Impressões sobre a China – Parte 2
por António Gomes Marques
Outro sector a que não resisto referir-me é o da habitação. Vou servir-me de informações que colhi em https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/habitacao-china-enfrenta-a-bolha-imobiliaria/ e em outros sítios (sites), que confrontei, nas minhas conclusões, com o que ouvi na China sobre o mesmo sector. Começo por um gráfico:
Em Portugal, em Espanha e em outros países europeus a recessão de 2008 com origem no sector imobiliário levou a que mais de 60% dos jovens até aos 35 anos estejam condenados a continuar a viver com os pais, dado que os seus rendimentos não lhes permitem pagar uma renda de casa ou mesmo a prestação para aquisição de casa própria, tal tem sido a especulação no sector imobiliário, questão esta que vemos referida na imprensa quotidianamente pelo que não vou referir algumas das razões que criaram tal situação. Claro, por detrás de tais razões está sempre o capitalismo selvagem, agora o capital financeiro, que permite que os mais ricos se tornem ainda mais ricos.
Também na China, a bolha imobiliária levou gigantes da construção de imobiliário à falência, sendo o caso da Evergrande Group talvez o mais badalado, obrigando o governo chinês a intervir. Esta empresa tornou-se a mais endividada do mundo, chegando a atingir um passivo de 300 mil milhões de dólares, o que levou o Tribunal de Hong-Kong a decretar a sua falência em Janeiro de 2024, acabando por sair da bolsa em Agosto do ano seguinte, devido aos empréstimos agressivos como consequência da enorme expansão do sector dos veículos eléctricos, mas não só, com a consequente crise imobiliária. Quem poderia comprar casa com encargos cada vez mais altos?
A corrupção também marcou presença, com as empresas de construção a pressionarem as autoridades locais para desalojar os habitantes dos bairros antigos para construírem ali os seus arranha-céus e conseguiram, em muitos casos os seus intentos. Os anteriores habitantes não tinham como impedir o derrube das suas casas.
A rápida urbanização da China foi também possível por essa acção conjunta de corruptores e corruptos, sobretudo sobre os habitantes dos becos tradicionais com pátios, os chamados hutongs, que existiam aos milhares, sobretudo em Pequim e nas vilas urbanas, o que deu origem a disputas sociais e a perda de património histórico. A partir de 1990, milhares desses hutongs foram demolidos, o que obrigou à deslocação de 500.000 moradores, os quais reagiram, mas as autoridades que era suposto estarem ao seu lado estiveram ao lado das empresas de construção e colocaram as forças policiais a remover os mais resistentes. Algumas zonas rurais foram absorvidas pela expansão das grandes cidades, caso da Vila Dachong, em Shenzhen, obrigando os seus habitantes, e foram milhares, a sair das suas casas. Acções contra essa corrupção também existiram, com as autoridades a conseguirem recuperar mais de 2 mil milhões de dólares em activos ilícitos, como transferência de terras e nas autorizações para construção que não obedeciam às regras legais, fruto de investigações criminais. Muitos funcionários locais foram corrompidos pelos promotores imobiliários para ignorarem essas regras, autorizando demolições ilegais e permitindo construções de luxo. Por várias zonas da China houve uma expansão descontrolada até surgirem as cidades fantasma, com muitos edifícios construídos e sem possibilidades de ocupação por não haver procura, o que levou o governo chinês a actuar, preservando a construção antiga e apenas permitindo a construção moderna de acordo com a necessidade de crescimento económico, restabelecendo a estabilidade social, impondo algumas restrições à construção de prédios com mais de 500 metros, combatendo, em simultâneo, a corrupção. Este custo social, agravado pela corrupção como refiro, não poderia ser evitado no quadro de um regime que diz querer estar mais próximo do povo sem pôr em causa o mesmo progresso?
Hoje, após a falência de muitas empresas de construção e agora com Xi Jinping, essa situação terá sido ultrapassada. Com ele na Presidência, a corrupção começou a ser tratada como ameaça à integridade não só do Partido Comunista da China, mas também do Estado. Só em 2024 foram punidos perto de 900 mil funcionários, com penas severas que podem ir de pena de morte (normalmente comutada para prisão perpétua após dois anos de bom comportamento na prisão), privação vitalícia de direitos políticos e expulsão do partido e destituição de cargos públicos, confiscação total de bens, multas elevadas. Recentemente, em 2025, o ex-ministro da agricultura, Tang Renjian, foi condenado à morte com suspensão por estar envolvido em fraudes correspondentes a cerca de 36 milhões de euros.
O combate à corrupção está centrado, fundamentalmente, em «tigres», que são os altos funcionários, e em «moscas», os pequenos funcionários.
Perante as medidas que estão a ser tomadas podemos dizer que a corrupção na China desapareceu? É evidente que não; a China poderá estar a ir na boa direcção, mas terá de andar ainda muito, atendendo ao ranking mundial, para diminuir substancialmente o seu índice de corrupção.
Em 17 de Maio de 2024, numa teleconferência a partir de Pequim, o vice-primeiro-ministro He Lifeng sugeriu aos governos locais a aquisição dos imóveis construídos para habitação subsidiada pelo governo. Nesse mesmo dia anunciou outras medidas, como a redução das taxas de entrada e dos juros do crédito hipotecário para habitação de modo a aumentar o número de imóveis disponíveis no mercado. Também o Banco Central da China afirmou ir reduzir ainda mais as taxas de juros para os empréstimos hipotecários.
Grandes bairros habitacionais novos são visíveis em todas as cidades por onde passei, incluindo os que via perto das estações ferroviárias onde parei, mas em muitas daquelas torres de habitação não me pareceu ver sinais de ocupação. A construção terá maior do que a procura e daí os gravíssimos problemas tidos pelas empresas construtoras? Segundo meios de comunicação ocidentais, aquando do espoletar da crise, havia 4 milhões de imóveis concluídos e não vendidos, o que obrigou o governo chinês a tomar medidas que nada têm a ver com as medidas que, em casos idênticos, são tomadas nos países capitalistas ocidentais, com os resultados que vimos, ou seja, com milhões de famílias a terem de entregar as casas aos bancos credores.
As medidas do governo que acima refiro procuraram responder a este problema, julgo. Foram também promulgadas medidas contra a especulação, nomeadamente, estabelecendo restrições à compra de segunda habitação.
Com a falência de algumas construtoras, sendo o caso mais grave o que referi, muitos projectos ficaram inacabados, milhares em todo o país, com os que tinham garantia de segurança, a receberem financiamento público para a sua conclusão. Lembro que em 2021 havia na China 122 mil construtoras privadas, muitas delas com capitais estrangeiros e algumas com acções a serem cotadas em Wall Street.
Outra medida, talvez a mais importante, consistiu em estimular as administrações locais a comprar apartamentos vagos para, depois, os alugar a quem ainda não tenha possibilidades para os adquirir. Onde há terrenos disponíveis para a construção de habitação onde esta falte, as administrações locais ficaram autorizadas a criar empresas públicas para construir essas habitações necessárias nessas zonas e, depois, alugá-las. Para este fim, foi constituído um fundo imobiliário governamental, a que todo o país passou a ter acesso, de 41,6 mil milhões de dólares.
Lembremo-nos, por exemplo, do que aconteceu nos EUA com Barack Obama na presidência a ser incapaz de dar uma resposta à altura da crise que se viveu e que obrigou tanta gente a entregar as suas casas aos bancos. Podemos também lembrar o que de idêntico se passou em outros países, nomeadamente em Portugal.
À esquerda, os apartamentos com 8 m² e, à direita, pode ver-se o contraste com outros edifícios
(fotografias AGM)
Em Hong-Kong não há espaço para mais construções e a especulação com a habitação torna-se muito mais difícil de controlar. As autoridades locais têm listas de pessoas à procura de habitação e, aqueles que já têm trabalho na cidade mas não têm ainda casa, podem ocupar umas micro-casas, cedidas pelo governo local, chamadas gaiolas e casas-caixão, com 4-6 m², e umas outras um pouco maiores, com 8 m², onde cabem 3 pessoas, casas que abandonam logo que lhes é atribuído um apartamento. As fotografias acima foram tiradas em Kowloon, na região norte de Hong-Kong.
Quando o Partido Comunista da China tomou o poder (1949), apenas 11% da população vivia nas cidades; em 2022, essa percentagem era já de 65%, correspondendo na altura a 921 milhões de pessoas, com a emigração do campo para as cidades a continuar, como acima refiro.
A decisão do governo revolucionário, com Mao Tsé-Tung, no cumprimento da colectivização, foram criadas empresas estatais para a construção de habitação, exemplo seguido pelos governos locais e por instituições públicas, para alugar a preços baixos aos seus empregados, sendo a única forma que estas entidades encontraram para dar resposta às necessidades de habitação para as pessoas que, aos milhões, começaram a chegar às cidades e, em 1980, era nestas condições que viviam 75% das pessoas e a industrialização do país exigia mais casas. Para responder a tamanha procura, foi permitido a criação de empresas privadas e não apenas para a construção de habitação, com grande controlo por parte do Estado. Ora, as empresas privadas têm como objectivo a obtenção do lucro, com a exploração dos trabalhadores típica do capitalismo, mas para o governo isto nada tinha a ver com a restauração do poder burguês, mas com a criação do que chamaram socialismo com mercado.
No caso da habitação, o resultado não pode ter outro qualificativo que não seja grandioso: em 2019, 92,6% da população vivia já em casa própria, em apartamentos com áreas superiores à média internacional.
O mercado da habitação tornou-se apetecível e as empresas privadas visam o lucro, como já lembrei, a especulação está à espreita, os bancos querem fazer empréstimos e as pessoas querem também ganhar dinheiro e aproveitar o «boom». O resultado foram as falências atrás relatadas, as dívidas de quem queria especular mantendo as segundas casas à espera de valorização, mas deixou de haver quem tivesse rendimento suficiente para comprar essas casas «valorizadas» pelo mercado, o chamado esquema tipo pirâmide — compro uma casa com crédito bancário, crédito esse que pagarei com lucro da venda dentro de algum tempo à espera da valorização da habitação, o que é típico do capitalismo —, mas o rendimento das pessoas não aumenta na mesma proporção da especulação imobiliária e, quem necessita de habitação não tem possibilidade de adquirir casa ao preço do mercado, ficando as casas vazias e as pessoas que entraram na especulação sem dinheiro para honrar os empréstimos contraídos. E o Estado teve de intervir com as medidas que mais atrás descrevi, marcando-se aqui uma enorme diferença com o clássico capitalismo — veja-se a crise de subprime.
O socialismo de mercado «meteu-se» com o capitalismo e o Estado teve de reparar os erros sociais cometidos. No Ocidente, as consequências para as pessoas foram bem mais gravosas, como para alguns bancos que tiveram de abrir falência, salvando-se aqueles que o Estado, com o dinheiro dos nossos impostos, não deixou falir. Muitas empresas privadas tornaram-se grandes demais para poderem falir, pois as consequências seriam altamente gravosas para a economia chinesa, daí o Estado não poder deixar de intervir.
Refira-se a este propósito que o Estado chinês tem um dos maiores fundos de reserva soberana e, depois do congelamento das reservas russas como consequência da guerra na Ucrânia, a China tem vindo a diversificar os seus investimentos no estrangeiro, fugindo ao controlo do Ocidente, e começou a converter parte desse fundo — China Investment Corporation (CIC) — na compra de ouro (como a Rússia também o está a fazer), onde se inclui o ter começado a desfazer-se da dívida pública dos EUA que detém. Lembro que a China, em meados de 2025, detinha entre 730 e 765 mil milhões de dólares em títulos da dívida pública dos EUA, o que fazia deste país o terceiro maior credor dos EUA, mas entre 2023 e 2024 vendeu 100 mil milhões de dólares, que substituiu por ouro e, pelo que se diz na imprensa internacional tem continuado a fazê-lo, causando sérios problemas aos governos norte-americanos, mas este facto Trump procura escondê-lo.
Também é sabido que a China não tem dispensado a contracção de dívida obtendo empréstimos no estrangeiro, mas ninguém diz que a China não tem possibilidades de pagar a sua dívida, sendo voz quase unânime que os EUA têm uma dívida de tal modo colossal que jamais terão possibilidades de a pagar. Deixo esta questão para os analistas da economia mundial, dado eu não ter competência para fazer tal análise. Sei, no entanto, que a China dá prioridade a investimentos de longo prazo em inteligência artificial, energia limpa e infra-estruturas fundamentais para o desenvolvimento do país, pensando assim cuidar do futuro.
A taxa de chineses com casa própria relativa a 2019 mantém-se e eu confesso que fiquei um pouco incrédulo, mas tenho feito buscas na internet e essas taxas continuam a constar em toda a informação que obtive, ou seja, a China tem uma das maiores taxas de propriedade do mundo, ou mesmo a maior, tudo tendo começado com as reformas impostas na década de 1990, de acordo com uma forte cultura de investimento. Actualmente, e estou a falar já do início deste ano de 2026, o mercado está a evidenciar uma crise nas vendas, o que está de acordo com o que atrás escrevi, crise que se iniciou em 2024, com os preços a cair constantemente, com os investidores a apressarem-se a vender activos e com o governo a procurar estabilizar os preços.
O governo tem a preocupação de investir em habitação social nas áreas urbanas que integram os serviços considerados essenciais, como escolas, hospitais e transporte, havendo grandes condomínios de apartamentos com áreas comuns. Estão definidas políticas de apoio, a começar pelo financiamento, com as empresas a serem obrigadas a contribuir para o fundo de habitação dos empregados.
Nas grandes cidades, como Pequim, Shanghai, Shenzhen, os preços dos apartamentos são mais elevados, mas o equilíbrio é estabelecido com os aumentos salariais, impedindo o flagelo que conhecemos, nomeadamente em Portugal: os bairros de lata ou as favelas no Brasil e os sem-abrigo. Em Hong-Kong, como mostrei, a situação é diferente por não haver espaço para mais habitação. “As casas são para morar, não para especular”, foram palavras de Xi Jinping no 19.º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, realizado entre 18 e 24 de Outubro de 2017, onde o poder de Xi Jinping parece ter ficado consolidado ao conseguir alterar a Constituição do partido fazendo incluir o seu “Pensamento sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era”, no qual também estabeleceu as metas de desenvolvimento para a China até 2050. E, ao que parece, Xi Jinping não brinca em serviço, o que diz e promete é para ser feito.
Todas as medidas referidas neste texto sobre habitação estão também incluídas no plano quinquenal da China.
Para termos uma ideia do que representou a alteração provocada pelo socialismo de mercado, tenho de falar não apenas no sector da habitação, com as evoluções atrás descritas, mas também, obrigatoriamente, tenho de referir outros sectores de actividade como, obviamente, o sector industrial.
Com o socialismo com mercado, a China transformou-se no que é hoje, com a maior produção industrial do mundo, maior mesmo do que as produções industriais dos EUA, do Japão, da Alemanha, da Índia e da Coreia do Sul juntas, o que nos dá a percepção da gigantesca grandeza deste sector da economia chinesa, o que também nos ajuda a perceber a gravidade da poluição a que deu origem, obrigando hoje a China a gastar milhares de milhões de yuans para a combater.
O sector dos transportes é o maior do mundo, sendo também um dos mais avançados, com domínio mundial na ferrovia de alta velocidade, mais de 42.000 km, mais veículos eléctricos do que qualquer outro país e uma infra-estrutura portuária global do melhor que há. A outra ferrovia, chamada operacional, tem mais de 160.000 km.
A China é dominante no transporte marítimo mundial, sendo possuidora dos maiores portos, como Xangai, Ningbo-Zhoushan e Qingdao, operando com tecnologia inteligente (IA, 5G, automatização) para aumentar a eficiência, daí se dizendo que é global a sua infra-estrutura portuária.
Na ferrovia de alta velocidade, a China possui a maior rede do mundo. Viajei nestes comboios de Pequim para Xian e de Guilin para Hong-Kong, qualquer das viagens com mais de 1.000 km, com a velocidade a atingir os 350 km/hora. Os comboios são excelentes, de uma comodidade a toda a prova e, após cada paragem por tempo mínimo para entrada e saída de passageiros, logo aparecia um(a) empregado(a) para rapidamente fazer a limpeza sem qualquer incómodo para os passageiros. As estações são todas modernas e enormes. Para entrar na área de embarque, os passageiros são submetidos a uma fiscalização idêntica à que é feita nos aeroportos internacionais, embora muito mais rápida: as malas passam por scanners de raio X e os passageiros passam pelos detectores de metais, havendo câmaras em todos os recantos. Se o passageiro tiver uma garrafa de água, é possível que um vigilante lhe peça para beber um gole, assim se ficando com a certeza de que o líquido é água ou outro líquido e não uma substância perigosa. Em algumas estações, as das grandes cidades, há cães farejadores. De Hong-Kong para Macau fui de barco e, na estação de Macau, uma vigilante pediu-me para eu tirar o boné para, assim, poder ser medida a minha temperatura, mas comigo sempre a andar, medida que terá ficado da pandemia. O cumprimento dos horários na ferrovia é ao segundo; nas viagens de avião também os horários são cumpridos, não ao segundo, naturalmente.
Na China (e no Japão) fazem-se experiências com a tecnologia Maglev (magnetic levitation), utilizando campos magnéticos, o que permite que os comboios flutuem acima da via e assim evitando o atrito mecânico, permitindo maiores velocidades e em silêncio, com menores custos de manutenção. Há dois sistemas: electrodinâmicos (EDS) e electromagnéticos (EMS).
Actualmente, a linha de Shanghai, com tecnologia Maglev, faz o trajecto entre o aeroporto internacional de Pudong e a estação Longyang Road, em Pudong (zona nova de Shanghai, um dos maiores centros financeiros do mundo), 30 km em 7 minutos, sendo a linha ferroviária mais rápida do mundo, atingindo uma velocidade de 431 km/hora. Nas experiências, que continuam, foram já atingidas velocidades de 600 km/hora.
Esta tecnologia de via magnética impede descarrilamentos; utiliza o princípio da atracção e repulsão que é criada entre dois campos magnéticos, sendo os comboios e as vias dotados de electroímanes de grande potência e. assim, permitindo que o comboio se eleve uns centímetros sobre as vias, atraindo-o ao mesmo tempo e fazendo com que ele deslize suavemente.
A política para expansão de energia limpa, um dos maiores projectos de combate à poluição, levou ao fabrico e à promoção do carro eléctrico, havendo em circulação, no início de 2026, 35 a 40 milhões de veículos de nova energia (NEVs), incluindo eléctricos a bateria e híbridos, o que faz da China o líder mundial da mobilidade eléctrica, embora representem apenas 10% da frota total do país, tornando esta grande potência não só como o maior mercado, mas também como o maior produtor mundial. A produção de carros eléctricos está em crescimento constante, com a venda, em 2023, de 13 milhões de unidades destes veículos.
No transporte urbano há que considerar a mobilidade de duas rodas, bicicletas e trotinetes eléctricas; no transporte público há uma conjugação dos autocarros (já muitos eléctricos) com o metropolitano, a preços muito baratos graças ao subsídio governamental, sendo também o transporte mais rápido. Nas grandes cidades, o metropolitano é muito extenso, tendo centenas de quilómetros.
Nas cidades, é frequente encontrarmos parques de bicicletas partilhadas; a pessoa não quer ir a pé, normalmente no fim de um dia de trabalho, paga 1,5 yuans e utiliza uma destas bicicletas, que depois deixa à porta da sua casa, não tendo de se preocupar mais. O pagamento é digital.
A infra-estrutura rodoviária tem uma rede de quase 200.000 quilómetros de extensão.
O transporte aéreo na China está em grande crescimento, transportando mais de 700 milhões de passageiros em 2024. As rotas domésticas ajudam ao êxito, como o uso das mais modernas tecnologias. Há também uma preocupação no desenvolvimento da carga aérea, sendo também a China uma das grandes potências neste sector, com transporte para grandes cidades entre 3 a 10 dias e serviços rápidos de 1 a 7 dias, tendo em conta as urgências.
Fiz várias viagens aéreas na China e não tenho críticas a fazer, nem sequer quanto ao cumprimento de horários; lembrar-me do que foi a TAP-Transportes Aéreos Portugueses (a partir de 1979 passa a chamar-se TAP AIR PORTUGAL) e o que é hoje, tenho «inveja» dos chineses. Tenho viajado pelo mundo em variadíssimas companhias aéreas e a única comparação, em termos de qualidade, é com a Emirates, sendo esta a única que apresenta um serviço que considero ligeiramente superior ao que encontrei nas viagens aéreas na China.
Os avanços tecnológicos não se limitam ao desenvolvimento do comboio com a tecnologia Maglev, que atrás descrevo, mas também no desenvolvimento da tecnologia eVTOL (Electric Vertical Take-off and Landing). Trata-se de aeronaves eléctricas que levantam e poisam na vertical, sem necessitar de pistas, com o que se espera revolucionar o serviço de táxi nas grandes cidades, ou seja, um outro transporte com menor ruído, com maior segurança e antipoluente (a EMBRAER, empresa brasileira que também opera em Portugal, está a desenvolver o mesmo tipo de veículo).
A cidade de Taiyuan, na província de Shanxi, no Norte da China, com quase 4,5 milhões de habitantes, é um importante centro industrial de energia e maquinaria. A cidade não perdeu as suas características resultantes de 2.500 anos de história, mas não deixou de aproveitar a pujança da nova China para juntar à sua longa história uma cidade moderna, numa mistura que a favorece, sendo exemplo disso o contrato que os seus responsáveis assinaram para proporcionar aos seus habitantes uma rede de transporte aéreo, comprometendo-se a adquirir 50 aeronaves eléctricas sem piloto construídas com a tecnologia eVTOL, os tais carros voadores.
Carro voador (eVTOL)
Neste capítulo vou agora falar de um outro grande êxito da China de que já dei uma ou outra informação: como adquirir um automóvel.
A aquisição de um carro na China por estrangeiros é mais complexa do que por chineses, mas aqui interessa-me falar apenas do que um chinês necessita para comprar um carro, não sendo indiferente a localidade onde se vive.
Em algumas das principais cidades, como Pequim e Shanghai, existem algumas restrições, sendo provável haver necessidade de participar em sistemas de lotaria ou de licitação para obter uma matrícula (se não for um veículo eléctrico, nestas cidades pode demorar bastante tempo até o ter na sua posse, como a licitação é bem mais alta, ou seja, paga mais pela aquisição da matrícula e fica mais tempo a aguardar). No geral, seguem-se os procedimentos habituais, inclusive entre nós, desde a escolha do carro até ao seu pagamento e à efectivação do registo oficial. A escolha de um carro eléctrico tem mais facilidades e a matrícula destes é de cor verde. O seguro é obrigatório e é contratado quando procede ao pagamento do veículo.
Carros usados obrigam a uma inspecção prévia de modo a garantir que o veículo está de harmonia com as normas de segurança e, muito importante, com as emissões autorizadas.
Uma das grandes preocupações das autoridades chinesas é a poluição, daí essa preocupação se estender às emissões de gases dos escapes dos carros. A lei tem vindo a ser cada vez mais exigente, quer para os carros fabricados na China, quer para os importados. Até Julho de 2005, cada nova viatura para circular na China teria de percorrer 30 milhas com um galão de gasolina; em 2008, a distância passou para 35 milhas (nos EUA, nesta mesma data, a distância obrigatória a percorrer com o mesmo galão de gasolina era de 2 milhas).
Em 2020, a média de consumo já era de 5,6 litros de gasolina por 100 km, ou seja, 42 milhas por galão, mas este resultado é obtido em testes de laboratório, pois o consumo real na estrada, como provavelmente consequência da velocidade, é 15% a 37% superior. Mas não podemos deixar de referir que, com os novos carros híbridos plug-in, os consumos descem para os 2,9 litros/100 km, o que muito contribui para que a China seja líder em eficiência no consumo de combustível.
Naturalmente, no caso dos camiões pesados a média do consumo fica entre as 4 e as 8 milhas por galão.
“Para além das regras relativas às emissões de gases dos escapes, teve início uma experiência interessante que avalia doutra forma o crescimento económico. Com o aval do governo central, as seis regiões ou províncias que incluem grandes áreas metropolitanas (Pequim, Xangai, Guangdong, Jilin e Shaanxi) começam a recolher os dados estatísticos relativos às respectivas receitas, subtraindo os custos dos prejuízos ambientais. A experiência está a ser coordenada pelos economistas da Academia das Ciências Sociais de Pequim, que já desvalorizaram o PIB de Xangai em um terço devido aos danos provocados nos recursos naturais. É o conceito do «PIB verde», …” (1)
O esforço no combate à poluição por parte da China tem sido notável. Enquanto um chinês, anualmente, produz o equivalente a 1,1 tonelada de emissões carbónicas, um norte-americano atinge 6,5 toneladas de emissões carbónicas, ou seja, cerca de 6 vezes mais, o que mostra bem o esforço que tem sido feito; o que significa que, apesar da larga diferença de habitantes entre os dois países — os EUA tinham 331, 449 milhões de habitantes, segundo o Censo de 2020, a China, dados já de Janeiro de 2026, tem cerca de 1.416 mil milhões de habitantes — a China produz menos 600.000 toneladas/ano de emissões carbónicas.
Quanto ao sistema de saúde, há na China um sistema misto — como atrás referi, o caso de Macau é muito particular e necessitamos de aguardar pelo fim da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), um sistema autónomo que se manterá até 2049, para sabermos as consequências para os macaenses no seu sistema de saúde após a plena integração na China —, comportando seguros sociais obrigatórios, que fazem parte do sistema público, que são complementados por pagamentos directos e seguros privados, disponibilizando aos chineses os postos locais de saúde, os hospitais regionais e centros de muito maior complexidade. O sistema de saúde na China contempla não só a medicina moderna, como é geralmente entendida no Ocidente, e a medicina tradicional — muito forte na China, onde se inclui a célebre acupunctura —, numa combinação que se quer perfeita. O governo subsidia a saúde, mas os utentes também têm de responder por uma quota parte dos custos, que pode ser muito elevada nos casos mais graves, particularmente nas zonas rurais, o que nos faz adivinhar as dificuldades para as pessoas de menores rendimentos. Existem três níveis, devidamente estruturados:
- Clínicas Comunitárias/Rurais – com atendimento básico e preventivo, que julgo equivalentes aos nossos Centros de Saúde;
- Hospitais Regionais – tratamento de casos de média complexidade:
- Hospitais de Referência – tratamento de casos de grande complexidade, centros de pesquisa e hospitais das grandes cidades
Os hospitais urbanos estão, geralmente, melhor equipados do que os hospitais rurais, havendo, portanto, uma desigualdade evidente no atendimento aos utentes..
Há um seguro de saúde básico, financiado pelos trabalhadores, pelos empregadores e pelo governo, cobrindo, de uma forma geral, 80% ou 90% das despesas em casos de saúde graves. Os utentes pagam taxas por cada consulta, pelos medicamentos e exames auxiliares de diagnóstico, que o seguro reembolsa em parte.
De salientar que os hospitais chineses utilizam um alto nível de tecnologia, a mais moderna que existe, servindo-se da inteligência artificial e dos robôs cirúrgicos. A telemedicina é uma prática usual na China, atendendo milhões de utentes.
As decisões governamentais têm uma constante preocupação em melhorar o acesso a todos os cidadãos, com a preocupação simultânea de reduzir os custos para todos os chineses no acesso ao sistema de saúde, com uma atenção muito específica ao preço dos medicamentos, cada vez mais baixos. Há um plano governamental que inclui todas estas preocupações que acabo de mencionar, chamado «Healthy China 2030».
E como é tratada a religião na China? A China diz-se um país comunista e, consequentemente, ateu, com 50% da população sem qualquer filiação religiosa, não aceitando o PCC militantes que não se declarem ateus; no entanto, sabe-se existirem crenças religiosas, como o Confucianismo, o Taoísmo, o Budismo e algumas minorias cristãs e muçulmanas, com o governo a reconhecer cinco religiões: Budismo, Taoísmo, Islamismo, Catolicismo e Protestantismo.
Entre os chineses religiosos podemos encontrar uma prática de mistura de tradições, com destaque para o Confucianismo, ética e filosofia; Taoísmo, equilíbrio e natureza; e Budismo. Há também uns tantos que praticam culto aos ancestrais, sendo os mais comuns o Feng Shui e o Tai Chi. Mas o Budismo é a religião com maior influência em toda a China. Mesmo em Macau, onde o catolicismo tem raízes profundas, tendo a Diocese sido fundada em 23 de Janeiro de 1576, desempenhando um papel fundamental na expansão do catolicismo na Ásia, apenas 4,8% da sua população é católica, embora detenha dezenas de igrejas, escolas e instituições de solidariedade social.
Há um apertado controlo por parte das autoridades governamentais, com as práticas religiosas a serem possíveis apenas dentro dos templos respectivos.
A finalizar este capítulo, farei alguns apontamentos sobre o sistema de educação. É constituído por 9 anos de escolaridade obrigatória e gratuita: 6 anos de ensino primário e 3 anos de ensino secundário júnior. O ensino tem uma grande carga horária, técnicas de memorização, educação tecnológica — robótica e programação —, educação moral e, não em todas as escolas, actividades físicas e manuais.
Após o 9.º ano, o ensino médio divide-se entre escolas académicas e escolas técnicas, as chamadas profissionalizantes.
Todo o sistema de educação chinês é reconhecido como um dos mais exigentes do mundo, com uma disciplina rigorosa, sendo também um dos mais competitivos.
Para ingressar no ensino superior, os alunos têm de se submeter ao Exame Nacional para Ingresso no Ensino Superior, ali chamado Gaokao, que, normalmente, se realiza em 7 e 8 de Junho, mas pode ter a duração de 4 dias. Este exame é definidor do futuro académico e profissional dos estudantes, para o qual se torna necessário uma grande capacidade de memorização e de raciocínio lógico em disciplinas como o chinês, a matemática e o inglês, sendo considerado um dos exames mais difíceis e competitivos do mundo. Há uma utilização avançada da tecnologia, incluindo a inteligência artificial, mas com bloqueio das apps, de modo a garantir segurança e honestidade nas provas. Os aprovados obtêm um estatuto social especial, considerado um pilar da meritocracia. Em 2024, o número de candidatos obteve um novo recorde: 13,42 milhões, uma subida de 5410 mil candidatos em relação ao ano anterior. A tendência, desde 2018, é de crescimento contínuo, com a competição para as universidades de elite a ser extraordinariamente intensa, mas as estimativas para 2025 não vão além de 13,35 milhões de estudantes a candidatar-se, o que, a confirmar-se, inverte o habitual crescimento.
As taxas de aprovação no Gaokao andam entre os 70% e os 80% e com acesso garantido a uma vaga no ensino superior. Mas o acesso às melhores universidades, como as de Pequim e Tsinghua, é bastante restrito, contando a pontuação final da prova como único critério de admissão.
O ensino superior é fortemente subsidiado pelo Estado, com os estudantes a pagarem 20% a 30% do custo total, sendo o restante pago por fundos do governo nacional e do governo provincial, o que, comparando com o que se passa no «civilizado» ocidente, o estudante chinês tem razões para sorrir.
Numa entrevista de 2017, Tim Cook, Director Executivo da Apple Inc., afirmou que não há engenheiros de ferramentas (por ex.: em Portugal, engenheiros especializados em moldes) suficientes nos EUA, afirmando mesmo que nos EUA os trabalhadores não possuem as competências necessárias. Na Apple constroem dos mais sofisticados designs, mas depois não há quem os transforme em objectos físicos, para o que necessitam de enviar esses projectos para a China, onde a Apple tem a maior produção, por ali haver uma grande quantidade de pessoas competentes para a produção das máquinas de que a multinacional necessita.
Acrescentou ainda Tim Cook que, na China, uma reunião de engenheiros de ferramentas poderia encher vários estádios de futebol, mas nos EUA seria difícil encher um só. Diz-me o Júlio Marques Mota que «a China tem vantagens sobre os USA na cadeia de abastecimento pela sua elevada concentração industrial na electrónica (Shenzhen, Guangdong), reduzindo os custos de embarque e de logística. A Foxconn (2) e outros fabricantes chineses produzem milhões de forma eficiente, mantendo baixos os custos unitários. Construir similares infra-estruturas nos USA exigiria milhares de milhões.» Aqui lembro que uma hora de trabalho nos EUA custa 6,5 vezes mais do que na China.
Mas nem tudo são rosas no que se refere ao acesso à Universidade. Há um programa televisivo de grande sucesso na China, Focus, do canal estatal CCTV, programa este que se tem destacado no combate à corrupção.
Sabia-se que alunos que tinham passado todos os exames com notas que lhes permitiam aceder às melhores universidades se viam, inexplicavelmente, excluídos de forma arbitrária, ou seja, não tinham desembolsado a verba que lhes era exigida pelos funcionários corruptos que tinham os processos de acesso na mão. Os jornalistas do Focus puseram-se em acção e tomaram conhecimento que “um pai de Nanning, na província de Guangxi, que se viu obrigado a desembolsar 10.000 iuanes (1000 euros) para que o filho pudesse entrar na prestigiada Universidade Aeronáutica de Pequim, é especial. É especial, porque a gravação do seu telefonema com os funcionários corruptos foi transmitida para todo o país no dia 13 de Agosto de 2004, às 19h38m, no decorrer do mais popular programa televisivo da China, Focus, (…)” (3). Esta transmissão criou um fenómeno social, com o programa televisivo a tomar a defesa dos cidadãos contra o que foi considerado um abuso do regime.
A China de hoje não é a China de antes de Xi Jinping ter chegado ao poder, dado ser ele o Presidente desde 2012. Pelo facto que acabo de referir, podemos imaginar a tarefa ciclópica do Presidente chinês quando definiu como um dos seus objectivos acabar com a corrupção.
V
Mas o interesse pela China nasce pela curiosidade de nos confrontarmos com o que é tido como este colosso demográfico tem vindo a impor-se ao mundo, sendo já hoje a primeira potência económica, superando os EUA e seguida pela Índia — outro país a merecer uma atenção idêntica, mas com a sua população a não beneficiar da produção de riqueza como na China, embora a desigualdade neste país entre os pobres e os mais ricos seja também muito grande — e a Rússia, sendo as economias destes dois últimos países consideradas a terceira e a quarta a nível mundial. Se o século XX foi claramente norte-americano (EUA), o século XXI será com toda a certeza chinês.
Percorrer as ruas de algumas das suas metrópoles, como Pequim e Shanghai, observar as grandiosas obras de engenharia, como algumas que já referi, tomar conhecimento do progresso científico do país e da excelente contribuição das suas não menos excelentes universidades, deixa-nos perplexos, sobretudo quando sabemos que este salto qualitativo, com alguns exageros que provocaram erros que vão custar muitos milhões até serem resolvidos, começou, praticamente, nos últimos 25 anos do século passado.
A resposta que teve de ser dada à consequente imigração interna para as grandes cidades, como já referi neste texto, a qualidade das vias de comunicação — rodoviárias, ferroviárias, marítimas e aéreas, que pude experimentar — de uma qualidade evidente, justificam plenamente a perplexidade que referi. Diz-se ser a China a «Fábrica do Mundo» e, de facto, é com esse novo mundo que nos confrontamos ao viajar pelo país.
Em Pequim há uma espinha dorsal do transporte urbano que é o sistema de circulares, com sucessivas actualizações em função da necessidade de integração das áreas suburbanas; em 2024, Pequim tinha já seis circulares, agora já tem sete. Constroem-se novas auto-estradas para melhorar os acessos aos centros de desenvolvimento; nas circulares, para optimizar o tráfego, constroem-se pontes e as vias auxiliares que se justifiquem; os centros históricos, as áreas diplomáticas, as áreas tecnológicas, a ligação às cidades satélites, enfim, há uma preocupação de ter um tráfego optimizado graças a estas circulares, havendo também a preocupação de estabelecer ligações entre as circulares. Mas há dificuldades, dado que o tráfego automóvel é cada vez maior, apesar das limitações na aquisição de carros para circularem em Pequim e em outras grandes cidades, também com a constante preocupação em combater a poluição no cumprimento de planos governamentais para tornar as grandes cidades, em particular Pequim, cada vez mais verdes.
Mas as infra-estruturas não se ficam por aqui. Há que considerar também o Metropolitano de Pequim, com as suas 490 estações, uma das maiores redes do mundo.
Construiu-se a Rota Cénica Nacional da Grande Muralha, que é uma iniciativa com objectivos turísticos e culturais de grande escala para integrar e destacar as secções mais importantes da Grande Muralha da China, que liga distritos como Mentougou, Changping, Yanqing, Huairou, Miyun e Pinggu. A viagem de autocarro de Pequim para a Muralha da China, a cerca de 80 km, faz-se com facilidade na grande auto-estrada logo que se chega ao extremo da cidade, ou seja, o trajecto é demorado enquanto não se sai da cidade.
A China tem hoje algumas das mais grandiosas infra-estruturas do mundo, com a sua rede de comboios de alta velocidade, a maior do mundo, que já referi; a célebre Barragem das Três Gargantas, no rio Yangtzé, que é a maior barragem hidroeléctrica do mundo, cuja bacia criou graves problemas com a alteração do meio ambiente, para além de obrigar à deslocação de 1,3 milhões de pessoas, demorando 18 anos a construir e concluída em 2012; a Ponte Hong-Kong-Zhuhai-Macau; Torre de Shanghai, com 632 metros de altura e 128 pisos; a Ferrovia China-Europa, uma rede ferroviária de carga, que liga a China a várias cidades da Europa, incluindo Madrid (a bitola ibérica que os vários governos portugueses teimam em manter e desenvolver terá impedido que esta ferrovia chegasse a Lisboa e/ou Sines), permitindo o transporte mais rápido de mercadorias do que por via marítima; portos e centros logísticos mais movimentados do mundo; Canal de Pinglu, em construção e que se prevê seja concluído em 2026, que servirá para ligar o interior da China ao Sudeste Asiático.
São infra-estruturas gigantescas com um único objectivo: desenvolvimento de transporte, energia e logística, assim contribuindo para tornar a China na grande potência que já é economicamente, mas que o quer ser não apenas economicamente.
Mapa da barragem in: www.nationalgeographic.pt – 25 de Abril de 2019
e Torre de Shanghai, in: https://en.wikipedia.org/wiki/Shanghai_Tower
Falar da Torre de Shanghai, o edifício mais alto da China — 632 metros de altura e 128 pisos — «obriga-me» a falar dos centros financeiros da China. Os principais são:
- Shanghai: no distrito de Pudong, com a bolsa de valores de Shanghai, os grandes bancos e o porto que é apenas o mais movimentado do mundo e ocupa a 4.ª posição no sector financeiro global;
- Hong-Kong: fundamental para o comércio e a gestão de activos, sendo a ponte entre o capital internacional e a China continental (não esqueçamos que é, como Macau, uma Região Administrativa Especial, beneficiando da política «Um país, dois sistemas»;
- Shenzhen: a cidade tecnológica, com a bolsa de valores focada na tecnologia, sendo uma das zonas económicas especiais da China e, enquanto tal, com prerrogativas especiais;
- Cantão (Guangzhou): é o centro financeiro internacional de Cantão, um dos centros comerciais mais importantes da China.
Há também um forte investimento na área cultural, nomeadamente, no teatro, no cinema e em outros espaços para o desenvolvimento de actividades culturais. Em Shanghai tive oportunidade de visitar o Museu de Shanghai, um edifício moderníssimo. Ao chegar ao «hall» de entrada apercebi-me da configuração do museu e logo me recordei de um museu português com que tenho uma relação muito especial, o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, mas há uma diferença de que nos apercebemos de imediato: o Museu do Neo-Realismo cabe no «hall» do Museu de Shanghai.
À esquerda, ao fundo, vê-se Puxi, a antiga Shanghai, vista de Pudong; à direita o autor
em um dos bairros mais antigos e característicos da cidade
(tirei a fotografia da esquerda do 88.º piso da Torre Jin Mao, ao lado da Torre de Shanghai)
No conceito de cultura na China estão incluídos valores e tradições, como respeito pelos mais velhos, pela hierarquia com uma constante preocupação pela harmonia. Ética e socialmente a China é profundamente influenciada pelo Confucianismo, bem presente no respeito pela hierarquia que o PCC sabe utilizar, cultivando os chineses uma preocupação de harmonia com a natureza por influência do Taoismo.
Fotografias que tirei no Museu de Shanghai
A cultura hoje na China combina a ópera, a arte em seda, a cerâmica, a música com os seus tradicionais instrumentos, como gongos e flautas, a caligrafia, que são tradições milenares, com a tecnologia e as grandes cidades já influenciadas pela arte contemporânea. A família é fortemente valorizada, continuando a haver, voltando às tradições milenares, a cultura da oferta do chá nos contactos entre as pessoas e o hábito de presentear. Uma curiosidade é o evitar do número 4, que os chineses associam à morte. Há uma grande diversidade cultural étnica, incluindo Han, Tibetanos, Mongóis, Uigures e Cantoneses.
No moderno Museu de Shanghai, fundado em 1952, que visitei, temos uma amostra de arte chinesa antiga. Ali estão concentradas mais de 120.000 peças em bronze, cerâmica, caligrafia, móveis das dinastias Ming e Qing, jade, moedas antigas, pinturas, selos, esculturas, artes e ofícios de minorias chinesas, distribuídas por onze galerias, a que se deve acrescentar três salas para exposições temporárias.
Há vários museus em Shanghai que eu muito gostaria de ter visitado, nomeadamente o Museu de História de Shanghai, que testemunha mais de 6.000 anos de história da cidade, o Museu da Ciência e Tecnologia, onde os visitantes têm a possibilidade de experimentar variadíssimos tipos de inventos de forma divertida. Mas todas as cidades chinesas têm os seus museus e, ao que me disseram, bem cuidados.
A cidade de Shanghai faz-nos sentir pequeninos — esta minha impressão é partilhada por outros companheiros de viagem —, tal é a imponência dos seus arranha-céus, sendo a cidade considerada a locomotiva comercial da China, com destaque para o seu centro financeiro, Lujiazui, em Pudong, como atrás referi.
Pudong é talvez o exemplo mais evidente do que é a China hoje. Situa-se na margem direita do rio Huangpu, na margem esquerda está a parte velha de Shanghai, Puxi, com um contraste evidente, apesar de a velha cidade já ter pouco a ver com a Puxi de hoje.
Fotografias que tirei do 88.º piso (o último) da Torre Jin Mao. Na fotografia da direita,
a parte superior da Torre de Shanghai está acima das nuvens.
Pudong tem uma área de 522,8 km², com uma população de 1,5 milhões de pessoas, mas a área urbana total da cidade de Shanghai tem 29,5 milhões de habitantes. Até 1990 era uma simples área agrícola, até que o governo chinês decidiu criar ali uma zona económica especial, com o que é hoje o novo centro financeiro da China na parte Ocidental deste distrito (Lujiazui Finance and Trade Zone). O produto interno bruto de Pudong foi estimado, em 2005, em 25,5 mil milhões de dólares USA.
A Torre de Shanghai é uma construção espiralada de forma a reduzir a resistência ao vento, contendo turbinas eólicas e um sistema de recolha da água da chuva. Trata-se de um edifício misto de escritórios, hotel, área comercial com várias lojas e áreas de lazer e residencial. Os seus elevadores são os mais rápidos do mundo. Subi nos elevadores da Torre Jin Mao até ao 88.º piso e posso testemunhar que os seus elevadores também são rapidíssimos. A Torre Jin Bao tem escritórios, o hotel Grand Hyatt Shanghai e, no 88.º piso, um observatório, de onde tirei algumas das fotografias que mostro acima.
Podemos ler que a Torre de Shanghai é o 3.º edifício mais alto do mundo, o que os chineses dizem não ser verdade, dado que o 2.º — o Merdeka (independência em malaio), um arranha-céus de 118 pisos em Kuala-Lumpur, com 678,9 metros de altura —, termina com uma torre, a qual, ao não ser considerada, torna o arranha-céus mais baixo do que a Torre de Shanghai. Se todas as disputas fossem estas…
(continua)
NOTAS
- in: Federico Rampini, idem, idem, pág. 271;
- A Foxconn foi fundada em 1974, em Taiwan, como empresa de produtos plásticos, na maioria conectores. Em 1988, abriu a sua primeira fábrica em Shenzhen, na China Continental, que é a maior que a empresa possui, inaugurada com 270 mil trabalhadores, mas chegando a empregar 450 mil. Desde 2012, as suas fábricas fabricam 40% de todos os produtos electrónicos vendidos em todo o mundo (Black-Berry, iPad, iPhone, iPod, Google Pixel, Kindle, Nintendo DS, Sega, Nokia, Xiaomi, Cisco, Sony, os sucessores da consola Xbox para a Microsoft, placas-mãe, etc). Está também presente nos EUA, no Japão e no Brasil;
- in: Federico Rampini, idem, idem, pág. 351;














