Esta minha reflexão, sobre um crime sem criminalização adequada, vive comigo porque sinto que a sociedade está mais interessada em saber a que horas telefonou o ministro ao PM do que com o sofrimento da diversidade cultural e com os abusos contra qualquer um, neste caso contra crianças.
Conheci o medo, o pedido de ajuda, a tristeza, o não gostar dos pais porque estes ainda as castigavam, a falta de pessoas ou de instituições que zelassem pelos seus graves problemas. Foram muitas as crianças que, timidamente e com a cara lavada em lágrimas e sangue, foram contando as suas dolorosas dores físicas e morais, que não queriam pôr em público, porque já sabiam que iriam ouvir “não digas mentiras, o teu tio?”
Tinham vergonha, nem aos colegas da escola contavam, não sabiam que muitos deles também sofriam, em silêncio, a dor que nunca se esquece de terem sido magoados, humilhados, ameaçados…
A Exposição “Shame” esteve presente, entre o dia 8 de Agosto até 15 de Setembro no C.C. Colombo, sobre crianças que foram abusadas sexualmente, e que tem percorrido os países europeus, nela encontrei esta realidade que transcrevo:
“Portugal é um dos países europeus com pior classificação na protecção jurídica de vítimas de abuso sexual infantil”, citando um relatório internacional da organização Child Global.”
Confesso que gostaria que o chamado abuso sexual infantil, fosse denominado com mais precisão, não há abuso sexual infantil, não há abusos infantis, mas sim sobre crianças.
Aconselho assistentes sociais, escolas, pediatras, membros da Justiça, comunicação social, elementos do governo, deputados, autarcas e a população em geral, para não aceitarem que o Portugal das Crianças seja o país em que “a lei é assim” e “que não têm recursos humanos”. Para não aceitarem o silêncio das crianças e a conivência dos adultos.
Não tenhamos medo, e se fosse comigo quando era criança e se as crianças fossem das nossas famílias? Estejam atentos não só aos erros que as crianças cometem, por serem crianças, mas sim, também, às suas manifestações de tristeza, aos seus silêncios, ao medo e afastamento de certas pessoas da sua família.
O abusador manipula, seduz, às vezes apenas com rebuçados…para ganhar a confiança da criança, para sem aviso abusar delas. Quantas não percebem bem o que lhes aconteceu, só sabem que doeu.
Shame, vergonha, “os testemunhos de quase uma centena de pessoas, que mostram as dimensões da injustiça e do sofrimento, e atestam as profundas cicatrizes deixadas. No seguimento dos abusos e maus-tratos, os sobreviventes têm, ainda hoje, graves problemas físicos e psicológicos, vivem em situação de pobreza na velhice ou em isolamento social, sem apoio específico do Estado e da sociedade.” (citação retirada da Exposição Shame).
A exposição “SHAME – European Stories”, a qual o IAC, em Portugal, representa através de Justice Initiative (www.justice-initiative.eu), que visa combater os abusos na Europa.
Guido Fluri, Presidente da Fundação Guido Fluri e fundador da Justice Initiative, Dulce Rocha, Presidente do Instituto de Apoio à Criança e a atriz Melânia Gomes inauguraram a exposição fotográfica “SHAME – European Stories” no Centro Comercial Colombo.
A Exposição da Justice Initiative retrata adultos vítimas de abusos enquanto crianças, de 20 países europeus. É dada especial atenção às vítimas de abuso em Portugal.
Em Portugal, continuam a surgir casos chocantes de abuso –na igreja, nos desportos, em casa, nas instituições…
As crianças estão em perigo.
Estes e outros casos deram origem a uma Moção apresentada ao Conselho da Europa. Esta Moção exige uma reflexão sobre os abusos de crianças e sobre as formas de reparação nos Estados-Membros do Conselho da Europa.
No entanto, a maioria dos países, até agora, não reconheceu, não aceitou e não reparou. “Isto não é compatível com os valores europeus”, afirma Guido Fluri.
Juntamente com grupos de sobreviventes de toda a Europa, e ONG´s com competência em matéria de infância e juventude, como o IAC em Portugal, lançaram a Justice Initiative (www.justice-initiative.eu), que visa combater os abusos na Europa. Para mostrar a dimensão da injustiça e do sofrimento, foram sensibilizar e inspirar ações concretas para proteger as crianças, nomeadamente alterações legislativas, e criar um futuro mais seguro e saudável para todas as gerações.
A vida de infância de Guido Fluri, em lares e casas de acolhimento fez dele um lutador na questão das medidas sociais obrigatórias para todas as vítimas de abuso. Fluri é considerado uma figura de integração política e social.
Conselho da Europa é a principal organização de defesa dos Direitos Humanos, da Democracia e o Estado de Direito.
Justice Initiative – Abusos em Portugal – Serão as crianças culpadas só porque existem?
Em 2002, falou-se mais dos direitos dos réus do que dos direitos das crianças violadas.
Global Child é uma fundação sueca sem fins lucrativos, com sede em Estocolmo. Foi fundada em 2009, a fim de promover os Direitos das Crianças de acordo com a Convenção das Nações Unidas.