Nota de editor:
A última parte da presente série, a parte V, Sobre um novo Bretton Woods, é constituída pelos seguintes textos:
Texto 1 – Como enfrentar um “momento” Bretton Woods? Por James M. Boughton
Texto 2 – É finalmente tempo de um novo Bretton Woods, por James M. Boughton
Texto 3 – Um Novo Momento Bretton Woods, por Kristalina Georgieva
Texto 4 – Os argumentos a favor de um novo Bretton Woods, por Katie Gallogly Swan
Texto 5 – Do Bretton Woods de ontem ao Bretton Woods do futuro, por Richard Kozul-Wright
Texto 6 –Bretton Woods, por Adam Tooze
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
7 min de leitura
Parte V – Texto 3. Um Novo Momento Bretton Woods
Publicado por
em 15 de Outubro de 2020 (ver aqui)
1. Introdução: ‘A Humanidade como uma irmandade ‘
Em primeiro lugar, quero agradecer ao Dr. Ernest Kwamina Addison pelos seus excelentes comentários e contribuições como Presidente do Conselho de Governadores do FMI.
Refletindo sobre a dramática mudança no mundo no último ano, fiz uma visita a Bretton Woods, New Hampshire, onde 44 homens assinaram os nossos Artigos de Acordo em 1944. Os nossos fundadores enfrentaram duas enormes tarefas: lidar com a devastação imediata causada pela Guerra; e lançar as bases para um mundo mais pacífico e próspero do pós-guerra.
Na conclusão da conferência, John Maynard Keynes captou o significado da cooperação internacional como uma esperança para o mundo. “Se pudermos continuar… A irmandade dos homens ter-se-á convertido em algo mais que uma frase”, disse ele.
Enquanto aguardamos com expectativa o acolhimento de Andorra como nosso 190º membro, o trabalho do FMI é testemunho dos valores de cooperação e solidariedade sobre os quais faz da humanidade uma irmandade.
Hoje enfrentamos um novo “momento” de Bretton Woods. Uma pandemia que já custou mais de um milhão de vidas. Uma calamidade económica que tornará a economia mundial 4,4% mais pequena este ano e que irá eliminar cerca de 11 milhões de milhões de dólares de produção no próximo ano. E um indescritível desespero humano face a uma enorme perturbação e pobreza crescente, pela primeira vez em décadas.
Mais uma vez, enfrentamos duas enormes tarefas: combater a crise hoje – e construir um amanhã melhor.
Sabemos que medidas devem ser tomadas neste momento. Uma recuperação económica duradoura só é possível se vencermos a pandemia. As medidas sanitárias devem continuar a ser uma prioridade – exorto-vos a apoiar a produção e distribuição de terapias e vacinas eficazes para garantir que todos os países tenham acesso a todos estes meios de tratamento.
Exorto-vos igualmente a continuar a apoiar os trabalhadores e as empresas até uma saída duradoura da crise sanitária.
Assistimos a ações orçamentais globais de 12 milhões de milhões de dólares. Os principais bancos centrais aumentaram os balanços em 7,5 milhões de milhões de dólares. Estas medidas sincronizadas impediram o efeito de repercussão destrutiva macrofinanceira a que assistimos em crises anteriores.
Mas quase todos os países ainda estão a sofrer, especialmente as economias de mercado emergentes e em desenvolvimento. E embora o sistema bancário global tenha entrado na crise com elevados meios de proteção em capital e liquidez, os bancos são fracos na maioria destes países a que chamamos de mercados emergentes. Temos de tomar medidas para evitar a acumulação de riscos financeiros a médio prazo.
Enfrentamos aquilo a que chamei uma Longa Ascensão para a economia global: uma subida que será difícil, desigual, incerta – e propensa a retrocessos.
Mas é uma subida. E teremos uma oportunidade de abordar alguns problemas persistentes – baixa produtividade, crescimento lento, elevadas desigualdades, uma crise climática iminente. Podemos fazer melhor do que reconstruir o mundo pré-pandémico – podemos construir um mundo mais resiliente, sustentável e inclusivo.
Temos de aproveitar este novo momento de Bretton Woods.
2. Construir para seguir em frente: Três Imperativos
Como? Vejo três imperativos:
Primeiro, as políticas económicas corretas. O que era verdade em Bretton Woods continua a ser verdade hoje em dia. Políticas macroeconómicas prudentes e instituições fortes são fundamentais para o crescimento, o emprego e a melhoria do nível de vida.
Uma política tipo modelo único não serve para todos. As políticas devem ser adaptadas às necessidades individualmente consideradas de cada país. O apoio continua a ser essencial – retirá-lo demasiado cedo arrisca-se a causar danos económicos graves e injustificados. A fase da crise determinará a forma adequada deste apoio, geralmente mais ampla e mais direcionada à medida que os países começam a recuperar
Estruturas fortes a médio prazo para políticas monetárias, orçamentais e financeiras, bem como reformas para impulsionar o comércio, a competitividade e a produtividade podem ajudar a criar confiança para a ação política agora, ao mesmo tempo que constroem a tão necessária resiliência para o futuro.
Isto inclui manter uma cuidadosa vigilância sobre os riscos apresentados por uma dívida pública elevada. Esperamos que os níveis da dívida de 2021 aumentem significativamente – para cerca de 125 por cento do PIB nas economias avançadas, 65 por cento do PIB nos mercados emergentes; e 50 por cento do PIB nos países de baixo rendimento.
O Fundo está a proporcionar alívio da dívida aos seus membros mais pobres e, com o Banco Mundial, apoiamos a extensão pelo G20 da Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida.
Para além disto, onde a dívida é insustentável, deve ser reestruturada sem demora. Deveríamos avançar no sentido de uma maior transparência da dívida e de uma melhor coordenação dos credores. Sinto-me encorajada pelas discussões do G20 sobre um quadro comum para a Resolução da Dívida Soberana, bem como sobre o nosso apelo a melhorar a arquitetura para a resolução da dívida soberana, incluindo a participação do sector privado.
Estamos cá pelos nossos países membros, apoiando as suas políticas.
E as políticas devem ser para as pessoas – o meu segundo imperativo.
Para colher todos os benefícios de uma política económica sólida, temos de investir mais nas pessoas. Isso significa proteger os vulneráveis. Significa também impulsionar o capital humano e físico para sustentar o crescimento e a resiliência.
O COVID19 tem sublinhado a importância de sistemas de saúde fortes.
O aumento da desigualdade e a rápida mudança tecnológica exigem sistemas de educação e formação fortes – para aumentar as oportunidades e reduzir as disparidades.
A aceleração da igualdade de género pode ser uma mudança da situação a nível global. Para os países de mais profundos níveis de desigualdade, a redução do fosso entre os géneros poderia aumentar o PIB numa média de 35 por cento.
E investir nos nossos jovens é investir no nosso futuro. Eles precisam de acesso à saúde e à educação, e também de acesso à Internet – porque isso lhes dá acesso à economia digital – tão crítica para o crescimento e desenvolvimento no futuro.
A expansão do acesso à Internet na África Subsaariana em 10% da população poderia aumentar o crescimento real do PIB per capita em até 4 pontos percentuais.
A digitalização também ajuda à inclusão financeira como um poderoso instrumento para ajudar a superar a pobreza.
Tal como a pandemia demonstrou que já não podemos ignorar as precauções sanitárias, já não podemos dar-nos ao luxo de ignorar as alterações climáticas – o meu terceiro imperativo.
Concentramo-nos na mudança climática porque é macro crítica, representando ameaças profundas ao crescimento e à prosperidade. É também crítica para as pessoas e para o planeta.
Na última década, os danos diretos de catástrofes relacionadas com o clima somam cerca de 1,3 milhões de milhões de dólares. Se não gostamos desta crise de saúde, muito menos gostaremos da crise climática.
A nossa investigação mostra que, com a combinação certa de investimento verde e preços de carbono mais elevados, podemos orientar-nos para zero emissões até 2050 e ajudar a criar milhões de novos empregos.
Temos uma oportunidade histórica de construir um mundo mais verde – também mais próspero e rico em empregos. Com taxas de juro baixas, os investimentos certos hoje podem produzir um dividendo quadruplo amanhã: evitar perdas futuras, estimular ganhos económicos, salvar vidas e proporcionar benefícios sociais e ambientais para todos.
3. O papel do FMI
No Fundo, estamos a trabalhar incansavelmente para apoiar uma recuperação duradoura – e um futuro resiliente à medida que os países se adaptam às transformações estruturais provocadas pelas alterações climáticas, pela aceleração digital e pela ascensão da economia do conhecimento.
Desde o início da pandemia, já comprometemos mais de 100 mil milhões de dólares – e ainda dispomos de recursos substanciais dos nossos 1 milhão de milhões de dólares em capacidade de empréstimo.
Continuaremos a prestar especial atenção às necessidades urgentes dos mercados emergentes e dos países de baixos rendimentos – especialmente dos Estados pequenos e frágeis, ajudando-os a pagar médicos e enfermeiros e a proteger as pessoas mais vulneráveis e partes das suas economias.
A nossa ação sem precedentes só foi possível graças ao generoso apoio dos nossos membros. A duplicação dos Novos Acordos de Empréstimo e uma nova ronda de acordos bilaterais de empréstimo preserva este poder de fogo financeiro. Os membros também efetuaram contribuições essenciais para o nosso programa Catastrophe Containment – and Relief and Poverty Reduction and Growth—Trusts.
Isto permitiu-nos apoiar os nossos membros de baixos rendimentos com o alívio da dívida e triplicar a concessão dos nossos empréstimos. Estamos a envolver-nos com os membros para aumentar ainda mais a nossa capacidade de concessão de empréstimos em condições preferenciais, adaptando o nosso conjunto de ferramentas para empréstimos e aumentando o apoio ao desenvolvimento de outras capacidades.
O pessoal do FMI, trabalhando dia e noite, tem sido magnífico nesta crise. Os meus sinceros agradecimentos a eles e à minha equipa de gestão.
O meu profundo apreço também aos nossos Diretores Executivos – eles têm estado presentes em cada passo do caminho ao longo dos últimos seis meses.
4. Conclusão: Aproveite o momento
O melhor memorial que podemos construir para aqueles que perderam a vida nesta crise é, nas palavras de Keynes, “aquela coisa maior” – construir um mundo mais sustentável e equitativo.
Foram os nossos fundadores que o fizeram. Agora é a nossa vez. Este é o nosso momento!
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A autora: Kristalina Georgieva [1953 -], economista búlgara, é diretora geral do FMI desde Outubro de 2019. Foi diretora geral do Banco Mundial (2017/2019), CEO do BIRD em 2016, Vice-Presidente da Comissão Europeia (2014/2016) Comissária Europeia de Cooperação Internacional (2010/2014). Ocupou várias posições no Banco Mundial desde 1993 a 2010, tornando-se vice-presidente em 2008. É doutorada em Ciências Económicas e mestre em Economia Política e Sociologia pela Universidade de Economia Nacional e Mundial de Sófia.


