CARTA DE BRAGA – “dos momentos da vida” por António Oliveira

Escreveu um cronista, há já algum tempo, a propósito dos que têm sempre certezas sobre qualquer acontecimento (os media estão cheios dessa gente), mas referindo-se a si próprio, ‘Eu levo uns trinta e nove anos a estudar medicina e não passo de um hipocondríaco’, isto para não falar de mim que, quando vou às análises, por qualquer razão, aviso sempre a senhora das agulhas, ‘Eu sou dos que desmaio’. Claro que um aviso destes, feito antes de ela começar a função, logo a leva a estender a cadeira, abrir a janela, preparar um copo de água e avisar uma colega para a ajudar se for necessário. 

Tal como ele, também me sirvo destes exemplos pessoais para chamar a atenção para o ‘jogo democrático’, aquele espécie de sistema em que estamos mergulhados, que até levou o filósofo e professor Parra Montero a afirmar no final de Janeiro, ‘Na gestão política, não podem ter razão e, pelo menos, uma opinião sensata, os que preferem o conflito, a gritaria e o insulto, ao diálogo e ao acordo’ .

Há coisas que só aprendemos quando as vivemos, não as aprendemos enquanto estudávamos se tiver sido esse o caso, não as aprendemos quando começámos a trabalhar e nos apresentaram chefes e colegas. Só as aprendemos com gente que fala com exemplos, quando descobrimos que se pode dar a volta e questionar ortodoxias, quando aprendemos que a vida nos fornece, em cada dia, outras e novas perspectivas, sobre os mais variados casos e problemas que poderemos vir a enfrentar. 

Mas ficamos a saber também que as nossas origens, mais tudo o que aprendemos nos estudos se foi também esse o caso, só servem para mostrar a rota, o trilho, o farol que temos de seguir, mas agora e também, quase embriagados pela avalancha de tecnologias, em que temos de ‘jogar’, com a eventual lentidão do apuramento técnico, mas sabendo ainda, como só a autenticidade nos pode afastar da mediocridade. 

E também devíamos lembrar Dostoievski, ‘O que os homens mais temem acima de tudo? O que for capaz de lhes mudar os hábitos’, e não ser conveniente esquecer o que todos os ‘memoráveis’ ensinaram. A eles também deveremos recorrer um dia, quando soubermos distinguir entre mestres e espertalhões, entre chefes e líderes, afastando sempre, até gentilmente, os pomposos, por dali nunca sair algo de bom. 

A juntar a tudo isto, ainda temos de dar atenção ao que escreveu não há muito tempo, o poeta Luís Castro Mendes, ‘O que fica de nós na terra dos outros foi o que me fez descobrir que as nossas raízes estão fora de nós e só fora dos nossos lugares de origem nos descobrimos tal e qual somos. É só fora do nosso espaço que encontramos as nossas raízes. Ou as nossas asas…’ 

Na verdade, fomos chamados a aprender, a lidar com os outros de maneira a sempre termos impacto, para conhecermos, adaptar e vencer, mas nunca ninguém nos ensinou nem chamou a atenção para a importância do que um dia escreveu Mark Twain, ‘Há dois momentos importantes na vida: o primeiro, o dia em que se nasce, e o outro o dia em que se descobre porque se nasceu’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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