A Carta de hoje, está motivada por duas notícias distintas, também em dois órgãos de comunicação diferentes, tanto pelo tratamento, como pela dimensão de cada um deles, mas a merecerem um apontamento crítico, até por referirem, directa ou indirectamente aquele palavrão que, nestes tempos, parece incomodar muita gente, ‘cultura’!
Na verdade, é um conceito que tem acompanhado a história do homem desde que, no século VI a.C. o rei Assurbanipal da Mesopotâmia, mandou reunir em doze Cantos, com cerca de 300 versos cada, lendas e poemas escritos pelos sumérios, contando a vida de Gilgamesh, rei da cidade de Uruk, e por isso intitulado ‘A epopeia de Gilgamesh’, a dar origem também, a muitas outras ‘epopeias’ por esse mundo fora.
Terá sido também a primeira ‘tragédia’ na história da literatura, e a dar atenção a Roland Barthes, ‘A tragédia é a que mais marca um século, a que lhe dá mais dignidade e profundidade’, por as épocas de esplendor serem épocas trágicas –o século V ateniense, o século isabelino, o século XVII francês e, fora destes, a tragédia, nas suas formas constituídas, cala-se–.
Mas as pessoas ficaram a admirar as tragédias pois, continua Barthes, ‘Amam num drama, a ocasião de superar um egoísmo que lhes permite ter dó das particularidades da sua própria infelicidade, de afirmar o patetismo de uma injustiça superior, o que afastará oportunamente e bem, toda a responsabilidade’.
Uma atitude que a literatura também reconhece, a ver pela enorme dimensão de obras de grandes escritores de todo o mundo, o que levou Eduardo Lourenço a afirmar ‘A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura’.
O poeta Luís Castro Mendes explica, assim, a importância da literatura na cultura, ‘A cultura como enigma é a esfinge a que procuramos incessantemente responder, e é nessa busca que nos descobrimos e descobrimos o mundo. Mas a cultura só pode viver na liberdade, aquela “liberdade livre” que Rimbaud proclamava, e sem a qual não existem, nem podem existir, os fundamentos de uma cidade justa’.
Partindo dessa noção de liberdade, transponho para aqui a primeira das estórias que li, sobre a importância que os livros na protecção dos republicanos das tropas franquistas, na Cidade Universitária de Madrid; os brigadistas usaram os livros como parapeitos, para se protegerem da artilharia franquista, tapando portas e janelas da Faculdade de Filosofia e Letras. Usaram os maiores e mais volumosos e o brigadista inglês Bernard Knox, afirmou a um jornal ‘Mais tarde descobrimos, depois dos impactos das balas nos livros, que o grau de penetração das balas chegava aproximadamente até à página 350’.
Não passa de uma outra utilidade da cultura, mais prática e expedita, mas a pressupor –deveria supor– uma real, decidida e autêntica política cultural de Estado, até pelos enormes orçamentos e inúmeras instituições em torno de uma actividade, em princípio imaterial. É um campo em que estão envolvidos, além do livro, o cinema, o teatro, museus, bibliotecas, galerias de arte e, obviamente, as inevitáveis televisões e outros meios de comunicação, mais a variedade de programas que lhe dedicam.
E aqui vai a segunda estória, a que poderá explicar o estranho título desta Carta: o apresentador de um concurso televisivo na vizinha Espanha, pergunta a um dos concorrentes ‘Queremos saber, por 25.100 euros, quem, foi a primeira escritora espanhola candidata ao Prémio Nobel de Literatura?’. Perante a hesitação do concorrente, o apresentador repete a pergunta e a resposta final, a motivar muitas e bem diferentes reacções, foi ‘Sara Mago’!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor