CARTA DE BRAGA – “de pentes e de acordos” por António Oliveira

Estes últimos tempos, dois estudiosos antigos, Morin e Chomsky, com conferências, declarações e entrevistas, vieram animar e dar algum colorido às rotinas que se instalaram nas nossas vidas, entre as variáveis Ucrânia, conselhos de estado, fomes, terramotos, cheias e secas severas que nem as apresentações de novas escritas por fautores (felizmente já passados) de tais rotinas e de outras calhandrices mais ou menos parecidas, conseguem aliviar. 

Acreditámos que íamos dominar a natureza, mas finalmente em vez de a dominar, degradámo-la e degradámos a nossa civilização. Infelizmente, a globalização está ligada ao domínio do lucro sobre o mundo, à hegemonia do lucro, que aprofunda as desigualdades e que é, em si, um factor de crise. Vemos também por todo o lado a criação de novas ditaduras; há uma crise da democracia mundial’, algumas afirmações de Edgar Morin, tiradas da conferência que veio fazer a Lisboa. 

Uns dias antes, numa entrevista feita nos EUA e divulgada urbi et orbi, Noam Chomsky não fez cerimónias ao afirmar, ‘Os projectos neoliberais, também globalizadores, foram desenhados para fazer que os trabalhadores compitam entre si em todo o mundo, ao mesmo tempo que protegem as elites profissionais; obviamente, os ditos acordos comerciais são, basicamente, acordos sobre os direitos dos inversores’.

As consequências deste sistema, palavra que ele usa também, ‘Os acordos fazem parte de um sistema definido. Não são leis económicas, são acordos políticos e tomadas de decisões, muito nocivos para a maioria da população e corroeram a força da democracia, tanto aqui como na Europa e lá, ainda mais’.

Aliás, e num estudo patrocinado pela Universidade de Bona em Maio passado publicado e comentado a 10 de Setembroque é uma análise a 200 eleições europeias nos últimos 40 anos, concluiu-se que as políticas de austeridade reduziram a participação eleitoral, aumentam a votação em partidos ‘extremistas’ e provocaram uma maior fragmentação parlamentar. 

Os países estudados foram a Áustria, Finlândia, Suécia, Alemanha, Itália, Espanha e Portugal, especialmente nos meados dos anos 90 e no período de 2011 a 2015. E o estudo salienta ‘É importante destacar, termos demonstrado que as recessões que aplicam medidas de austeridade, amplificam significativamente os custos políticos das crises económicas, em comparação com as recessões em medidas de austeridade’. A investigação acabou ainda por concluir ‘A redução de 1% no gasto público, provoca um aumento da percentagem de votos nos partidos extremistas (de esquerda ou de direita) de cerca de 3 pontos percentuais’.

Há uma frase, normalmente atribuída ao escritor norte-americano Mark Twain A História não se repete, mas rima frequentemente mas creio estar agora a ganhar espaço nas memórias e recordações dos mais antigos e de todos os que não querem acompanhar o abandono do estudo e leituras de História, Filosofia e demais Humanidades, porque um outro investigador, o catedrático e ensaísta Victor Sampedro, também não teve necessidade de vestir a toga para afirmar, ‘A opinião pública está a perder soberania’.

A liderança parece estar a ser ‘agarrada’ por uns tipos patuscos, como um despenteado argentino de nome Milei, mais uma versão sul-americana do trumpa, penteado e louro; o tal Milei pronunciou recentemente esta preciosidade Há uma empresa que contamina um rio e onde está o prejuízo? O que não está bem definido é o direito de propriedade. A empresa pode contaminar o rio todo se quiser! Como só olham um equilíbrio parcial não vêm o geral, e o que sobra é água! Numa sociedade em que sobra água, e o preço é zero, quem vai reclamar o direito de propriedade sobre esse rio? Ninguém, porque não pode ganhar dinheiro

Deve acrescentar-se que tal despenteado se apresenta em fotografia a ‘fazer cara de mau’, exactamente como o trumpa, quando foi fotografado pela polícia, mas que o levou a ganhar as primárias do partido da extrema-direita na Argentina. 

Evoquem agora, todos os que, mais ou menos penteados, já passaram por outros sítios de fazer acordos. Quantos mais, também a pendurarem-se no cabelo, teremos de gramar? 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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