‘Johnny Guitar’ é um filme de 1954, realizado por Nicholas Ray, que tive oportunidade de rever uma boa quantidade de vezes, tanto pela realização, como pela interpretação de Joan Crawford e Sterling Hayden.
Não quero nem devo fazer aqui qualquer sinopse, mesmo curta, daquele filme, preservado até –e já há muito tempo–, na secção de cinema da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, por cultural, histórica e esteticamente significativo.
Mas há uma frase de Johnny que recordo sempre, apesar de também aproveitada por muita gente para reforçar uma qualquer afirmação, tese ou conclusão de artigo, crónica ou divagação, ou até adaptar para outros filmes, ‘Diz-me que me esperaste todos estes anos, mesmo que seja mentira’; nem lembro bem se será exactamente esta a frase, por já lá irem muitos anos, depois da última vez que vi aquela estória de um cowboy e a dona de um bar.
Mas voltei a rever a cena, quando li uma crónica de John William Wilkinson, poeta e jornalista australiano, mas a viver na Europa há umas dezenas de anos e que, ao comentar o clima de pós-verdade e mentiras em que vivemos, afirma, ‘Goebbels cavalga novamente; as profecias de George Orwell são cumpridas; as pequenas negações são consumidas nas chamas que eles próprios não querem ver; o bonismo está a caminho de montar uma Santa Inquisição; é a podridão verbal que sai da boca de alguém que bebeu mais do que a conta. Manipulamos as línguas ao ponto de transformar o verbo mentir num inócuo faltar à verdade; habitamos a pós-verdade, a pós-modernidade, a sociedade líquida, a inteligência artificial, o “brexit”. Uma mentira é respondida com outra mais gorda’.
Não há muitas semanas, Norbert Bilbeny, catedrático de Ética, reflectia assim sobre os tempos que vivemos, ‘A vida é só um sonho, garantia Shakespeare; um sonho como explicação para tanto revés; estamos comodamente a viver “o sonho do eu fictício”, deixando que a tecnologia nos arraste para um mundo em que a realidade perde boa parte do seu sentido’.
Pelo caminho que as coisas estão a desenvolver-se –em qualquer campo, e até no da inteligência artificial– tenho quase certeza de que o maior problema do futuro e das próxima gerações, vai ser a da estatuição da verdade, para não sermos confrontados com a nossa própria imagem, a dizer coisas que nunca nos saíram da boca e outras desconformidades, como já se vai vendo, ouvindo e lendo por aí. Um problema a necessitar de educação e formação a todos os níveis, sem deixar isso só às redes sociais.
Aliás Ortega y Gasset salientou muitas vezes a importância do indivíduo como ser social e solidário num qualquer organismo, em que todos devem e têm de colaborar para um funcionamento perfeito, ‘O homem é o ser que necessita absolutamente da verdade e, em sentido contrário, a verdade é a única coisa que, essencialmente, necessita do homem, a sua única necessidade incondicional’.
Na verdade, o homem racional e consciente, tem uma obrigação para com a sociedade, também o dever dela para com os indivíduos que a constituem –elevar a cultura, proporcionar justiça, liberdade e bens materiais– para que todos possam desenvolver as suas capacidades.
Só a partir da assunção desta premissa, se poderão controlar as expectativas que pomos em tudo o que refere tempos vindouros, tal como Saramago afirmou num dos seus livros ‘As expectativas fazem algo mais do que anular as surpresas, embotam as emoções, banalizam-nas, e tudo o que se desejava ou temia, já tinha sido vivido, enquanto se desejou ou temeu’.
E hoje, é fundamental saber distinguir a verdade do ruído informativo, pois a informação falsa está a acertar um golpe muito duro nas relações entre a cidadania e os diversos órgãos de comunicação porque, tal informação sem critério, molesta e entontece, quase a fazer desaparecer os conteúdos, para só nos mostrarem os ‘cromos’, pois há por aqui, ou mais longe, nesta Europa ou no resto do mundo, uma belíssima e variada colecção deles, para poderem escolher com quem nos hão de enganar!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor