrentes nos poderes do seu antepassado Maomé em conter as multidões de infiéis de cabelo ao vento.

Passam a permitir que as mulheres descubram a cabeça. Quer dizer, o que era um mandamento religioso, ditada por Alá a Maomé, passa a ser uma mera norma de vestuário, mais ou menos como a que nos anos 40 e 50, no mundo cristão, proibia o biquíni, mas autorizava o fato de banho.

Respeito as religiões, dentro do princípio do direito à liberdade de cada um. Se os homens criaram deuses é porque necessitaram deles, se as sociedades criaram religiões é porque lhes encontraram utilidade na regulação de comportamentos. Também compreendo a existência de clero nas religiões, de intérpretes de uma vontade exterior. Entendo o clero de todas as religiões como entendo o diferencial dos automóveis, ou as cambotas dos motores, que transformam o movimento vertical em movimento longitudinal. É isso que o clero, os homens santos, os pastores, os teólogos fazem. E este direito a transformar as normas do Alcorão agora reconhecido pelos aiatolas do Irão é um bom sinal de senso e liberdade. Espero que seja o prenúncio de respeito a cada ser humano escolher o que veste, o que diz, o que come e bebe. Pode ser que daqui a uns tempos os iranianos, os sauditas, os afegãos, os xiitas, os sunitas, os ismaelitas possam comer umas febras de porco… Pode ser que os deuses, além de mestres costureiros também deixem de ser chefes cozinheiros e autorizem que os seus fiéis tanto possam comer ensopado de borrego como febras de porco!

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O autor: Carlos Matos Gomes [1946-] é coronel reformado do exército, cumpriu três missões na Guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais dos “Comandos”. Ficou ferido em combate e foi condecorado com as Medalhas de Cruz de Guerra de 1.ª e 2.ª Classe.

Capital de Abril pertenceu à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné.

Investigador de história contemporânea de Portugal. É escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz. Autor de: Nó Cego (1982), Os Lobos não Usam Coleira (1995), Soldadó (1996), Flamingos Dourados (2004), Fala-me de África (2007), Basta-me Viver (2010), A Mulher do Legionário (2013), A Estrada dos Silêncios (2015), A Última Viúva de África (2017, Prémio Fernando Namora 2018), Que fazer contigo, pá? (2019), Angoche-Os fantasmas do Império (2021). Em co-autoria com Aniceto Afonso: Guerra Colonial (2000), Guerra Colonial – Um Repóter em Angola (2001), Portugal e a Grande Guerra 1914-1918 (2013), Os Anos da Guerra Colonial 1961-1975 (2010), Alcora. O Acordo Secreto do Colonialismo. Portugal, África do Sul e Rodésia na última fase da guerra colonial (2013), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. Uma História Diferente (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. As Trincheiras (2014), Portugal e a Grande Guerra 1917 – 1918. Uma Guerra Mundial (2014), Portugal e a Grande Guerra 1919-. O Pós-Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1918 – 1919. O fim da Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914- O Início da Guerra (2014), A Conquista das Almas. Cartazes e panfletos da acção psicológica na guerra colonial (2016).

 

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