CARTA DE BRAGA – “das desconformidades actuais” por António Oliveira

Situamo-nos hoje numa desconformidade -prefiro chamar-lhe assim entre a rapidez da tecnologia, a lentidão da resposta e implementação da regulação do uso contínuo, a maior parte das vezes sem lhe medir o alcance nem as consequências reais, morais, psíquicas e mesmo financeiras a começar por todos aqueles que nem sabem com o que estão a lidar, mas tem bonecos e cores lindas e apelativas. 

Estou entre os muitos a acreditar que se deviam implementar moratória e regulamento internacionais, mas a ver pelo ambiente de ‘amizade e compreensão’ hoje em vigor em todos os continentes, entre regimes com definições próprias e exclusivas de democracia, não acredito que se possa seguir esse caminho, até pela ‘dimensão’ financeira e outras, dos ‘donos’ de tais sofisticadas tecnologias. 

Independentemente de todo este imbróglio, estou ao lado do escritor e jornalista Enric González, ‘Confesso que não me preocupa a confusão que já se adivinha entre o o real e o falso, preocupa-me mais a confusão de agora: uma exploração ligeira nos rincões do Youtube, permite comprovar haver muita gente que nem sequer sabe também em que mundo vive, mesmo literalmente, por acreditar que vive num planeta plano porque, para eles, a palavra planeta quererá dizer planito’. Feitios!

Mas eu gostava ver uma maior preocupação e mais medidas a condizer, para resolver situações já reportadas pela informação deste país, ‘A taxa de risco de pobreza em Portugal aumentou em 2020 para 18,4% (1,6% mais alta que em 2019 e acima da média da União Europeia)’, ou esta outra, saída no jornal inglês ‘The Guardian’, ‘ONU alertou há seis anos que a turistificação desenfreada”, prejudicaria o direito à habitação dos portugueses mais vulneráveis, e previu que a degradação da habitação e das condições de vida, provocaria o surgimento de novos pobres’.

A situação é visivelmente agravada pelos chamados ‘nómadas digitais’ estrangeiros que trabalham remotamente e conseguem obter vistos em Portugal, se cumprirem os requisitos, incluindo ganhos mensais de mais de 3.040 eurossegundo a ‘Nomad List’, existem agora cerca de 15.200 nómadas digitais só em Lisboa. Aliás e de acordo com Agustin Cocola-Gant, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, ‘São uma população privilegiada que se aproveita da desigualdade global e, basicamente, vêm aqui para gentrificar e pressionar ainda mais o mercado imobiliário’.

Também o diário francês ‘Le Monde’, trazia este título em meados de Julho último, ‘As metrópoles europeias face a uma gentrificação galopante’. A notícia referia que os preços do imobiliário, as políticas voluntaristas da renovação urbana e a ‘airbnbisation’ palavrão que desconhecia completamente, estavam a provocar profundas mutações, com uma uniformização de um lado, e exclusão da uma parte da população por outro.

Perguntei ao dr. Google o que queria dizer aquilo e descobri ‘A Airbnb começou em 2008, quando dois designers que tinham um espaço extra, hospedaram três viajantes que procuravam um alojamento. Agora, milhões de anfitriões e hóspedes já criaram contas Airbnb gratuitas, para desfrutar de novas perspetivas únicas do mundo’. Não é difícil perceber quem fica a perder!

A aumentar este grave problema de injustiça das desigualdades, bem patente neste casos, também por cá está a ser usado, em muitas instituições públicas e privadas, um critério altamente discutível, o princípio do mérito, de validade muito difícil de avaliar porque, afirma Tiago Santos no blogue ‘Ladrões de Bicicletas’, não existe uma medida capaz de comensurar o talento, o esforço ou o trabalho, ‘A meritocracia emerge, na prática, como o desejo de uma sociedade tirânica, aristocrática, de castas, desigual por natureza; uma sociedade de vencedores que olham com arrogância os vencidos, e de vencidos que olham de volta com ressentimento, pois os vencedores tomam o rendimento, a riqueza, o poder’.

Nesta situação, melhor, nestas situações, está a comparação entre a pessoa e a sua utilidade ou, no conjunto, a importância do número e da quota, para a troca com outra componente da Instituição, para o marketing e publicidade. Em nenhuma delas o indivíduo, homogeneizado e conformado, tem a mínima importância, porque ‘até o ser humano se torna mercadoria no mercado das personalidades’, nas palavras do filósofo e sociólogo alemão Erich Fromm. 

Estamos e medramos num tempo e entre gente, vítima na sua maioria, das tais desconformidades entre a rapidez da tecnologia e a inversa lentidão da resposta; mas, e para mim, vou ver se consigo pôr em prática este sábio conselho de uma cronista daqui ao lado, ‘Para conhecer um povo, temos de olhar os seus vagabundos, os seus loucos, os seus doentes e os seus animais; também os seus velhos e os seus meninos. Podia ficar assim, só a olhar estas formas de vida, puras e precárias, toda a eternidade. Só nestes seres, sem interesse em mantar uma narrativa estatal”, está o segredo e a alma de cada cidade’.

Palavra da salvação!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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