Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — “Na ortodoxia e contra a ortodoxia: Ensinar Economia na Era Neoliberal”, por Ben Fine

 

Seleção de Júlio Marques Mota

30 min de leitura

Na ortodoxia e contra a ortodoxia: Ensinar Economia na Era Neoliberal (*)

 

 Por Ben Fine

(*) Agradeço a Ben Fine a disponibilização do presente texto. Sublinho que a tradução não está revista por ninguém, dada a falta de tempo. O texto está disponível na obra Advancing pluralism in teaching economics: international perspectives on a textbook science, editado por Samuel Decker, Wolfram Elsner & Svenja Flechtner (eds.), New York: Routledge (2019), um livro que se recomenda a quem estiver interessado nos problemas que envolvem atualmente o ensino universitário.

 

1. Contextos

Tenho ensinado economia heterodoxa como economista heterodoxo e marxista há mais de quarenta anos. Isto confere-me uma ampla experiência para avaliar os desafios que a continuação deste esforço de conceção e entrega de materiais didáticos coloca dentro de uma disciplina que se tornou cada vez mais intolerante, se não absolutamente intolerante, a alternativas ao que é, em muitos, se não em todos os aspetos, a sua própria ortodoxia cada vez mais estreita. Mas a minha própria situação é e tem sido idiossincrática e leva-me a hesitar em tirar lições de aplicabilidade geral, uma questão à qual voltarei. Especificamente, só ensinei em aproximadamente igual medida, com no máximo algumas saídas ocasionais em outros lugares, em duas instituições, Birkbeck College e a School of Oriental and African Studies (SOAS), ambas parte da Universidade de Londres e literalmente a poucos passos uma da outra. Também lecionei, novamente com pequenas exceções, a nível de pós-graduação e em departamentos de economia dedicados (em oposição a fornecer economia para cursos interdisciplinares). E juntei-me à Birkbeck no início da década de 1970, quando esta escola se estava a preparar para ser pluralista (embora se tenha tornado dominante nas últimas duas décadas), e parti para a SOAS em 1992 para me juntar àquilo que se estava a tornar, provavelmente, o maior e mais importante conjunto de economistas heterodoxos no Reino Unido, se não mesmo no mundo. Também é relevante que eu só estudei economia como pós-graduação, seguindo um diploma de matemática, e isso sem dúvida suavizou tanto a minha compreensão da ortodoxia em termos técnicos quanto a minha aceitabilidade à ortodoxia, embora cada vez mais limitada, como economista heterodoxo, até porque ganhei um mínimo de respeitabilidade académica através de publicações em revistas importantes, embora à custa de “jogar o jogo”. Em geral, limitei-me a ministrar cursos básicos de micro e macro, mais uma vez com exceções ocasionais ao assumir a responsabilidade por cursos opcionais, por exemplo, em economia marxista, em história do Pensamento Económico e a interdisciplinaridade através do foco no “imperialismo da economia”.

À luz desta trajetória pessoal, vejo a minha situação como tendo sido extraordinariamente favorável em termos relativos e absolutos em poder ensinar heterodoxia com algum grau de liberdade. Estou consciente de que outros não gozarão das mesmas vantagens, especialmente tendo em conta a crescente intolerância da ortodoxia que não é apenas analítica em substância, mas também institucionalizada em quem nomeia e é nomeado, no que têm para ensinar, no que lhes é permitido pesquisar e no que é reconhecido no ensino e na investigação como academicamente aceitável. As oportunidades são quase certamente maiores no ensino de economia do que nos departamentos de economia, mas não tenho experiência nem conhecimento para comentar como isso afeta o que pode e deve ser ensinado e como deve ser ensinado. Poderão ser depositadas algumas esperanças para o ensino pluralista da economia que não seja nos departamentos de economia, mas não estou em condições de avaliar o seu potencial nem o que e como pode ser mais bem ensinado.

No entanto, apesar das minhas circunstâncias, a influência da ortodoxia ainda pairou fortemente sobre o que pode ser feito por meio de alternativas. Dito de forma grosseira, um professor não pode apenas ensinar o que gosta. Ao oferecer um diploma de economia de dentro de um departamento de economia, o professor terá que cobrir grande parte do material que é considerado sacrossanto pela ortodoxia; caso contrário, o professor está, até certo ponto, a prestar um mau serviço aos seus alunos. Em todo o caso, sem querer fazer uma virtude por necessidade, seria desarmante não ensinar os estudantes na ortodoxia, pois é isso que eles enfrentarão de qualquer maneira que implementem a economia que receberam. É imperativo ter um forte domínio da ortodoxia, embora isso seja cada vez mais exigente (especialmente tendo em conta os requisitos técnicos da disciplina), eliminando o espaço para alternativas e sendo desesperadamente injusto, uma vez que a ortodoxia tende a não ter, menos ou no máximo um deformado conhecimento da heterodoxia, bem como tende a submetê-lo a uma rejeição dogmática. Há também a questão estratégica de não abandonar a economia aos economistas, por mais deficientes que estes possam ser considerados, pois dificilmente se irão extinguir e morrer, mesmo na presença de alternativas que prosperem noutros lugares.

Em suma, ensinar economia quase inevitavelmente envolve principalmente ensinar a ortodoxia, uma conclusão que é mais propensa a irritar economistas heterodoxos (ensinar diferente) do que economistas pluralistas (ensinar mais). Paradoxalmente, porém, a minha posição é altamente crítica de uma posição pluralista se ela apenas vê a ortodoxia como uma abordagem a ser ensinada, entre outras. Pois isso não reconhece e não aceita a desigualdade dentro da disciplina e que outras abordagens não podem ser ensinadas em igualdade de condições.

Por outras palavras, ensinamos a ortodoxia porque temos de o fazer e ela é hegemónica, e não apenas porque é uma abordagem entre outras. Além disso, a ortodoxia é tão difundida, especialmente para aqueles que têm apenas um grau mínimo de exposição à disciplina, que muitas vezes serve como ponto de partida para a forma como a economia é concebida e para os problemas que ela é considerada como devendo tratar (embora estes estejam longe de ser intuitivos para aqueles que não foram expostos a uma formação  em Economia). Os axiomas de referência, da escolha do consumidor, por exemplo, são notavelmente contraintuitivos para os não iniciados (i.e. contra toda a experiência pessoal), mas tornam-se inquestionáveis e de segunda natureza, uma vez ensinados e adotados. Assim, do meu ponto de vista, a questão não é tanto em primeira instância o que ensinamos, mas como o ensinamos criticamente, tendo a ortodoxia como ponto de partida.

Mesmo esta concessão levanta uma série de obstáculos. Em primeiro lugar, os estudantes têm origens e conhecimentos mistos da própria ortodoxia e, como a economia é frequentemente ensinada e aprendida de forma mecânica através de modelos e da sua derivação técnica e propriedades, a ortodoxia tem de ser reaprendida tanto pelas suas propriedades internas como por estas à luz de considerações mais amplas [e críticas]. Os estudantes podem ter passado mais tempo a estudar a mecânica dos modelos do que a compreender a sua lógica, para além dos seus próprios termos de aplicação.

Em segundo lugar, isto significa que os materiais tecnicamente exigentes não podem ser evitados, alguns dos quais são essenciais, enquanto outros podem ser escolhidos para aperfeiçoar essas competências, bem como para permitir a compreensão de conteúdos críticos. A maioria dos livros de economia é desproporcionalmente matemática em conteúdo, difícil de seguir e negligente da motivação e significado de uma maldita hipótese, a da matemática e modelo após o outro. Assim, a dificuldade aqui é oferecer algum material técnico bem selecionado sem que ele seja ensinado à custa de conteúdo substantivo e sem que sirva pura e simplesmente como um objetivo por si só.

Em terceiro lugar, a economia abrange agora um peso vasto e crescente de temas, tanto de cada um deles como nas ligações entre eles. Assim, mais uma vez, tal como acontece com o material técnico, tem de ser feita uma escolha criteriosa em toda a amplitude e profundidade do material a apresentar. Isto é necessário tanto para oferecer uma cobertura suficiente da ortodoxia, dos seus princípios básicos e aplicações, como para permitir espaço para críticas.

Em quarto lugar, da mesma forma, podem ser aproveitadas algumas oportunidades para oferecer alternativas. Estas também devem ser criteriosamente escolhidos pela sua importância para ilustrar as diferenças com a ortodoxia, seja por tema, princípio, método, conceptualização, teoria, implicações políticas ou por pronto apelo ao “realismo”. Em suma, o objetivo é apresentar aos alunos formas alternativas de pensar, muitas vezes formas que eram a ortodoxia, mas agora foram desencorajadas e excluídas do currículo básico, tornando a ideia de alternativas e de pensamento alternativo à ortodoxia tanto contraintuitivos quanto sujeitos a resistência, senão mesmo à incompreensão.

Em quinto lugar, portanto, trata-se de compensar o facto inevitável de que a grande maioria dos estudantes de economia, mesmo aqueles que ingressam na pós-graduação ou nas carreiras académicas, desconhecem tristemente as questões metodológicas, a história da sua própria disciplina, o conhecimento de alternativas ao mainstream e as críticas de longa data ao mainstream que raramente são reconhecidas e muito menos contrariadas (se puderem ser). Isso também contribui para o peso do material que pode ser coberto, bem como as dificuldades de o transmitir e de explicar a sua importância.

Por último, um dos problemas do ensino de economia é que as exigências técnicas podem ser tão pesadas para os estudantes que elas assumem um peso excessivo de cuidado e atenção, em completa desproporção ao significado do que está a ser ensinado. É preciso um momento para dizer que talvez a maximização da utilidade não seja a única motivação dos consumidores nem a melhor forma de olhar para o consumo, mas demora muito mais tempo e é mais exigente explicar que a existência de funções de utilidade depende de um conjunto de axiomas – que as preferências são binárias, reflexivas, transitivas, completas e contínuas. Mas qual destes é o mais importante? É claro que a facilidade de expressão e de aprendizagem está longe de ser o único ou principal critério do que é importante abranger e como, mas há claramente algumas posições de compromisso a assumir (os trade-offs a fazer) para empregar o vernacular, para o realizar. E, estou infinitamente surpreendido com a forma como os estudantes de economia apreendem as técnicas que lhes foram ensinadas sem terem desenvolvido simultaneamente entendimentos conceptuais e um senso agudo do que é importante ou não, tanto em termos do que está dentro do material apreendido como do que nele não está.

Ao longo dos anos, encontrei maneiras de abordar, se não superar, essas dificuldades sobre o que ensinar e como, incluindo tópicos e formas de apresentá-los, que são um compromisso entre as várias exigências e obstáculos acima detalhados.

Além disso, acabo de redigir um texto para cada uma das duas disciplinas, microeconomia e macroeconomia, as quais esquematizo mais abaixo, ilustrando como é que as alternativas podem ser ensinadas dentro e em torno da ortodoxia [1]. Mas estou perfeitamente consciente de que a minha própria viagem através daquilo que ensino, como e em que contexto, será muito diferente da dos outros que são eles próprios suscetíveis de serem diferenciados uns dos outros. e, portanto, não há modelos para cursos alternativos. É importante que sejam cuidadosamente construídos, refletindo uma investigação e uma preparação pormenorizadas. Na verdade, preparar-se adequadamente para ensinar é tão exigente quanto empreender investigação, e investigação não reconhecida é para o professor de heterodoxia aquilo que ele deve dominar e procurar ultrapassar os limites da ortodoxia de forma imaginativa, original e bem informada.

 

2. História do Pensamento Económico como ponto de partida…[2]

Uma das características mais surpreendentes da ortodoxia é a sua quase absoluta ignorância da sua própria história. Isso vai muito além do erro (por exemplo, Adam Smith antecipou a teoria do equilíbrio geral como decorrendo de uma mão invisível quando, relativamente às mãos de Smith, esta não tinha nada a ver com equilíbrio geral) e do declínio da análise dentro da própria disciplina, se não mesmo demissão por parte dos liberais (os Whig), alegando que as explicações só podem ter melhorado [depois de Adam Smith].

Os estudantes tendem a ser altamente recetivos à ideia de que a economia é excecionalmente deficiente a este respeito, que é importante compreender como é que cada coisa se tornou no que ela é e para compreender o que ela é [a realidade], e de sentir que eles foram lesados na educação que anteriormente receberam. Tudo isso pode ser usado para motivar a atenção para a forma como a economia veio a ser o que está a ser, uma história que pode ser contada de várias maneiras diferentes, não menos importante, tanto pela cronologia quanto pelo tema.

Para a economia em geral, um ponto de partida pode ser a divisão entre a economia política clássica e a economia neoclássica e a passagem pela revolução marginalista da década de 1870, da qual a maioria dos estudantes está completamente inconsciente. O contraste entre as duas abordagens amplas pode ser desenhado para fornecer elementos de alternativas heterodoxas, variando entre: individualismo metodológico (de um tipo especial, reduzido à maximização da utilidade) versus holismo metodológico (introduzir a análise sistémica ou estrutural e as classes, e o que estas significam para os estudantes para quem há falta de familiaridade com os termos e muito menos há ainda quanto aos  conceitos); teorias subjetivas versus objetivas de valor; interdisciplinaridade; dedutivismo versus indutivismo; equilíbrio e eficiência versus perspetivas para o capitalismo [3].

Como resultado, a revolução marginalista da década de 1870 pode ser vista como uma etapa na ascensão da ortodoxia, com os passos seguintes a serem a revolução keynesiana da década de 1930, a revolução formalista da década de 1950, a contra-revolução monetarista da década de 1970 e o mercado subsequente (e outras) imperfeições de reação que nos leva quase até os dias atuais. Cada um desses estágios de desenvolvimento da disciplina pode ser útil para fins de ensino ao explicar a natureza e as origens da ortodoxia atual (o que foi colocado e o que foi retirado e como). Para a microeconomia em particular, a passagem das revoluções marginalista para formalista contornou a Grande Depressão e a ascensão da macro. Tudo isto pode ser visto como estando relacionado com duas perguntas apenas – como obter o máximo de informações a partir das formas tomadas pelas curvas de oferta e procura, dado que os indivíduos estão a procurar alcançar o seu interesse próprio através do mercado (e a procura não diminui necessariamente com o preço) e como agregar esses indivíduos para gerar um equilíbrio geral simultâneo.

Sabemos, e precisamos de os ensinar, que esses problemas foram resolvidos por Hicks-Slutsky-Samuelson (as condições de primeira e segunda ordem para otimização) e Arrow-Debreu, respetivamente, (com este último a estabelecer propriedades de existência e eficiência do equilíbrio geral à luz dos dois teoremas fundamentais da economia do bem-estar). Para o primeiro, não menos importante através de abordagens de dualidade para otimização, segue-se que tudo depende de determinadas funções de utilidade e produção, e o que pode ser apelidado de aparato técnico central, (sigla TA, em inglês) da ortodoxia.

O uso de funções de produção e de utilidade, em particular, como os principais componentes do TA, tem sido tomado como sacrossanto dentro do mainstream, tanto para a análise estreitamente definida da oferta e da procura quanto para a sua projeção em qualquer número de outros problemas (como com o imperialismo da economia, veja abaixo). Todo o aparato técnico está, porém, prontamente inserido no que pode ser chamado de arquitetura técnica, outra característica TA, de preocupação com otimização, equilíbrio e eficiência. Pode-se insistir sobre o facto de que as duas TA (TA2) continuam a formar os fundamentos da ortodoxia atual [4], tanto que podem ser tomadas como garantidas, aumentando ou, perversamente, até mesmo afastando-as do processo (veja abaixo quando se fala em “suspensão”).

Mas tão importante como a derivação da TA2 em si é a forma como foi derivada. Aqui, mais uma vez como um dispositivo de ensino, é útil referirmo-nos a uma “implosão”. Essencialmente, os resultados tornaram-se o objetivo em si e qualquer sacrifício era aceitável para os alcançar em termos de método, concetualização, pressupostos e até mesmo de realismo. Assim, as preferências (e, portanto, a natureza dos indivíduos e das mercadorias) são tomadas como dadas, a motivação é unívoca, os preços são tomados como dados, não há economias de escala e de gama, etc. A estreiteza do âmbito de análise é um dispositivo motivacional importante para ensinar (as razões para) a falta de realismo.

Cada um dos sacrifícios efetuados nesta implosão é essencial para se chegar à AT2. Além disso, a AT2 foi consolidada na sequência da chamada revolução formalista dos anos 50 (quando, como etapa seguinte do seu desenvolvimento, a economia começou a tornar-se fortemente matemática). Na construção da AT2, as necessidades são valorizadas e ultrapassam em muito a lógica da obtenção dos resultados. Os métodos, as conceptualizações, as teorias e os pressupostos deixam de ser um meio para atingir um fim e passam a ser o próprio fim, tornando-se o ponto de partida para todas as análises económicas, promovendo pressupostos e métodos matemáticos normalizados. Este é um ponto importante para os estudantes que se debatem com a noção de que a ortodoxia é justificada pelos seus métodos supostamente superiores (o que não é o caso) e pela emulação das ciências físicas (o que não é o caso, dada a forte dose de realismo empírico destas últimas).

Os estudantes também precisam de saber que a distinção entre macroeconomia e microeconomia deriva da década de 1930, com a ascensão do keynesianismo e a perceção da incapacidade da TA2 em evolução para lidar com a Grande Depressão como uma falha sistémica (de procura efetiva para Keynes). É também imperativo que os estudantes estejam conscientes de que, no período entre guerras, havia outras tradições económicas tão fortes, se não mesmo mais fortes, do que as que informam a micro e a macroeconomia, nomeadamente a “velha” economia institucional original, com as suas preocupações indutivas (se bem que ainda teóricas) com temas como a ascensão dos sindicatos, as empresas monopolizadas, a distribuição e a regularidade dos movimentos cíclicos, com a correspondente confiança na história económica e na análise socioeconómica, por oposição à modelização matemática.

Consequentemente, na altura da revolução formalista, a disciplina estava dividida de forma tripartida em micro, macro e um conjunto heterogéneo de outros domínios aplicados considerados mais ou menos incompatíveis com a análise micro/macro enquanto tal – assim, por exemplo, a velha ou clássica economia do desenvolvimento baseava-se mais na história económica e nos métodos indutivos. Embora tanto a micro como a macro tenham rapidamente estabelecido as suas posições e formas cada vez mais matemáticas através do ensino dos manuais, a macroeconomia (especialmente através da IS/LM) foi vista como distinta e, em grande medida, mais prestigiada do que a micro. Mesmo assim, é importante sublinhar a distinção entre a economia de Keynes e a economia keynesiana, tal como esta se tornou com a síntese neoclássica, sobretudo com uma adoção inicial de métodos matemáticos e de modelização, se não mesmo uma dependência exclusiva de agentes optimizadores em detrimento da análise sistémica.

Mas, tendo implodido no seu núcleo TA2, a microeconomia estava pronta a explodir, não só na economia, mas também noutras disciplinas, naquilo a que se pode chamar imperialismo da economia. Este é um tema que deveria ter um lugar de destaque no ensino da teoria económica, sobretudo porque reflete a interdisciplinaridade. Levanta questões sobre qual é o âmbito da análise económica, tanto em princípio, ou logicamente, como historicamente (atendendo ao que tem sido considerado o âmbito da matéria, conteúdo e métodos da disciplina ao longo do tempo). Com efeito, a história subjacente à criação da TA2 foi a de confinar a análise a um aspeto do comportamento humano (uma noção reduzida de utilidade e da sua maximização) para uma aplicação, o mercado, através da oferta e da procura (e com pressupostos muito especiais para operacionalizar o exercício). Logicamente, no entanto, apesar deste confinamento histórico dos princípios microeconómicos, a sua aplicação não está, logicamente, limitada em termos de matéria. Afinal, a maximização da utilidade não faz qualquer referência à oferta, à procura, ao mercado, etc. Assim, embora a história da AT2 aponte para um confinamento do seu âmbito de aplicação, a sua lógica sugere, paradoxalmente, o contrário.

Em suma, aquilo a que se poderia chamar a lógica histórica do imperialismo da economia aponta para os limites históricos impostos à derivação e aplicação da TA2, mas para o seu potencial lógico de aplicação alargada, uma vez estabelecida. E, de facto, foi exatamente isso que aconteceu desde a revolução formalista, com uma explosão da TA2 tanto na economia como nas ciências sociais em geral. Começa analiticamente por aplicar a maximização da utilidade e similares como se estivessem na presença de mercados, mesmo quando estes estão ausentes, sendo os primeiros exemplos a teoria do capital humano, a cliometria (ou a nova história económica) e a teoria da escolha pública (polemicamente, para os estudantes, a escolha entre maçãs e peras é idêntica à escolha entre guerra e paz). Os alunos devem também compreender que os fatores não mercantis que foram excluídos para poder estabelecer a AT2 são posteriormente, de forma arbitrária e perversa, retomados para serem explicados pela sua aplicação.

O principal expoente do imperialismo da economia naquilo que chamei a sua primeira fase é Gary Becker. Sem exceção, o seu trabalho nunca se refere ao dinheiro e às finanças, nem ao desemprego. Mas o imperialismo da economia na sua segunda fase, que segue a contrarrevolução monetarista na macroeconomia, como discutido abaixo, continua a contar com o TA2, mas acrescenta a ruga [ a imperfeição]  de permitir que os mercados funcionem imperfeitamente como resultado de informações assimétricas (Stiglitz, mas iniciadas pelo mercado de limões de Akerlof) ou de rendimentos crescentes à escala (Krugman, principalmente para o comércio e a geografia e, de outro modo, muito menos proeminente enquanto tal [5]).

Esta fase do imperialismo da economia considera o não-mercado como a resposta coletiva e racional a tais imperfeições do mercado – é por isso que o Estado, as instituições, os costumes ou o comportamento aparentemente irracional existem. O resultado é dar origem a toda uma gama de novos campos que abrangem a economia e as outras ciências sociais, bem como rejuvenescer as aplicações mais antigas da primeira fase do imperialismo económico, incorporando também na microeconomia os campos aplicados que anteriormente tinham uma existência independente (a nova economia do desenvolvimento, a teoria do Comércio, a economia industrial, etc.).

Estes desenvolvimentos na microeconomia têm as suas contrapartes na macroeconomia. Até à contrarrevolução monetarista, o keynesianismo reinava supremo, embora o quadro IS / LM fosse por vezes complementado por outras interpretações, como a sua própria reapreciação e o pós-keynesianismo. Estes são dignos de cobertura ao evidenciar as diferenças nas escolas de pensamento na forma como a economia é concebida. Com efeito, em termos de apresentação, é correto em todo o ensino tratar a ortodoxia com respeito no sentido de não a designar como certa ou errada enquanto tal, mas de considerar as alternativas como oferecendo diferentes formas de compreender como funciona a economia, destacando para cada uma delas o que está presente e o que está ausente, as tensões e erros que estas criam nos seus próprios termos sem falar também das que decorrem de outras perspetivas, e as estruturas, processos, relações e instituições envolvidas (estas últimas são altamente reduzidas no caso da ortodoxia, tendo em conta o seu individualismo e metodologia dedutiva).

Assim, tal como claramente captado pela noção de Coddington da reavaliação da própria teoria por si-própria como sendo reducionista, isto pode ser visto como uma generalização do equilíbrio geral em que os agentes optimizadores estão, ao mesmo tempo, condicionados aos recursos e às trocas, captados analiticamente através do dispositivo de modelos de preços fixos. Para além de suavizar a transição através das contrarrevoluções monetaristas e dos Novas Clássicas que subordinaram explicitamente a macroeconomia à microeconomia (imperfeição do mercado), assumindo, em última análise, a forma da Nova Macroeconomia consensual, a reavaliação da teoria por si-mesma capta perfeitamente o aspeto da procura efetiva do keynesianismo, mas passa por cima inteiramente dos seus elementos sistémicos, fortemente reduzidos, como mencionado anteriormente em relação ao próprio Keynes pelo quadro IS / LM (pontos de vista de Keynes sobre a modelação matemática, o individualismo metodológico, as expectativas e a incerteza, os espíritos animais, e a natureza de um sistema financeiro moderno, tudo isto precisa de ser posto em evidência, embora o apelo à autoridade de Keynes tenha diminuído, assim como ele tem sido cada vez mais deturpado e rejeitado).

O pós-keynesianismo, por outro lado, vai na direção oposta, destacando aos estudantes de uma forma relativamente fácil a natureza sistémica da análise macroeconómica, proporcionando oportunidade para introduzir elementos de estrutura (salários e lucros), relações (capital e trabalho), processos (monopolização) e instituições (fontes de procura através do consumo ou investimento), bem como sublinhando o carater endogeneizado do sistema monetário (abertura, especialmente na sequência da crise financeira Global, (CFG), o impacto do sistema financeiro na procura efetiva através da especulação, investimento, consumo e distribuição). Além disso, as considerações metodológicas podem ser introduzidas através da divisão da escola em dois campos, um que constrói modelos sobre fundamentos que diferem da ortodoxia em oposição ao outro que realça o caráter fluido e incerto da macroeconomia e a vaidade correspondente envolvida na redução da macroeconomia a um modelo, por melhor que seja construído e estimado.

Até certo ponto, a narrativa da história da macroeconomia foi interrompida pela mudança para a narrativa alternativa de comparação de escolas de pensamento [económico]. Fazer com funcionem as duas vias simultaneamente, se de forma coerente e clara, não é uma coisa má, especialmente se também oferecerem uma visão mais ampla da trajetória da macroeconomia até o seu estado atual, ou pelo menos até à Grande Crise Financeira ( GCF). Aqui, dois temas podem ser salientados. Um deles, é a forma como o curto prazo e o longo prazo se relacionam entre si. A macroeconomia, com exceções que provam a regra (como a teoria do crescimento e os ciclos económicos reais), tem sido cada vez mais reduzida à investigação de desvios de curto prazo em torno de (dadas) tendências de longo prazo. Isto pode ser demonstrado como consequência da combinação ilegítima de três noções diferentes do próprio conceito do longo prazo- a passagem do tempo, o equilíbrio e a velocidade relativa de ajustamento das variáveis- que são tanto questões teóricas como empíricas.

Em segundo lugar, a macroeconomia tem convergido cada vez mais para o equilíbrio geral, embora de duas formas totalmente diferentes e independentes (para além de ser o longo prazo algo que é distante e esquecido e em torno do qual o curto prazo se move, com a presunção da existência de um epicentro único, estável e eficiente). Uma destas duas formas, é confiar nos microfundamentos e no individualismo metodológico, sob a forma ainda mais extrema de agentes representativos. A outra é a coerência walrasiana entre os mercados (o que, por exemplo, tem profundas implicações na forma de resultados de equivalência do tipo ricardiano e no que o Estado pode ou não pode fazer).

Estes dois temas permitem traçar o caminho para o estado atual da macroeconomia, mesmo que precisem de ser complementados por acontecimentos significativos ocorridos ao longo do caminho. Trata-se principalmente da eliminação do poder dos monopólios e do poder empresarial, da distribuição de rendimento e riqueza, da luta de classes, das mudanças tecnológicas e das condições económicas e sociais mais amplas e do papel do Estado, a partir desta análise; redução de Keynes às  funções IS / LM; efeito de equilíbrio real de Patinkin para fazer com que o dinheiro seja importante, mas não muito e de maneiras limitadas; a redução da incerteza às expectativas; substituição de expectativas racionais por expectativas adaptativas; redução aos indivíduos representativos; e redução de macro para oferta e procura com mercados mais ou menos aleatórios, mais ou menos tensos, mais ou menos conhecidos informacionalmente.

 

3. …para a Crise Financeira Global, de novo

Tais narrativas em micro e macro permitem que os desenvolvimentos mais recentes dentro da disciplina sejam explicados na esteira da GCF. Por um lado, muito pode ser feito quanto ao fracasso em antecipar ou mesmo permitir tais eventualidades, em particular com as absurdidades das várias versões da hipótese de mercados eficientes segundo as quais os mercados financeiros e as suas interações com outros mercados são considerados importantes para fundamentar e a estabelecer o melhor de todos os mundos possíveis.

Por outro lado, a resposta tem sido mínima e pode ser comparada com a década de 1930 (keynesianismo) e a década de 1970 (contra-revolução monetarista). Isso não significa que a ortodoxia tenha estagnado. Em vez disso, entrou numa nova fase do imperialismo da economia que se estende ainda mais extensivamente e incorpora em si a matéria e os tópicos de outras disciplinas. A ortodoxia fá-lo através do que eu chamei de suspensão, tanto agarrando-se como largando ao mesmo tempo a TA2. A disciplina está de tal modo confiante em TA2 em si-mesma e como estando no núcleo da disciplina que é agora aplicada em conjunto com qualquer outra coisa que agrade, e venha de onde vier, e praticada para tudo o que lhe agrade. Isso é assim, como observado anteriormente, apesar do levar ao que antes era necessariamente assumido como distante e inconsistente com o TA2, a fim de estabelecê-la em primeiro lugar. O exemplo mais óbvio são os pressupostos comportamentais alternativos. Mas o mesmo se aplica a qualquer número de variáveis de maior ou menor escala de comportamento indo do comportamento não-ótimo às instituições e similares.

Tais desenvolvimentos podem ser utilizados para expor os pontos fortes e fracos da ortodoxia. Porque é que e como é que tais fatores podem agora ser levados em conta, quando foram evitados anteriormente, em particular a racionalidade limitada de Simon e mesmo a teoria dos jogos quando foi estabelecida pela primeira vez (pois implica que os indivíduos não podem considerar-se como isolados e independentes uns dos outros). Os pontos fortes derivam da capacidade institucional da ortodoxia tanto para manter os seus princípios fundamentais como para os contradizer. Da mesma forma, abre as suas fragilidades analíticas não só através de incoerências e falta de rigor (que na prática raramente constituíram um problema para a disciplina), mas também a partir dos métodos, conceitos e teorias que têm sido tradicionalmente utilizados por outras disciplinas na abordagem do assunto mais alargado da economia. Além disso, as fraquezas da ortodoxia são expostas pela sua incapacidade de explicar a economia com base nos seus próprios princípios económicos, embora isso possa ser projetado como uma força em termos de recorrer a outras disciplinas e fatores não económicos, mesmo que apenas nos seus próprios termos.

As fraquezas da ortodoxia podem então ser expostas através de um relato da sua própria história, mas abrindo igualmente oportunidades para as vias alternativas. Para esta última, no rescaldo da crise financeira global, o ponto de partida mais óbvio é o tratamento convictamente empobrecido das finanças na macroeconomia. Nas outras ciências sociais, e no seio da heterodoxia, a própria crise e as condições que lhe estão subjacentes deram origem a uma emergência surpreendentemente rápida e alargada do conceito de financeirização.

Mas o conceito de financeirização é notável pela sua ausência na economia ortodoxa, e pela boa razão de que é totalmente incompatível mesmo com uma AT2 em suspensão, porque envolve estruturas (localização da finança na economia), relações (de poder sobre a economia e a sociedade), instituições (para além dos indivíduos, sobretudo as do sistema financeiro) e processos (a expansão e proliferação dos mercados e ativos financeiros). Consequentemente, a abordagem do conceito de financeirização constitui um contrapeso muito poderoso à ortodoxia. Mas tem também duas outras implicações significativas para a direção que o ensino pode tomar. Uma é vê-la como revelando apenas a ponta do icebergue das deficiências da ortodoxia, o que é mais obviamente devido à própria crise. Isto permite sublinhar como é que outras grandes questões de importância sistémica foram negligenciadas ou maltratadas, mesmo que não tenham sido trazidas para a ribalta, como a distribuição (Piketty como sendo a exceção que pode ter um impacto limitado e duradouro), o comportamento e o poder das empresas (onde estão as multinacionais no micro e no macro), o papel da saúde, da educação e do bem-estar no desempenho económico, e como as fontes e o impacto das mudanças tecnológicas.

A outra questão é dissolver ou, pelo menos, inverter a relação entre o micro e o macro, perversamente, uma vez que o objetivo da ortodoxia é reduzir o macro ao micro. Por um lado, como podemos compreender e abordar as questões microeconómicas sem as situar no seu contexto macroeconómico (por exemplo, o comportamento das empresas sem ter em conta o valor para os acionistas, as fontes de tecnologia, a criação de mercados, etc.). Por outro lado, a divisão entre micro e macro é arbitrária, uma criação artificial da evolução da ciência económica em oposição à da própria economia. De facto, a socialização da economia na prática vai contra a crescente confiança na microeconomia em princípio dentro da ortodoxia. Questionar a separação entre micro e macro não é idêntico, mas permite considerar questões de conflito e poder que há muito estão ausentes da ortodoxia.

Uma forma notável de ilustrar estes pontos e muitos outros que se seguiram é através da teoria do crescimento e da sua própria trajetória desde Harrod-Domar até às versões antigas e novas. A teoria do crescimento passou, ela própria, por fases de grande importância, mas, quando favorável, situa-se geralmente no domínio macroeconómico por razões óbvias. No entanto, o seu conteúdo substantivo é exclusivamente microeconómico. De facto, e até certo ponto de forma perversa, o modelo de crescimento de Solow é microeconomia projetado para macroeconomia duas décadas antes de a Nova Economia Clássica o ter celebrado como tal. Baseia-se na simples função de produção para a grande maioria do seu conteúdo substantivo e, subsequentemente, abriu caminho a qualquer número de projeções microeconómicas para a macroeconomia através da nova teoria do crescimento. Uma forma de ensinar isto é, então, expor as fraquezas da antiga teoria do crescimento, nomeadamente em termos da sua dependência de um crescimento equilibrado em estado estacionário, do pleno emprego e de mercados que funcionam perfeitamente, e a forma como a nova teoria do crescimento não consegue resolver estes problemas ou acrescenta algumas fraquezas que lhe são próprias – nomeadamente as variações dos preços relativos, a concorrência imperfeita, a ausência de pleno emprego e as economias de escala e de gama. E, depois de ter calculado a produtividade total dos fatores (PTF), a ortodoxia passa a explicar esta produtividade precisamente pelos fatores que nessa função foram suprimidos ao medi-la, sejam eles a corrupção, as recessões, a força dos sindicatos ou outras.

Estas incluem, no caso das regressões homónimas de tipo Barro, a redução da história do crescimento para todos os tempos e lugares ao que é efetivamente uma função de produção Cobb-Douglas para o crescimento em qualquer conjunto de variáveis que se queira incluir. O resultado é tão incoerente como a medição da produtividade total dos fatores (PTF). Esta última implica tratar como residuais todos os desvios dos pressupostos do modelo de um sector – nomeadamente as variações de preços relativos, a concorrência imperfeita, a ausência de pleno emprego e as economias de escala e de gama. E, tendo calculado putativamente a PTF, a ortodoxia passa a explicá-la precisamente pelos fatores que foram suprimidos na sua medição, quer se trate de corrupção, recessões, força sindical ou o que quer que seja.

Mas a base da teoria do crescimento é a função de produção omnipresente. Como é bem conhecido dos economistas heterodoxos, mesmo que já não tenha a importância que teve no seu auge nos anos sessenta, isso é totalmente incorreto nos seus próprios termos à luz da Critica do Capital de Cambridge. A melhor maneira de expor este tema é ter em conta que em termos das propriedades de um modelo a  um só setor, estas não podem ser transferidas para modelos de mais de um setor. Isso por si só abre uma série de outras críticas internas à ortodoxia que minam totalmente as suas intuições e credibilidade, que vão desde a hipótese da existência de um equilíbrio único, estável e eficiente, à teoria do segundo melhor (second best) e à teoria das vantagens comparativas (que exigem pleno emprego, apenas dois setores, concorrência perfeita, etc [6].). Estes exercícios, no seio da própria ortodoxia, demonstram aos alunos que as técnicas matemáticas têm primazia sobre os seus resultados, uma vez que, apesar da fraca fiabilidade destes últimos, a ortodoxia parte do princípio de que tais exercícios não são prevalecentes.

Estas críticas internas abrem também o potencial para outras vias alternativas. A primeira é a concetualização da própria produção como uma simples relação entre inputs e outputs, para a qual a teoria marxista do processo de trabalho oferece um ponto de partida crítico. Em segundo lugar, o pressuposto de tecnologias dadas, por oposição às teorias da mudança tecnológica, para as quais existem várias teorias e fatores que podem ser escolhidos. Um bom ponto de partida é a divisão do trabalho de Adam Smith, da qual deriva a sua peculiar teoria das componentes do preço. Uma divisão crescente do trabalho permite o aumento dos salários como parte integrante do preço. Os pormenores – e os erros apontados por Ricardo ao considerar as componentes do preço independentes umas das outras, embora estejam ligadas pela produção líquida – não precisam de que nos detenhamos nisto.

O que é bastante importante é considerar que Adam Smith procura construir uma teoria do valor num contexto em que a produtividade está a evoluir, o que a ortodoxia, no melhor dos casos e através da estática comparativa, não aborda satisfatoriamente, ou no pior dos casos, chega mesmo a ignorar. De facto, o único outro grande teórico a incorporar a mudança técnica na teoria do valor desta forma é Marx.

Embora a teoria do valor de Marx tenha sido frequentemente interpretada, de forma controversa e restrita, através de uma teoria estática do preço de equilíbrio sob a forma do chamado problema da transformação, é mais completa e apropriadamente entendida como uma teoria da mudança técnica através da qual o sistema de relações de troca é exposto a profundas tensões subjacentes uma vez que procura ligá-lo à acumulação de capital e à medida que a produtividade evolui diferencialmente entre os setores, Fine e Saad-Filho (2016).

Além de questionar a separação entre micro e macro, explorar a relação entre a teoria do valor e a mudança de produtividade permite abranger a economia política clássica, até porque incorpora considerações mais amplas de várias interpretações da queda da rentabilidade, do estado estacionário e das crises. A teoria do produtor, no entanto, também oferece a oportunidade de considerar a concorrência como um tema. No seio da ortodoxia, apesar das suas origens comuns na TA2 com a teoria do Consumidor – as funções de produção e de utilidade são essencialmente equivalentes – existe uma riqueza de análises ainda que fragmentada, abrangendo variedades de modelos de saída e de entrada, diferenciação de produtos, oligopólio, etc. Estes podem ser utilizados para apresentar alternativas em que a ideia de determinação do equilíbrio, em oposição à rivalidade contínua, é inadequada, que todos os fatores não podem ser tomados em consideração simultaneamente, de modo que seja necessário um conteúdo indutivo, e que o contexto mais amplo é relevante para as formas que a concorrência assume e com que resultados, em vez de depender apenas de relações intra e interempresas. Os ortodoxos, e algumas noções heterodoxas de concorrência, podem ser explicadas para obter os seus resultados através da incorporação de alguns aspetos da concorrência em detrimento de outros. E a relação entre concorrência e resultado económico pode situar-se na discussão mais ampla da natureza da política industrial, por um lado, e da transformação industrial (e do paradigma do Estado desenvolvimentista, digamos), por outro.

Ao contrário da teoria do produtor (uma vez que as empresas têm algum tipo de vida para além da otimização), como já foi referido, a teoria do consumidor permanece notavelmente estagnada desde a revolução marginalista, com algumas reviravoltas e, um detalhe à parte, com muita econometria sofisticada. Esta situação contrasta fortemente com a viragem pós-modernista nos estudos sobre o consumo, em que a natureza do que é consumido (o significado dos bens) e do consumidor (a construção de identidades) passou a estar em primeiro plano, para além das teorias de longa data que se afastam totalmente da maximização reducionista da utilidade (emulação, distinção, formação de hábitos, altruísmo, etc.). Isto significa que existe uma grande oportunidade para apresentar alternativas à ortodoxia, no domínio  das ciências sociais e da heterodoxia, com um apelo considerável a um maior realismo e à experiência pessoal (porque é que vestes o que vestes!). A minha própria abordagem a esta questão tem sido, em parte, realçar as determinantes sociais do consumo, especialmente as que estão ligadas à distância do próprio consumo, com os debates sobre a soberania do consumidor a oferecerem, no máximo, um ponto de partida crítico limitado.

.No caso da alimentação, por exemplo, a ênfase pode ser colocada na forma como o sistema alimentar se baseia em compulsões subjacentes, tanto para comer como para fazer dieta, e cada indivíduo é confrontado com a forma de responder a estas pressões, o que dá origem a explicações para as “doenças da riqueza”, como os distúrbios alimentares, a obesidade, etc., que desafiam a explicação ortodoxa, a não ser através do apelo a uma irracionalidade global, a uma miopia intertemporal e ao desconto. Mesmo aqui, pode-se apelar à história para questionar o contrário, porque é que estas condições prevalecem agora e são um aspeto peculiar do capitalismo contemporâneo.

As fronteiras difusas, ou mesmo inexistentes, entre o micro e o macro podem também ser postas em evidência através da focalização nos mercados de trabalho. A extraordinária influência da teoria do capital humano pode ser criticada pela forma como concebe a definição e a aquisição de competências, bem como pela forma como considera que estas competências são recompensadas. Por um lado, as variáveis condicionantes necessárias para estimar os retornos do capital humano – género, raça, competitividade do sector, presença de sindicatos, ritmo da mudança tecnológica, pôr ou nascer do sol – revelam-se mais importantes do que aquilo que é explicado. Isto leva-nos claramente à teoria dos mercados de trabalho segmentados e à determinação estrutural da segregação profissional e das recompensas (embora eu acrescentasse que os fatores sociais determinam a forma como os mercados de trabalho funcionam internamente e são diferentes entre segmentos, para além de formarem os próprios segmentos), assim como  à aceitação tardia de que as estruturas do mercado de trabalho existem, embora seja numa base reduzida das consequências das imperfeições do mercado.

Mas um ponto de partida devastador para a reconstrução da teoria do mercado de trabalho surge do debate sobre o salário mínimo. Essencialmente, a ortodoxia tentou restabelecer uma relação inversa entre o salário mínimo e o emprego, condicionando a relação a qualquer variável que pudesse sugerir o contrário – escolha ou trabalho em vez de educação, bem como as  tendências em matéria de produtividade ou do ciclo, por exemplo. A resposta adequada a esta situação é concluir que os mercados de trabalho simplesmente não funcionam da forma sugerida pela ortodoxia – são socialmente construídos, em vez de refletirem simplesmente a interação condicionada da oferta e da procura.

No caso da macroeconomia, existem muitos modelos alternativos que podem ser propostos e que se afastam da ortodoxia, mas que ao mesmo tempo permitem ter o domínio dela e das suas técnicas. Para estas, e também para a ortodoxia, é imperativo dizer primeiro aos alunos que encontrem o equilíbrio nestes modelos, pois isso lhes dirá muito mais sobre eles do que qualquer outra coisa. A segunda é identificar como a economia foi desagregada em que setores (reais e monetários). Em terceiro lugar, é necessário especificar a forma como cada um destes sectores é entendido em termos de compensação do mercado e de competitividade ou não. Em quarto lugar é necessário compreender como estes mercados interagem uns com os outros (se linear, ou aproximações da linearidade, este será simplesmente o inverso da matriz de equações que produzem multiplicadores).

Como mencionado anteriormente, os modelos ortodoxos e heterodoxos partilham muito em comum nestes aspetos, mesmo que compreendam de forma diferente o funcionamento do sistema económico. Isso levanta a questão de saber se e em que medida pode ser o seu modelo ou o meu, ou se se deve argumentar que a complexidade e a fluidez das relações macroeconómicas, estruturas, processos e instituições tornam a modelização extremamente limitada para fixar o que não é fixo. Como, por exemplo, gerir a globalização, a monopolização, as mudanças tecnológicas e a financeirização que são fundamentalmente desequilibrantes e, no entanto, são os principais mecanismos da evolução da macroeconomia?

No ensino da macroeconomia, para além da história anteriormente delineada, gosto de abordar dois modelos que representam, eles próprios, os primórdios e uma contribuição mais contemporânea. O modelo de Harrod (acelerador-multiplicador) é um excelente ponto de partida por várias razões. Em primeiro lugar, foi ele próprio uma ortodoxia no seu tempo, procurando integrar o crescimento com os ciclos. Em segundo lugar, este modelo falha (a não ser através da introdução artificial de não-linearidades designadas por “floors and ceilings”). Em terceiro lugar, introduz equações de diferenças como técnica (e pode ser estabelecida uma comparação com modelos contínuos). Em quarto lugar, a evolução subsequente da macroeconomia pode ser situada em termos de abandono de pressupostos fundamentais – ausência de moeda, fixação de preços, expectativas adaptativas, custos de juros e aumento do custo do investimento, otimização intertemporal da produção e do consumo, e concentração nos desvios a curto prazo em torno de uma determinada tendência. Em quinto lugar, este modelo simples produz resultados dramáticos em termos da instabilidade fundamental da economia capitalista. E, no entanto, em sexto lugar, todos os pressupostos qualificativos que acabámos de enumerar têm, por acidente ou por objetivo (e com pretensões de maior realismo e generalidade), o efeito de suavizar a evolução da (do modelo da) economia e de eliminar a profunda instabilidade do fio da navalha.

Finalmente, isto permite discutir sobre se os modelos são mais ou menos realistas ou melhor entendidos como apresentando visões de como uma economia capitalista pode funcionar se se concentrarem em alguns dos seus aspetos, sem a presunção de que quanto mais complexo é mais esclarecedor é (o que dificilmente pode ser contrariado dada a mais recente tendência da ortodoxia para a macroeconomia do novo consenso e o seu modelo de três equações em vez da modelação keynesiana multi-setorial).

Os modelos de sobrerreação de Dornbusch (overshooting) oferecem perspetivas semelhantes. Embora exista uma literatura que procura testar a sua relevância, não é essa a questão. Pelo contrário, com base no mais simples dos modelos, com todos os mercados a funcionar com condições de equilíbrio (bem, apenas dois para o mercado financeiro, mas não para o mercado de bens) e pleno emprego em todos os momentos (ou seja, apenas um mercado não funciona perfeitamente, mas com alguma rigidez), e também com expectativas racionais (ou seja, os novos clássicos têm quase tudo o que poderiam desejar), então a taxa de câmbio ultrapassa [isto é, sobrerreage] a taxa de câmbio de equilíbrio no movimento para se ajustar a uma nova posição de equilíbrio. Isto mina totalmente a motivação  da ortodoxia, porque isto sugere, e não apenas para os mercados cambiais, mas de uma forma mais geral, que o lugar de destaque ocupado pelo sistema de preços na sinalização aos agentes da forma como devem otimizar pode ser totalmente perverso. Os fundamentos macroeconómicos da microeconomia são totalmente postos em causa e sem falar do inverso. Pior ainda é o facto de que, se a hipótese do pleno emprego for abandonada e se a produção se ajustar em resposta ao excesso de procura, então o resultado da sobrerreação é atenuado e até possivelmente invertido. Por outras palavras, quanto mais keynesiana for a economia, menos sujeita está a movimentos perversos de preços!

Isto pode ser considerado como a reintrodução de um papel para o keynesianismo e para o Estado no objetivo de conseguir alguma forma de estabilidade para a economia. Como já foi referido, a compreensão do Estado na macroeconomia moderna (e na microeconomia, aliás) é muito limitada – é apenas um indivíduo especial capaz de deslocar algumas curvas da oferta e da procura e ao qual os indivíduos podem reagir, anulando-se no limite. As alternativas da economia heterodoxa e das ciências sociais em geral são abundantes, quer em termos da natureza do Estado e da sua relação com os interesses de classe, quer em termos do papel e das funções do Estado.

Tudo isso também pode ser utilizado para apresentar alternativas à macroeconomia, à microeconomia e à divisão entre as duas numa escala maior, contrastando os períodos keynesiano e neoliberal do capitalismo. Quando comecei a estudar economia no final dos anos 1960, a ideia de que o boom do pós-guerra era mais do que as consequências da gestão da procura keynesiana era considerada uma heresia, tanto quanto a macroeconomia do novo consenso,  com os seus pesados conotações monetaristas projetava a sabedoria convencional de que o estado da política macroeconómica e da teoria macroeconómica estava mais ou menos conjuntamente estabelecido do mesmo modo que estava estabelecido  a sua capacidade de regular a economia.

Mas ambos os períodos podem ser entendidos em termos de como o capitalismo é organizado principalmente para a reestruturação económica e social desigual do capitalismo à medida que se trata de acumulação. Para o período keynesiano, houve uma combinação de forte intervenção estatal, prestações sociais extensas, e internacionalização do capital em todas as suas formas (produção multinacional, comércio e finanças). Em contrapartida, graças à financeirização, o período neoliberal foi dominado pelo papel crescente das finanças na reestruturação económica e social. Embora esta mudança tenha profundas implicações para a política macroeconómica, sobretudo em termos de austeridade e dos níveis e composição das despesas do Estado (especialmente em crise), esta é simplesmente uma ponta do iceberg novamente em termos das formas como a macroeconomia funciona.

E, em parte sobre um ponto polémico, principalmente ao apresentar políticas alternativas e os meios para as realizar, deve-se ter em conta que as condições “macroeconómicas” ou os “fundamentais” económicos não poderiam ter sido mais favoráveis ao capitalismo do que sob o neoliberalismo – com a vitória da Guerra Fria, o declínio dos movimentos de libertação e da força e organização dos movimentos sindicais e de outros movimentos progressistas, as limitações ao aumento dos salários económicos e sociais, o triunfo do neoliberalismo na arena política, o enorme aumento da força de trabalho a nível global (inclusive com a viragem da China para o capitalismo), o enorme aumento da desigualdade e a disponibilidade de uma onda sem precedentes de novas tecnologias.. Em todas as áreas da macroeconomia e da política microeconómica, isso abre algumas alternativas com uma condição necessária, mas não suficiente, uma vez que o meio de as conseguir é a submissão do financiamento ao controlo social.

 

4. Observações finais

Ao ensinar a ortodoxia criticamente e abrir o caminho para o estudo de alternativas, a psicologia dos alunos é de uma certa importância porque estes são muito desdenhosos do que têm de aprender, e podem ter já gasto muita energia em terem aprendido o que sabem, é suscetível de ser compreensivelmente desmoralizante e instilar uma certa falta de recetividade. Consequentemente, uma abordagem através da história do pensamento económico quanto a esta temática pode oferecer alguma compensação, permitindo-lhes ver como é que as visões de um mundo plano podem surgir mesmo nos tempos de agora.

Da mesma forma, isso permite a discussão de como é que o conhecimento se torna naquilo que é em cada momento histórico – o keynesianismo é um produto da Grande Depressão, por exemplo – e compreender a influência relativa de eventos e interesses externos em oposição ao impulso intelectual interno (da TA2, a lógica histórica do imperialismo da economia, a incorporação de informações assimétricas, etc.). E por último, e não menos importante, há a oportunidade de discutir a natureza do capitalismo, a sua forma contemporânea como neoliberalismo e as perspetivas de formas alternativas de organização e de políticas a pôr em prática.

 

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Notas

[1] Ver Fine (2016a) e Fine e Dimakou (2016) onde o material aqui sugerido é coberto para fins de ensino. No que se segue, assumo a familiaridade com esse material sem a necessidade de oferecer exposição do mesmo, pelo que esta contribuição é mais favorável aos professores do que aos alunos.

[2] Ver Milonakis e Fine (2009) e Fine e Milonakis (2009).

[3] Uma maneira de ver a revolução marginalista, as mudanças na economia e as diferenças entre as escolas de pensamento em geral, é como uma mudança de paradigma. Isto tem pontos fortes e fracos, tanto como dispositivo analítico como de ensino, mas ver Fine (2002 e 2004) para alguma discussão. Note, no entanto, que a definição preferida de paradigma de Kuhn era como uma comunidade de cientistas, algo que se encaixa extraordinariamente bem na corrente dominante atual.

[4] A terminologia subjacente ao TA2 vem de um estudante meu, Al-Jazaeri (2009).

[5] Ver nota de rodapé anterior para referência à discussão da revolução teórica da informação na economia como uma mudança de paradigma dentro do mainstream.

[6] Ver Fine e Van Waeyenberge (2013).

 

Referências

Al-Jazaeri, H. (2009): Interrogating Technical Change through the History of Economic Thought in the Context of Latecomers’ Industrial Development: The Case of the South Korean Microelectronics, Auto and Steel Industries, PhD thesis, SOAS, University of London.

Fine, B. (2002): “Economics Imperialism and the New Development Economics as Kuhnian Paradigm Shift”, World Development 30(12), 2057-2570.

Fine, B. (2004): “Economics Imperialism as Kuhnian Revolution”, in Arestis, P. and Sawyer, M. (eds.), The Rise of the Market. Camberley: Edward Elgar, 107-144.

Fine, B. (2016a): Microeconomics: A Critical Companion. London: Pluto.

Fine, B. (2016b): “Neoclassical Economics: An Elephant is not a Chimera But Is a Chimera Real?”, in Morgan, N. (ed.), What Is This ‘School’ Called Neoclassical Economics?: Debating the Origins, Meaning and Significance. London: Routledge, 180-199.

Fine, B. and Dimakou, O. (2016): Macroeconomics: A Critical Companion. London: Pluto.

Fine, B. and Milonakis, D. (2009): From Economics Imperialism to Freakonomics: The Shifting Boundaries Between Economics and Other Social Sciences. London: Routledge.

Fine, B. and Saad-Filho, A. (2016): Marx’s Capital. London: Pluto Press.

Fine, B. and Van Waeyenberge, E. (2013): “A Paradigm Shift that Never Was: Justin Lin’s New Structural Economics”, Competition and Change 17(4), 355-371.

Lawson, T. (2013): “What Is This ‘School’ Called Neoclassical Economics?”, Cambridge Journal of Economics, 37(5), 947-983.

Milonakis, D. and Fine, B. (2009): From Political Economy to Economics: Method, the Social and the Historical in the Evolution of Economic Theory. London: Routledge.

 


Ben Fine [1948-], é um economista inglês. Estudou matemática na Universidade de Oxford. Fine formou-se aos 20 anos e depois foi recrutado por Sir James Mirrlees, concluindo um diploma de economia. Doutorou-se em economia na London School of Economics, sob a supervisão de Amartya Sen, em 1974. Mudou-se para o recém-criado departamento de economia em Birkbeck, Universidade de Londres, depois trabalhando a tempo parcial como economista industrial no Greater London Council antes da sua abolição. Foi membro do Comité de Investigação em Ciências Sociais da Food Standards Agency do Reino Unido, que se reuniu até 2016. Atualmente, Ben Fine é professor emérito de economia no departamento de Economia da SOAS, Universidade de Londres. Faz parte do grupo de supervisão dos Economistas do Conselho Económico dos Cidadãos da Royal Society of Arts, Commerce and Manufacturing (RSA).

Fine trabalhou inicialmente na teoria da escolha social, que mais tarde informou vários estudos sobre a escolha do consumidor e os padrões de consumo. Desenvolveu a estrutura ‘sistemas de produção’ para entender as maneiras pelas quais os bens são produzidos e consumidos, trabalhando com E. Leopold. Ultimamente, voltou-se para a compreensão da economia do trabalho e das desigualdades no sector extractivo da África do Sul, com base em alguns trabalhos anteriores sobre a indústria britânica do carvão, que estava em declínio.

É autor de uma série de obras na ampla tradição da economia marxista, e fez contribuições sobre o imperialismo económico e críticas ao conceito de capital social. Talvez o seu livro mais significativo até à data seja o Capital de Marx (6ª ed. 2016, primeira edição. 1975), com Alfredo Saad-Filho. O seu trabalho é citado mais de 39.000 vezes (Google Scholar, 2018) e os seus livros foram traduzidos para treze idiomas. Assessorou a UNCTAD, a UNDESA, o PNUD, a UNRISD e a Oxfam e atuou como consultor especialista na Comissão do mercado de trabalho Sul-africano de 1995-1996 do Presidente Nelson Mandela.

(mais informação ver aqui)

 

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