Nota do editor
Com os 50 anos da revolução do 25 de Abril, data libertadora dos anos de chumbo que Portugal viveu desde 1926 até 1974, impõe-se refletir sobre as suas consequências.
É nesse sentido que publicamos os textos de hoje e amanhã – “Aplauso e inquietude” de Aniceto Afonso e “Este legado vos deixo. Carta aos netos de Abril” de Jorge Sales Golias, ambos publicados na revista O Referencial nº 147 da Associação 25 de Abril.
Quais são as inquietações, os anseios, os objetivos dos jovens portugueses hoje? Que sucedeu aos 3 D’s do 25 de Abril: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver?
Como se sentem os portugueses em relação à qualidade da democracia que têm? Que poder de intervenção sentem que têm para lá da colocação do voto em urna cada 4 anos? Como lidar com um país como Portugal que segundo o Índice de Transparência Internacional ocupa a 33ª posição na lista dos países menos corruptos, a pior posição desde 2012? E que poder de intervenção têm os seus representantes numa União Europeia que, sob a liderança dos Estados Unidos e da NATO, está em guerra com a Rússia e segue o trilho de ameaças dos EUA à China? Que consciência têm os portugueses de que estão em guerra? A censura acabou, mas e a autocensura imposta pelo pensamento único – “quem não é por nós, é contra nós” ?
Feita a descolonização, como estão hoje os antigos colonizados? Que tipo de relações mantemos como esses novos países?
Desenvolver: que desenvolvimento é o de hoje em que os mais ricos estão mais ricos e os mais pobres estão mais pobres? São necessárias as transferências de pensões e sociais para que os mais de 40% em situação de pobreza se reduzam a 16,4% da população, o equivalente a mais de um milhão e meio de pessoas. Além disso, o nível de pobreza das crianças e dos jovens mantém-se acima do valor conjunto nacional. O desemprego permanece como um dos principais fatores de pobreza (43% dos desempregados). Face ao método utilizado pelas entidades oficiais (INE/IEFP), qual o valor real do desemprego em Portugal?
“Em Portugal, o emprego jovem continua a ser de baixa qualidade e esta tendência é acentuada durante as crises económicas. A vulnerabilidade do emprego dos jovens, mesmo dos mais qualificados, é também verificada na transição para o mercado de trabalho. Desde 2015, a taxa de desemprego dos jovens com menos de 25 anos tem sido mais do dobro da população em geral. Durante a pandemia, chegou a ser 3,5 vezes superior” (cit. de Livro Branco, Mais e melhores empregos para os jovens, ver aqui).
“Os portugueses com habilitações superiores que emigram chegam a ganhar três vezes mais nos países que os acolhem do que em Portugal. Conseguem empregos estáveis e progressão profissional, e os que partiram a pensar no regresso, dizem, agora, que a saída é permanente. São os novos emigrantes e estas conclusões estão no estudo Êxodo de competências e mobilidade académica de Portugal para a Europa”. (ver aqui)
25 de Abril de 1974, acontecimento fundador da liberdade e da democracia portuguesa, onde estamos hoje? Para onde caminha a sociedade portuguesa?
Como diz Aniceto Afonso: “Nós confiamos que o 25 de Abril seja por muito tempo o símbolo de uma inquietação individual e social, de um desejo de fazer melhor, de uma vontade de participar e lutar, de um sentido para a vida e para um futuro melhor. Nós confiamos nas novas gerações, como continuadoras do 25 de Abril. Tomem nas vossas mãos esta herança de Abril, defendam-na e prossigam o caminho em direção a uma vida melhor e mais feliz, para todos e para cada um. E, em especial, não esqueçam ninguém.”
Mas face aos problemas que acima ficaram brevissimamente enunciados, ao desconforto e revolta perante muitas situações que não imaginávamos que pudessem persistir na sociedade portuguesa depois de 50 anos de liberdade, tomo as palavras com que Jorge Sales Golias termina o seu texto (que publicaremos amanhã):
“Vai ser necessário esperar que esta minha geração (da guerra colonial, do 25 de Abril e dos chamados retornados do ultramar) desapareça para que seja possível ganhar ambiente para fazer a catarse dos problemas que os jovens de hoje estão a receber de herança histórica.
Mas é sempre tempo de começar.”
A realidade mostra que outro 25 de Abril é necessário e urgente, que disso tomemos consciência e que o façamos de forma sustentada e sem linhas de cedência para com os inimigos da Democracia como aconteceu com o Primeiro 25 de Abril .
Afinal, é sempre tempo de recomeçar.
Viva o 25 de Abril!
FT
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2 min de leitura
Aplauso e Inquietude
Extrato do editorial publicado por
Associação 25 de Abril, nº 147, Outubro-Dezembro de 2022 (original aqui)
À medida que se aproximam os 50 anos do 25 de Abril, sentimos mais profundamente o desejo de fazermos o balanço deste período fundamental da História de Portugal. Sabemos que todos os portugueses que viveram esse tempo e todos os que têm ecos da mudança que esse dia proporcionou têm tido, até hoje, à sua disposição, os instrumentos necessários para construírem a sua própria ideia do 25 de Abril e da Revolução Portuguesa.
O 25 de Abril continua sendo considerado como o acontecimento fundador da liberdade e da democracia portuguesa e os militares de Abril, na sua maior parte reunidos em torno da associação, desejam que esse dia seja comemorado por todos aqueles que o vivem como o dia “inicial, inteiro e limpo”. Que seja sempre um dia de reconhecimento, mas também de luta, de aplauso, mas também de inquietude.
Nós temos um sentimento geral de que o nosso empenho mereceu a pena, mas não podemos deixar de expressar o nosso desconforto perante muitas situações que não imaginávamos que pudessem persistir na sociedade portuguesa depois de 50 anos de liberdade. Por isso, ao caminharmos para os 50 anos sobre esse dia memorável, o dia das nossas vidas, não podemos deixar de refletir sobre o legado que deixamos, sobre os valores que sustentaram a nossa ação, sobre a mudança e o progresso, mas também sobre as preocupações que nos assaltam neste tempo em que as gerações que nos sucedem assumem a responsabilidade de prosseguir o caminho e fazerem melhor.
Nestas breves linhas não podemos mais do que expressar o nosso desconforto perante as largas camadas de portugueses pobres, sem voz e sem nome; de proclamar o nosso desassossego pelo desinteresse de muitos cidadãos fechados em si próprios, com aparente desprezo pela vida coletiva; de manifestar a angústia de quem, como nós, se empenhou, no tempo e nas condições aprovadas e consensuais, em abraçar o projeto virtuoso de construir uma sociedade liberta, democrática e justa; de proclamar enfim o nosso empenho em participarmos no combate pelos valores que as novas sociedades democráticas nos apontam, rejeitando a demagogia, a descriminação, o racismo, a guerra e qualquer tipo de violência, as desigualdades sociais geradoras da pobreza, da ignorância, da exclusão e do sofrimento.
Essa é a principal mensagem que expressamos a quem tem assumido a responsabilidade política de mudar Portugal.
Nós confiamos que o 25 de Abril seja por muito tempo o símbolo de uma inquietação individual e social, de um desejo de fazer melhor, de uma vontade de participar e lutar, de um sentido para a vida e para um futuro melhor. Nós confiamos nas novas gerações, como continuadoras do 25 de Abril. Tomem nas vossas mãos esta herança de Abril, defendam-na e prossigam o caminho em direção a uma vida melhor e mais feliz, para todos e para cada um. E, em especial, não esqueçam ninguém.
É neste ponto, para que ninguém possa esquecer, que se situa o projeto, há muito acalentado por todos nós, de se construir um lugar físico onde todos possam refletir sobre o significado do 25 de Abril e da revolução portuguesa, onde a explicação do que ocorreu e das razões que estiveram na base da atuação dos capitães de Abril sejam exemplarmente expostas e claramente transmitidas a todos os visitantes – falamos de um centro de interpretação do 25 de Abril, como corolário das iniciativas ligadas às comemorações dos 50 anos dessa inesquecível madrugada.
Finalmente, devemos também refletir sobre o significado do 25 de Abril para a Europa, para a África e para o mundo, e seria adequado que as comemorações dos 50 anos incluíssem a sua dimensão internacional, com o apoio, não apenas de todo o aparelho diplomático e de representação do país, mas também das redes de portugueses espalhados pelo mundo e de todos aqueles que, sendo estrangeiros, admiram o 25 de Abril e compreendem o seu alcance.
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O autor: Aniceto Afonso [1942-], concluiu o curso da Academia Militar em 1963. Cumpriu comissões em Angola (1969-1971) e em Moçambique (1973-1975). Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1980 e concluiu o mestrado em História Contemporânea de Portugal, pela mesma faculdade, em 1990. Foi diretor do Arquivo Histórico Militar de 1993 a 2007, integrando vários grupos de trabalho e comissões relacionadas com os arquivos de militares, a sua documentação e história, e é membro da Comissão Portuguesa de História Militar. Em coautoria com Carlos de Matos Gomes, publicou, entre outros, Guerra Colonial, numa nova edição, com dados relevantes e reflexões apuradas sobre este período fulcral da nossa História contemporânea. É o diretor da revista O Referencial da Associação 25 de Abril.



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