CARTA DE BRAGA- “da causalidade e novos caminhos” por António Oliveira

 

Na seu primeiro texto, ‘Teoria dos sentimentos morais’, publicado em1759, o filósofo e economista escocês Adam Smith, deixou uma sentença perfeitamente adequada a estes tempos, ‘As máquinas de guerra são agradáveis, mesmo que os seus efeitos imediatos possam ser a dor e o sofrimento. Mas são a dor e o sofrimento dos nossos inimigos, a quem não temos qualquer simpatia. Para nós, estão directamente ligadas a ideias agradáveis de coragem, de vitória e de honra’.

Creio estar aqui a realidade’ toda do que estamos a viver, um maniqueísmo doentio, fomentado pelos media e redes populares, onde o pensamento crítico parece não ter lugar, por estar demasiado longe tudo o que aconteceu mesmo que tenha sido na semana passada, se não referir estrelas do desporto ou da lifestyle consequência óbvia da urgência determinada pelas perguntas e pelas respostas, bem distante daquela coisa aterradoramente antiga, a pesquisa, decorrente de uma outra de igual peso, a leitura.

El Roto, ‘El País’, 10.10.23

Acredito sinceramente que nenhuma sociedade poderá resistir incólume a dezenas de anos em que as guerras, mais ou menos locais, mas, no fundo real e devastadoramente mundiais pelos efeitos e consequências colaterais ou não, para seguir uma terminologia muito usada há alguns anos , por nem os ‘bons’ nem os ‘maus’ escaparem a alguma perversão interna, tanto pela violência sabida ou vivida, como pela dimensão da propaganda apaniguada a qualquer dos lados, a dificultar sempre um eventual diálogo.

O filósofo e professor Viriato Soromenho Marques, deixou também escrito numa crónica no DN, ‘O pensamento ocidental ergueu-se, sistematicamente, sobre o valor do princípio da causalidade para conhecer as coisas do mundo (incluindo as humanas); temos de admitir que nada acontece sem uma causa; o princípio da causalidade está na base de quase três milénios de pensamento científico, um valor europeu de alcance universal’.

Meditação sugerida pela guerra na Ucrânia, mas que arrasta ainda uma série de considerações que se poderão esticar mais ou menos a outras latitudes, pois ‘Quem nega a causalidade destrói também a memória’ e, até por isso, ‘Os fracos reis da caótica nau ocidental talvez não falhem a oportunidade de nos levar a todos para o fundo’.

Entre a estética e a política também se ‘movimenta’ o filósofo italiano Georgio Agamben;  num artigo de titulo apelativo, ‘Os meios de comunicação e a mentira sem verdade’, Agamben refere a propósito, ‘Hoje ninguém nega que a Rússia conquistou e anexou vinte por cento do território da Ucrânia, sem o qual a economia ucraniana é incapaz de sobreviver; no entanto as notícias só falam da vitória de Zelensky e da inevitável derrota de Putin; a questão é saber quando pode durar uma mentira destas; é provável que se ponha de lado, mais cedo ou mais tarde, imediatamente substituída por outra, porque a realidade que ninguém queria ver acabará por se apresentar a exigir as suas razões, embora com o elevado preço de catástrofes e desastres, já difíceis ou mesmo impossíveis de evitar’.

O problema nesta massacrada e, por vezes, quase afundada nau ocidental, tem muitas centenas de anos como se pode aprender com Pascal Quignard, músico, filósofo, escritor e também Prémio Goncourt, numa entrevista datada do princípio de Outubro, ‘No final da Antiguidade, quando chegaram os bárbaros, os monges criaram as cartuxas e os mosteiros, uma forma de se colocarem em retiro no alto das montanhas, uma atitude profundamente política, pois defendiam os seus valores. Mas dá-me muito medo o que se passa nestes dias, nunca entenderei como se pode parar uma guerra com outra guerra, sem percorrer um outro caminho diferente’.

E Gaza!?!

Entender as causas de qualquer facto, perceber o porquê das coisas, deveria ser uma atitude marcante, tanto de baixo para cima como ao contrário, pois já o enorme poeta que foi Jorge Luis Borges, escreveu um dia ‘Temos de aprender os caminhos cada dia, porque o terreno de amanhã é demasiado inseguro para se fazerem planos’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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