Escreveu Kant –não sei se serão, exactamente, estas as palavras–, que o critério e a capacidade para o expor e desenvolver entre os cidadãos, é a base do pensamento crítico para saber diferenciar os políticos fiáveis dos outros –mesmo dos que até falam em ilusão e anestesia fiscal–, e saber distinguir a verdade do ruído informativo, tanto mais que, agora, as fake news e a pós-verdade, estão a criar e a sustentar o mau ambiente entre a cidadania e os meios de comunicação, sejam eles quais forem.
Na verdade, estamos a viver uma democracia de audiências onde, e como é compreensível, impera a emoção como ingrediente mais importante, tirando mesmo a valia aos programas e aos conteúdos. É o reino dos cromos, dos quase sem roupa, dos emplastros e & Cª, a fazer as delícias de um público indistinto, vulgar e conformista, pois vivemos na era do imediatismo, sem dar atenção ou esquecer como ‘Confiança, promessas e responsabilidade, são práticas que exigem tempo, enquanto o smartphone, o novo peluche que num instante trocamos por outro, altera os níveis de atenção e nos mete na era das selfies como prova e testemunho, até para reviver o que se passou’ .
São palavras de Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano professor em Berlim, acrescentando depois, ‘O smartphone transformou as coisas em “não coisas”, pela facilidade que a digitalização tem em substituir as necessidades e preocupações das pessoas, e facilitar e potenciar o seu egocentrismo’, afirmação que e aparentemente, também li uns dias depois, num trabalho de uma repórter sobre a digitalização e as gerações mais jovens, onde as novas tecnologias se transformaram em prioridade quase absoluta.
Tudo a começar por mais um atributo FOMO (Fear of Missing Out), ou medo de perder alguma coisa, ‘Aumenta todos os dias o número de pessoas a acorrer a desafios, mesmo que não lhes apeteça, mas por não quererem perder uma sensação agridoce e das que olham compulsivamente o ecrã do telemóvel para viverem experiências alheias’. O Cambridge Dictionary descreve este fenómeno, de que se começou a falar em 2004, como a preocupação de perder casos emocionantes que outros irão viver e que até podem fazer que as pessoas se sintam excluídas da sociedade, uma ansiedade com impacte directo na autoestima de cada um.
São coisas que, provavelmente, até os ‘gurus’ de Silicon Valley já começam a entender, por também aumentar todos os dias o número dos que proíbem os filhos de utilizar os telemóveis durante uma grande parte do dia, ‘por lhes limitar o desenvolvimento intelectual e afectivo, pois o salto qualitativo que se deu na tecnologia, significou um passo atrás na qualidade de vida; era uma vez, uma época não tão longínqua, em que não éramos tão tontos, nem estávamos tão sozinhos!), explica o também jornalista, escritor e crítico John Carlin.
Dramática, mas verdadeira, creio ser esta afirmação de Byung-Chul Han, o já atrás citado filósofo, que parece viver em contra corrente, ‘Acreditamos que somos livres, mas somos só os órgãos sexuais do capital’, o pensamento base do seu livro ‘A sociedade do cansaço’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Não me impressionam estas filosofias neo-orientais, um tanto afastadas da nossa cultura europeia. Desde que se tenha apetência pelo conhecimento e, a partir daí, se desenvolva alguma capacidade discursiva, o telefone móvel preenche necessidades apenas sonhadas em tempos idos mas não muito afastados. Tal como outros itens, como foi o cavalo e ainda é o automóvel no plano da mobilidade, o telemóvel, no plano da comunicação e não só, preencheu de forma espetacular, primeiro a carência de contacto a distância, depois o acesso a fontes de conhecimento anteriormente só possíveis através de bibliotecas, enciclopédias e dicionários, de manuseamento lento e com custos mais ou menos elevados, o usofruto de produções culturais baseadas no som e na imagem e, finalmente, o direito à expressão própria através das redes sociais, componente essencial na luta pelo reconhecimento que todos anseiam. São fáceis as críticas dos que sempre detiveram o monopólio da expressão e dela fizeram profissão ou negócio, tendo dificuldade em constatar manifestações de opinião fora dos canais que dominavam. Críticas admissíveis em relação à veracidade de notícias ou à qualidade das produções. Mas inadmissíveis em relação à possibilidade de as suprimir ou, pior ainda, de tentar regular a disponibilidade e uso do telemóvel, instrumento inovador que foi desenvolvendo múltiplas funções, sendo agora uma quase varinha mágica, coisa nunca sonhada nos tempos de canivete suíço.
Caro António Teixeira
Também vou deixar um comentário ao seu, não meu, mas de uma outra jornalista, ocidental, e diz assim – “Com a crise do coronavírus, intuímos que o fim do mundo nos iria apanhar a refrescar compulsivamente as nossas “redes” e, por isso mesmo, creio que a higiene das notícias não deveria ser um acto de responsabilidade individual, porque a justiça informativa é uma batalha ética e política pela qual cidadania e governos deviam lutar em conjunto’. Isto afirmou ela e também assino.
Obrigado
A.O.
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Obrigado Francisco! E também pela fidelidade,. como o comentário demonstra!
A.O.
“uma época não tão longínqua, em que não éramos tão tontos, nem estávamos tão sozinhos!”. Efectivamente.
Não me impressionam estas filosofias neo-orientais, um tanto afastadas da nossa cultura europeia. Desde que se tenha apetência pelo conhecimento e, a partir daí, se desenvolva alguma capacidade discursiva, o telefone móvel preenche necessidades apenas sonhadas em tempos idos mas não muito afastados. Tal como outros itens, como foi o cavalo e ainda é o automóvel no plano da mobilidade, o telemóvel, no plano da comunicação e não só, preencheu de forma espetacular, primeiro a carência de contacto a distância, depois o acesso a fontes de conhecimento anteriormente só possíveis através de bibliotecas, enciclopédias e dicionários, de manuseamento lento e com custos mais ou menos elevados, o usofruto de produções culturais baseadas no som e na imagem e, finalmente, o direito à expressão própria através das redes sociais, componente essencial na luta pelo reconhecimento que todos anseiam. São fáceis as críticas dos que sempre detiveram o monopólio da expressão e dela fizeram profissão ou negócio, tendo dificuldade em constatar manifestações de opinião fora dos canais que dominavam. Críticas admissíveis em relação à veracidade de notícias ou à qualidade das produções. Mas inadmissíveis em relação à possibilidade de as suprimir ou, pior ainda, de tentar regular a disponibilidade e uso do telemóvel, instrumento inovador que foi desenvolvendo múltiplas funções, sendo agora uma quase varinha mágica, coisa nunca sonhada nos tempos de canivete suíço.
Caro António Teixeira
Também vou deixar um comentário ao seu, não meu, mas de uma outra jornalista, ocidental, e diz assim – “Com a crise do coronavírus, intuímos que o fim do mundo nos iria apanhar a refrescar compulsivamente as nossas “redes” e, por isso mesmo, creio que a higiene das notícias não deveria ser um acto de responsabilidade individual, porque a justiça informativa é uma batalha ética e política pela qual cidadania e governos deviam lutar em conjunto’. Isto afirmou ela e também assino.
Obrigado
A.O.
Obrigado Francisco! E também pela fidelidade,. como o comentário demonstra!
A.O.