HIROXIMA (ANTOLOGIA DE POEMAS) – PREFÁCIO À 2.ª EDIÇÃO CARLOS LOURES E MANUEL SIMÕES

 

 

 

            Setenta e cinco anos passaram depois da primeira devastação nuclear, espaço de tempo em que dia após dia olhámos as imagens do horror, do regresso aos instintos primários, quando tudo parecia prever, depois daqueles anos, que se iria estabelecer a era do diálogo, da tolerância, da razão. Olhámos sem ver (sem querer ver) o Apocalipse ao alcance de um botão, de um inocente instrumento tornado irremediavelmente mortífero no momento exacto em que mão assassina se torna instrumento de uma ideologia arrogante e hipócrita que fala de paz, de desenvolvimento e progresso mas não abdica da corrida às armas mais sofisticadas – e não são apenas as nucleares -, susceptíveis de reduzir o mundo a um deserto de cinzas.

            Mas a moralidade da memória deve aplicar-se também a nós que defendemos o poder da não-violência, porque depressa adormecemos com a ideia de que uma guerra mundial não se pode repetir pelos resultados devastantes que preenchem o pesadelo do que poderemos chamar “terror do desconhecido”; que não reivindicámos suficientemente a estratégia do desarmamento e não denunciámos a indústria da guerra que incumbe quotidianamente sobre o que há de mais digno na nossa vida.

            E de novo, como há setenta e cinco anos, surge a pergunta: era necessário lançar as bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui? A História já demonstrou que a decisão barbárica se destinou a dar aos russos uma impressionante demonstração da potência americana e que a bomba acabou por constituir não a última acção militar da Segunda Guerra Mundial mas a primeira grande operação do que seria depois a “Guerra Fria”. De facto, é conhecida a posição de James Byrnes, então secretário de Estado americano, como resposta aos cientistas do Projecto Manhattan que se opunham ao bombardeamento atómico: a nação americana tinha gasto fundos enormes com o “projecto” e o Congresso cedo desejaria conhecer os resultados; os impostos dos cidadãos deviam ser gastos de modo útil e para o bem comum; mentir ao povo de uma nação democrática era imoral, e conservar a bomba em armazém era injustificável.

            Como se vê, os conceitos de democracia e de ética já então eram vistos de acordo com os interesses momentâneos das grandes potências, os mesmos que hoje regem as “leis” arbitrárias que decidem quem deve pertencer ao “clube” atómico e quem dele deve ser excluído, aspecto que tem de ser enfrentado através do debate político, se houver a coragem para o empreender.

            Hiroxima adquiriu, por todas estas razões, um significado simbólico, até porque representou o ponto culminante da passagem a uma violência internacional de nível novo, a uma agressão fora das “regras” contra um povo do Oriente, o que levanta ainda o problema da cor da pele e do espaço “escolhido” para exibir ao mundo a nova arma. Será a bomba racista?

            Os poetas dispõem apenas da palavra contra os horrores que, dado o seu carácter repugnante, nem sempre são susceptíveis de representação.

            E todavia não podemos deixar de tentar descrevê-los, pelo menos reivindicando o nosso direito de intervir no movimento cultural, tentando que a distância histórica não ofusque gradualmente a memória do Homem, que desejaríamos dinâmica, isto é, crítica, consciente e vigilante.

 

(Agosto de 2020. Texto-prefácio à segunda edição da “Hiroxima”, antologia de poemas, coordenação de Carlos Loures e Manuel Simões, 1.ª ed., Tomar, Nova Realidade, 1967; 2.ª ed. de CPPC e Âncora Editores, Abril de 2022).

 

Leave a Reply