Crise na Universidade — “Algumas reflexões ainda em torno do Joaquim Feio e da NOVA FEUC” (3/4), por Júlio Marques Mota

Entre os intelectuais que mais se insurgiram contra a censura, encontramos Almeida Garrett, Alexandre Herculano e José Estêvão de Magalhães (protesto contra a lei das Rolhas de 1850).

Nota prévia

“Algumas reflexões ainda em torno do Joaquim Feio e da NOVA FEUC” é o terceiro texto de uma série de três dedicados à crise na Universidade. Trata-se de uma reflexão desencadeada a partir do meu corte umbilical com a FEUC feito em 28 de dezembro, dia de em que Joaquim Feio faria anos se estivesse entre nós.

Peço aos nossos leitores que vejam estes textos apenas como uma crítica ao sistema de ensino universitário em Portugal e nunca, mas nunca mesmo, como uma crítica pessoal contra alguém.

São textos que me foram muito difíceis de escrever, de reviver enquanto os escrevia, são textos que refletem uma realidade com a qual teremos que nos habituar a conviver, dada a incapacidade de a podermos esquecer. E fazer como o poeta Jacques Brel:

On n’oublie rien de rien

On n’oublie rien du tout

On n’oublie rien de rien

On s’habitue c’est tout

Como nota final devo agradecer aos meus revisores António Manuel Martins, Fernando Ribeiro, António Gomes Marques, Francisco Tavares, a enorme paciência havida em lerem e relerem mais do que uma vez os textos que agora editamos e a quem agradecemos as sugestões feitas.

JM

***

Nota de editor: em virtude da extensão deste texto, o mesmo é publicado em quatro partes, hoje a terceira.

***

 14 min de leitura

 Por Júlio Marques Mota

3ª parte

 

Curiosamente, ao reler este texto, veio-me à memória um outro texto, este sobre o desenvolvimento da City de Londres. A lógica, como se pode ver, é a mesma, a de crescimento extensivo e não intensivo. Os termos utilizados pelos dirigentes ingleses não diferem dos utilizados na publicidade feita por responsáveis sobre a FEUC. Trata-se do texto de Frédéric Lemaire sobre a City (original aqui) de que republico alguns excertos. Curiosamente, também aqui são centrais as noções de competitividade, de concorrência, de abertura ao exterior, de forte crescimento – são a chave – com a diferença de que na City o que está em jogo é o benefício dos ricos, no caso do ensino universitário português, de que a FEUC é apenas um exemplo, o que está em jogo é a criação de uma massa de gente acrítica, maleável, sujeita a ser um instrumento do poder dominante, dos seus interesses de classe, que nunca aprendeu a conhecer, quanto mais a criticar. Pensando bem, a existência dos primeiros, os muitos ricos, pressupõe a existência dos segundos, a massa acrítica dos seus servidores. Trata-se, afinal, das duas faces da mesma moeda: o capitalismo financeirizado. Leia-se esta citação algo longa, mas que merece a pena ser lida:

O apelo da City para ”flexibilizar” os regulamentos parece ter sido ouvido pelo governo conservador: em 20 de julho de 2022, apresentou uma nova lei sobre serviços financeiros, com o objetivo de operar um ”BigBang 2.0” da finança londrina – em referência ao período de “boom” que se seguiu às leis de desregulamentação do período Thatcher. Um dos seus instigadores, o ex-ministro das finanças de Boris Johnson e atual Primeiro-Ministro Rishi Sunak, afirmou já em maio a necessidade de “reduzir a carga regulamentar no sector financeiro” (14). Na ordem do dia, estaria, em particular, a introdução de um novo requisito, para os reguladores, para promover a “competitividade internacional” dos serviços financeiros. O suficiente para definir no mármore a superioridade da agenda da City sobre qualquer outra consideração, e para acelerar a chamada corrida à desregulação financeira. Esta orientação foi entusiasticamente assumida pela efémera Primeira-Ministra Liz Truss, que quis seguir os passos da ”dama de ferro”, Margaret Thatcher: no dia 6 de setembro, dia da sua nomeação pela Rainha, anunciou que protegeria a City como a ”jóia da coroa” e que se concentraria em ”energizar” este bairro de negócios “para melhor promover o crescimento”. O governo de Liz Truss terá certamente durado menos de dois meses, mas o seu sucessor, Rishi Sunak, enquadra-se perfeitamente na continuidade desta agenda.

PARAÍSO FINANCEIRO, INFERNO SOCIAL

Há uma categoria da população de Londres que partilha certamente o entusiasmo dos conservadores mais desregulamentadores relativamente à bênção representada por um florescente centro financeiro: os ultra-ricos. De muitas maneiras, a City ajudou a moldar a cidade como um refúgio para bilionários de todo o mundo. No seu livro, Alpha City, o sociólogo Rowland Atkinson, especialista em gentrificação, desenha um retrato edificante de uma capital britânica colonizada pelos ultra-ricos, “a cidade deixou de funcionar para as pessoas comuns, mas está a funcionar para o capital”.

Em Londres, tudo parece ser feito para facilitar a vida dos mais ricos. Primeira vantagem: os serviços financeiros prestados pelas instituições da City e, em particular, a colocação do seu capital e dos seus ativos em “offshores”, protegidos do controlo das autoridades. Não há risco de as autoridades demonstrarem qualquer zelo na luta contra a fraude: o ambiente jurídico é feito à medida dos ricos. Estes últimos estão seguros para investir – trata–se da ”atratividade” ou da ”competitividade” da capital britânica.

A quase ausência de controlo sobre a origem dos capitais investidos em Londres contribui igualmente para fazer da cidade um centro preferencial para a circulação de fundos de origem criminosa ou fraudulenta ou, de um modo mais geral, para a dissimulação de capitais. A “National Organised Crime Agency” calcula que cerca de 100 mil milhões de libras de dinheiro sujo são branqueados no Reino Unido todos os anos, refere Atkinson. Londres é um local privilegiado para os executivos e oligarcas estrangeiros, nomeadamente russos, que desejam ter uma base de apoio para assegurar a sua riqueza e para se refugiarem em caso de complicações no seu país de origem.

“É do inferno dos pobres que se faz o paraíso dos ricos”, escreveu Victor Hugo. Na verdade, para o resto da população, a modelização da cidade em favor dos ultra-ricos está a provar ser uma maldição. A capital britânica tem sido o terreno de jogo de especuladores imobiliários desde há muitas décadas. “Para as pessoas comuns, a habitação tornou-se extraordinariamente cara”, explica Atkinson, “centenas de milhares de unidades de habitação social foram demolidas para dar lugar aos projetos dos promotores”. A gentrificação de Londres não é nova. O desenvolvimento da City desde o”Big Bang” de 1986, depois do enclave de Canary Wharf nos anos 2000, acompanhou a construção, em bairros populares como Tower Hamlets, de apartamentos de luxo e infraestruturas para os trabalhadores mais ricos ou financeiros. Estas operações de ”regeneração” urbana ajudaram a elevar os preços e a expulsar os antigos habitantes.

Em Londres, os preços dos imóveis continuam a bater recordes – um aumento de mais de 10% nos preços ao longo do ano de 2022 – embora a capital já esteja entre as cidades mais caras do mundo. Isto reflete-se no preço das rendas, que saltaram 20% durante o mesmo período. Especialmente porque os inquilinos gozam de menos respeito do que os proprietários ricos e são pouco protegidos pela lei: os arrendamentos são geralmente assinados por um ano, os alugueres podem aumentar livremente todos os anos. Os inquilinos podem até, após seis meses, ter o seu contrato de arrendamento rescindido pelo senhorio. Para além dos preços das rendas e dos imóveis, o custo de vida é elevado devido à debilidade das políticas sociais e ao elevado custo da libra. No verão de 2022, Londres ficou em quarto lugar no ranking das cidades mais caras do mundo.

A MALDIÇÃO DA FINANÇA

Para John Christensen [11], o mal económico e social que atinge Londres e o Reino Unido está bem identificado: é o da ”maldição da finança”. Este termo, que ele cunhou com Nicholas Shaxson, é inspirado no princípio da ”maldição dos recursos” que atinge os países em desenvolvimento que exportam matérias-primas preciosas. A dependência da sua economia da exploração destes preciosos recursos conduz paradoxalmente ao seu empobrecimento.

O desenvolvimento exacerbado da finança britânica conduz a males idênticos. A “maldição das Finanças” traduz-se na captura dos recursos do país por uma economia voltada essencialmente para a extração de renda. A dependência excessiva do sector financeiro tem como consequência uma captura de políticos e reguladores, a fraqueza dos investimentos produtivos e da investigação e desenvolvimento e a concentração da riqueza em Londres. A sobrevalorização da libra, consequência do afluxo de capitais, contribui para um maior enfraquecimento da indústria e encarece o custo de vida.

Os responsáveis políticos consideram que a City é a “galinha dos ovos de ouro”, argumenta Christensen, “mas seria chegada a hora de pôr fim a este discurso”. Segundo o economista, o centro financeiro exerce sobretudo uma forma de parasitismo: “dizem que a City permite atrair capitais da China, dos Estados Unidos, da Europa para os investir no Reino Unido”, continua Christensen. “Mas qual é a natureza destes investimentos? Imóveis, bolsa de valores ou fusões e aquisições. Ou seja, nada que beneficie a economia produtiva”. Por outro lado, o afluxo de capital alimenta o aumento do preço dos ativos nos mercados de ações ou imobiliários. A City seria assim, segundo este economista, o símbolo perfeito de um capitalismo rentista, voltado para a extração de riqueza, próximo do que já existia no século XIX.

O poder da finança vem do seu domínio da vida quotidiana, mas também da sua influência na cultura e nos imaginários [o sublinhado é nosso – JM] de forma a moldar o horizonte da cidade de Londres e os líderes políticos, capacidade já reconhecida em 1937 pelo futuro Primeiro-Ministro trabalhista Clement Attlee: “repetidamente, vê-se que há outro poder neste país que fica em Westminster. A City de Londres, este termo muito conveniente para designar um conjunto de interesses financeiros, é capaz de se impor contra o governo. Quem controla o dinheiro pode seguir uma política, dentro e fora do país, contrária aos interesses dos cidadãos”.

Hoje, a City parece mais do que nunca capaz de impor as suas opiniões às forças políticas britânicas – do Partido Conservador ao Partido Trabalhista liderado por Keir Starmer. “Com Jeremy Corbyn, demonstrámos que era possível, e era também popular, questionar o poder da finança”, diz James Schneider, membro da ala esquerda do Partido Trabalhista. “Mas a atual direção dos Trabalhistas virou as costas a qualquer crítica à City”.

A PRÓXIMA CRISE

E, no entanto, o poder da City poderá, muito em breve, tremer nas suas bases. Porque o modelo de crescimento financeirizado que promoveu é frágil. Depende do afluxo de capitais de todo o mundo para Londres, para alimentar o investimento em atividades não produtivas (imobiliário, mercados financeiros) e incentivar o consumo de luxo… ou a concessão de crédito. As recentes crises poderiam muito bem fazer cair este castelo de cartas.

Quando a maré do capital barato está já a desaparecer, a fraqueza da economia britânica das rendas, acentuada pelo Brexit, vem à tona: bases económicas pobres, indústria sem sangue, sobrevalorização dos ativos… A queda da libra aumenta ainda mais a inflação elevada. Os investidores estão preocupados com a perspetiva de recessão e com severas correções futuras no valor das ações e obrigações. Após duas décadas de aumentos contínuos de preços, os preços dos imóveis começaram a cair. Mas também temem um ressurgimento do movimento social como reacção ao aumento do custo de vida, com greves em massa em muitos sectores e numa escala sem precedentes durante décadas.

Perante este cenário de catástrofe, o (breve) governo instituído por Liz Truss, entre 6 de setembro e 25 de outubro de 2022, parecia querer radicalizar a política de captação de capital, a mesma política que levou o Reino Unido a um impasse. Em 23 de setembro, o seu ministro das Finanças anunciou um plano para cortes em massa de impostos destinados aos mais ricos – de quase 45 mil milhões de libras. Mas este pacote foi recebido mais do que friamente pelos mercados: levou a uma nova queda na libra e forçou o Banco da Inglaterra a intervir massivamente para conter o aumento das taxas de dívida britânica.

O início de uma crise profunda do modelo de economia britânico? De qualquer forma, o sucessor de Liz Truss, Rishi Sunak, não mostra nenhum desejo de romper com o domínio da City. Pelo contrário, com o seu projeto de “Big Bang 2.0”, prepara-se para programar uma nova vaga de desregulamentação financeira – o que é como estar a brincar com fósforos quando está sentado sobre um barril de pólvora”. Fim de citação.

 

É curioso ver a similitude de argumento quanto à competitividade, flexibilidade, expansão. Nunca imaginaria dizer: Liz Truss = Rishi Sunak = director da FEUC, nem que a competitividade que se quer incutir na FEUC tem idêntica lógica à competitividade da City, assente na atratividade de capital, no caso da City, na atratividade de estudantes (estrangeiros), no caso da FEUC!

Esta ideia de atratividade faz-me lembrar o Professor José Neves, professor da Universidade Nova e membro do seu Conselho Geral, um tipo de escola que todos querem imitar, quando, a propósito da notícia divulgada em agosto sobre o facto de a Nova SBE (School of Business and Economics) receber, neste ano letivo, um número recorde de alunos de mestrado (um crescimento de 25% no número de candidaturas face ao ano anterior) nos diz muito recentemente o seguinte:

“A Nova tem a melhor fábrica portuguesa de encher chouriços. Chamam-lhe school mas é a mania do gourmet a falar mais alto. Basicamente, é o melhor negócio export do país. E como é característico dos nossos liberais, é sustentado pelo Estado que eles tanto abominam”.

Retenho a ideia de fábrica de enchidos, de matéria-prima gourmet, da mecânica no seu enchimento, mais precisamente de fábrica de chouriços de qualidade gourmet. Mas não deixam de ser chouriços e de serem mecanicamente arranjados e com a qualidade própria de curta estadia ao fumeiro, enchidos de hoje, afinal.

Bem, a imagem do Professor José Neves é bem sugestiva. Podemos imaginar um pequeno diálogo entre mim e o Professor José Neves, como se segue:

Mostro-lhe o plano de curso, olha-o atentamente e diz-me: face ao que disse sobre a Universidade Nova só poderei dizer que se trata de uma fábrica de enchidos banais, de segunda face aos nossos chouriços gourmet, e com um diretor, bom, não sei bem o que dizer, se de primeira ou de segunda categoria. O quê, questiono eu? Bem, diz-me ele, quanto à Universidade Nova podemos dizer: Somos o maior reservatório de inteligência potencial do país, levámos anos em operações de marketing à escala nacional, nada comparável com o programa de Imagens de marcas da televisão em que o seu diretor se meteu.

 

    1. Somos o maior reservatório de inteligência potencial do país, levámos anos em operações de marketing à escala nacional, nada comparável com o programa de marcas da televisão em que o seu diretor se meteu.
    2. afirmámos na televisão, com o professor José António Ferreira Machado, em plena crise da dívida pública na Europa, que não havia desemprego para os nossos licenciados sem que ninguém nos desmentisse, a não ser o Júlio Mota que afirmou que não havia desemprego nos nossos estudantes porque a maioria destes já tinham emprego antes de chegarem às nossas Faculdades.
    3. hoje, que se chega ao fim da adolescência com a maturidade de uma criança crescida, somos o maior parque de estacionamento de adolescentes para os filhos da suposta burguesia política e intelectual do país, o que nos permite criar a maior rede de influências do país, diretas e indiretas, a lembrar o que diz Robert Reich das Universidades americanas da Ivy League.
    4. temos os mestrados mais caros do país e quanto a isto trata-se de um preço que não é possível para os filhos de qualquer zé-ninguém, e não se esqueça que a burguesia precisa de filtros “democráticos” para impedir a miscelânea de estatutos de classe e patentear a sua superioridade intelectual.
    5. balizamos ideologicamente as nossas formações. Aqui não entram de forma aprofundada esquerdistas como Keynes, e muito menos radicais de esquerda como Sraffa, Hyman Minsky, Michael Pettis, Brancaccio ou equivalentes. E David Ricardo só será ensinado ao de leve, com a renda diferencial, com o princípio das vantagens comparadas expresso em custos de oportunidade para afastar os nossos estudantes da terrível teoria do valor trabalho e, eventualmente, uma frase sobre a equivalência ricardiana para recentrar o discurso económico neoliberal!
    6. ensinamos os nossos estudantes a defenderem os seus interesses de classe e eles têm-nos. A partir daí são eles que ganham espírito de corpo e que podem pensar, quando estão em cargos de responsabilidade e a terem de admitir pessoal jovem, que é seu dever ter como divisa a seguinte ideia: primeiro, estão os nossos licenciados; depois, os nossos licenciados e, por fim, alguns dos outros.

Face a estes considerandos, diria que o vosso diretor nos quer imitar, mas sem ter nenhum dos meios que acima citámos que lhe pudessem assegurar a mínima hipótese de ter sucesso. Se o que digo é verdade, ele só teria uma hipótese: a de concorrer por cima, pela qualidade, tipo University of Massachusetts em Economia ou como Paris-Dauphine em Gestão. No fundo, teria de investir em preparar estudantes de forma séria e profunda para serem futuros quadros amanhã. Não foi a opção dele, como se prova pela atual reforma. A fraca qualidade desta é bem evidenciada pela presença de disciplinas como Soft skills ou de Projeto Integrador, ou por colocarem disciplinas nobres com o estatuto de disciplinas menores ou em opção livre. No caso do Projeto Integrador o ridículo é ainda maior: esta unidade curricular vale, em número de créditos, por duas disciplinas, tem um programa específico por cada ano, o que é caricato.

Reveja-se o que nos diz a FEUC sobre esta disciplina e percebe-se que para poder funcionar obrigará a uma enorme mobilização de docentes. Imaginem-se 150 alunos inscritos nesta disciplina, e passo a citar: “a bibliografia é variável e está a cargo do docente responsável por cada projeto”. Haverá, pois, múltiplos projetos, derivados de um tema genérico, possivelmente com os alunos agrupados por pequenos grupos de 5, 10, 15 por docente. Para lá de 10 alunos, 10 projetos individuais, diferentes, senão copiam-se uns aos outros, não creio que alguma coisa possa operacionalmente ser feita com qualidade, mas isto significa mobilizar 15 professores para esta disciplina! Dado o fraco nível de conhecimentos até aí adquiridos, será necessário um acompanhamento semanal do trabalho realizado e/ou a realizar na semana seguinte, digamos de meia hora por semana/aluno. Mas, um esquema deste tipo significa atribuir a cada um destes professores metade da sua carga horária semanal. Se assim não for, é garantido que dispara a máquina paralela dos trabalhos pagos. E esta máquina paralela de fazer trabalhinhos, trabalhos de aulas ou mesmo rearranjos de teses de mestrado, é uma realidade que não pode ser ignorada.

Mas no ano seguinte, como nos informa a FEUC, o tema muda e volta tudo à estaca zero. Mais ainda: os professores que tenham o azar de serem afetos a este tipo de trabalho, uma vez chegados ao fim, deitarão para o lixo todo o trabalho de preparação feito, já que o tema central da disciplina varia anualmente. Para o ano seguinte, há uma outra mesma disciplina, ou seja, há um outro tema a constituir a sua substância, como Projeto Integrador, há uma outra preparação científica e pedagógica a preparar! Trata-se, pois, de uma disciplina que se esfuma em cada semestre em que é lecionada, esfumando-se com isso o trabalho de múltiplos professores. Esta disciplina é em si-mesma um insulto à carreira docente, e tudo isto com a função de integrarem conhecimentos que estão ainda por adquirir!

Neste contexto, meu caro Júlio Mota, hesitei em classificar o vosso diretor, mas este é alguém que é capaz de impor a sua Universidade possível como sendo a sua Universidade desejada e utilizando uma argumentação feita sobre esta última, fazendo-o de forma convincente, transformando em certeza a qualidade que eu não consigo ver na sua reforma. Sendo assim, reconheçamos, é alguém que tem classe. Classificando-o por comparação com a minha atual Universidade Nova e com o que se considera ter sido José António Ferreira Machado, considero-o um diretor de primeira classe, mas, como já antes disse, de uma fábrica de enchidos normal, dos tempos de agora e de muito pouco fumeiro. Os docentes podem ser iguais aos nossos, isso não discuto, mas a matéria-prima pelos considerandos acima não o é, como não o é igualmente a própria máquina do enchimento, o plano de curso. Consequência, uns são enchidos gourmet, e os outros são enchidos normais, de segunda classe.

Mais devagar, professor José Neves; o que me diz então dos designers desta nossa máquina de fazer chouriços, (a NOVA FEUC) para utilizar os seus termos?

Bom, caro Júlio Mota, não se esqueça de que com a reforma de Bolonha se reduziu drasticamente todo o espaço de lecionação. Não é apenas a passagem de 4 para 3 anos. Os próprios anos também se tornaram mais curtos, ou, dito de outra forma, as cargas horárias semanais dos alunos em horas de aulas tornaram-se menores. Esta situação impõe o máximo de aproveitamento escolar. Nenhum espaço de lecionação pode ser perdido. Tendo esta realidade em conta e, depois do que acabo de descrever sobre a reforma, só há uma resposta: estes designers, nem um comentário mais merecem. Fiquemo-nos por aqui.

 

E assim termina este diálogo imaginário.

Caro Diretor, olhando para o plano de curso criado com esta reforma, olhando para cadeiras de base que em qualquer curso decente de Economia seriam obrigatórias e de carga horária nobre mas que neste plano de reforma são relegadas para a classe de cadeiras menores, olhando para a disciplina de Soft skills, um verdadeiro prémio ou bónus aos estudantes, e, sobretudo, olhando para essa monstruosidade a que se dá o nome de Projeto Integrador, com o peso de duas disciplinas e onde há muito pouco para poder ser integrado, direi, que nunca o imaginaria a ser responsável de uma fábrica de enchidos de segunda classe. E tenho pena, muita pena que assim seja. Aqui recordo dois poemas do meu tempo,

Jefferson Airplane (Volunteers 1969)

Ain’t it amazing all the people I meet

Got a revolution Got to revolution

One generation got old

One generation got soul

This generation got no destination to hold

Pick up the cry

Hey now it’s time for you and me

Got a revolution Got to devolution

 

(Como é incrível toda a gente que encontro

Faço parte da geração que teve uma revolução, que chegou à revolução

Uma geração que envelheceu

Uma geração que teve alma

Esta geração de agora não tem destino para celebrar

Apanha o grito

Hey, agora é o momento para ti e para mim

O senhor tem agora a sua revolução, eu faço agora a devolução da minha)

 

E lembrando Tracy Chapman, em Talkin’bout a revolution (1988), face aos resultados que julgo os alunos virão a ter com a sua reforma e face aos tempos que aí vêm gerados por gentes com revoluções semelhantes à sua, prevejo:

While they’re standing in the welfare lines

Crying at the doorsteps of those armies of salvation

Wasting time in the unemployment lines

Sitting around waiting for a promotion

Don’t you know

They’re talkin’ ’bout a revolution

It sounds like a whisper

 

(Enquanto estão nas filas de espera da ajuda social

Chorando à porta dos exércitos de salvação

Perdendo tempo nas linhas de desemprego [12]

Sentados à espera de uma promoção

O senhor não sabe

Eles estão a falar sobre uma revolução

Isso ouve-se como um sussurro)

 

Não se irão fabricar chouriços, como é evidente, ir-se-ão fabricar ignorantes, e é porque assim penso que recordo excertos desses dois poemas. Talvez eu esteja enganado, bem o desejo, e se assim for terei a coragem de dizer, Desculpe-me, Enganei-me. Porém, se se verificar que não me enganei, espero dos responsáveis a mesma atitude face àqueles com quem se enganaram, porque estes serão as vítimas do engano.

 

Particularizando, quando chegou ao poder na FEUC acreditei que podia melhorar a situação em que científica e pedagogicamente se encontrava a FEUC, o que poderia ser feito limando algumas arestas da miséria que foi feita com a reforma de Bolonha, mas sobretudo eliminando os “arranjinhos” que depois desta reforma foram criados. Porém, pensar na necessidade de reforma a que me refiro, não é dizer que o que se pretendia com esta direção da FEUC, como me foi dito por um colega muito próximo do espírito que norteia a atual direção da FEUC, e de quem fui muito amigo, era corrigir os VÍCIOS do passado, (ênfase minha). Não, não: pensar a reforma no sentido a que me refiro não tem nada a ver com VÍCIOS, tem, ao contrário, a ver com a necessidade de modificar a situação existente para manter o espírito do passado refazendo-o para os duros tempos do presente e do futuro. Relembro Peter Kenen, não é por acaso que o cito acima, quando recomendava um livro publicado há muitos anos, escrevia mais ou menos o seguinte: o leitor que não se admire por eu lhe recomendar um livro há muito tempo publicado, uma vez que o mundo mudou muito, mas lembre-se que os problemas continuam a ser os mesmos. Acreditei numa verdadeira reforma, mas o que eu esperei não aconteceu: preferiu-se a contra-reforma, preferiu-se aprofundar os males do presente [13]. Paciência, é o que se poderá por agora.

 

(continua)

 


Notas

[11] Curiosamente, John Christensen esteve na FEUC no âmbito do Ciclo Integrado de Cinema, convidado pela equipa organizadora, eu, o Luís Peres Lopes e a Margarida Antunes.

[12] Pode parecer exagerado utilizar este poema, mas não o é. Basta recordar uma situação passada recentemente. O governo abriu uma bolsa de emprego de 1000 lugares. Concorreram 15.000 candidatos. As primeiras provas excluíram cerca de 12.000. Dos restantes não conseguiram aprovar os 1000 candidatos pretendidos. Ficaram-se por cerca de 850 lugares e, nestes, as Faculdades de Economia terão tido um péssimo resultado. As provas não eram difíceis, a ignorância é que era muita e sobretudo na gente mais nova. Ninguém questionou esta realidade. Nenhum Reitor, nenhum Diretor de Faculdade questionou estes resultados. O silêncio foi publicamente sepulcral, mas continuam a falar-me em contra reformas!

[13] Aqui lembro-me do comentário de um dos meus revisores (JAS) deste texto: já pensou no preço que vai pagar por esse texto? Pensei e há, de resto, uma razão de fundo para o escrever, assente na ideia do que é ser economista heterodoxo e pluralista, o que é bem descrito no texto de Ben Fine, Um passo em frente, n passos atrás, que passo a reproduzir:

“Contudo, a minha tendência, e de forma inequívoca, é de ser tolerante com todas as formas de heterodoxia, ao mesmo tempo que me envolvo num vigoroso e crítico debate sobre alternativas, consciente da extensão do monopólio da ciência económica pelo pensamento económico dominante que torna qualquer oposição extremamente difícil, frágil e esta oposição deve, pois, ser acolhida e alimentada. Sob esta luz, há muito a ser dito tanto em relação à integridade intelectual – dizendo que ela é oposta ao que é aceitável para o pensamento económico dominante – e nunca esquecendo que o pluralismo é uma postura de voz igual em circunstâncias muito desiguais, dado o domínio do pensamento económico dominante. Mas no domínio do saber, pelo menos em princípio, é o poder das ideias e dos argumentos que deve prevalecer, (,,,) Assim, embora devamos estar conscientes dos perigos do oportunismo intelectual que se apresenta como compromisso estratégico, no domínio das ideias, a integridade intelectual deve ocupar um lugar de destaque, juntamente com a tolerância do seu florescimento por todo o lado e pelos meios que lhe forem possíveis.

Como resultado, aqueles que estão envolvidos em economia política heterodoxa, pluralista e/ou interdisciplinar não devem subestimar os desafios que enfrentam de um pensamento económico hostil e dominante”. (os negritos são meus – JM) em Ben Fine, Um passo em frente, n passos atrás, op. cit.

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