CARTA DE BRAGA – “da cultura e preconceitos” por António Oliveira

Esta Carta é só uma curta e insuficiente reflexão sobre uma parte muito importante da minha vida, a que dediquei ao ensino desde que, no muito distante 1957, o director de um colégio que frequentava na altura, me entregou um conjunto de alunos que tentava fazer o exame da quarta classe. Eram outras terras e outras gentes, mas também mostravam as necessidades que os governos de então lá e cá, mas os dois distantes em tudo não queriam, não sabiam, nem estavam interessados em resolver; as prioridades eram outras e eu não passava de um garoto, mesmo estando antão, no antigo sexto ano dos liceus! 

Depois passei pelo ensino secundário e pelo superior, até ter parado, não só pela idade, mas também por ser cada vez mais difícil conversar com os alunos fora do tempo das aulas, e sobre assuntos e temas que ultrapassassem a urgência do quotidiano, ou de um passado mais longínquo do que tivesse acontecido ‘ontem’! 

Mas esta escrevedura nasce por, num curto espaço de dois dias, ter lido dois textos, uma notícia e uma entrevista, de alguma maneira ligadas, àquela vida e àquelas gentes, também de outras terras; e dizia a primeira ‘Alunos do 1.º ciclo estão a receber manuais velhos e todos escritosdepois de dois anos em que a reutilização esteve suspensa devido à pandemia’.

A pessoa entrevistada no segundo texto, da tribo boliviana Quechua, tecedeira e contadora de estórias, mas licenciada em Artes pela Academia de Belas Artes de La Paz, afirma a determinado passo, ‘Quando os meus irmãos da comunidade quiseram aprender comigo tive um choque, porque, barroco, rococó, neoclássico… que lhes podia interessar tudo isso?’ 

A questão dos manuais velhos e todos escritos, devo dizer que seriam bem recebidos naquela altura, porque os meus passaram pelas mãos de toda a gente, como foram recebidos e agradecidos também por todos aqueles que dificilmente poderiam ter outros; e quando acontecia, por uma qualquer outra razão, haver mais manuais antigos, escritos e até desenhados e riscados, era uma festa por também ‘poderem ter livros’!

A outra questão, a dos estilos, que não interessariam a gentes tão afastadas deles como das mentalidades que os geraram, lembro-me bem de, muitos anos depois, na mesma terra e entre as mesmas gentes, me terem dado, para ensinar, os reis, as dinastias, as serras, os rios e os afluentes, deste país tão longe deles e da sua cultura, mas tão ‘importantes’ como tinha sido para mim, ter de decorar os ‘contornos’ da Europa e outras picuinhices que, então e por cá, faziam as delícias dos mandantes da educação. 

Foi (e é!) um problema de sempre, mas maior agora, se referirmos o mundo da política e do poder, por Saberem muito bem o que lhes devem, mas esquecerem facilmente o que devem a outros, também o dom inato que têm para a omissão, mas só daquilo que convém não lembrar; uma capacidade hábil e obviamente agarrada pelos ‘heróis’ da pós-verdade, das ‘fake news’ e ainda pelos ‘manhas de todas as manhãs’.

Era complicado então, muito mais por lá que por cá, construir e conseguir um grupo de alunos bons leitores, para lhes permitir entrar num universo literário, cultural e mesmo científico, por tal não ter sido nunca intenção dos tais mandantes de tudo, principalmente da educação, pois até poderia permitir o acesso crítico à palavra e transformar as gentes em cidadãos críticos, a saber dar respostas aos problemas que era necessário resolver. 

E diz ainda a tal senhora tecedeira, licenciada em Artes, ‘Quando um professor só dá ordens sem aprender com os alunos, a aula converte-se em jaula; nós aprendemos de forma comunal, horizontal, livre… E na universidade, não nos escutavam, porque para eles, éramos uns pobrezitos ignorantes, a que se devia educar na verticalidade da transmissão do saber’.

Uma afirmação que Martha C. Nussbaum, filósofa norte-americana, professora de direito e ética na Universidade de Chicago, critica seriamente, ‘Esta visão limitada da educação, baseada nas habilidades rentáveis, corroeu as nossas capacidades para criticar a autoridade, para ter compaixão pelas gentes diferentes ou marginalizadas, e converteu-se num obstáculo para o desenvolvimento da nossa capacidade de lidar com os complexos problemas globais’. 

Uma outra maneira de encarar esta questão, foi dada no ‘Dicionário das ideias feitas’, a obra nunca terminada do escritor francês Gustavo Flaubert (1821-1880), por dizer que as estupidezes e os preconceitos são um enorme perigo para a inteligência, pois ‘Os preconceitos são quase sempre filhos da ignorância’. 

Para que conste!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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