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Nota prévia
Carta ao Director da FEUC é o segundo texto de uma série de três dedicados à crise na Universidade. Trata-se de uma reflexão desencadeada a partir do meu corte umbilical com a FEUC feito em 28 de dezembro, dia de em que Joaquim Feio faria anos se estivesse entre nós.
Peço aos nossos leitores que vejam estes textos apenas como uma crítica ao sistema de ensino universitário em Portugal e nunca, mas nunca mesmo, como uma crítica pessoal contra alguém.
São textos que me foram muito difíceis de escrever, de reviver enquanto os escrevia, são textos que refletem uma realidade com a qual teremos que nos habituar a conviver, dada a incapacidade de a podermos esquecer. E fazer como o poeta Jacques Brel:
On n’oublie rien de rien
On n’oublie rien du tout
On n’oublie rien de rien
On s’habitue c’est tout
Como nota final devo agradecer aos meus revisores António Manuel Martins, Fernando Ribeiro, António Gomes Marques, Francisco Tavares, a enorme paciência havida em lerem e relerem mais do que uma vez os textos que agora editamos e a quem agradecemos as sugestões feitas.
JM
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Caro Álvaro Garrido, Caro Diretor
Hoje, 28 de dezembro, seria dia de aniversário do Joaquim Feio se ele estivesse entre nós. Não está, partiu definitivamente.
Envio-lhe hoje, por ser esta uma data de referência, um texto de reflexão sobre a sua suposta Reforma dos Curricula, a querer criar uma NOVA FEUC, a ser depois transformado em carta aberta em janeiro quando concluir os 50 anos da minha entrada na carreira docente, onde falo com afeto de retalhos da vida de um professor, a minha, e da sua reforma, direi antes, da sua contrarreforma da FEUC levada a cabo por si, por Tiago Sequeira, por Paulino Teixeira e outros. Trata-se de um texto escrito em outubro e guardado para esta data.
Disse-lhe há dias, quando teve a amabilidade de me entregar na Vénus o livro 50 anos da FEUC, que lhe ia mandar um texto em que expressava a minha posição crítica quanto ao atual momento da FEUC. Disse-lhe que seria um texto amargo e de que não iria gostar. Mas era assim pela minha parte, uma vez que tinha feito a opção de viver na incomodidade de ser incómodo. E a carta que lhe envio agora é também um exemplo disso mesmo.
Dizia eu há dias a Ben Fine que chegámos a uma idade em que só nos devemos situar no campo não do politicamente correto, mas sim do que entendemos como intelectualmente correto. Curiosamente, ao ler os três tomos da sua crítica ao longo de anos sobre o ensino em economia, a serem publicados em 2024, descubro que este marxista convicto, economista cauteloso, assim o classificava o jornal Observador em fevereiro de 2018, foi sempre o que fez. Pensando bem, diria o mesmo de mim próprio como facilmente se ilustra:
1. Em 1954, com onze anos, protesto junto do ministro da Educação, Pires de Lima, creio, porque considerava que o regime político português era um regime justo e como regime justo não podia pactuar com injustiças. E o exemplo de injustiça era o facto de a minha professora da escola primária, para nos levar ao exame de admissão, exigia o pagamento de 1500 escudos, ou seja 3,5 vezes o ordenado mensal do meu pai, se este tivesse trabalho todos os dias.
O protesto foi enviado em carta anónima. O sobrinho da professora, o prof José Batista Martins, mais tarde um dos criadores da Telescola da época, era inspetor do Ministério. Soube da minha queixa contra a tia, mas não viu a carta porque se a visse saberia pelo menos pela caligrafia que se tratava de texto escrito por uma criança. Pensou sobre quem seria o autor da queixa e achou que na aldeia só haveria duas pessoas capazes de fazer aquilo: o patrão do meu pai ou o meu pai. Dirige-se à moagem onde estavam os dois e pede-lhes que retirem a queixa contra a tia. Com uma enorme dignidade, o meu pai responde-lhe mais ou menos isto: soube ontem que o meu filho fez isso, mas não me peça a mim o que para mim é impossível — pedir ao meu filho que retire a queixa. Se quiser vá ter com ele e peça-lho. E o inspetor, era um grande pedagogo, sublinhe-se, não foi falar comigo.
Na sequência dessa carta, foi instaurado um processo com toda a pompa e circunstância à professora, a partir de um extenso inquérito que decorreu na sede do concelho, Vila Velha de Ródão.
Quanto ao inspetor José Baptista Martins, mais tarde ficámos amigos até à sua morte e nunca tocámos neste assunto.
2. Em 71, ainda aluno de Alfredo de Sousa, o terror do ISEG, tenho a impertinência de lhe dizer que ele era politicamente um burro; e expliquei-lhe. E duas vezes fui convidado para trabalhar com ele e as duas vezes recusei. Ele, um homem de direita, convida-me para trabalhar com ele, ele que sabia que eu era científica e politicamente um estudante à esquerda, se é que isto se pode dizer. Hoje, não recusaria. Não recusaria, e pela simples razão de que há sempre gente bem-intencionada nos diferentes campos teóricos da economia que poderão estar a querer dizer a mesma coisa sem o saber. Assim é necessário, portanto, encontrar pontes de entendimento, como se faz nas diferentes línguas com os bons tradutores.
3. Em 71 ainda tenho dúvidas quanto às razões do abalo sísmico que o livro Troca Desigual provocou nas fileiras marxistas, e, de bolsos vazios que nem um pedinte, vou a Paris esclarecer muitas das dúvidas criadas com a leitura da obra. Estive aí uma semana, com dois serões passados com Emmanuel na sua casa.
Sobre esta obra dizia André Granou mais ou menos isto: Emmanuel colocou-nos a corda ao pescoço. Cabe-nos a nós livrarmo-nos dela. Era o que eu estava a fazer, mas no sentido contrário, no sentido de aprofundar as análises feitas nessa obra, no sentido de me livrar da ganga da ortodoxia marxista.
Curiosamente, fui convidado a participar num grande colóquio em Paris, feito na base de um grande e inovador texto de Theo van de Klundert sobre Teoria do Comércio Internacional e Troca Desigual. Sem dinheiro, pedi apoio financeiro à Gulbenkian que me respondeu lamentar mas não financiava a minha ida porque eu não era um conferencista. Era estudante do terceiro ano, era nessa qualidade que era feito o pedido.
4. Em 1973, no meu 5 º ano, o professor Cidreiro Lopes, critica o trabalho do nosso grupo na disciplina de Integração Económica, por termos feito desenvolvimentos sobre um texto de Theo van de Klundert que nos tinha sido disponibilizado por Emmanuel, mas em que não estavam introduzidos os bens não negociados internacionalmente.
Eu e o meu colega de grupo, Nuno Salavessa Moura, fomos a Tilburg tirar dúvidas e aí passámos uma semana: Voltámos, fomos discutir o trabalho e a mesma crítica é feita pelo professor Cidreiro Lopes em plena discussão do trabalho. Pego numa tese de doutoramento defendida meses antes em Tilburg, abro em dadas páginas, onde à esquerda estava um modelo matemático e à direita um gráfico e digo: o nosso modelo comporta a sua hipótese, introduzi-la no modelo não altera em nada o que está escrito no nosso trabalho, torna é tudo mais complexo. Resposta do professor: não entendo o que aqui está escrito. Em que língua está escrito? E a minha resposta foi: o que aí está é um modelo matemático semelhante ao do nosso trabalho apenas com mais equações e a linguagem utilizada é a linguagem universal, a da matemática.
E não na qualidade de aluno, mas de professor ou de pura e simplesmente cidadão já com muita idade, podíamos continuar a apresentar exemplos de que sempre preferi a posição de ser intelectualmente correto em vez da de politicamente correto, como se faz correntemente hoje.
Os exemplos acima relatados servem apenas para mostrar que se trata de um comportamento que vem de longe, aprendido e apreendido com o meu pai como o elucida na resposta dada por ele, moleiro, ao poder, que o inspetor Baptista Martins representava. E a palavra sempre, é exatamente exemplificada com o texto que lhe envio agora, eu que estou à beira dos 81 anos.
Cumprimentos
Júlio Mota
P.S. No texto verá que minimizei a questão da Capela e da Biblioteca do Joaquim Feio, apresentando uma hipótese de explicação, para mim a única, mas para deixar de ser hipótese e passar a ser a certeza como explicação é necessário que algo seja dito à filha, que bem o merece, ela e todos nós, inclusive o Álvaro.

