Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
28 min de leitura
A FINANÇA RAINHA E O DINHEIRO SUJO: A CITY DE LONDRES NAS ORIGENS DE UM PODER EXORBITANTE
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em 25 de Setembro de 2023 (original aqui)

A City é simultaneamente um bairro de negócios, uma entidade administrativa separada e um fórum para representar os interesses da finança britânica Segundo a ex e efémera primeira-ministra Liz Truss, a City é uma “joia da coroa”. Mas poderá facilmente vir a ser uma maldição para a economia britânica. Reportagem no coração do centro de negócios de Londres.
Funcionários grisalhos de uma companhia de seguros britânica lançando-se, tal como os piratas, no alto mar da finança internacional: assim começava O Sentido da Vida, um filme dos Monty Pythons lançado nas salas de cinema em 1983. O edifício neobarroco da empresa, transformado em navio, ancorado na City de Londres partiu à abordagem dos arranha-céus de Nova Iorque. Uma alegoria burlesca da época em que a venerável finança britânica se viu imersa no grande banho da globalização financeira.
Quarenta anos depois, é uma paisagem completamente diferente que se apresenta ao olhar daqueles que passeiam pelas ruas do coração histórico de Londres. Os edifícios vitorianos deram lugar a um aglomerado de arranha-céus modernos, cujas formas inspiraram nos habitantes apelidos jocosos- o “pickles”, o “bisturi” ou o “ralador de queijo”. Desde o Tamisa, o horizonte da City evoca agora o dos maiores bairros de negócios internacionais. E por uma boa razão: a densidade de bancos e instituições financeiras por metro quadrado atinge aí recordes.
Os números espelham a diferença: com cerca de 250 estabelecimentos, Londres representa a maior concentração de bancos estrangeiros, ultrapassando os centros financeiros de Nova Iorque ou Singapura. Quase metade das transações cambiais mundiais (43%) têm lugar em Londres, onde são trocados o dobro de dólares… que nos mercados cambiais americanos [1]. Em toda uma área de apenas uma milha quadrada – daí o apelido de milha quadrada atribuído à City – à qual se deve acrescentar o mais recente enclave de Canary Wharf, que faz fronteira com o Tamisa mais a leste. Todos os dias da semana, uma multidão cosmopolita de facto e gravata ou saia e casaco enche as ruas, escritórios e pubs dos bairros empresariais de Londres. Cerca de 420 000 pessoas trabalham no sector dos serviços financeiros. Uma população maior do que a de cidades como Bordéus ou Montpellier.
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Com cerca de 250 estabelecimentos, Londres representa a maior concentração de bancos estrangeiros, ultrapassando os centros financeiros de Nova Iorque ou Singapura. |
Apesar de sua aparência moderna como um importante bairro de negócios internacionais, a City também é o centro histórico de Londres. O conjunto, entre edifícios modernos e edifícios de vários séculos surpreende. No cruzamento da Leadenhall Street com a Saint Mary Axe, erguem–se cinco torres gigantescas, incluindo o edifício Lloyd’s, com uma arquitetura industrial que evoca o centro Pompidou [2], e o futurista Gherkin – o famoso “Pickle”. E então, no meio dessa gigantesca decoração, uma pequena igreja do século XVI parece estar aí completamente desenquadrada. Mais longe, a apenas cem metros de distância, o antigo mercado vitoriano de Leadenhall datado do século XIV – um dos mais antigos de Londres – abriga agora restaurantes e pubs que iluminam o pós-trabalho dos trabalhadores da finança. É adjacente à obra do próximo arranha-céus, 40.000 m2 de espaço de escritórios em construção, cuja conclusão está prevista para 2024.
Esta incrível mistura não tem nada de simples curiosidade. É uma chave para compreender o poder económico, político e simbólico concentrado ao longo dos séculos no perímetro da Square Mile. A City tem várias faces: é ao mesmo tempo um bairro de negócios que acolhe bancos de todo o mundo e o antigo coração histórico do Império Britânico. Uma infraestrutura essencial da finança mundial, é também o lar de instituições de origem medieval cuja influência se estende muito para além do Reino Unido. Então, de onde vem o nome City ? Para compreendê-lo, um primeiro desvio, um olhar para a história parece-nos inevitável.
A IDADE DE OURO DAS FINANÇAS DE LONDRES
Ainda hoje, vestígios da época em que a City já estava a emergir como um dos motores do capitalismo mundial estão ainda presentes na City.
O nosso primeiro encontro leva-nos ao bairro de Cornhill, onde, perdido num labirinto de becos medievais, existe um pub popular entre a fauna local. Ocupa o lugar do que foi no século XVII o Jamaica Coffee House, um café cujo nome evocava uma das primeiras colónias britânicas nas Caraíbas. “Havia então apenas uma simples barraca onde o café era servido”, explica Nick Dearden, diretor da organização Global Justice Now, que aceitou servir como nosso guia. “Depois, os cafés tornaram-se locais especializados para discutir negócios, em particular as idas e vindas dos navios mercantes”.
O desenvolvimento da finança londrina estava então ligado ao do comércio colonial. No século XVII, o financiamento de expedições às Índias Orientais ou às Américas era uma atividade tão arriscada como lucrativa. Os investidores tinham a oportunidade de tomar apenas uma simples participação nestas expedições. “Se o navio voltasse, o lucro era compartilhado. E, claro, se não voltasse, a aposta era perdida”, explica Dearden. Os bens produzidos nas plantações de escravos, como o tabaco, o café ou o índigo, eram valorizados na Europa. Mas é especialmente o açúcar, considerado como um verdadeiro “ouro branco”, que alimentou a maquinaria financeira colonial com o seu sucesso. Em Londres, o açúcar e o café eram consumidos em estabelecimentos como o Jamaica Coffee House, precisamente no local onde se discutia o próximo negócio. O tráfico de escravos era também uma atividade lucrativa, sobre a qual a Royal African Company, com sede na City, reinou durante muito tempo.
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O comércio de produtos coloniais e escravos ajudou a fazer a fortuna dos banqueiros da City, que financiavam comerciantes e investidores. |
O comércio de produtos coloniais e escravos ajudou a fazer a fortuna dos banqueiros da City, que financiavam comerciantes e investidores. Mais tarde, outros negócios assumirão essa função, como o do ópio. A acumulação de capital no centro de Londres acompanhou o desenvolvimento de uma variedade de serviços financeiros e jurídicos, como a corretagem de ações.
As empresas coloniais – como a poderosa British East India Company, a South Sea Company ou a Royal African Company – emitiam participações em papel. A subscrição ou a compra de ações destas empresas era ainda mais lucrativa, uma vez que beneficiavam, através de uma carta régia, da exploração de monopólios em determinados mercados ou zonas geográficas. E beneficiavam também da proteção da frota real britânica, a Marinha Real. Investidores e corretores costumavam reunir-se em cafeterias, que eram outras “tantas pequenas bolsas de valores”, diz Dearden.
Outra atividade financeira irá desenvolver-se na sequência do comércio colonial: a dos seguros. Outro café de Londres, localizado na Tower Street, foi então usado como ponto de encontro para comerciantes, capitães e armadores. Estes últimos podiam celebrar contratos para se proteger contra possíveis perdas com um clube de investidores conhecido como Lloyd’s Market, em homenagem ao proprietário do estabelecimento, Edward Lloyd. Graças à qualidade das suas informações e serviços, o Lloyd’s market ganhou rapidamente notoriedade a ponto de se tornar uma referência em termos de seguros marítimos. No século XVIII, o Lloyd’s já era a seguradora preferida dos comerciantes europeus, incluindo espanhóis e franceses. Hoje, é a maior bolsa de seguros do mundo e um dos maiores jogadores globais no setor de seguros. A sua sede situa-se na Lloyd’s Tower, que se ergue a partir da rua Leadenhall, no mesmo local onde se situava a East India House, sede da Oriental Company of the British Indies, e não muito longe da localização da Africa House, sede da Royal African Company. “Isto mostra a interconexão entre o desenvolvimento do Império britânico e o da City como uma potência financeira nascente”, resume Dearden.
O “SEGUNDO IMPÉRIO BRITÂNICO” E O PAPEL DO BANCO DE INGLATERRA
O nosso segundo encontro leva-nos não muito longe da rua Leadenhall, em frente à sede do Banco da Inglaterra (a “Velha Senhora”), cujo edifício colossal foi concluído em 1833. Discutimos com Nicholas Shaxson e John Christensen, respetivamente jornalista e economista especializado em finança britânica, outro período crucial na evolução da City: as décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. As nuvens estavam então a acumular-se sobre o centro financeiro de Londres. Os controlos de capital e de câmbio instituídos pelos acordos de Bretton Woods puseram em causa a própria essência da finança britânica. “Antes destes acordos serem criados a partir de 1946, os financiadores da City podiam operar em todo o mundo”, explica Christensen. “Os acordos de Bretton Woods restringiram severamente a circulação de dinheiro à escala internacional”.
A descolonização, imposta ao Reino Unido a partir de 1947, constituiu uma segunda ameaça existencial. “A City era o coração financeiro do Império Britânico”, explica Shaxson. “Ela começou a perder a sua posição com o declínio do Império”. A crise do canal de Suez em 1956 marcou a perda da influência do Reino Unido no cenário mundial. A retirada das tropas do Egipto vai de mãos dadas com as grandes saídas de capitais e a especulação que enfraquece a pedra angular da influência britânica: a libra esterlina. Para permitir que o lugar de Londres recupere a sua posição no novo ambiente financeiro global, os financeiros da City desenvolverão, à margem do antigo Império, uma verdadeira indústria de dissimulação e ocultação de capital. Uma rede offshore que lançou as bases do sistema financeiro moderno [3].
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Para permitir que o lugar de Londres recuperasse a sua posição no novo ambiente financeiro global, os financeiros da City desenvolverão, à margem do antigo Império, uma verdadeira indústria de dissimulação e ocultação de capital. |
A primeira oportunidade assumirá a forma de um vazio regulamentar deixado – de propósito? – pelo Banco de Inglaterra. Aquela que se chamava a Banca da City de Londres, nacionalizada após a Segunda Guerra Mundial, deveria desempenhar o papel de autoridade de supervisão bancária. Mas, aos seus olhos, as atividades dos bancos em nome de clientes não residentes e em moeda estrangeira não se enquadravam na sua jurisdição: estas operações simplesmente desenrolavam-se… “noutro lugar”. A porta estava aberta para que as transações efetuadas em dólares pelos bancos da City escapassem a qualquer supervisão ou controlo. Foi assim que foi criado o mercado de eurodólares de Londres: um mercado onde são trocados e emprestados os dólares offshore – fora do controlo das autoridades dos EUA e livres de quaisquer controlos de capital. Por outras palavras, um mercado cambial completamente desregulamentado, que a partir da década de 1960 atraiu detentores de dólares e bancos de todo o mundo – incluindo os americanos. Ofereceu a estes últimos a perspetiva de lucros elevados e a oportunidade de escapar aos reguladores nacionais, de aceder a novos clientes e a novos mutuários à escala internacional.
O afluxo de eurodólares a Londres acompanhará a criação, pelas instituições da City, de filiais em várias jurisdições britânicas ultramarinas, como as Ilhas Caimão, as Bermudas ou as ilhas anglo-normandas do canal de Jersey e Guernsey. “Essas instituições criarão centros financeiros offshore a partir do zero, oferecendo uma garantia sólida de sigilo financeiro”, explica Shaxson. O objetivo? Atrair assim para estas antigas margens do Império Britânico os capitais dos “não residentes” em busca de discrição: petrodólares do Médio Oriente ou da URSS, acordos de cartéis de droga, receitas de todo o tipo de tráfico, evasão fiscal… Estes capitais offshore não foram apenas retirados do controlo estatal: podiam ser reciclados – ou lavados – sem dificuldade pelas instituições da City através do mercado de Eurodivisas.
A ligação entre o centro financeiro de Londres e uma miríade de jurisdições ultramarinas – posteriormente designadas como paraísos fiscais – constituirá a base para a expansão exponencial da finança offshore. Este “Segundo Império financeiro”, segundo a expressão de Nicholas Shaxson, não poderia ter nascido sem o apoio tácito do Banco de Inglaterra. Com a aparência de uma fortaleza impenetrável, localizada no centro geográfico da Square Mile, ainda parece vigiar o bairro de negócios hoje. “O banco de Inglaterra manteve-se leal para com as instituições da City “, observa Christensen,”o seu pessoal também é frequentemente saído destes mesmos bancos”. A “velha senhora” não só possibilitou a criação do mercado do Eurodólar, como acompanhou o desenvolvimento do financiamento offshore, considerado com muita complacência. Num relatório confidencial datado de 1969, o banco afirmou que “não tinha objeções” à acumulação de capitais offshore – desde que os paraísos fiscais não fossem usados para fins de fuga de capitais britânicos.
Na concorrência com Nova Iorque, a complacência do banco de Inglaterra – e das autoridades britânicas – relativamente às atividades financeiras mais suspeitas tem sido uma das vantagens da praça financeira londrina. “No Reino Unido, nenhum banqueiro vai para a cadeia, os banqueiros são uma espécie protegida”, diz Shaxson. “Isso faz parte integrante do modelo de negócios offshore: você transfere para nós o seu capital e nós o deixaremos livre para agir como achar melhor, sem o risco de processo”. A isto junta-se a tradição reguladora britânica que deixa um lugar importante para os contactos informais e as redes de sociabilidade. Na década de 1970, como forma de supervisão, os banqueiros eram ocasionalmente convidados a ir ao Banco da Inglaterra para tomar chá e explicarem as suas atividades, como relata o historiador David Kynaston [4].
A partir da década de 1980, esta tradição de “regulação ligeira” assumirá a forma de um impulso para desregulamentar o sector financeiro, sob a égide de Margaret Thatcher. Trata-se do” Big bang ” de 1986, que facilitará ainda mais a instalação de bancos estrangeiros e eliminará os obstáculos regulamentares ao desenvolvimento exponencial do mercado dos serviços financeiros. O sucesso da praça financeira de Londres não foi negado desde então: o Reino Unido é agora o principal exportador mundial de serviços financeiros, com mais de 60 mil milhões de libras em excedentes [5].
A CORPORAÇÃO: UMA “INSTITUIÇÃO VENERÁVEL”
Este desenvolvimento, ou melhor, esta renovação da City como praça financeira mundial não teria sido possível sem fortes ligações dentro da elite política e administrativa do Reino Unido. Durante séculos, a finança britânica tem sido organizada para defender os seus interesses a nível nacional e internacional. Uma instituição em particular encarna a influência e o prestígio de que os financeiros da Square Mile são os depositários: a Corporation da City de Londres (City of London Corporation). É à sua sede que nos conduz o nosso próximo encontro.
A poucas ruas do Banco de Inglaterra fica o Guildhall, uma espécie de Câmara Municipal da City, que exibe orgulhosamente a sua fachada neogótica. Do edifício original que remonta ao século XV, restam apenas algumas salas, incluindo o grande salão cerimonial, onde podemos vislumbrar, aninhado numa alcova, a estátua de Winston Churchill. O resto do edifício foi reconstruído várias vezes após o grande incêndio de 1666 e após os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. O Guildhall também abriga os restos da muralha da City de Londres que datam do século XI ; bem como os restos do Anfiteatro da antiga colónia de Londinium, antiga capital da Bretanha romana fundada no ano 43.
Aqui situam-se os escritórios da Corporation da City de Londres. Esta instituição de origem medieval cumpre ainda hoje o papel de governo local. Mas as suas prerrogativas são muito mais amplas do que as de um simples município. “Somos responsáveis pelo governo de Square Mile, mas também pela defesa dos interesses da cidade junto dos governos e pela representação e promoção de todo o setor financeiro britânico”, explica Chris Hayward. No seu fato e gravata perfeitamente ajustada, o afável Presidente da Política da Corporation – o equivalente a chefe do executivo local – parece saído diretamente de um conselho de administração de uma grande empresa.
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Sob aparências por vezes absurdas, a Corporação aparece assim como é: uma instância de representação da Finança. E o seu poder está longe de ser simbólico. |
Para explicar essa estranha mistura de géneros entre as funções de ser um conselho municipal e a função de representar o setor financeiro, Hayward evoca a história da Corporation da City. Esta remonta a dez séculos ou mesmo mais. Tendo entrado vitorioso em Londres em 1066, o rei normando Guilherme, o Conquistador, teria consentido em reconhecer o status separado da cidade mercantil – cujas antigas muralhas agora traçam os limites da Square Mile – pela adoção de uma carta régia. Estes direitos e privilégios associados serão perpetuados e por vezes alargados ao longo dos séculos pelos monarcas, ansiosos por não alienarem os negociantes e financeiros londrinos, uma preciosa fonte de empréstimos e fundos para a coroa britânica.
Os anfitriões de Guildhall não deixam de exaltar as virtudes democráticas do funcionamento da Corporation, herdadas da Idade Média. Para a atenção dos visitantes, está em exposição uma cópia original da Carta Magna de 1297, que reafirma as liberdades concedidas pela realeza aos comerciantes e artesãos de Londres. Um documento considerado por alguns historiadores como uma das primeiras pedras do Estado de direito. “A Corporatiion é a democracia mais antiga do mundo”, entusiasma-se Hayward ao dizê-lo. Uma democracia muito singular, na realidade. Porque se as eleições municipais são de facto organizadas em cada quatro anos, elas integram entre os eleitores os representantes das empresas ativas na cidade em proporção do seu número de empregados. Os aproximadamente 9.000 residentes da Square Mile também podem votar, mas representam uma minoria dos 20.000 eleitores que votaram nas últimas eleições em Março de 2022. Por outras palavras: são os maiores grupos financeiros da City que dominam as eleições do Conselho da Corporação.
O sistema eleitoral da City também baseia-se, além disso, na cooptação: para se candidatar ao equivalente da Câmara Municipal, é necessário beneficiar do estatuto de “cidadão livre” (homem livre da City). Este ato de cidadania garantia outrora vários direitos, como o de participar em eleições e fazer negócios dentro da cidade. A maneira tradicional de obtê-lo envolve ser cooptado por vários dignitários da corporação, ou por representantes de uma de suas 110 guildas medievais ((livery companies [6]). Estas antigas associações de comerciantes e artesãos continuam a participar ativamente no funcionamento da Corporação [7]. Algumas ainda funcionam como associações profissionais autênticas, mas a maioria – cujas profissões desapareceram – cumpre agora um papel de sociabilidade no seio da boa sociedade da Square Mile e das organizações de caridade [8]. É o caso, por exemplo, da venerável companhia de fabricantes de sapatos de madeira ((Worshipful Company of Pattenmakers), da qual Hayward foi grão-mestre antes de ser nomeado Presidente Político (Policy Chairman).
UM PODEROSO ÓRGÃO DE REPRESENTAÇÃO DA FINANÇA
Sob aparências por vezes absurdas, a Corporação aparece assim como é: uma instância de representação da finança. E o seu poder está longe de ser simbólico.
Desde as suas origens, a Corporation acumulou riqueza, influência e prestígio únicos na história britânica. “É ao mesmo tempo esse estranho vestígio de tradições de outra época e uma das forças motrizes do capitalismo britânico”, explica Owen Hatherley, ensaísta e especialista em planeamento urbano de Londres. A Corporation goza ainda de muitos privilégios: para além dos seus poderes municipais em termos de serviços públicos e de desenvolvimento urbano, beneficia de uma isenção que lhe permite definir a sua própria taxa de imposto sobre as sociedades. A Corporation também tem sua própria força policial, independente da Polícia Metropolitana de Londres.
Os seus recursos financeiros são igualmente consideráveis. “A Corporation é incrivelmente rica, é de longe a comunidade mais rica do Reino Unido”, explica Hatherley. O City Cash é um fundo municipal destinado a gerir os ativos de Corporation. Em 2021, os seus ativos foram estimados em 3,4 mil milhões de libras. Os ativos fundiários e imobiliários detidos através do City Cash representam cerca de 2 mil milhões de libras e os investimentos geridos através de fundos de investimento 932 milhões de libras [9]. Além disso, outras propriedades são geridas por um segundo fundo, o City Fund, dedicado à cobrança de impostos e à gestão dos serviços municipais [10]. Em 2013, os ativos imobiliários da empresa foram estimados em 579.278 m2 em Londres e para lá da capital (Essex, Kent, Surrey, Buckinghamshire), incluindo cerca de 80.000 m2 de escritórios. [11].
A Corporation não é apenas um dos maiores proprietários de terras de Londres… é também a Autoridade de planeamento urbano da Square Mile. E o seu urbanista chefe de 1985 a 2014, Peter Rees, contribuiu amplamente para moldar o bairro de negócios. “É ao seu gosto pela “paisagem urbana” que devemos esta montagem artificial de arranha-céus modernos em ruelas medievais”, explica Hatherley. “Os promotores apresentam o seu projeto e a empresa decide se cumpre as suas orientações arquitetónicas”. Por exemplo, os arranha-céus devem evitar certos “corredores” para não obstruir a vista da cúpula da Catedral de São Paulo. No entanto, “além de alguns edifícios medievais, tudo pode ser destruído e reconstruído. O centro da cidade está a evoluir a grande velocidade, estamos mais perto do que se faz em Hong Kong ou Singapura”. O arquiteto do “Gherkin”, Ken Shuttleworth, não hesita em comparar o impacto do urbanista da Corporation com esse impacto… dos bombardeamentos alemães da Segunda Guerra Mundial: “não há forças que tenham tido um impacto maior no horizonte de Londres do que a Luftwaffe e Peter Rees [12]“.
Para cumprir a sua missão de promoção da finança, a Corporation pode contar com outro ativo: o seu próprio representante na Câmara dos Comuns. Este lobista-chefe, designado o Remembrancer, está autorizado desde 1685 a sentar-se como observador na Câmara baixa do Parlamento britânico para defender os interesses da City. Ele lidera uma equipe de advogados que analisa os projetos de lei debatidos na Câmara dos Comuns que podem afetar o setor financeiro britânico. O Remembrancer e os outros dignitários da Corporation têm à sua disposição os recursos financeiros do City Cash: o orçamento anual dedicado às suas atividades ascendeu a 13,7 milhões de libras em 2021. Um montante superior às despesas do mais importante lobby financeiro à escala da União Europeia, a poderosa Associação para os mercados financeiros na Europa (AFME). Este envelope anual cobre as despesas do Remembrancer; as despesas de representação do Lord Mayor, prefeito da City e verdadeiro embaixador da finança de Londres à escala nacional e internacional; e as despesas do Presidente da Política que à frente do executivo local.
QUANDO A CITY DETERMINA A AGENDA DO GOVERNO
Na sequência da crise financeira global, a venerável Corporation da City contribuiu, em 2010, para dotar o sector financeiro de uma vitrine mais “moderna”. TheCityUK é um lobby criado com a bênção de Alistair do Partido Trabalhista e do conservador Boris Johnson, que eram então respetivamente ministro das finanças e Presidente da Câmara de Londres. É nos gabinetes deste porta-voz da finança britânica que prosseguimos a nossa investigação, num elegante edifício de apenas cinco pisos, situado mesmo no coração da City.
O seu representante, Jack Neill-Hall, é um arrojado trintão com uma barba cinzelada e óculos grossos. O seu aspeto evoca menos a imagem de um financeiro da velha escola do que a de um jovem executivo dinâmico. Falamos com ele sobre o papel da sua organização e a agenda do sector financeiro da City. “A nossa organização é uma espécie de ONU da finança britânica”, brinca ele entre goles de café. O seu conselho de administração inclui representantes da finança mundial, representativos da diversidade dos grupos que ocupam a Square Mile: os americanos JP Morgan, Goldman Sachs e BlackRock; os britânicos HSBC, Barclays, Citigroup e Lloyd’s; e os franceses Societé Générale, BNP Paribas, Crédit Agricole e Axa ou ainda o Deutsche Bank e o japonês Nomura. Sem mencionar os consultores Ernst and Young, KPMG, PwC e os representantes da Corporação City [13].
“Possibilitamos que as empresas do sector falem umas com as outras e falem a uma só voz em tempos de crise”, explica Neill-Hall. É necessário dizer que não faltaram convulsões nos últimos anos. Sobretudo as ligadas ao Brexit. “Isso já faz parte do passado”, diz Neil-Hall. “Desde então, avançámos: a paisagem mudou, a indústria adaptou-se. No entanto, há muito que o TheCityUK tem sido um ator importante nas discussões sobre a regulamentação financeira a nível da UE. É por isso que a maioria do sector financeiro, com exceção de alguns riquíssimos proprietários de fundos de retorno total, se opôs ao Brexit. “Durante décadas, a City e os seus batalhões de lobistas ajudaram a moldar o debate sobre a regulamentação em Bruxelas”, explica Kenneth Haar, especialista em lobbying no Corporate Europe Observatory. “O último comissário europeu do Reino Unido antes do Brexit, Jonathan Hill, era ele próprio um antigo lobista da TheCityUK”.
Para Neil-Hall, o desafio agora é aproveitar a oportunidade oferecida pela separação com a UE: a de pôr em causa as normas europeias consideradas demasiado prescritivas e adotar regulamentos “flexíveis” e “feitos à medida” para a indústria britânica. A este respeito, o Brexit pode revelar-se uma oportunidade para se manter “competitivo” num mercado global cada vez mais turbulento. A UE é como um super-petroleiro, enorme e difícil de manobrar”, defende Neill-Hall, “enquanto o Reino Unido é agora um navio mais pequeno, mas mais manobrável”. E continua utilizando uma metáfora naval: “Num mundo em que os negócios e os ventos estão a mudar a uma velocidade vertiginosa, temos a oportunidade de ir mais depressa. O objetivo? Competir com o centro financeiro de Nova Iorque, “o único concorrente de Londres à escala mundial”.
Para Neil-Hall, cuidar dos interesses do sector financeiro é simplesmente uma questão de senso comum, dada a sua importância para a economia britânica. O argumento está bem rodado: “o sector representa 12% do PIB do Reino Unido, emprega 2,3 milhões de pessoas no país e exporta mais do que todas as outras indústrias juntas”, diz Neil-Hall com entusiasmo. Estes números estão um pouco sobrestimados, a acreditar no relatório sobre a contribuição do sector financeiro para a economia do Reino Unido, encomendado pela Câmara dos Comuns [14]. Seja como for, os números atestam o peso considerável da finança britânica, com um excedente comercial estimado em 46 mil milhões de libras.
O apelo da City para “flexibilizar” os regulamentos parece ter sido ouvido pelo governo conservador: em 20 de julho de 2022, apresentou uma nova lei sobre serviços financeiros, com o objetivo de operar um “Big Bang 2.0” da finança londrina – em referência ao período de boom que se seguiu às leis de desregulamentação do período Thatcher. Um dos seus instigadores, o ex-ministro das finanças de Boris Johnson e atual Primeiro-Ministro Rishi Sunak, afirmou já em Maio a necessidade de “reduzir a carga regulamentar no sector financeiro [15]“. Na ordem do dia, estaria em particular: a introdução de um novo requisito, para os reguladores, para promover a “competitividade internacional” dos serviços financeiros. O suficiente para definir no mármore, ou seja, tornar intangível a superioridade da agenda da City sobre qualquer outra consideração, e para acelerar a chamada corrida regulatória em termos de regulação financeira. Esta orientação foi entusiasticamente assumida pela efémera Primeira-Ministra Liz Truss, que quis seguir os passos da “dama de ferro”, Margaret Thatcher: no dia 6 de setembro, dia da sua nomeação pela Rainha, anunciou que protegeria a City como a “joia da coroa”, e que se concentraria em “energizar” este bairro de negócios (a City) “para melhor promover o crescimento [16]“. O governo de Liz Truss terá certamente durado menos de dois meses, mas o seu sucessor, Rishi Sunak, enquadra-se perfeitamente na continuidade desta agenda.
PARAÍSO FINANCEIRO, INFERNO SOCIAL
Há uma categoria da população de Londres que partilha certamente o entusiasmo dos conservadores mais desregulamentadores relativamente à benção representada por um florescente centro financeiro: os ultra-ricos. De muitas maneiras, a City ajudou a moldar a cidade como um refúgio para bilionários de todo o mundo. No seu livro, Alpha City, o sociólogo Rowland Atkinson, especialista em gentrificação, desenha um retrato edificante de uma capital britânica “colonizada” pelos ultra-ricos, “a cidade deixou de funcionar para as pessoas comuns mas está a funcionar para o capital”.
Em Londres, tudo parece ser feito para facilitar a vida dos mais ricos. Primeira vantagem: os serviços financeiros prestados pelas instituições da City e, em particular, a colocação do seu capital e dos seus ativos offshore, protegidos do controlo das autoridades. Não há risco de as autoridades demonstrarem qualquer zelo na luta contra a fraude: o ambiente jurídico é feito à medida dos ricos. Estes últimos estão seguros para investir – trata–se da” atratividade” ou da “competitividade” da capital britânica – bem como para aí residirem. Bilionários de todo o mundo podem comprar as suas residências ou terrenos simples a promotores imobiliários com pouca consideração pela origem do dinheiro, em dinheiro ou através de um fundo num paraíso fiscal. “No bairro central de Westminster, uma em cada dez casas é detida por um paraíso fiscal”, diz o sociólogo Rowland Atkinson. Eles também podem vendê-los rapidamente, conforme necessário. “Se assim o desejarem, os ricos podem até comprar a sua cidadania britânica”, observa Atkinson,”e não se privam de ir e vir em jatos privados, dos muitos aeroportos previstos para este fim”. Londres também é o segundo destino no mercado de jatos particulares depois de Nova York.
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A quase ausência de controlo sobre a origem dos capitais investidos em Londres contribui igualmente para fazer da cidade um centro privilegiado de circulação de fundos de origem criminosa ou fraudulenta. |
A quase ausência de controlo sobre a origem dos capitais investidos em Londres contribui igualmente para fazer da cidade um centro preferencial para a circulação de fundos de origem criminosa ou fraudulenta ou, de um modo mais geral, para a dissimulação de capitais. “A Agência Nacional de Luta contra o Crime Organizado calcula que cerca de 100 mil milhões de libras de dinheiro sujo são branqueados no Reino Unido todos os anos”, refere Atkinson. Londres é um local privilegiado para os executivos e oligarcas estrangeiros, nomeadamente russos, que desejam ter uma base de apoio para assegurar a sua riqueza e para se refugiarem em caso de complicações no seu país de origem.
“Com a crise ucraniana, o governo foi forçado a agir sobre a questão do crime económico”, diz Atkinson, “mas as medidas tomadas são muito fracas e têm muitas escapatórias”. Na verdade, os políticos de todos os matizes não estão ansiosos por questionar o modelo de Londres. “Para receber cada vez mais capitais de todo o mundo, membros do Partido Conservador e do Partido Trabalhista vêm antecipar os desejos dos super-ricos”, explica Atkinson. Políticos comprometidos com a causa da “competitividade” de Londres, às vezes eles próprios evasores de impostos, estão entre os grupos sociais cujo interesse se alinha com o dos muito ricos. Tal como outros “facilitadores” no sector dos serviços financeiros, jurídico, imobiliário ou de arte, restauração ou luxo.
“É do inferno dos pobres que se faz o paraíso dos ricos”, escreveu Victor Hugo. Na verdade, para o resto da população, a modelização da cidade em favor dos ultra-ricos está a provar ser uma maldição. A capital britânica tem sido o terreno de jogo de especuladores imobiliários desde há muitas décadas. “Para as pessoas comuns, a habitação tornou-se extraordinariamente cara”, explica Atkinson, “centenas de milhares de unidades de habitação social foram demolidas para dar lugar aos projetos dos promotores”. A gentrificação de Londres não é nova. O desenvolvimento da City desde o “Big Bang” de 1986, depois do enclave de Canary Wharf nos anos 2000, acompanhou a construção, em bairros populares como Tower Hamlets, de apartamentos de luxo e infra-estruturas para os trabalhadores mais ricos ou financeiros. Estas operações de “regeneração” urbana ajudaram a elevar os preços e a expulsar os antigos habitantes.
Em Londres, os preços dos imóveis continuam a bater recordes – um aumento de mais de 10% nos preços ao longo de um ano em 2022 – embora a capital já esteja entre as cidades mais caras do mundo. Isto reflete-se no preço das rendas, que saltaram 20% durante o mesmo período [17]. Especialmente porque os inquilinos gozam de menos respeito do que os proprietários ricos e são pouco protegidos pela lei: os arrendamentos são geralmente assinados por um ano, os alugueres podem aumentar livremente todos os anos. Os inquilinos podem até, após seis meses, ter o seu contrato de arrendamento rescindido pelo senhorio. Para além dos preços das rendas e dos imóveis, o custo de vida é elevado devido à debilidade das políticas sociais e ao elevado custo da libra. No verão de 2022, Londres ficou em quarto lugar no ranking das cidades mais caras do mundo [18]. A situação é tal que até já afeta os trabalhadores com melhores salários. “Entre o custo de vida e a ausência de proteção social, é financeiramente difícil considerar constituir família em Londres”, diz Pablo. Tendo vindo para Londres há dez anos a fim de trabalhar na finança, pretende agora deixar a capital britânica.
A MALDIÇÃO DA FINANÇA
Para John Christensen, o mal económico e social que atinge Londres e o Reino Unido está bem identificado: é o da “maldição da finança”. Este termo, que ele cunhou com Nicholas Shaxson, é inspirado no princípio da “maldição dos recursos” que atinge os países em desenvolvimento que exportam matérias-primas preciosas. A dependência da sua economia da exploração destes preciosos recursos conduz paradoxalmente ao seu empobrecimento.
O sobre desenvolvimento da finança britânica conduz a males idênticos. A “maldição das Finanças” traduz-se na captura dos recursos do país por uma economia voltada essencialmente para a extração de renda. A dependência excessiva do sector financeiro tem como consequência uma captura de políticos e reguladores, a fraqueza dos investimentos produtivos e da investigação e desenvolvimento e a concentração da riqueza em Londres. A sobrevalorização da libra, consequência do afluxo de capitais, contribui para um maior enfraquecimento da indústria e encarece o custo de vida.
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A “maldição da finança” traduz-se na captura dos recursos do país por uma economia voltada essencialmente para a extração da renda. |
“Os responsáveis políticos consideram que a City é a galinha dos ovos de ouro”, argumenta Christensen,”mas seria chegada a hora de pôr fim a este discurso”. Segundo o economista, o centro financeiro exerce sobretudo uma forma de parasitismo: “dizem que a City permite atrair capitais da China, dos Estados Unidos, da Europa e investi-los no Reino Unido”, continua Christensen. “Mas qual é a natureza destes investimentos? Imóveis, bolsa de valores ou fusões e aquisições. Ou seja, nada que beneficie a economia produtiva”. Por outro lado, o afluxo de capital alimenta o aumento do preço dos ativos nos mercados de ações ou imobiliários. A City seria assim, segundo este economista, o símbolo perfeito de um capitalismo rentista, voltado para a extração de riqueza, próximo do que já existia no século XIX.
Para Marieke Beck, especialista do King’s College de Londres sobre a City, o problema reside no facto de os interesses da finança estarem profundamente enraizados na sociedade britânica e na economia – o que alimenta o seu “poder estrutural”. O modelo social anglo-saxónico contribui muito para isso: com o declínio do Estado-providência e dos benefícios, os britânicos devem recorrer a alternativas de mercado para garantir a sua segurança social: a utilização de fundos de pensões ou de investimento imobiliário para se preparar para a reforma ou empréstimos ao consumidor para garantir o seu sustento em períodos difíceis. Mesmo que isso signifique contrair dívidas pesadas e muito cedo. Uma grande parte da população está assim ligada, por compulsão ou voluntariamente, ao sector financeiro.
O poder da finança vem da sua influência sobre a vida quotidiana, mas também da sua influência na cultura e nos imaginários – dos quais participa a sua capacidade de moldar o horizonte da cidade de Londres. E da sua influência sobre os líderes políticos, já reconhecida em 1937 pelo futuro Primeiro-ministro trabalhista Clement Attlee: “repetidamente, vê-se que há outro poder neste país que fica em Westminster. A City de Londres, este termo muito conveniente para designar um conjunto de interesses financeiros, é capaz de se impor contra o governo. Quem controla o dinheiro pode seguir uma política dentro e fora do país contrária à que foi decidida pelo povo [19].»
Hoje, a City parece mais do que nunca capaz de impor as suas opiniões às forças políticas britânicas – do Partido Conservador ao Partido Trabalhista liderado por Keir Starmer. “Com Jeremy Corbyn, demonstrámos que era possível e era também popular questionar o poder da finança”, diz James Schneider, membro da ala esquerda do Partido Trabalhista. “Mas a atual administração virou as costas a qualquer crítica à City”. Convidada para a Conferência Anual de 2022 da Cityuk, a deputada trabalhista Rachel Reeves, responsável pela Economia e finanças na liderança do Partido Trabalhista, ecoou o discurso tranquilizador dos lobistas da City: “o Reino Unido deve estar incrivelmente orgulhoso do sucesso internacional da sua indústria de serviços financeiros, que é o principal exportador mundial”.
A PRÓXIMA CRISE
E, no entanto, o poder da City poderá muito em breve tremer nas suas bases. Porque o modelo de crescimento financeirizado que promoveu é frágil. Depende do afluxo de capitais de todo o mundo para Londres para alimentar o investimento em atividades não produtivas (imobiliário, mercados financeiros) e incentivar o consumo de luxo… ou a crédito. As recentes crises poderiam muito bem fazer cair este castelo de cartas. A crise energética iniciada pela invasão da Ucrânia, a inflação e o aperto monetário iniciado pelo Fed levaram a uma “fuga do capital para a segurança”, para compra das ações americanas, fortalecendo o dólar e penalizando outras moedas.
Quando a maré do capital barato está já a desaparecer, a fraqueza da economia britânica dos alugueres, acentuada pelo Brexit, vem à tona: bases económicas pobres, indústria sem sangue, sobrevalorização dos ativos… A queda da libra aumenta ainda mais a inflação elevada. Os investidores estão preocupados com a perspetiva de recessão e com severas correções futuras no valor das ações e obrigações. Após duas décadas de aumentos contínuos de preços, os imóveis começaram a cair. Mas também temem um ressurgimento do movimento social face ao aumento do custo de vida, com greves em massa em muitos sectores e numa escala sem precedentes durante décadas.
Perante este cenário de catástrofe, o (breve) governo instituído por Liz Truss, entre 6 de setembro e 25 de outubro de 2022, parecia querer radicalizar a política de captação de capital, a mesma política que levou o Reino Unido a um impasse. Em 23 de Setembro, o seu ministro das Finanças anunciou um plano para cortes em massa de impostos destinados aos mais ricos – por quase 45 mil milhões de libras. Mas este pacote foi recebido mais do que friamente pelos mercados: levou a uma nova queda na libra e forçou o Banco da Inglaterra a intervir massivamente para conter o aumento das taxas de dívida britânica.
O início de uma crise profunda do modelo de economia britânico? De qualquer forma, o sucessor de Liz Truss, Rishi Sunak, não mostra nenhum desejo de romper com o domínio da City. Pelo contrário, com o seu projeto de “Big Bang 2.0”, prepara-se para programar uma nova vaga de desregulamentação financeira- o que é como estar a brincar com fósforos quando está sentado sobre um barril de pólvora.
Nota : este texto é uma versão enriquecida de um artigo publicado no Monde Diplomatique de maio de 2023.
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Notas:
[1] « Key facts about the UK as an international financial centre 2022 », TheCityUk, janvier 2023, et « Key facts about UK-based financial and related professional services 2023 », março de 2023.
[2] E com razão: o Lloyd’s Building foi concebido por um dos arquitetos do Centro Pompidou, Richard Rogers.
[3] O documentário The Spider’s Web, realizado com a ajuda de John Christensen e Nicholas Shaxson, analisa a forma como esta rede financeira offshore foi criada.
[4] David Kynaston, Till Time’s Last Sand: A History of the Bank of England 1694-2013, Bloomsbury Publishing PLC, 2017.
[5] «State of the sector: Annual review of UK financial services 2022», relatório conjunto do Tesouro britânico e da Corporation da City de Londres, julho de 2022.
[6] N.T. Aqueles que trabalham no mesmo ofício viviam e trabalhavam próximos uns dos outros, agrupando-se para regular a concorrência no seu comércio e manter padrões elevados. As primeiras guildas de Londres beneficiaram os seus membros e clientes, controlando a fabricação e venda da maioria dos bens e serviços na Square Mile.
[7] Por exemplo, os representantes das guildas elegem um certo número de representantes honoríficos e selecionam candidatos para o papel de Lord Mayor.
[8] Como a venerável companhia dos banqueiros internacionais, que tem a particularidade de acolher membros de todas as nacionalidades, ou a venerável companhia dos conselheiros fiscais.
[9] Relatório anual e situação financeiro de «City’s», Corporation de la Cité de Londres, 2021.
[10] «Fundo da City de Londres», Corporação da City de Londres, 2022.
[11] «Operational Property Portfolio Report 2013», Corporação da City de Londres, 2 octobre 2013.
[12] «Peter Rees: The man who reshaped the Square Mile», Evening Standard, 20/03/2014.
[13] «Leadership Council», sitio de TheCityUK (consultado em 2 de outubro).
[14] De acordo com este relatório sobre a contribuição do sector financeiro para a economia britânica, o sector contribui “apenas” com 8,6% para o PIB (o dobro da França e da Alemanha), com um total de 1,1 milhões de empregos.
[15] «Rishi Sunak to weaken City regulation in post-Brexit nod to Tory donors», The Guardian, 10/05/22.
[16] «New PM Liz Truss will protect ‘crown jewel’ City of London», City A.M., 06/09/22.
[17] «These Are the World’s 20 Most Expensive Cities for Expats», Bloomberg, 08/06/22.
[18] Ibid.
[19] C. R. Atlee, The Labour Party In Perspective, Londres, Hesperides Press, 1937, 2008
O autor: Frédéric Lemaire é membro da redação de Action Critique Médias (Acrimed), doutorando em Economia. É também membro da Attac, tendo coordenado a redação de dois livros: Par ici la sortie-Cette crise qui n’en finit pas (Les liens qui libèrent, 2017) e Les naufragés du libre-échange, de l’OMC au TAFTA (Les liens qui libèrent, 2015).


