William é Masái e chefe da reserva Mara, uma pequena aldeia do Quénia, mas uma pessoa que defende e protege as mulheres, questão que, no princípio, lhe trouxe ataques dos outros homens, tanto da aldeia, como da região onde está inserida. Mas foi escolhido pela totalidade das pessoas da povoação para o cargo que ocupa, por lhes ter conquistado o respeito desde garoto –vinte quilómetros a pé todos os dias para ir à escola, ter conseguido escapar aos ataques de animais selvagens, que as muitas cicatrizes demonstram– e por se ter proposto melhorar a vida de todos, especialmente das mulheres.
Sei de tudo isto pela reportagem de um jornalista que por ali andou e, às vezes, lá volta, espantado pela melhoria que nota na vida delas, –Até há pouco tempo não eram nada, mas agora têm direitos, opinam e as meninas vão todas à escola (mérito de minha mãe, por as mães merecerem tudo)–garante William; os Masái sabem que saíram do antigo Egipto, talvez com origem numa antiga tribo de Israel, subiram o Nilo até às planícies do Quénia, vivem da pastorícia e não sabe quantos são por nunca se contarem, –acreditamos que se nos contássemos, os Masái desapareceriam–
O jornalista não quis deixar de lhe fazer a pergunta óbvia, que pensava ele dos brancos –Tendes uma máquina de fazer notas e gastam-nas viajando por aí, a tirar fotos. O meu pai acreditava que uma foto queima o sangue e rouba o espírito; vocês têm tudo, nós só temos a felicidade, desde que abrimos os olhos pela manhã até os fechar à noite e celebramos tudo, o sol, as nuvens, uma boda, uma dança, o dia de hoje… amamos tudo o que existe–
Depois desta introdução, lembrei-me de avocar o velhinho Aristóteles por ele ter afirmado que o ser humano é um animal dotado de linguagem para viver, conviver e se poder relacionar com os outros seus iguais, por sermos só seres enredados em estórias, pois ‘Felicidade é ter algo que fazer, ter algo que amar e algo que esperar’.
Mas, lendo bem as palavras de William, aquele chefe Masái, também poderemos concluir que as sucessivas revoluções, industriais, comunicacionais e tecnológicas, com esta nova ‘artificial’ que vem aí a galope desenfreado, parecem ter-se revelado cada vez mais totalitárias, tanto por terem feito desaparecer as fronteiras entre espaço e tempo, como por nos terem ‘proletarizado o ócio’, como escreveu uma vez o filósofo francês Bernard Stiegler, ao referir ‘os prazeres do animal laborans’, por tudo gastar no consumo e até porque, quanto mais tempo livre tiver, mais intensos serão os seus apetites.
Aliás, estar em dívida já se converteu na condição primeira para a vida social –créditos para estudar, para o automóvel, para as férias, para a hipoteca do apartamento– os inevitáveis instrumentos para satisfazer as necessidades sociais, por termos de sobreviver endividando-nos, mas sob o peso de pagar as dívidas. A dívida controla, disciplina o consumo, impõe a austeridade e pode impor também o ritmo de trabalho e mesmo ‘as caras’ das eleições em que teremos de participar. Se virmos bem, é a submissão que não queremos e até negamos!
Quão longe estamos de Hannah Parkinson, que na coluna semanal no ‘The Guardian’, escreveu um dia ‘A democracia é uma das coisas mais importantes da vida, tanto como o amor, ou a arte de contemplar um pôr do sol!’, só a realidade das coisas!
Se olharmos em volta, aqui ou noutro lugar qualquer, qual é ‘a cara’ que poderemos ver e ouvir dizer isto?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor