ADÃO CRUZ, 25 DE ABRIL

25 DE ABRIL

 

Um cravo vermelho

cristal de vida no céu de chumbo

cada dia um mundo limpo e perfumado

graças a ti flor da minha idade.

Caminho da esperança às portas da cidade

todo o mel e todos os frutos ali à mão.

Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão

veio o tempo ao nosso encontro

e a manhã despertou agitando as árvores.

E a noite se fez de estrelas

que desceram aos cantos do jardim.

Um cravo vermelho e quente

mais que tudo amando a vida

em qualquer língua entendida.

O mundo tinha o sabor de uma maçã

e os olhos inacabados eram cravos vermelhos.

Não havia cárceres nem torturas

apenas o calor de uma fogueira

na praça do entusiasmo

e uma jovem mulher

dormindo um sono de criança

nos telhados da revolução.

O seu rosto era uma nuvem

dourada pelo sol e pela lua

os cabelos trigueiros uma seara

e nos lábios

a canção de Abril que encheu a rua.

Hoje…

Hoje não sei se é dor se alegria

o que sonho

quando abro ao sol as portas de Abril.

Não sei se é dor

tristeza ou alegria

aquilo que sinto neste dia

em que Abril faz tantos anos

de saudade e nostalgia.

Anos de luminoso tremor

corações ao alto

quadros verdes de sonho e raiva

de sol e chuva em celeste azul

luzindo nos olhos de uma gaivota

branca gaivota de penas mansas

voando solitária dentro de mim

à volta de um cravo vermelho

que me ficou dentro do peito.

Abro as janelas a medo

neste areal de céu escuro

contra o mundo

a idade e o cansaço

e não sei se é vida ou amargura

a estreiteza deste espaço.

Sei que um rio de negras águas

cavalga as margens do meu ser

por entre as fendas da secura

ameaçando afogar a democracia

às mãos de nova ditadura.

adão cruz

 

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