

Ainda não passa de um projecto, mas parece reflectir as preocupações europeias e as normas que se irão debater nos próximos anos; neste momento, e de acordo com Aza Rasquin, cofundador do ‘Center for Humane Technology and the Earth Species Project’, a ideia é travar as técnicas usadas pelas plataformas digitais, com o fim de agarrar clientes para os seus produtos, todas baseadas em técnicas aditivas.
A mais importante e já devidamente testada, é o scroll infinito –mostrar conteúdos de seguida, sem necessidade de o cliente fazer “clic” em momento algum, nem interrupções que o levem a mudar de site– a que o mesmo Aza Rasquin chamou mesmo ‘cocaína comportamental’. Nos últimos dias de Outubro, a Comissão de Protecção do Consumidor do Parlamento Europeu, alertou para a natureza aditiva de alguns serviços digitais, como os jogos em linha, redes sociais, streaming e serviços online –mercados que exploram as vulnerabilidades das pessoas para lhes captar a atenção e lhes monitorizar os dados– informação divulgada pelo próprio Parlamento.
Vem isto a propósito das palavras de uma jornalista da área da cultura num periódico europeu, ‘Temos os olhos vermelhos por vermos, todos os dias, centenas de mortos na Ucrânia, em Gaza, em Israel, na Síria…, homens, mulheres, crianças, sem sabermos o que eram quando vivos, nem o que os poderia salvar de um final inútil e evitável’.
Mas o problema estará, certamente, na separação dessa informação num serviço de streaming, com linguagem idêntica e adaptada a todos os públicos, a todas as horas e a qualquer local, sem haver qualquer possibilidade de distinguir os operadores de tais serviços, em função dos hábitos, ideologias e rotinas, seriedade e dimensão da palavra, por ela definir realidades, por tanto estender pontes como destruir barreiras, transformando as coisas que nunca entendemos noutras que poderemos compreender.
Esse é o grande problema da sociedade polarizada em que vivemos, por a palavra também ser a base de todas as religiões, até porque as mais importantes, costumarem afirmar ser só a sua a verdadeira, frente à mentira de todas as outras.

‘Ojos que no quieren ver, corazón que no siente’, Diario,es, 31.10.23
Li, um título num jornal internacional que me parece resumir todo este conflito, ‘As palavras do líderes do Hamas e de Netanyahu, encarnam a incapacidade de imaginar um futuro’, se calhar também reforçadas por João de Melo, numa crónica no DN, ‘O que diferencia, de facto, o ataque do Hamas a uma festa de jovens em Israel, com o seu macabro cortejo de mortos e sequestrados, da retaliação criminosa em que, de acordo com a respeitada organização Save the Children, só até ao passado dia 29 de Outubro, tinham morrido em três semanas na Faixa de Gaza, 3195 crianças, vítimas dos bombardeamentos indiscriminados e cegos da aviação israelita. A cifra, acrescenta a referida organização, ultrapassa o número de crianças mortas, em áreas de conflito, em todo o mundo, desde 2019’.
Não se podem esquecer também os últimos bombardeamentos do campo de refugiados de Yabaliya, no norte da faixa de Gaza, que talvez possa justificar a grave afirmação de Vladimir Safatle, professor filosofia Universidade de São Paulo, divulgada pelo jornal digital ‘A terra é redonda’, onde particularizava, ‘O Hamas não será destruído porque tem um sócio que precisa dele para sobreviver, e esse sócio é Benjamin Netanyahu’.
E Francisco Louçã escreveu também, no ‘Expresso’, ‘É um tempo sombrio em que a defesa da paz fica resumida a Guterres e ao Papa, ambos sem poder, e a iniciativa da guerra é capturada não só pelos seus generais, como por uma raivosa trupe de vingadores de sofá. Entendamo-los bem: eles estão a dizer-nos que a humanidade é um pseudónimo da barbárie, e querem que nos habituemos à irracionalidade’.
E se alguém pensar que só anda nesta vida a perder tempo, por nada se concretizar, pense como na ONU do secretário Geral António Guterres, até já se aprovou uma moção a pedir uma trégua, com os resultados que estamos a ver, que o converteu no impulsor da ira de Israel contra ele e contra as Nações Unidas.
E se está com os olhos vermelhos ou enjoado, pela forma incrível como a comunidade internacional está a reagir a tudo o que se passa em Gaza, na Ucrânia, Síria ou Iémen, para citar as mais badaladas, pense ou faça o que quiser, o mundo vai continuar, a não ser que trabalhe na tal ONU.
Mas está a viver aqui, na Europa diz Viriato Soromenho Marques no DN, ‘Europa, o centro dos furacões ucraniano e palestiniano, que parece vítima de sonambulismo. A vulgaridade da sua elite, sem coragem para olhar de frente a imensa tragédia que nos ameaça a todos, só não envergonha quem nem sabe o que a vergonha é’.
Para que conste!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
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