

As pequenas coisas, aquelas que deixamos passar ao lado –ou mesmo em frente e em que quase tropeçámos!– sem lhes termos dado a atenção devida pela sua modéstia ou singeleza, talvez sejam as que nos modelam o carácter, nos ajeitam a maneira de ser ‘Por estarmos ancorados no presentismo’, nas palavras de Norbert Bilbeny, catedrático de Ética na Universidade de Barcelona.
Tal situação, adianta ainda Bilbeny, ‘Mostra como o indivíduo contemporâneo parece já nem ter interesse pelo passado, como o omitiu quase por completo e, muito mais grave, também não está interessado no dia de amanhã; assim não podemos acordar, por nos faltarem os instrumentos e vivermos num período de imaturidade mental’. Não há muitos anos, ainda dava aulas no ensino superior e chamava a atenção para o dia de amanhã, também ouvi muitas vezes, ‘Quando lá chegar logo vejo, professor’.
Mas sei, por ver em qualquer sítio –nos passeios das ruas, nos transportes, nos lugares onde se come, nas filas de um qualquer estabelecimento– como a mente e o corpo da maioria dos jovens e até dos menos jovens, dependem das redes sociais, como a realidade das relações das pessoas depende da velocidade das perguntas e respostas às mensagens tecladas nos telemóveis, sem sequer se pensar como comportamentos e atitudes individuais ou colectivos, são vigiados, analisados e processados por algoritmos e ‘senhores dos media’, para sugerirem as respostas que se procuram.
E o respeito e cumprimento da resposta sugerida, permite à pessoa a criação laços identitários, ‘Passar a fazer parte dos “beati possidenti”, os felizes donos da fé correcta que “têm” certezas, e reivindicam conhecimentos definitivos e inabaláveis’, nas palavras do psicanalista e filósofo Erich Fromm, pois o exercício acertado da resposta começa sempre por não ser uma crença nalguma ideia, mas uma atitude identitária, a levar a uma orientação interior.
Poderemos constatar como tal situação se transmite assim naquele mundo que está longe de reconhecer ‘A grandeza escondida nas coisas pequenininhas, o que implica denunciar a falsa grandeza nas coisas grandinhas, num mundo que confunde grandeza com grandinho; as pequenas, as minúsculas coisas da gente anónima, da gente que os intelectuais costumam desprezar, esse micromundo onde eu acredito que se alimenta de verdade a grandeza do universo’. São palavras do saudoso jornalista e escritor que foi Eduardo Galeano, ao comentar como nos livros se podiam aprender os grandes mistérios da vida, os existentes na dor e na persistência humana.
Tanto Fromm como Galeano parecem confirmar assim, a argumentação de Bilbeny; mas também se pode juntar o lamento do proprietário da antiga e conhecida livraria Lagun, em Barcelona, ao contar como a situação também afecta penosamente o seu mundo, ‘O livreiro já não conta! O que conta é o computador que determina o número de exemplares vendidos, escolhendo os livros e alterando a essência da profissão que passou de um ofício artesanal e vocacional, a um negócio banal e similar ao dos outros comércios’.
E assim, queiramos ou não, somos também levados a pensar melhor no que escreveu George Orwell em ‘1984’ a sua obra maior, ‘Quem controla o passado controla o futuro e quem controla o presente, controla o passado’.
Esta é uma das muitas conclusões que se podem tirar das palavras de gente apoiada pela observação criteriosa da realidade, aquela que nos vai absorvendo e até assimilando, se abdicarmos de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir, aquelas pequeninas coisas da gente anónima de onde somos quase todos, como salienta o poeta, romancista e músico bengali Rabindranath Tagore, ‘Todos os homens são feitos do mesmo barro, mas não do mesmo molde’.
São só as pequenininhas coisas, aquelas que nem sequer cabem nas teclas!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
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