Para lá da guerra na Ucrânia — Uma História de Dissidência.  Por Joe Lauria

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

Uma História de Dissidência

 Por Joe Lauria

Publicado por em 3 de Janeiro de 2023 (original aqui)

 

Os poderes estabelecidos ocidentais parecem não compreender como é que os jornalistas ocidentais podem exercer o seu próprio arbítrio e julgamento para criticar a política externa dos EUA sem serem agentes de uma potência estrangeira, escreve Joe Lauria.

 

Thomas Paine por Gutzon Borglum, parc Montsouris, Paris. (couscouschocolat d’Issy-Les-Moulineaux, France/Wikimedia Commons)

 

Os Estados Unidos foram fundados por dissidentes. A Declaração de Independência é um dos documentos dissidentes mais significativos da história, inspirando pessoas que procuram a liberdade em todo o mundo, desde os revolucionários franceses até Ho Chi Minh, que baseou a declaração de independência do Vietname em relação à França na declaração americana.

Mas ao longo dos séculos, uma centralização corrupta do poder americano, procurando manter e expandir a sua autoridade, procurou por vezes esmagar o próprio princípio da dissidência que foi inscrito na Constituição dos Estados Unidos.

A liberdade de dissidência foi primeiramente ameaçada pelo segundo presidente. Apenas oito anos após a adopção da Carta dos Direitos, a liberdade de imprensa tinha-se tornado uma ameaça para John Adams, cujo Partido Federalista impôs ao Congresso as Leis sobre Estrangeiros e Sedição de 1798. Elas criminalizavam as críticas ao governo federal. Houve 25 acusações e 10 condenações, ao abrigo da Lei da Sedição. As leis expiraram e algumas foram revogadas em 1802.

Depois a União encerrou os jornais durante a Guerra Civil dos EUA.

Woodrow Wilson passou com um voto de diferença no Senado para criar censura oficial do governo na Lei de Espionagem de 1917. A Lei de 1918 sobre Estrangeiros e Sedição que se seguiu prendeu centenas de pessoas pelas suas opiniões até ser revogada em 1921.

Desde a década de 1950, o McCarthyismo converteu-se em sinónimo de um dos piores períodos de repressão da dissidência na história dos EUA.

O mais perto que estivemos do inquietante sonho de Wilson é o Conselho de Governação da Desinformação da Administração Biden, dependente do Departamento de Segurança Interna, que após fortes críticas foi dissolvido.

As raízes da repressão encontram-se nos primeiros colonos ingleses na América do Norte, descritas em The Scarlet Letter e aplicadas ao McCarthyism em The Crucible de Arthur Miller. Embora os seus feitos industriais e científicos sejam os mais elogiados, a tradição americana de dissidência é provavelmente a maior coisa da história dos EUA e está mais uma vez sob ameaça.

 

O ambiente actual

As acusações do NewsGuard contra o Consortium News que poderiam potencialmente limitar o seu número de leitores e o seu apoio financeiro devem ser vistas no contexto da mania de guerra do Ocidente a propósito da Ucrânia, sobre a qual vozes dissidentes estão a ser reprimidas. Três escritores do CN foram expulsos do Twitter.

O cancelamento pela PayPal da conta do Consortium News é uma tentativa evidente de lhe cortar o financiamento por aquilo que é quase certamente o ponto de vista da PayPal de que o CN violou as suas restrições de “fornecer informações falsas ou enganosas”. Não pode se pode saber com 100% de certeza porque a PayPal se esconde por detrás das suas razões, mas o CN negoceia em informação e nada mais.

O CN não apoia nenhum lado na guerra da Ucrânia, mas procura examinar as causas do conflito dentro do seu contexto histórico recente, todas as quais estão a ser branqueadas pelos principais meios de comunicação social ocidentais.

Essas causas são: A expansão da NATO para leste apesar da sua promessa de não o fazer; o golpe de Estado [de 2014] e a guerra de 8 anos no Donbass contra os resistentes ao golpe; a falta de aplicação dos Acordos de Minsk para pôr fim a esse conflito; e a rejeição rotunda das propostas de tratados por Moscovo para criar uma nova arquitectura de segurança na Europa, tendo em conta as preocupações de segurança da Rússia.

Os historiadores que apontam as pesadas condições de Versalhes impostas à Alemanha após a I Guerra Mundial como causa do nazismo e da II Guerra Mundial não estão a desculpar a Alemanha nazi, nem estão a ser caluniados como sendo seus defensores.

O Consortium News pode estar errado por vezes, mas nunca tão errado como os principais meios de comunicação social estiveram em relação às [supostamente existentes] armas de destruição massiva no Iraque ou em relação ao Russiagate. O CN teve razão em ambas as histórias no momento em que ocorreram, e afirma que está correcto na sua análise da crise da Ucrânia. Em qualquer caso, tem direito à sua análise.

Sobre o Iraque, o Russiagate e a Ucrânia, o Consortium News chocou com a sabedoria convencional forjada por forças poderosas e pelos seus aliados corporativos dos meios de comunicação social. Em resposta, o CN tem sido repetidamente difamado como agente do Iraque e da Rússia.

Um poder estabelecido ocidental demasiado auto-confiante não consegue aparentemente compreender como jornalistas ocidentais experientes podem exercer o seu próprio arbítrio e juízo editorial para criticar a política externa dos EUA em tempo real, sem serem agentes de uma potência estrangeira. O Consortium News processou a rede de televisão canadiana Global News por publicar uma tal difamação.

Não é evidentemente suficiente para as forças poderosas simplesmente discordarem e respeitarem o direito constitucional do CN à liberdade de expressão.

O Juiz Oliver Wendell Holmes em Abrams v. Estados Unidos escreveu: “que o bem final desejado é melhor alcançado pelo comércio livre de ideias – que o melhor teste da verdade é o poder do pensamento para se conseguir ser aceite na concorrência do mercado. … Que em todo o caso é a teoria da nossa Constituição“.

O Juiz Louis Brandeis acrescentou em Whitney v. California que o remédio para o discurso mal concebido é mais discurso, não o silêncio imposto.

O juízo do NewsGuard sobre o Consortium News e outros meios de comunicação independentes é um caso de teste: Poderá o poder estabelecido norte-americano tolerar a dissidência ou irá unir-se à tradição de Adams e Wilson para a esmagar?

_____________

O autor: Joe Lauria é editor chefe do Consortium News e antigo correspondente da ONU para o Wall Street Journal, o Boston Globe e numerosos outros jornais, incluindo The Montreal Gazette e The Star of Johannesburg. Foi repórter de investigação do Sunday Times de Londres, repórter financeiro da Bloomberg News e começou o seu trabalho profissional como freelancer de 19 anos para o New York Times.

 

Leave a Reply