UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (578)

 

 

COMEMORAR CAMÕES NOS 500 ANOS DO SEU NASCIMENTO?

 

Praceta Luís de Camões – Avenida do Brasil – Foz do Douro – Porto

Busto de Irene Vilar

 

Há dias, fui assistir à inauguração de três exposições em simultâneo. Uma, dupla, de pintura e de desenhos, e outra de fotografia.

Na respectiva apresentação geral, falaram diversas pessoas importantes, desde os presidentes disto e daquilo, o representante dos mecenas, a deputada e o deputado. Foram quarenta e cinco minutos penosos, mas necessariamente habituais nestas coisas da cultura no nosso país.

Sem qualquer excepção, os discursantes começaram a falar dirigindo-se aos presentes como “amigos e amigas”, ou “todos e todas”, repetindo a cada passo das suas intervenções os mesmos conjuntos de palavras, embora os tivessem alternado na continuação da sua verborreia.

Quando isto acontece, deixo de conseguir ouvir com atenção o que o discursista diz. Fico à espera do próximo “o e a” e a pensar na falta do “e”, e quando nos chegará. Já ouvi uma vez, na mesma frase, dirigirem-se à audiência com “a todos, a todas e a todes”, numa parvoíce que pretende ser politicamente correcta. E enquanto o discursador continua, lá fico eu a pensar sobre o porquê daquela sequência, e porque não outra, como por exemplo a da ordem alfabética, “todas, todes e todos”? Nesta loucura, o que serão os “os” mais que as “as” e as/es/os “es”?

E porque não, aprenderem a gramática portuguêsa e deixarem de dizer disparates? Ainda deve haver livros de gramática e prontuários, nos alfarrabistas.

E lá volto eu a pensar em Camões. Este ano, por causa das comemorações, vai-me acontecendo com mais frequência. Coitado do homem, penso eu, o que sofreria se, por milagre, tivesse a má sorte de por aqui aparecer neste ano. Morreria de desgosto pelo que fizeram à Língua Portuguesa, tenho a certeza.

Dizem agora, recuperando o estudo de Mário Saa, de 1939, que se deveria comemorar a data de nascimento de Camões no dia 23 de Janeiro.

De acordo com um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra, o “nosso poeta” teria nascido um ano antes do eclipse solar de 1525, e que essa data está plasmada no soneto “O dia em que eu nasci, morra e pereça”.

 O estudo, e a possibilidade por ele levantada para a datação do nascimento de Camões, são interessantes. Mas o que fazer à possibilidade de ter sido o eclipse de 25 de Fevereiro de 1579, e não aquele, a impressionar o poeta, o que dataria o soneto no primeiro semestre desse ano, ou de que o poema tivesse partido de paráfrase do Livro de Job?

Não tenho nada contra; nem a favor! É uma data, hipotética e fantasiosa, como a de 27 de Janeiro do mesmo ano. Com este estudo, nada de mal vem ao mundo ou o mudará, e a ser esta datação consensual, não iremos por certo deixar de celebrar o dia 10 de Junho (data da sua morte – há historiadores que apontam para 1579 e não 1580), festejado desde 1880, feriado desde 1911 (só na capital, e desde 1925 em todo o país), festa nacional desde 1958, Dia da Raça de 1963 a 1974, Dia de Camões, de Portugal, e das Comunidades Portuguesas de Emigrantes, desde 1974.

Querem mesmo comemorar Camões? Devolvam a Portugal a Língua Portuguesa e o seu ensino, desaparecidos nas últimas dezenas de anos!

 

 

 

 

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