(Texto não recente, mas sempre oportuno e actual, sobretudo agora, em que as notícias só falam da igreja)
Meu caro amigo Papa Francisco
Desculpe tratá-lo assim, sem formalidades. Tenho por si respeito, consideração e sinto que sou seu amigo. Tenho, sobretudo, alguma compreensão. Compreensão pela enorme dificuldade que sente em lidar com a doença da sua igreja, pela obrigação que lhe cabe de limpar a infecção que a instituição que chefia vai deixando pelo caminho e pela impossibilidade de apresentar as medidas concretas que toda a gente reclama. Não tenho dúvidas de que é um homem sério, honesto e bem-intencionado, mas também não tenho dúvidas de que é um homem incapaz de curar este cancro, bem mais difícil de curar do que o da menina a quem deu um beijo. Mas não é por isso que o quero acusar, nem tenho o direito de o fazer. A carta que escreveu foi dirigida ao Povo de Deus, ao qual não pertenço. No entanto, convivo diariamente com esse mesmo povo e navegamos no mesmo barco, o que legitima, até certo ponto, a minha resposta.
Somos mais ou menos da mesma idade, ambos fomos enjaulados num seminário de jesuítas onde me cortaram as asas da minha infância e adolescência, dos dez aos catorze anos. Em vez de desenvolverem em mim a liberdade de pensar com que “Deus nos dotou”, sempre me alimentaram com o secular e religioso painço com que se domesticam as aves engaioladas. Com o Papa Francisco, nessa idade, provavelmente aconteceu o mesmo. Simplesmente o Papa Francisco chegou a Papa e eu não passei de um percevejo igual aos que subiam pelas pernas da cama da nossa camarata. Felizmente! O que me valeu foi pirar-me daquele inferno onde deram cabo da minha liberdade, galgando os altos muros da cerca do seminário, numa qualquer madrugada em que a minha vida deixou de ser a mais grotesca forma de o não ser. Em relação ao tema que motivou a sua carta e a minha resposta, não tenho consciência de algum dia ter sido assediado sexualmente, mas lembro-me de certos gestos, atitudes e palavras como “amizades particulares”, entre padres e alunos e mesmo entre alunos, coisa que eu na altura não entendia e hoje entendo perfeitamente. Fui uma vítima da religião, mas nunca fui vítima sexual.
A sua carta ao Povo de Deus, caro Papa Francisco, é uma montanha de eufemismos e de subterfúgios. Os seus eufemismos ainda que pacificadores não conseguem esconder que o abençoado e teórico coração da igreja foi sempre um coração falso, hipócrita e obscurantista. E isso é mais grave quando toda a gente sabe que o Papa Francisco é uma pessoa inteligente. Fala de abusos sexuais de crianças “cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas” quando devia falar de um número incomensurável e intercontinental de vis e obscenos criminosos, capazes de agressões cujas características até arrepiam um ser humano normal, e que deviam ser julgados e eventualmente encarcerados. Fala em olhar para o futuro, no sentido de “gerar uma cultura capaz de evitar que estas situações aconteçam e não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas”. Situações e espaços são o que não falta nos milhões de sinistros alvéolos deste secretíssimo labirinto que é a igreja. O problema não está nos espaços nem nas situações, mas na mente perversa, talvez doente em muitos casos, de milhares de cabeças que encimam qualquer traje eclesiástico, nomeadamente os espalhafatosos trajes cardinalícios. O meu amigo Papa Francisco sabe perfeitamente e muito melhor do que eu que essa cultura, essa dignidade, esse carácter, essa ética humana religiosa, os sagrados princípios e mandamentos que deveriam ser o coração da igreja a que preside, nunca existiram e dificilmente poderão existir, porque a árvore está podre há séculos. A sede de poder, a ligação à riqueza e à vaidade, a demagogia, a falsa caridade, a lavagem cerebral, a manipulação de massas que é exercida diariamente pela pérfida organização, com objectivos económico-financeiros acima de tudo, as monumentais fraudes financeiras, a colaboração em actos bélicos com ditaduras e opressões, a escandalosa luxúria de grande parte da cúria romana, quantas vezes a expensas de esmolas e fundos caritativamente doados para fins humanitários, a profunda hipocrisia, a perda da liberdade de pensamento e a ditadura religiosa são o tronco dessa árvore que não pode deixar de dar ramos criminosos de que é exemplo o inadmissível crime universal da pedofilia.
Diz o Papa Francisco que “a dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu, que alcança a alma e que, por muito tempo, foi ignorado, emudecido e silenciado. Mas o seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo”. O Papa Francisco sabe que foi a igreja e só a igreja a calar esse gemido, criando inclusive uma espécie de catecismo ou de mandamentos que continham as regras e a conduta a seguir pelos clérigos para silenciar, esconder e abafar tais crimes. Foi a igreja que sempre tentou emudecer e silenciar não só o grito das vítimas, mas sobretudo o ribombante clamor de tanta gente honrada e horrorizada, mesmo dentro do Povo de Deus, a denúncia amplamente difundida por numerosos jornalistas e investigadores de grande prestígio que escreveram dezenas de livros profundamente documentados, sendo muitos deles levados a tribunal pela própria igreja e de lá saindo absolvidos.
Não vou comentar toda a carta do Papa Francisco, até porque grande parte dela é tecida de conceitos e questões religiosas que não me dizem rigorosamente nada. Mas quando o meu amigo Papa Francisco se dirige ao Povo de Deus sabe a quem se dirige, e sabe que, apesar de haver muita gente boa e de fé, que pensa e julga, a maior parte das pessoas cuja fé ninguém tem o direito de condenar são pessoas que, de uma forma ou de outra, perderam ou desleixaram a capacidade de pensar pelas suas próprias cabeças. Não lhes interessa a análise dos fenómenos que as rodeiam nem sentem a necessidade de julgar, prescindindo do conhecimento da verdade e fugindo mesmo dela quando pressentem que ela espreita. Não querem dar à consciência o valor que ela tem, porque foram ensinadas e formatadas para não duvidarem de uma integridade e de uma sacralidade que a igreja nunca teve.