Já se passaram algumas semanas desde a sempre polémica questão das migrações, se agravou acentuadamente, em ‘tudo quanto é mundo’ –guerras, degradação climática, crises religiosas e políticas, novos populismos, ressurgimento dos “perigos velhos com novos protagonistas”, milhares de vítimas inocentes, e milhões à procura de sobreviver–, mas ouvi, há pouco, falar de todas estas coisas numa análise fria de comentaristas diversos, num programa de uma estação de rádio.
El Roto
El País, 30.11.23
A coisa que mais me tocou, foi dita pelo mais jovem dos intervenientes, apresentado como tendo 18 anos, ter chegado à Europa, e estar agora na universidade pelo sacrifício dos pais, ‘Sou filho de emigrantes e, até por isso, penso claramente que o mundo se fez em movimento. As pessoas não saem de casa para se meterem em conflitos, saem por necessidade e sobrevivência! Um mundo que se julga moderno, devia ajeitar a vida dessa gente, para que nunca quisesse sair da casa e da terra que são as suas’.
Uma situação que merecia análises profundas e especializadas, mas que aqui não podem ir além da apresentação de um leque de temas para que cada um possa analisar à sua vontade e, um dos primeiros, até consta numa crónica no DN, do escritor e jornalista angolano João de Melo, ‘O desequilíbrio das relações internacionais é o primeiro factor por detrás dessa crise. O Ocidente Alargado, estruturado em torno das antigas potências coloniais e seus herdeiros, grupo que engloba hoje os países desenvolvidos, continua a olhar para os países menos desenvolvidos como meros fornecedores de matérias-primas, ou de mão de obra barata; as políticas de cooperação, os pacotes de “ajuda”, as “receitas económicas” dos organismos que controla desde o fim da 2ª Guerra Mundial, são profundamente extrativistas e predadoras’.
O professor, escritor e cronista Cándido Millán, pormenoriza mais esta situação e avança com mais um tema, ao escrever sobre o Médio Oriente, ‘Roubaram o seu lugar no mundo aos emigrantes de agora, os náufragos da globalização. Abandonados à sua sorte, os africanos ou os do Próximo Oriente, não conseguirão sozinhos, mudar as suas sociedades. Isto é assim porque nós, europeus e norte americanos o estamos a impedir’.
Millán alarga a explicação até à queda e morte de Khadafi na Líbia, à guerra no Iraque e todas as demais que se lhe sucederam, e à intervenção de outros protagonistas, motivados por estas ou outras situações, directa ou indirectamente ligadas, porque as consequências atingem números dramáticos.
Números que, de acordo com a Agência da ONU para os refugiados e referindo o número de pessoas deslocadas devido a guerras, perseguições e violações dos Direitos Humanos, atingiu os 114 milhões, mais 5,6 milhões do que no início do ano e, só entre Junho e Setembro, o número de deslocados à força, terá crescido 1,6 milhões, o que levou o alto-comissário da ONU para os Refugiados a afirmar ‘A incapacidade da comunidade internacional para resolver conflitos ou prevenir novos está a provocar deslocamentos e miséria’.
Não podemos esquecer –e aqui o terceiro tema– que a evolução do número de deslocados também foi causada por ‘Uma combinação de seca, inundações e inseguranças na Somália e prolongada crise humanitária no Afeganistão’ ainda de acordo com aquela Agência, o que nos leva a ajuntar a este tema a questão da crise climática –e quarto tema– pois, de acordo com o secretário geral das Nações Unidas António Guterres, ‘Só os países do G20 são responsáveis por 80%das emissões poluentes a nível mundial, e meias medidas não evitarão um colapso climático’.
Recorrendo mais uma vez ao DN, esta situação também originou que o número de pessoas afetadas pela fome, passasse de 572 milhões em 2017, para 735 milhões em 2022, devido aos impactos combinados das alterações climácticas, com conflitos, choques económicos e a pandemia global, de tal maneira que as estimativas do Índice Global da Fome, indicam haver 58 países a não conseguir reduzir a fome até 2030.
Estimativas… penso que a questão das estimativas, também marca dramaticamente, um estranho hábito da maioria das instituições políticas, analisado por um director de um grande jornal europeu, ‘O problema está, quando perante qualquer assunto grave, se decide envolvê-lo em celofane, e colocar-lhe uma etiqueta. Mesmo hoje, se aparece uma questão que ninguém sabe como resolver, aparece sempre um político que se compromete a encontrar “soluções imaginativas”’.
Porque , na verdade, ‘Temos um problema político, mais do que um problema tecnológico’, afirmou o ambientalista Tom Burke na passada quarta feira, no Portugal Mobi Summit, na NOVA SBE, em Carcavelos, ‘Porque o mundo está-se nas tintas para o cada um pensa’, acrescentou.
E, por tudo isto, não poderia terminar esta Carta sem uma citação de Eduardo Galeano –Ano após ano, sempre voaram as mariposas, as andorinhas e flamingos a fugir do frio e, nadam as baleias à procura de outro mar, como os salmões e as trutas à procura de outros rios. Viajam milhares de léguas, pelos caminhos livres do ar e da água. Não são livres, por outro lado, os caminhos do êxodo humano e, em caravanas imensas, marcham, os fugitivos a fugir de uma vida impossível-.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


