Nota de editor:
A parte III , Keynes versus Harry White, é constituída pelos seguintes textos:
Texto 1 – Porque é que foi White e não Keynes a inventar o sistema monetário internacional do pós-guerra, por James M. Boughton
Texto 2 – Bretton Woods – Declaração de John Maynard Keynes sobre o proposto Banco para a Reconstrução e Desenvolvimento
Texto 3 – Discurso de Henry Morgenthau, Jr., na Sessão Plenária Inaugural (1 de Julho de 1944) em Bretton Woods
Texto 4 – Discurso de Henry Morgenthau, Jr., na Sessão Plenária de Encerramento da Conferência de Bretton Woods (22 de Julho de 1944)
Texto 5 – Cooperação Financeira Global como um Legado de Bretton Woods, por Randal K. Quarles
Texto 6 – A Batalha de Bretton Woods, Introdução, por Benn Steil
Texto 7 – A história está feita, por Benn Steil
Texto 8 – Os fundamentos esquecidos de Bretton Woods, por Eric Helleiner
Dada a dimensão do presente texto 7, o mesmo será editado em três partes. Publicamos hoje a 3ª parte.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
25 min de leitura
Parte III – Texto 7. A Batalha de Bretton Woods – Capítulo Oito – A história está feita (3/3)
Extracto do livro de sua autoria
(ver aqui)
(continuação – 3ª e última parte)
Instalado como um padrinho na sua suite, Morgenthau recebeu cada líder de delegação para ouvir os seus apelos e protestos. Concedida uma audiência às 21h00 do dia 15 de Julho, a um emocionado Pierre Mendès-France, que havia chegado de Argel para chefiar a delegação francesa, este protestou que os americanos haviam “tomado posições-chave… que são de facto contra nós… essas questões são sempre resolvidas contra o nosso interesse.” White dissera-lhe em Junho que a quota francesa seria de US$ 500 milhões; agora caiu para US$ 425 milhões. A França estava a ser sacrificada para aplacar os chineses, que insistiam em reivindicar o quarto lugar no ranking de quotas, à frente da França. Os americanos também estavam a recuar quanto à proposta russa de se reduzirem as contribuições para os países que sofrem a devastação da guerra, e em que os americanos tinham já dito à França que no seu caso seria de 25%.
“Como será quando eu voltar para o meu país”, perguntou Mendès-France, “e lhes explicar: ‘Fui há alguns meses a Bretton Woods e expliquei a nossa posição. Eu disse-lhes que queríamos questionar este valor, este e este, e em todas essas questões que levantei só tenho para vos dizer que venho de mãos vazias?”
Morgenthau sugeriu que a França poderia receber uma quota suficientemente alta para reivindicar uma quinta diretoria no seio do Fundo e do Banco Mundial, acima das três previstas anteriormente. Isso resolveu o problema; Mendès-France agradeceu-lhe. “Eu disse-vos antes”, disse Morgenthau, “que não iria para a cama até tentar corrigir [a] impressão” de que a delegação americana era “hostil à França”. Então, concluiu Morgenthau: “Já posso ir para a cama [108].”
A Rússia era um osso muito mais difícil de roer. Liderada por M. S. Stepanov, vice-comissário de comércio exterior, a delegação russa não cedia um milímetro em qualquer assunto, por menor que fosse, sem telegrafar a Moscou e esperar muitos dias por uma resposta. “Eles ficam sentados em silêncio em todos os comités”, observou Robbins, “tomando notas volumosas, e se surge a ocasião de apresentarem uma das suas próprias emendas, suscitando exceções para responder às suas próprias conveniências, eles simplesmente levantam-se e apresentam a moção com o mínimo possível de explicações [109].” Nas negociações, eles “abstinham-se de entrar em amplos debates e contra-argumentações”, segundo o consultor técnico americano Raymond Mikesell. Eles “respondiam a todos os argumentos contrários por uma simples reafirmação de sua posição original… eles não respondiam com a lógica e a persuasão para fazer valer o seu ponto de vista, mas com pura obstinação e com o facto de que sabiam que a delegação dos Estados Unidos faria todos os esforços para satisfazê-los por causa da importância política que representava a adesão da União Soviética [110].” Os americanos estavam preparados para isso. Em 1943, o embaixador russo Gromyko disse aos seus subordinados, na frente de White e Bernstein: “Lembrem-se! Vocês são observadores. Não devem, pois, dar nenhuma opinião seja sobre o que quer que seja. [111]”
“Há”, observou Robbins sobre os russos, “algo moralmente impressionante sobre esse egoísmo monumental. Mas não posso pensar”, concluiu com presciência, que isto “é um bom augúrio para o futuro do mundo [112]“. White estava cego quanto a isso; para ele, eram as forças reacionárias nos Estados Unidos e na Europa Ocidental que estavam a alimentar atritos com os russos e impedindo a cooperação económica e política.
O principal objetivo da Rússia era simples. Como um grande produtor de ouro, a Rússia queria que o resto do mundo precisasse tanto quanto possível daquele metal para fins monetários. Eles, portanto, tinham interesse em alguma forma de sistema de padrão-ouro ressuscitado. Este facto não passou despercebido ao governo nazi na Alemanha, cujo ministro da Economia e chefe do banco central, Walther Funk, criticou os planos monetários de Bretton Woods como um suborno aos soviéticos [113].
A principal exigência inicial da Rússia era uma quota igual à do Reino Unido, embora Stepanov tenha indicado que o seu governo acabaria por ficar satisfeito com algo um pouco abaixo disso. Como o Reino Unido estava destinado a ter uma quota de US$ 1,3 mil milhões, White traduziu isso numa exigência de US$ 1,2 mil milhões, o que Stepanov confirmou mais tarde. Isso era muito mais do que os US$ 800 mil milhões que os técnicos americanos haviam sugerido, e muito além do que poderia ser justificado pela contribuição da Rússia para o comércio mundial. Mas outras exigências russas eram politicamente ainda mais difíceis de acomodar.
Os russos queriam uma dedução de 50% na sua contribuição em ouro, alegando que haviam sofrido danos materiais massivos pela ocupação inimiga. White explicou à delegação americana que. antes da Conferência, os seus técnicos sugeriram aos russos que uma dedução de 25% poderia ser viável, mas os britânicos opuseram-se fortemente a isso – estes insistiram que tal concessão exigiria uma concessão equivalente para eles. Outras delegações, como a francesa, fizeram a mesma exigência [114].
Os russos também afirmaram que apenas metade da sua contribuição de ouro poderia ser guardada fisicamente em Washington, e cerca de um quarto do restante teria que ser guardado na própria cidade de Moscovo [115]. Uma proposta russa relacionada com esta era que o próprio Fundo deveria manter guardado o ouro em cada um dos quatro países com as quotas mais altas, cujo valor seria equivalente à subscrição de ouro do próprio país anfitrião. Isso na realidade impediria o Fundo de fazer uso da contribuição de ouro da Rússia sem a aprovação do Kremlin [116].
Os russos queriam ainda ter a liberdade de alterar o valor nominal da sua moeda, desde que “não afetasse as transações internacionais”. Isso provou ser um quebra-cabeças para a delegação e os técnicos americanos. Como é que uma tal alteração poderia não afetar as transações internacionais? E se não podia afetar, porquê fazê-lo? Mas, do ponto de vista russo, o facto de o rublo não ser usado no comércio exterior e de a taxa de câmbio oficial do rublo não ter relação com os preços e custos internos da Rússia, significava que se justificava o país ter uma isenção alargada das regras do Fundo sobre a manutenção da paridade da taxa de câmbio.
Sendo a Rússia um importante país de extração de ouro, Moscovo também queria uma isenção de até dez anos das exigências para maiores contribuições de ouro de países que adquirissem ouro novo. Finalmente, e o mais difícil, os russos foram a única delegação que se recusou a aceitar o princípio de que a quota do Fundo e do Banco de cada país fosse a mesma – eles insistiram em colocar US$ 300 milhões a menos no Banco do que no Fundo.
White sugeriu que os russos poderiam ser persuadidos “a retirar essas disposições”, ou a maioria delas, “em troca de uma quota substancialmente maior” no Fundo. Isso desencadeou um tenso impasse com Eccles, que ficou irritado com as exigências russas. “Parece-me… que até que eles estejam dispostos a mudar completamente toda a sua abordagem sobre esta matéria, a chance de chegarmos a um acordo não é muito brilhante. Ora, eles têm nessa matéria um interesse inteiramente diferente do interesse dos países capitalistas. O seu interesse é abertamente conseguir obter esse crédito.”
White ripostou: “Qual é o interesse da China e o interesse da Polónia e o interesse da Grécia?” A Rússia estava a jogar o mesmo jogo que todos os outros países.
Muitos países estavam nisto pela razão certa, insistiu Eccles – ou seja, para estabilizar as taxas de câmbio. Mas “a Rússia e a China querem obter todo o dinheiro que conseguirem [117]“. Fazendo eco das palavras de Eccles, Mikesell do Departamento do Tesouro escreveu, sete anos depois, sobre o facto de os russos “não estarem interessados na solução dos problemas fundamentais que eram a razão de ser da conceção do Fundo, nomeadamente, no que diz respeito às taxas de câmbio estáveis…” Estavam principalmente preocupados com “o que lhes custaria aderir [e] quanto é que poderiam sacar dele em termos de créditos” [118].
Eccles observou que esta “tem sido, naturalmente, a crítica ao programa, por ser um fundo de crédito e não um fundo de estabilização [119]“. Os jornais estavam de facto a assinalar este ponto. “O medo”, explicou o Christian Science Monitor, “é que países ‘temporariamente’ com falta de divisas estrangeiras possam passar a ter o hábito de utilizar o Fundo, vendendo-lhe as suas próprias moedas e, em contrapartida, comprando divisas dos países exportadores , até o Fundo ficar abarrotado de moedas da valor questionável, tal como um banco comercial que ficasse tão abarrotado com notas de crédito, repetidamente renovadas, de mutuários excessivamente aventureiros, o que, no final, o levaria à insolvência [120]“.
“[Parece-me]”, concluiu Eccles, “que se fizermos a concessão que a Rússia pretende, e pergunta-se porquê, destrói-se qualquer possibilidade de conseguir fazer funcionar o Fundo nesse país”.
Brown concordou. Os russos estavam a exigir um tratamento demasiado especial. “Todas os debates bancários e as discussões nos jornais incidem sobre o facto de que os Estados Unidos entram no Fundo com boa moeda, entram com ouro… e eles entram com um grande número de diferentes moedas”.
“Que moeda é que diria que não tem valor?”, perguntou White cada vez mais agitado.
“Os gregos, e assim por diante… Não há uma única coisa nesta atitude russa que possamos aceitar como fazendo parte de um Fundo de Estabilização e, a meu ver, é [tornar-se] um saco de tudo e mais alguma coisa “.
Esta resposta enfureceu White, levando-o a fazer uma longa e acalorada intervenção. “Não. Não creio que essa seja uma suposição apropriada… [A] URSS tem vantagens que nenhum outro país tem. Tem uma grande produção de ouro, tem uma tremenda capacidade produtiva, e por último e, mais importante ainda, pode determinar por si própria quanto é que vai vender. Nenhum país capitalista pode fazer isso, porque eles têm de vender com lucro”.
O fascínio de longa data de White pelo planeamento do Estado soviético ficou subitamente evidenciado na totalidade. “Ora, então, quando a URSS diz, muito francamente,
Vamos usar este Fundo para comprar coisas porque este é um momento de necessidade e é para isto que serve um Fundo de Estabilização e nós vamos pagar-vos de volta após cinco, seis ou sete anos’, eu digo que é uma operação de estabilização e não é diferente do que acontece com qualquer outro país… há uma tendência para distorcer completamente a análise e para apontar o dedo à URSS, porque eles estão a fazer de modo franco o que os outros países acabarão por fazer de qualquer maneira. O que é que pensa que a Polónia e os Países Baixos ou a França ou a Bélgica ou a China vão fazer? Se não o fizerem, na minha opinião, os seus ministros das finanças seriam estúpidos …
Do ponto de vista da capacidade de recompra de divisas que a URSS compra ao Fundo, coloco a URSS no topo da lista e, em vez de lhe dar mil milhões de dólares, poderia dar-lhe dois mil milhões e o Fundo funcionaria ainda melhor e as suas exportações fariam muito mais negócios. Isto é quase todo um discurso, mas penso que é necessário fazê-lo à luz do mal-entendido que prevalece, não só aqui mas lá fora, sobre qual é a natureza do Fundo de Estabilização. Já o ouvi de Keynes. Tive de argumentar da mesma maneira”.
Eccles não se mostrou afetado: “O seu discurso não mudou o meu ponto de vista de uma só partícula que seja “.
“Esta Conferência está absolutamente paralisada por estas exigências russas”, concluiu Brown. “Penso que chegou o momento em que, a menos que se conclua que a Conferência irá falhar precisamente porque não consegue completar a sua tarefa dentro das duas semanas, de que é necessário para nós, neste momento, mostrarmos os dentes…”.
“Só se forem bons dentes”, corrigiu-o White.
“[Eu] penso que o tempo de negociações já terminou”, insistiu Eccles. “Penso que chegou ao ponto em que você diz… esta é a nossa posição e esta é definitiva. Vamos adotar as táticas deles”.
Luxford estava nervoso. Poderia a Conferência dar-se ao luxo de perder a Rússia? “[A] pergunta que nos é colocada neste momento é a maior questão que esta delegação irá decidir nesta Conferência. Vamos trazer a Rússia para o Fundo ou não vamos? Isto é muito mais importante do que o resto das quotas juntas”.
Bernstein acrescentou que a Rússia se tinha mostrado um bom beneficiário de crédito “durante os dias negros dos anos trinta”. Portanto “se eles querem o prestígio de uma quota elevada, que tenham o prestígio de uma quota elevada e que nós tenhamos um Fundo que, em princípio, funcionará universalmente…”. E isso significa a eliminação de todas as exceções” do tipo que a Rússia estava a exigir [121].
Um consenso emergiu custosamente para demarcar as diferenças no seio do grupo: os russos poderiam ter uma quota maior ou uma menor contribuição em ouro. Mas não ambos.
A imprensa acompanhou com vivacidade as deliberações, confiando naturalmente nas fugas de informação dos negociadores. O New York Times noticiou, segundo responsáveis americanos anónimos, que a Rússia exige “uma maior utilização dos ativos do Fundo Monetário Internacional do que o proposto em troca de uma menor contribuição de ouro… e a exigência russa é típica do indisfarçável egoísmo das suas exigências em tais Conferências”. O jornal refere que “os americanos, curiosamente, parecem apreciar isso em relação aos russos [122]“. De facto, a equipa americana tinha tendência para se dar bem com os russos; os dois lados podiam ocasionalmente ser vistos “a cantar as canções do Exército Vermelho” na discoteca da cave. E quando “estimulados por quantidades consideráveis de vodka, [os russos] juntavam-se a eles para cantar canções americanas familiares [123]“.
O jornal Chicago Tribune vituperava a maldita Rússia por “tentar evitar fazer uma contribuição de ouro para o Fundo proporcional aos seus meios”. Tal como o herói da sua cidade natal, Brown, o jornal acreditava que os russos “[não estavam] a querer seriamente um plano de estabilização para as moedas. Eles estão à procura de uma forma de obter benefícios dos Estados Unidos sem terem de dar nada de igual valor em troca. Os russos não podem ser demasiado criticados por tentarem conseguir isso… mas aos nossos representantes pode ser atribuída a maior severidade por lhes darem encorajamento”. O Fundo, concluía o artigo, “está concebido para enriquecer outros países à nossa custa e tornar inevitável a inflação na América [124].
Morgenthau, que tinha feito uma viagem a Washington durante a Conferência, seguiu as instruções de White para oferecer aos russos a escolha entre uma quota de 1,2 mil milhões de dólares, sem mais concessões ou uma quota de 900 milhões de dólares com uma redução de 25% na contribuição do ouro russo. Mas os russos continuaram a insistir em ter ambos. Morgenthau ficou furioso. Tinha pouco espaço de manobra política, e os russos não estavam a ceder.
“Ora, francamente, depois de ter tido as relações mais amigáveis com o vosso povo, estou bastante chocado que duas grandes nações comecem a fazer aquilo a que chamamos ‘regatear como numa feira de gado'”, disse Morgenthau a Stepanov a 11 de Julho. “Este não é o espírito com que o meu Governo abordou este problema”. O congressista Wolcott, explicou Morgenthau, tinha-lhe assegurado que o que os russos exigiam era “simplesmente impossível … tudo aquilo seria rejeitado no Congresso”.
O tom de Stepanov, em todo o caso o tom que foi apresentado pelo seu tradutor, é inequivocamente gracioso. Ele expressou o seu “profundo apreço e admiração pela atitude [de Morgenthau] e pela da delegação [americana]”. Dito isto, ele queria que Morgenthau compreendesse que ele enfrentava dificuldades políticas insuperáveis no seu país sobre a questão da contribuição de ouro da Rússia, pois Moscovo achava que os peritos técnicos dos dois países já tinham chegado a acordo sobre a redução. Quanto à quota, tinha havido um “mal-entendido mútuo relativamente ao cálculo”. A fórmula proposta por White tinha produzido o valor de 800 milhões de dólares; utilizando dados diferentes, os russos chegavam a 1,2 mil milhões de dólares.
Morgenthau tentou desanuviar a atmosfera política. “Não sou um diplomata, não sou um advogado, sou apenas um agricultor”, assegurou ele a Stepanov.
“O Sr. Stepanov diz que ele próprio também não é diplomata”, respondeu o tradutor, “nem advogado, nem financeiro, apenas um homem de negócios”. Esta era uma profissão incómoda vinda de um comunista.
A exigência da Rússia de uma quota um pouco inferior à do Reino Unido era uma coisa “bastante nova”, continuou Morgenthau. Os peritos nunca tinham discutido o assunto. Mas os Estados Unidos tinham acedido, explicou Morgenthau, “em grande parte devido à magnífica luta que [a Rússia] estava a travar”. Isto era “contrário [ao que] a maioria das restantes Delegações” apoiava. Nesta base, Morgenthau voltou a pedir que o governo de Stepanov “aceitasse uma ou outra destas propostas”.
Stepanov insistiu que 800 milhões de dólares era “muito menos do que a soma [a que a Rússia tem] direito, de acordo com a fórmula americana… não pedimos nada a que não tenhamos direito”. Mas a Rússia não tinha “fornecido quaisquer dados” para apoiar aquele seu número muito superior, respondeu-lhe Morgenthau. Outras delegações diziam que a Rússia tinha 4 mil milhões de dólares em ouro, e estava a dedicar 700.000 homens à mineração de muito mais. “Isto é mexerico que estou a repetir”.
“Bem, não se podem evitar os mexericos”, respondeu Stepanov.
Morgenthau perguntou se Stepanov se oporia a que ele enviasse um telegrama ao seu embaixador Harriman em Moscovo e lhe pedisse que discutisse a proposta americana com Molotov. Stepanov disse que estava à espera de uma resposta direta de Moscovo, mas que não tinha objeções a que o Secretário do Tesouro informasse o seu embaixador sobre as discussões – na verdade, “seria até útil”. Os dois separaram-se com promessas mútuas de boa vontade e esperanças de cooperação económica futura. [125]
Três dias depois, uma eternidade no tempo da Conferência, a delegação russa ainda não tinha recebido uma resposta de Moscovo; Harriman tinha sido informado de que a delegação tinha recebido instruções, mas Stepanov explicou que as suas instruções anteriores não tinham sofrido alterações.
Morgenthau tentou aumentar a pressão. “Com toda a cortesia”, disse a Stepanov, “toda a Conferência está a ser retardada… há uma reunião [sobre quotas] às duas horas de hoje, pelo que teremos de tomar publicamente uma posição”.
Stepanov manteve-se inamovível. Os dois lados, disse ele, poderiam concordar em discordar sobre a redução de 25% na contribuição de ouro da Rússia até à chegada de novas instruções de Moscovo. Morgenthau persistiu: os Estados Unidos apoiariam uma quota de 1,2 mil milhões de dólares para a Rússia e também aceitariam a posição russa sobre o novo ouro extraído, mas o desconto de 25% pela devastação da guerra causaria “muitos problemas com os outros países”. Stepanov manteve-se cordial mas inamovível [126].
Outras exigências russas continuaram a surgir sem aviso prévio nas reuniões dos comités. Após horas de silêncio monástico numa reunião tardia de redação de documentos, um conselheiro soviético assustou as outras delegações presentes ao dizer com voz arrastada: “A União (pausa) das Repúblicas (pausa) Socialistas Soviéticas (pausa longa) insiste sobre a Alternativa E” – um apelo fora de ordem para que sejam concedidas facilidades de crédito especiais do Banco Mundial às economias devastadas pela guerra [127].
A pedido de Stepanov, ele e Morgenthau voltaram a reunir-se na manhã seguinte, 15 de Julho, com White, o delegado soviético N.F. Chechulin, e outros técnicos dos dois lados. “O Sr. Stepanov veio falar sobre questões nas quais encontra algumas dificuldades”, começou o seu tradutor. “Na sua opinião, não são difíceis”. Stepanov começou então a apresentar uma longa série de preocupações relacionadas com as contribuições em ouro e com a soberania russa sobre a alteração da paridade da moeda.
“Ele já terminou?” Morgenthau perguntou ao tradutor após algum tempo. Ele não o tinha feito. Stepanov também tinha “alguns pontos” a levantar sobre o Banco Mundial.
“Posso dizer isto ao Sr. Stepanov”, disse Morgenthau, claramente farto. “Ele levantou questões suficientes para nos levar dez horas a discutir, e o Sr. White tem uma Comissão às dez horas”.
White não iria conseguir ir. Adiando as questões sobre o Banco Mundial para a tarde, White tentou em vão fazer com que Stepanov aceitasse uma linguagem alternativa sobre as paridades, por forma a não dar ao público a impressão de que a Rússia estava a tornar o Fundo sem nenhuma eficácia. Stepanov suscitou esperanças ao dizer que precisava de “examinar isto”, e depois desiludiu-as imediatamente ao dizer que iria exigir “ter outro acordo do Governo [soviético]. Por conseguinte, gostaríamos de insistir na redação que propusemos no início da conversa, se não houver diferença na substância”.
Morgenthau pensou que estava a perder a cabeça. “O Sr. Stepanov disse duas coisas diferentes”, respondeu-lhe de imediato. “Primeiro disse que gostaria de ter tempo para analisar a linguagem alternativa… depois, imediatamente a seguir, mudou de ideias e regressou à sua própria linguagem”.
“Não, ele não mudou de ideias… O Sr. Stepanov está disposto a considerá-lo, mas mesmo assim terá de obter o acordo do Governo”.
“Quer dizer que tem de telegrafar?” perguntou Morgenthau, incrédulo.
“Telegrafar”.
“Qual é a utilidade?” perguntou White resignadamente.
Morgenthau estava destroçado: “aceitaremos a sua linguagem”.
“Muito obrigado”.
“Diga ao Sr. Stepanov que receio que seja a última vez que ele vai dizer obrigado a esta Conferência!”
O riso aliviou brevemente o estado de espírito geral. Depois foram retomadas as difíceis negociações, agora sobre onde se guardaria fisicamente o ouro correspondente à contribuição em ouro de Moscovo. Chegaram duas notas de um Comité dizendo que estavam à espera dos delegados americanos e russos; Morgenthau e White concordaram em apoiar a posição russa, e Luxford partiu para se juntar à reunião do Comité juntamente com P. A. Maletin, o Vice-Comissário Soviético para as Finanças. Morgenthau voltou finalmente à questão incómoda da redução de 25% na contribuição de ouro russa. Foi aqui que ele tomou a sua posição.
“A delegação americana não pode concordar com qualquer proposta de que as áreas devastadas tenham uma dedução da sua contribuição em ouro. Lamentamos muito”.
“Não só não a apoiará, como é contra?”, perguntou um incrédulo Stepanov.
“Tentaremos não nos opor a ela”, respondeu White. “Há muitos países que podem fazê-lo, mas se não os houver, então teremos de ser nós a opor-nos [128]“.
Nessa tarde, o projeto de lista de quotas do Fundo foi apresentado à reunião plenária da Conferência. Segundo Robbins, “o juiz Vinson abre o debate pelos EUA com uma grande eloquência destinada a lançar uma auréola de respeitabilidade sobre as cenas de regateio das últimas duas semanas”. China, França, Índia, Nova Zelândia e outros apresentaram protestos formais. Robbins falou por último, exortando os delegados a aceitarem a lista como a melhor que provavelmente poderia ser apresentada. “Devo confessar”, refletiu ele mais tarde nesse dia, “que nunca senti tanto desagrado por algo que tenha tido de fazer ao serviço do governo do meu país. [129]“. Mas a lista foi aceite sem mais debate; um marco importante da Conferência tinha sido ultrapassado, mas muito restava por fazer.
Na segunda-feira, 17 de Julho, Morgenthau convocou uma reunião do pessoal chave americano e dos principais chefes de delegação para se estabelecer, de uma vez por todas, a data do fim da Conferência. Muitos dos peritos americanos e britânicos e pessoal de apoio estavam perto do esgotamento; as estenógrafas estavam a colapsar. Os trabalhos prosseguiam rotineiramente durante metade da noite, com White e outros a subsistirem com apenas algumas horas de sono. Tinha-se tornado claro que um texto final não poderia ser alcançado até à data limite de 19 de Julho. “Talvez tenhamos de conseguir que o Presidente emita uma ordem para tomar controlo do hotel a partir de quarta-feira à noite, e colocar aqui tropas para o dirigir”, disse Morgenthau. “Talvez tenhamos de levar o gerente do hotel daqui para fora escoltado por dois soldados! Se isso for necessário, o Juiz Vinson dará as ordens”.
Acheson sugeriu que o sábado dia 22 era o mais cedo que podiam terminar. White concordou que isso era viável; os comboios poderiam partir no domingo. Luxford foi o único a exprimir dúvidas, incorrendo assim na responsabilidade total pela irritação do Secretário do Tesouro. “O que vai fazer, Luxford – ficar aqui até ao Natal?… Toda a gente aqui fala de sábado ou domingo. Porque é que… de repente lhe veio à cabeça a ideia de que poderíamos não o conseguir “?
Keynes e os outros chefes de delegação oficializaram-no: eles partiriam no domingo à noite [130]. O New York Times divulgou a notícia na primeira página na manhã seguinte, 18 de Julho: “CONFERÊNCIA PROLONGADA POR 3 DIAS PARA CONVERSAÇÕES; DIVERGÊNCIAS SOBRE O BANCO [131] “. Durante a semana seguinte, White e a sua equipa trabalharam a fundo na montagem da Ata Final dos vários textos dos Comités e das Comissões, bem como do texto decisivo preparado pelo seu próprio Comité Especial, fora do alcance dos estrangeiros.
“Os soviéticos bloqueiam as negociações sobre as questões monetárias”, anunciou o New York Times a 20 de Julho [132]. Apesar das suas implacáveis exigências de tratamento especial, os russos acabaram por estar dispostos a ser rejeitados na votação sobre as concessões de danos de guerra. As concessões oferecidas pelos americanos sobre o novo ouro extraído valiam muito mais. Ainda assim, os russos entrincheiraram-se numa questão importante, a única que impedia a celebração de um acordo histórico: Moscovo só faria uma subscrição de 900 milhões de dólares para o Banco Mundial, menos 300 milhões de dólares do que a quota que exigiam do Fundo. Todas as outras delegações aceitaram uma quota idêntica, quer no Banco quer no Fundo. “É uma vergonha”, gritou o chefe da delegação belga Georges Theunis para Robbins depois de sair de uma reunião da Comissão do Banco. “Os americanos cedem sempre aos russos”. E vocês também, vocês britânicos, são igualmente maus. Estão de joelhos perante eles “. Esperam. Vão ver a colheita que vão ter na Conferência de Paz [133]“.
O assunto veio finalmente à baila no dia 21 de julho, o penúltimo dia da conferência, numa reunião, às 10:15 da manhã, dos chefes de delegação, sob a presidência de Vinson, sobre a questão das quotas. O representante indiano, Sir Jeremy Raisman, fez o desafio. “Se houver uma redução na subscrição de qualquer país importante, penso que não conseguiria que o meu país concordasse com uma subscrição igual à quota”, disse ele, “… certamente que me colocaria em sérias dificuldades se houvesse um sério afastamento desse princípio…”. A Polónia ofereceu-se para subir $25 milhões para ajudar a colmatar o défice russo; a China prometeu $50 milhões. Stepanov estava sentado em silêncio.
Keynes interveio. “Sr. Secretário do Tesouro, o delegado soviético ainda não falou. Antes de ele o fazer, gostaria de lhe fazer um apelo”. Keynes argumentou que a vontade da Polónia e da China de aumentarem as suas subscrições no Banco, e do seu próprio país assumir uma grande participação, mostrava que os russos estavam a sobrestimar os riscos financeiros. “Insisto, com toda a sinceridade”, concluiu ele com força, “que é pouco coerente com a honra e dignidade de um grande país permanecer tão intransigente nesta fase”.
Stepanov, cujo modus operandi era falar apenas quando necessário, e mesmo assim principalmente só para destacar “a posição que os russos estavam a tomar contra as hordas de Hitler na sua terra natal [134]“, foi obrigado a quebrar o seu silêncio. Ele ficou, disse, “profundamente sensibilizado pela vontade das outras delegações de alcançar o objetivo que foi mencionado”. Mas não pôde concordar com o esforço da Índia ” de estabelecer uma relação da sua própria quota com a quota da URSS”, que tinha “sofrido tanto nesta guerra”. Em qualquer caso, ele não tinha “nenhuma autorização para mencionar qualquer outro número”; Moscovo tinha autorizado 900 milhões de dólares, não mais [135].
O representante canadiano sugeriu então que poderia conseguir que Ottawa concordasse em aumentar a sua quota para 10% do valor americano (o que fez, acrescentando 25 milhões de dólares). Morgenthau pediu para conferenciar em privado com Vinson e os russos. O grupo voltou a reunir-se às 15h15, altura em que Vinson anunciou, sem surpresa, que a delegação russa não tinha recebido “mais comunicações do seu Governo”. Mas as delegações dos EUA e da América Latina juntaram-se às promessas do Canadá, Polónia, e China, e o buraco de 300 milhões de dólares foi finalmente preenchido. Stepanov não disse nada.
O grupo concordou apressadamente em enviar a tabela final de quotas à Comissão Dois de Keynes às 18:00, após o que Morgenthau presidiria a uma sessão plenária executiva final às 18:30 [136]. “Os russos, através de táticas de obstrução, conseguiram tudo o que queriam”, escreveu Keynes a Catto no dia seguinte. “Tem sido preocupação da política americana apaziguar os russos e fazê-los entrar”. Pela minha própria parte”, concluiu Keynes, “penso que isto foi sensato [137]“.
Morgenthau reuniu a equipa americana pela última vez, na manhã do dia seguinte, 22 de Julho. Apesar das dores de cabeça provocadas pelos russos, o Secretário do Tesouro tinha razões para estar supremamente satisfeito. Bernstein refletiu mais tarde que “Para aqueles que tinham experiência de obter cooperação internacional após a Primeira Guerra Mundial, a Conferência de Bretton Woods parecia um milagre [138]“. Tinha sido bem sucedida principalmente “porque tudo o que era importante tinha sido discutido e resolvido nos dois anos anteriores [139]“. No entanto, ao reunir 44 delegações nacionais na matéria extremamente complexa da cooperação monetária global, Morgenthau tinha tido também sucesso em evitar que a sua própria delegação se fragmentasse em linhas partidárias. Isto não foi uma proeza menor, com a aproximação de uma eleição e a existência de uma imprensa a cirandar aquele retiro isolado. Morgenthau, Wolcott, Tobey, e Spence trocaram verdadeiros sentimentos de louvor mútuo. “Foi uma experiência de grande sucesso em democracia”, disse Morgenthau orgulhosamente.
“Como alguém que tem brincado com a guerra psicológica”, acrescentou o diretor da Divisão de Imprensa do Departamento de Estado, Michael McDermott,”… Não ficaria de todo surpreendido se esta Conferência não contribuísse muito” para pôr fim à guerra. Os alemães “não podiam deixar de dizer, “Meu Deus, o que estamos a enfrentar?” e desistirem”.
Tragicamente, este não seria o caso; os alemães lutariam durante mais oito meses e meio. Além disso, as ideias de Morgenthau para desindustrializar a Alemanha do pós-guerra serviriam sem dúvida para fortalecer em vez de enfraquecer a moral de guerra alemã, e assim prolongar a guerra e a sua consequente carnificina.
Brown comprometeu-se a “fazer o que puder para vender [o Acordo] aos banqueiros do país”. Morgenthau ficou grato, “porque parecem ser as únicas pessoas que neste momento são violentamente [contra] isto”.
“E Bob Taft”, corrigiu o Senador Tobey.
“Deixo Taft para si!”, retorquiu Morgenthau. “Ele é o seu troféu de caça pessoal”. Taft e os banqueiros levantariam de facto uma resistência formidável.
Quanto aos russos, que tinham colocado os maiores obstáculos à obtenção de um acordo em Bretton Woods, não houve ressentimentos: “A delegação russa está à nossa espera no campo de golfe, ou onde quer que isso seja”, anunciou Morgenthau, encerrando a reunião [140].
“As empresas de radiodifusão… tomaram providências para uma emissão no final da Conferência de Bretton Woods, com White a explicar o que tínhamos conseguido”, recordou Bernstein muitos anos depois, mas “Morgenthau não deixou White fazer essa emissão”. O Secretário do Tesouro disse a Bernstein que interviesse – mais uma vez anonimamente. “Morgenthau tinha tido sempre uma atitude ambivalente em relação a Harry White, e tinha ciúmes de Bretton Woods porque era dada mais atenção a White do que a ele [141]“.
Nessa noite, o grande e elegante salão de jantar acolheu o banquete de encerramento da Conferência e da cerimónia de ratificação. “Cansado, pálido como uma folha de papel [142]“, Keynes entrou no salão lotado, ligeiramente atrasado, e dirigiu-se lentamente em direção ao seu lugar livre. Tal como Skidelsky fez, toda a gente se ergueu de rompante quase como uma só pessoa, numa silenciosa homenagem à figura que, nas palavras de Skidelsky, “deu ao Acordo de Bretton Woods a distinção, não a substância [143]“. Enquanto indiscutivelmente considerado o maior intelectual público do mundo, Keynes tinha elevado a reunião a algo para além de um grande acontecimento político. Mesmo que o texto final, carregado de gíria de advogados, tivesse apenas vestígios dispersos do seu pensamento, e muito menos da sua prosa (“Cherokee”, como Keynes apelidava o calão jurídico americano), Bretton Woods, em grande parte devido à sua presença, representaria sempre uma visão de como a cooperação global poderia ser moldada a partir do pensamento, do espírito.
É certamente duvidoso que alguém pudesse ter proferido um discurso de jantar mais animado, eloquente e gracioso do que Keynes. Pleno de humor claro, alusões inteligentes e generosidade de espírito, o discurso tornou certamente todos os presentes no salão – pelo menos aqueles cujo domínio do inglês o permitia – conscientes do facto de terem sido participantes num empreendimento histórico. Keynes prestou homenagem à “orientação sábia e amistosa” de Morgenthau, e à “vontade e energia indomáveis de White, sempre governada por um forte temperamento e humor”. Elogiou Acheson, Cox, Luxford, Collado e os outros advogados americanos – advogados que haviam sido um alvo tradicional da sua humorada crítica – por terem “transformado o nosso calão em prosa e a nossa prosa em poesia”. Aludindo à imprensa sempre presente, pronunciou-se mesmo “muito encorajado… pelo espírito crítico, cético e até mesmo cáustico com que os nossos procedimentos têm sido observados”, pois estava convencido de que era “melhor [começar] em desilusão do que . . . [a] terminar nela”. Subtilmente, concluiu o seu discurso afirmando que o que as 44 nações tinham “realizado aqui em Bretton Woods [foi] algo mais significativo do que o que está corporizado nesta Ata Final”. De facto, uma vez que tão pouco da Ata Final incorporava a sua visão mais grandiosa de uma União de Compensação global, esta era uma matéria de fé na qual ele depositava grandes esperanças. Ele deixou o salão sob fortes aplausos dos seus colegas delegados que lhe cantaram a canção tradicional ” “Ele é um bom companheiro”. Embora aparentemente se tenha tratado de uma serenata espontânea, Bernstein disse, mais tarde, que tinha dito à orquestra que a tocasse. [144]
No seu discurso de encerramento, Morgenthau situou firmemente os resultados da Conferência no contexto mais vasto da guerra e das suas causas. Condenou “a rivalidade irrefletida e insensata ” e “a agressão económica pura e simples ” que tinha conduzido o mundo “pelo caminho vertiginoso e desastroso da guerra”. “Esse tipo de nacionalismo extremo”, proclamou ele, “pertence a uma era que está morta”. Hoje em dia, a única forma esclarecida de interesse próprio nacional reside no acordo internacional. Em Bretton Woods, disse ele, as nações Aliadas tinham “tomado medidas práticas para pôr em prática esta lição no campo monetário e económico”. Ele forçou apenas um pouco o significado imediato do evento, atribuindo-lhe “um pequeno contributo” para instigar o Conde von Stauffenberg e os seus colaboradores militares alemães a tentarem o assassinato de Hitler – que esteve muito perto de ser bem sucedido – no seu quartel-general de Rastenburg, dois dias antes [145]. Morgenthau recebeu uma homenagem musical de despedida um pouco menos personalizada do que Keynes – a orquestra tocou “The Star Spangled Banner”.
Para além da pompa e da cerimónia, a noite apresentou um feliz acontecimento inesperado que Morgenthau teve grande prazer em transmitir aos delegados no início do discurso. “Ao ouvir a notícia, todos se levantaram de rompante e aplaudiram ruidosamente, foi o que Robbins gravou. “Assim, no final, tudo acabou numa explosão de otimismo e de sentimentos de amizade [146]“.
Como uma noiva em fuga que regressa depois das luzes da igreja se apagarem e da porta ser fechada, os russos tinham feito uma reaparição surpreendente 24 horas depois dos assuntos formais da conferência terem sido concluídos. Às 19 horas, 30 minutos antes do jantar, Stepanov foi ter com Morgenthau. O seu tradutor relatou triunfantemente que “o Sr. Stepanov… tem a resposta do Sr. Molotov, e essa resposta é que ele está feliz por concordar com a sua proposta”.
Morgenthau não tinha a certeza de ter compreendido. Stepanov esclareceu: “O Sr. Molotov diz que vamos concordar em aumentar a nossa quota” no Banco Mundial.
“Até quanto?”, perguntou Morgenthau incrédulo.
“Para $1,200,000,000”, o mesmo que no Fundo.
“O Sr. Molotov concorda com isso?”.
“Ele diz que concorda com o Sr. Morgenthau”.
“Bem, diga ao Sr. Molotov que eu quero agradecer-lhe do fundo do meu coração [147]“.
Em Abril, Molotov tinha dito a Harriman apenas horas antes de a Declaração Conjunta ser divulgada à imprensa, sem o apoio russo, que o governo soviético estava, no final, “disposto a instruir os seus peritos para se associarem ao projeto do Sr. Morgenthau [148]“. E aqui, mais uma vez, em Bretton Woods, Moscovo optou por personalizar o seu gesto caracteristicamente tardio, que agora anomalamente deixou o Banco com mais 300 milhões de dólares de capital do que o Fundo. “O Sr. Molotov diz que concorda com o valor da quota”, explicou Stepanov, “porque o Sr. Morgenthau pediu à delegação soviética que o fizesse”.
“Quero que diga isto ao Sr. Molotov. Isto confirma o longo respeito e confiança que tenho de longa data na União das Repúblicas Soviéticas e Socialistas”, proclamou o entusiástico Secretário do Tesouro.
Stepanov repetiu enfaticamente a mensagem: “O Sr. Molotov quis aumentar a quota porque o senhor lhes pediu e por causa da sua elevada consideração por si [149]“.
A consideração russa pelos americanos em Bretton Woods não se limitava, contudo, a Morgenthau. I. D. Zlobin, chefe da divisão monetária do Comissariado Popular das Finanças, publicou, após o seu regresso a casa, um curioso relato do seu tempo em Bretton Woods, como parte de um artigo intitulado “Encontros na América” num jornal de Moscovo chamado The War and the Working Class. A história focava-se nas relações amigáveis de Zlobin com Harry White. White, disse ele, tinha convidado Zlobin e Chechulin para a sua casa de campo fora de Washington quando os dois se encontravam na capital [150]: White diria mais tarde a um grande júri que tanto antes como depois da Conferência ele tinha recebido na sua casa toda a delegação russa [151]. Em Bretton Woods, Zlobin continuou, jogaram voleibol com White e outros membros dos grupos russo e americano. (Mikesell observou que os russos levavam os jogos “muito a sério [152]“) “Mais tarde”, escreveu Zlobin, “sempre que havia uma ocasião em que tínhamos de aprovar algumas decisões de nosso interesse, White dizia sempre em tom de brincadeira: “Tudo o que posso colocar à vossa disposição são os nossos próprios votos e os votos das 22 repúblicas latino-americanas [153]“. A piada perdeu-se no FBI, que acrescentaria o artigo ao ficheiro que tinha estado a construir sobre White desde 1942.
Notas
[108] Morgenthau Diaries, Vol. 754, Jul. 15, 1944, pp.164-176.
[109] Robbins (1990:172).
[110] Mikesell (1951:104-105).
[111] Bernstein citado em Black (1991:43).
[112] Robbins (1990:172).
[113] New York Times (Jul. 8, 1944:20).
[114] New York Times (Jul. 14, 1944:28).
[115] Morgenthau Diaries, Vol. 750, Jul. 5, 1944, pp.87-124.
[116] Mikesell (1951:108).
[117] Morgenthau Diaries, Vol. 750, Jul. 5, 1944, pp.87-124.
[118] Mikesell (1951:103).
[119] Morgenthau Diaries, Vol. 750, Jul. 5, 1944, pp.87-124.
[120] Christian Science Monitor (Jul. 6, 1944:15).
[121] Morgenthau Diaries, Vol. 750, Jul. 5, 1944, pp.87-124.
[122] New York Times (Jul. 9, 1944:E6).
[123] Mikesell (1951:104).
[124] Chicago Tribune (Jul. 15, 1944:6).
[125] Morgenthau Diaries, Vol. 752, Jul. 11, 1944, pp.203-216.
[126] Morgenthau Diaries, Book 754, Jul. 14, 1944, pp.14-20.
[127] Robbins (1990:185).
[128] Morgenthau Diaries, Vol. 754, Jul. 15, 1944, pp.115-139.
[129] Robbins (1990:186).
[130] Morgenthau Diaries, Vol. 755, Jul. 17, 1944, pp.69-86.
[131] New York Times (Jul. 18, 1944:1).
[132] New York Times (Jul. 20, 1944:24).
[133] Robbins (1990:192).
[134] Mikesell (1951:104).
[135] Morgenthau Diaries, Vol. 756, Jul. 21, 1944, p.255.
[136] Morgenthau Diaries, Vol. 756, Jul. 21, 1944, pp.258-260.
[137] Keynes Papers, W/1, JMK to Lord Catto, Jul. 22, 1944.
[138] Bernstein citado em Black (1991:104).
[139] Bernstein citado em Black (1991:47).
[140] Morgenthau Diaries, Vol. 757, Jul. 22, 1944, pp.1-13.
[141] Bernstein citado em Black (1991:48).
[142] Bareau (1951).
[143] Skidelsky (2000:357).
[144] Black (1991:57).
[145] Proceedings and Documents, Vol. 1, pp1107-1126.
[146] Robbins (1990:193).
[147] Morgenthau Diaries, Vol. 757, Jul. 22, 1944, pp.13A-13B.
[148] Morgenthau Diaries, Vol. 723, pp.37-38.
[149] Morgenthau Diaries, Vol. 757, Jul. 22, 1944, pp.13A-13B.
[150] Zlobin (Oct. 15, 1944).
[151] Testemunho Grand Jury no Caso Alger Hiss, 1947-1949, HDW, Mar. 24-25, 1948, pp.2740-2741.
[152] Mikesell (1951:104).
[153] Zlobin (Oct. 15, 1944).
O autor: Benn Steil [1963-] é um economista e escritor americano. Foi educado no Nuffield College, Oxford e na Wharton School da Universidade Pennsylvania. Steil é o membro sénior e director de economia internacional no Council on Foreign Relations. É o fundador e editor da revista International Finance, tendo-lhe sido atribuído o Prémio da New-York Historical Society para o melhor livro sobre história americana, o Prémio do Livro Douglas Dillon da Academia Americana de Diplomacia, o Prémio do Livro Hayek, e o Prémio do Livro Spear em História Financeira.


