Nota de editor:
A última parte da presente série, a parte V, Sobre um novo Bretton Woods, é constituída pelos seguintes textos:
Texto 1 – Como enfrentar um “momento” Bretton Woods? Por James M. Boughton
Texto 2 – É finalmente tempo de um novo Bretton Woods, por James M. Boughton
Texto 3 – Um Novo Momento Bretton Woods, por Kristalina Georgieva
Texto 4 – Os argumentos a favor de um novo Bretton Woods, por Katie Gallogly Swan
Texto 5 – Do Bretton Woods de ontem ao Bretton Woods do futuro, por Richard Kozul-Wright
Texto 6 –Bretton Woods, por Adam Tooze
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
7 min de leitura
Parte V – Texto 5. Do Bretton Woods de ontem ao Bretton Woods do futuro
Porque não podemos desistir da luta por uma ordem económica global mais inclusiva
Publicado por
em 8 de Outubro de 2021 (original aqui )

Por vezes, é possível enganar algumas pessoas.
Mas não se pode enganar todas as pessoas e a toda a hora.
Bob Marley/Peter Tosh, Get Up Stand Up
Bob Marley morreu a 11 de Maio de 1981 alguns meses depois de Ronald Reagan se ter tornado o presidente dos Estados Unidos da América. Marley, a primeira verdadeira superestrela do Sul Global, foi simultaneamente um inovador musical, uma vez que o seu nome continua a ser imensamente popular, e um campeão dos direitos dos oprimidos e daqueles que enfrentam maus tratos em todo o lado.
Reagan, anteriormente um representante pago das empresas americanas, também afirmou falar por aqueles que sofrem sob a mão pesada do Estado. O seu “novo começo” iria, prometeu ele, reverter “o crescimento desnecessário e excessivo do governo”. Nesse mesmo ano, Reagan frustrou as esperanças dos governos das nações em desenvolvimento de terem uma voz mais importante a dizer nos assuntos globais e, em vez disso, apelou a que “libertassem os indivíduos, criando incentivos para trabalhar, poupar, investir e ter sucesso”.
A trajectória do multilateralismo e o ‘New Deal
O multilateralismo tinha chegado quatro décadas antes, em 1941, com uma Carta Atlântica assinada pelos Estados Unidos e o Reino Unido, lançando uma frente comum contra o fascismo e prometendo “um futuro melhor para o mundo”. Mas a ordem do pós-guerra, cujos fundamentos foram lançados na conferência de Bretton Woods em 1944, nunca esteve à altura da ambição de Franklin Roosevelt de internacionalizar o seu New Deal.
O impulso contra o seu New Deal provocado pela América empresarial tinha começado mesmo antes da morte de Roosevelt em Abril de 1945, e o desejo do secretário do Tesouro Morgenthau, anfitrião em Bretton Woods, de expulsar “os usurários emprestadores de dinheiro do templo das finanças internacionais” e fazer o capital servir “o bem-estar geral” só foi parcialmente satisfeito.
No entanto, o que emergiu de Bretton Woods avançou na causa da construção de um sistema económico global mais inclusivo. Sob esta ordem baseada em resultados, as relações económicas curvar-se-iam para os objetivos de pleno emprego, de um estado de bem-estar e de descolonização. E à medida que o crescimento das economias avançadas atingia máximos históricos ao longo dos 25 anos seguintes, o progresso vinha em todas as frentes.
Mas como os Estados Unidos tinham ajudado os países a recuperar da guerra mundial, um défice americano da balança de transações correntes enorme e crescente expôs a tensão entre a subscrição da estabilidade financeira internacional e a prosperidade económica a nível interno.
Em resposta, Richard Nixon abandonou a estabilidade financeira, suspendendo a ligação entre o dólar e o ouro em 1971, e aumentando o sistema de taxas de câmbio fixas. A instabilidade resultante nos mercados internacionais só veio agravar as crescentes lutas distributivas. A subida dos preços e o aumento do desemprego pareciam desacreditar as estratégias keynesianas de crescimento.
Os países em desenvolvimento viram uma oportunidade de concluir o que os internacionalistas do New Deal tinham começado, utilizando o peso dos números nas Nações Unidas para reequilibrar a economia global em apoio das suas próprias necessidades e ambições. Com o crescimento no Sul global a recuperar, graças ao aumento dos preços das mercadorias e a uma inundação de capital barato proveniente de petrodólares reciclados, as esperanças de uma nova ordem económica internacional eram elevadas.
Um período de obscurecimento
O pêndulo político nos Estados Unidos estava, no entanto, a oscilar de volta para o capital organizado. A subida draconiana das taxas de juro do Presidente da Reserva Federal Paul Volcker não só tirou a inflação do sistema como também alterou profundamente o equilíbrio de poder na maior economia do mundo e para além dela.
Um aumento acentuado dos custos dos empréstimos asfixiou o acesso ao crédito, levando a uma contração na construção e na indústria. Na subsequente recessão, o desemprego disparou, destruindo o poder de negociação da mão-de-obra. Com taxas de juro em dois dígitos, uma “desintegração gerida da ordem internacional” também abriu caminho para um papel renovado para o dólar, com os banqueiros de Wall Street a olhar para novas oportunidades de lucro nos mercados globais.
Uma onda de dívida impagáveis, cujo refinanciamento Volker tinha encarecido de forma proibitiva, espalhou-se pelo Sul global e os seus efeitos apareceram primeiramente com o incumprimento mexicano em 1982. Os decisores políticos, voluntariamente ou não, ajoelharam-se perante o Consenso de Washington sobre a abertura dos mercados, na esperança de que o apoio financeiro internacional os mantivesse dignos de crédito. Seguiu-se uma década económica perdida; a discussão sobre a reformulação da governação económica global desvaneceu-se.
Entretanto, uma ordem multilateral diferente tomou forma, baseada mais em regras do que em resultados, através de instituições como a nova Organização Mundial do Comércio, e em linha com as forças triunfantes da hiperglobalização. O capital sem restrições de circulação estava novamente “à espreita em busca de fontes de mão-de-obra cada vez mais barata”. Os seus instintos predatórios procuravam tanto governos fortemente endividados como procuravam os agregados familiares em dificuldades financeiras assim como pequenas empresas com ativos digeríveis.
A promessa de Reagan de um novo começo tinha-se transformado numa “economia de rentistas, onde os ganhadores levam tudo”. O investimento produtivo estagnou à medida que os mercados financeiros se fixaram em retornos a curto prazo e as grandes empresas gastaram os seus lucros crescentes na recompra de ações, pagamento de dividendos e salários executivos excessivos. Quando o crescimento aumentou, este aumento deu-se através de boom especulativo alimentado pelo crédito, com os ganhos com tendência a serem apropriados e repartidos entre os mais ricos, enquanto que os de mais fracos rendimentos suportaram os custos da crise que inevitavelmente se seguiu.
Tudo terminou de maneira espetacular em 2008 com os resgates sem precedentes de bancos excessivamente endividados que se tinham tornado demasiado grandes para falirem. Foram prometidas reformas mas rapidamente abandonadas face à resistência de poderosos interesses financeiros e à fé persistente dos decisores políticos na eficiência dos mercados. Uma mistura de austeridade e dinheiro barato assistiu à recuperação dos mercados financeiros, mas proporcionou a década mais lenta de crescimento global desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Rumo a um futuro resiliente
Quatro décadas de confiança errada em mercados moldados por interesses arraigados fizeram pagar um elevado tributo às populações trabalhadoras, tanto nas economias avançadas como nas economias em desenvolvimento. Mas a crise do Covid-19 forçou os sucessores de Reagan a abandonar os dogmas herdados e a empregar o poder da sua bolsa para proporcionar apoio e relançar a economia.
Com uma catástrofe climática a aproximar-se, há esperança de que um futuro mais resiliente se seguirá. Mas, até agora, o mundo em desenvolvimento, enfrentando outra década perdida, tem sido deixado à sua sorte, privado de vacinas para combater um vírus perigosamente mutante, e o seu espaço orçamental espremido pela contração global e por um mar de dívidas não pagáveis.
Celebremente, Marley implorou-nos que não desistíssemos da luta, que acreditássemos na causa e que suportássemos os ataques que inevitavelmente se seguiriam. A construção de uma ordem económica internacional verdadeiramente inclusiva e resiliente exigirá nada menos que isso.
O autor: Richard Kozul-Wright é o director da Divisão de Estratégia de Globalização e Desenvolvimento, UNCTAD, Genebra. É co-autor, com Kevin P. Gallagher do livro “A Case for a New Bretton Woods”. É doutorado em Economia pela Universidade de Cambridge.


