Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte B: Texto 6 – Um economista não conformista, Piero Sraffa (1898-1983). Capítulo III” (2/2), por Jean-Pierre Potier

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

Nota de editor:

Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

11 min de leitura

Parte B: Texto 6 – Um economista não conformista, Piero Sraffa (1898-1983). Capítulo III – Os anos da instalação de Sraffa em Cambridge (2/2)

 Por Jean-Pierre Potier

Em , Presses universitaires de Lyon (original aqui)

 

(conclusão)

 

4- A POLÉMICA SOBRE MOEDA COM FRIEDRICH VON HAYEK

Em 1931, Friedrich-August Von Hayek (nascido em 1899), diretor do Instituto Austríaco de Investigação Empresarial e professor na Universidade de Viena, deu quatro palestras na London School of Economics a convite de Lionel Robbins. O texto destas conferências foi imediatamente publicado sob o título Preço e Produção (1931). A Von Hayek foi logo oferecida um lugar de professor na London School of Economics pelo diretor, William Beveridge. Ele rapidamente lançou as hostilidades contra John Maynard Keynes, criticando o Tratado sobre a Moeda na edição de agosto de 1931 da revista Economica; Keynes respondeu em novembro, declarando em particular sobre Preço e Produção:

“O livro, tal como está, parece-me ser um dos mais assustadoramente confusos que alguma vez li. [42]

Keynes pediu imediatamente a Piero Sraffa que escrevesse uma recensão crítica para o Economic Journal. O jovem italiano concordou e publicou o estudo na edição de março de 1932: “Dr. Hayek on Money and Capital” [43]. Examinando o conteúdo das conferências do economista austríaco, ele descobriu que as características da “economia monetária” foram deliberadamente negligenciadas; o dinheiro apareceu apenas como um mero “meio de troca”. Na realidade, para Sraffa,

“O dinheiro é não apenas o meio de troca, mas também uma reserva de valor, bem como o padrão pelo qual as dívidas, e outras obrigações legais, regras consuetudinárias, estimativas, convenções, em suma todo o tipo de relações entre homens, são mais ou menos estritamente fixadas”. [44]

Sraffa destaca as incongruências da teoria da “poupança forçada”, e depois concentra o seu exame crítico na “relação entre o dinheiro e a taxa de juro”, desenvolvida por Von Hayek a partir da teoria de Knut Wicksell. Nesta ocasião, apresenta uma conceção da taxa de juro que será retomada e desenvolvida por Keynes no capítulo 17 da sua Teoria Geral [45]. F. Von Hayek respondeu no número de junho do Economic Journal [46], acusando o italiano de nada ter compreendido, nem da sua teoria desenvolvida em Preço e Produção, nem mesmo da teoria desenvolvida em Tratado sobre a Moeda. J.M. Keynes reagiu com secura a esta acusação contra o seu amigo, e colocou a seguinte nota no final da resposta de Von Hayek:

“Com a permissão do Prof. Hayek, gostaria de dizer que, tanto quanto sei, Sraffa compreendeu corretamente a minha teoria” [47].

Piero Sraffa interveio novamente no mesmo número do Economic Journal  sobre alguns pontos específicos, recusando-se a voltar atrás na sua avaliação global do livro [48].

Após esta controvérsia, o nosso intelectual italiano teve a oportunidade, nos anos 30, de discutir sobre a moeda e a taxa de juro com o seu amigo Dennis H. Robertson. Este último, no Prefácio da coleção preparada em 1939, Ensaios em Teoria Monetária, afirma, de facto:

“Entre as muitas recensões publicadas sobre o último trabalho de Keynes, as de que tirei maior proveito, penso eu, foram as de Hawtrey e de Hicks; entre as muitas conversas sobre o mesmo tema, as que foram travadas com Sraffa destacam-se na minha memória como as que a maior parte das vezes acabavam em plágio” [49].

A mudança para Cambridge e as novas amizades feitas não separaram o nosso intelectual italiano dos seus compatriotas antifascistas. Vimos no capítulo anterior as suas atividades em favor de Antonio Gramsci e os seus contactos com os líderes do Partido Comunista Italiano, exilados em França. Parece interessante examinar agora algumas das discussões e relações com amigos que lutavam contra o regime de Mussolini, cada um à sua própria maneira.

A partir de 1927, Sraffa esteve em contacto por carta com Angelo Tasca, que dirigiu a revista teórica Lo Stato Operaio em Paris. Para além da questão da defesa de Gramsci, a sua correspondência dizia respeito a dois problemas interessantes, mas muito diferentes: o significado da política fascista de revalorização da lira em 1926-1927, por um lado, e a preparação de uma edição crítica das cartas do primeiro filósofo marxista italiano, Antonio Labriola, dirigidas a Friedrich Engels, por outro.

 

5- A POLÉMICA SOBRE A REVALORIZAÇÃO DA LIRA COM ANGELO TASCA

A 18 de Agosto de 1926, Benito Mussolini lançou a “batalha da lira” no seu famoso discurso de Pesaro. Nos meses que se seguiram, o regime implementou uma política difícil de revalorização da lira, em oposição aberta aos especialistas italianos sobre questões monetárias. Em agosto de 1926, uma libra esterlina valia 150 liras; em julho de 1927, valia cerca de 90, a famosa “quota novanta”. A política deflacionista levou a uma recessão em 1927, e agravou os efeitos da crise económica mundial em Itália a partir de 1929-30, especialmente no sector bancário. Em agosto de 1927, Angelo Tasca criticou esta política no artigo “La rivalutazione della lira e la crisi della economia italiana”, publicado em Lo Stato Operaio. Afirma ele:

“(…) qualquer governo burguês no poder em Itália teria de enfrentar o problema da estabilização monetária”, e “consequentemente não há contradição entre a política ‘fascista’ da deflação e a que é ditada pelos interesses fundamentais da burguesia “ [50].

Sraffa teve conhecimento desta análise, e durante a sua visita a Paris, no início de setembro, expressou brevemente o seu desacordo ao autor, mas este compreendeu mal o significado da crítica. O nosso investigador expôs então os seus argumentos por escrito, numa carta datada de 17 de setembro de 1927:

“De uma forma geral, parece-me errado – e muito perigoso – acreditar que cada ato isolado do governo fascista (e de qualquer governo capitalista) é diretamente ditado pelos interesses imediatos dos bancos e dos grandes industriais. Com a ajuda deste princípio muito simples e um tanto ingénuo, somos, no entanto, obrigados a negar que o fascismo, desde há já um ano, tem deliberadamente provocado uma política de deflação (…). Mussolini queria revalorizar, ainda mais do que o fez, mas lentamente: naturalmente, revalorizar lentamente não é possível”.

Depois acrescenta:

“A minha explicação é, como vos disse, que esta revalorização (para além do facto de se dever a razões de prestígio e disparates semelhantes), faz parte de uma tentativa por parte do fascismo de obter o apoio das classes médias e de algumas classes trabalhadoras – uma vez que é inegável que as únicas pessoas que realmente beneficiam da revalorização estão nestas classes. E é também obviamente no interesse (“claro”, não imediato) da grande finança que o Estado consolida as suas bases, mesmo à custa de alguns milhares de milhões, atraindo para si os estratos que tinham sido o apoio do regime anterior e que agora e desde há demasiado tempo tinham deixado o fascismo e os seus patrões numa situação de isolamento perigoso” [51].

A posição da Sraffa é muito interessante, especialmente se a compararmos com a defendida alguns anos mais tarde, em 1935, por Palmiro Togliatti. Nas suas Lezioni sul fascismo, Togliatti admitiu que o Partido Comunista Italiano tinha cometido graves erros de apreciação sobre a “pequena burguesia” antes e depois de 1922. [52]

Mas Angelo Tasca continuava seguro da validade da sua análise. Na sua resposta de 2 de outubro, declarou-se completamente convencido de que nem todas as ações do governo fascista poderiam ser tomadas como ditadas pelos interesses “imediatos” da grande burguesia; contudo, acreditava que o fascismo não procurava o apoio da classe média, mas que tinha de enfrentar sobretudo a crise monetária, condição indispensável para a salvaguarda do seu poder e dos interesses da burguesia; a operação de “estabilização” da lira deveria ser entendida nesta perspetiva [53]. Piero Sraffa expressou novamente o seu desacordo numa carta de 15 de outubro de 1927. Criticou o seu amigo por ignorar a distinção crucial entre a “revalorização” e a “estabilização” de uma moeda. Segundo ele, em 1926, “o conflito real e atual entre interesses de classe dizia respeito à escolha entre a estabilização e a revalorização ” [54]. A carta de 21 de outubro revela que o líder comunista dificilmente se convence com os argumentos desenvolvidos pelo economista:

“Acima de tudo, é verdade que a revalorização beneficia sempre as classes médias e “algumas classes trabalhadoras”? Esta afirmação pertence a essas verdades genéricas, de pouca utilidade para examinar as consequências reais de uma dada política monetária e as suas repercussões nas diferentes classes sociais “ [55].

No entanto, Angelo Tasca ficou fascinado com esta troca de pontos de vista, e pouco tempo depois propôs a Piero Sraffa a publicação dos elementos na revista Lo Stato Operaio [56]. Este último concordou [57]. A correspondência apareceu na edição de novembro-dezembro de Lo Stato Operaio sob o título “Polémica monetária ” [58].

Mais tarde, Tasca e Sraffa trocaram impressões sobre a crise económica italiana de 1930, particularmente sobre os aspetos bancários [59]. Sraffa transmitiu informações ao seu amigo, tais como publicações da “Banca Commerciale Italiana”, onde Raffaele Mattioli trabalhou.

 

6- A AJUDA DADA A TASCA PARA A EDIÇÃO DAS CARTAS DE LABRIOLA PARA ENGELS

A segunda área de discussão que aparece na correspondência Sraffa-Tasca diz respeito às cartas endereçadas pelo filósofo napolitano Antonio Labriola a Friedrich Engels, entre abril de 1890 e maio de 1895.

Em setembro de 1927, Angelo Tasca começou a trabalhar na edição completa das cartas enviadas pelo primeiro marxista italiano ao companheiro de Marx, com base em exemplares fornecidos pelo diretor do Instituto Marx-Engels em Moscovo, David Ryazanov [60]. Preparou um aparelho muito pesado de notas de rodapé, que exigiu uma enorme quantidade de trabalho, e que, infelizmente, ainda não tem equivalente em publicações italianas recentes. Em setembro de 1927, Angelo Tasca, que não podia ir a Itália sem correr o risco de ser imediatamente preso e condenado a uma pesada pena, pediu ao seu amigo que lhe emprestasse por algum tempo os três ensaios sobre a “concepção materialista da história ” [61] de Antonio Labriola: In memoria del Manifesto dei Comunisti [62], Del materialismo storico [63], e Discorrendo di socialismo e di filosofia [64]. Piero Sraffa, que tinha estes livros na sua biblioteca em Milão, concordou e pediu ao seu pai que os enviasse para Cambridge. Chegaram às mãos da Tasca em outubro [65], e este último indicou pouco depois que ele tinha concebido um “projeto vago” sobre “o pensamento filosófico de Labriola” [66]. O primeiro grupo de cartas apareceu em Lo Stato Operaio em setembro de 1927, e a publicação continuou até fevereiro de 1930, ascendendo a cento e trinta e uma cartas de Labriola a Engels [67].

Angelo Tasca pediu a Sraffa que realizasse alguma pesquisa para as notas que acompanham as duas cartas, a de 28 de outubro de 1892 e a de 16 de agosto de 1894 [68]. Para a primeira, tratava-se da questão de encontrar informação sobre um Congresso de Sindicatos em 1892 e sobre um artigo, citado por Labriola, de Edward Aveling, que apareceu no Pall Mall Gazette no mesmo ano. Para a segunda, precisamos de olhar para um artigo, citado por Labriola, de James Bonar no Economic Journal em março de 1894, elogiando Achille Loria [69]. Sraffa realizou as pesquisas em Londres, na British Museum Library, e enviou as informações solicitadas [70]. Seguem-se as principais notas da Tasca, que seguem de perto as informações fornecidas pelo seu amigo, para a edição das duas cartas de Labriola em Lo Stato Operario.

Para a primeira carta, de 28 de outubro de 1892, Angelo Tasca indica:

“O artigo a que Labriola se refere aqui apareceu no Pall Mall Gazette de 11 de Outubro de 1892 sob o título “Discordância na opinião continental “Internacional” sobre os sindicalistas britânicos”, e nele Aveling trata da atitude das organizações trabalhistas e socialistas da Europa continental face à exigência feita pelo 25º Congresso dos Sindicatos (realizado em Candleriggs, Glascow, de 5 a 10 de Outubro de 1892) para a convocação de um Congresso Internacional em defesa das Oito Horas de Trabalho “ [71].

Para a segunda carta de 16 de agosto de 1894, ele menciona:

“Bonar, historiador de doutrinas económicas, cientificamente muito mais sério que Loria, no citado número de Economic Journal (pp. 76-82) publicou uma recensão das Bases Económicas da Constituição Social, publicada no ano anterior em Paris. Bonar não aceita as teorias de Loria como um todo, e ainda menos as de Marx. Ele conclui com este elogio de Loria: “É duvidoso que haja outro escritor do nosso tempo tão interessante e ‘estimulante’; e provavelmente nunca houve outro, nem mesmo na Alemanha, tão magistral na literatura sobre o seu tema em quase todas as línguas da Europa” [72].

Qual foi a reação de Piero Sraffa à leitura do trabalho de edição de Angelo Tasca?

A resposta só pode ser vista numa carta ao seu amigo, datada de 24 de fevereiro de 1928:

“As cartas de Labriola parecem-me um pouco insípidas, pelo menos as publicadas até agora (Na sua nota introdutória, no fascículo 7, vejo que não menciona os dois artigos com bibliografia que Croce publicou sobre Labriola na Crítica há cerca de vinte anos: estavam numa “série”; não sei se é a dos historiógrafos ou a dos ilustres italianos) “ [73].

Piero Sraffa parece estar a referir-se a dois artigos de Benedetto Croce publicados em La Critica – Rivista di letteratura, storia e filosofia“, em 1907 e 1909 [74] respetivamente. A publicação, quase completa, das cartas de Labriola a Engels foi concluída em fevereiro de 1930. Angelo Tasca já tinha rompido com o Partido Comunista Italiano, e o nosso investigador parece não ter tido mais contacto com ele a partir dessa data.

 

7- AMIZADES COM OS ANTI-FASCISTAS ITALIANOS: MATTIOLI E MORANDI

No início dos anos trinta, Piero Sraffa manteve contacto com amigos anti-fascistas não comunistas em Itália, tais como Raffaele Mattioli e Rodolfo Morandi.

Raffaele Mattioli, de que já vimos o seu papel em salvar os Cadernos da Prisão de Antonio Gramsci em 1937-1938, tornou-se Diretor-Geral da “Banca Commerciale Italiana” em 1931. Membro do Partido Nacional Fascista, mas na realidade anti-fascista, escreveu o famoso estudo, “Per la regolamentazione dell’ economia italiana”, que foi entregue a Benito Mussolini pelo Administrador-Delegado Giuseppe Toeplitz em setembro de 1931. A economia fascista, enfraquecida pela crise, teve de ser transformada numa “economia regulada”. Isto abriu o caminho para o controlo estatal das instituições de crédito. Em 1933, foi fundado o “Istituto per la Ricostruzione Industriale”; o “Banca Commerciale Italiana” tornou-se formalmente propriedade do I.R.I. juntamente com o “Crédit Mobiliário” e o “Banco de Roma”. Raffaele Mattioli foi promovido a diretor-geral da “Banca Commerciale Italiana”, cargo que ocupou até 1960 [75]. Amigo do filósofo “neo-idealista” Benedetto Croce, Raffaele Mattioli tornou-se uma pessoa de grande cultura e um apaixonado colecionador de livros raros, especialmente dos séculos XVII e XVIII. Piero beneficiou da sua erudição ao preparar as obras completas de David Ricardo [76]. Estava muito bem informado sobre os escritos de Keynes e rapidamente encontrou um tradutor para o Tratado sobre a Moeda [77].

Piero Sraffa pode ter conhecido Rodolfo Morandi através de Carlo Rosselli. Nascido em Milão, Rodolfo Morandi (1902-1955) estudou Direito em Pavia a partir de 1921, e obteve o seu doutoramento na Universidade de Milão em 1925. Ativista anti-fascista, contribuiu para a Revolução Liberal de Piero Gobetti e para o Il Quarto Stato de Carlo Rosselli e Pietro Nenni. Em 1927, a conselho do seu amigo Lelio Basso, estudou o marxismo na Alemanha e interessou-se pela economia política. Em 1928-29, escreveu o importante ensaio Storia della grande industria in Italia, publicado em 1931 por Laterza [78]. Entre 1929 e 1931, juntou-se à organização clandestina “Giustizia e Libertà”. Tornou-se então membro ativo no Partido Socialista Italiano, defendendo a colaboração entre socialistas e comunistas; em 1934, lançou o “Centro Socialista Interno”. Por volta de 1931-1932, planeou a criação de uma coleção de obras destinadas a formar um centro de oposição cultural ao fascismo. Em particular, planeou publicar uma série de “clássicos” da economia política, de Adam Smith a Marx, com textos completos, “qualquer coisa como a coleção filosófica de Laterza”, uma alusão aos “clássicos da filosofia moderna” dirigida, a partir de 1906, por Benedetto Croce e Giovanni Gentile. Uma segunda série de obras económicas “não clássicas” deveria ser iniciada (J. A. Hobson, M. Weber, W. Sombart…). R. Morandi consultou Piero Sraffa na Primavera de 1932 para elaborar listas de obras para as duas séries, e pediu-lhe que fizesse parte da equipa que preparava estas edições [79]. Mas este projeto não pôde ser concluído devido a dificuldades financeiras. No início de 1933, Morandi tornou-se colaborador da editora Corticelli em Milão; tentou relançar o projeto de uma série de “clássicos” da economia política (Turgot, Smith, Ricardo…), e perguntou ao seu amigo sobre as edições originais a serem utilizadas. Na sua resposta, por volta de fevereiro – início de março de 1934, Piero Sraffa indicou a edição Cannan [80] da Riqueza das Nações de Adam Smith, e a sua própria edição dos Princípios da Economia Política e da Tributação de Ricardo, que deveriam aparecer nas obras completas previstas para o Outono [81]. No entanto, esta segunda tentativa também terminou em fracasso. Em abril de 1937, Rodolfo Morandi foi detido e condenado a dez anos de prisão por criar uma associação subversiva; permaneceu na prisão até 1943 [82].

 

8- A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

A Segunda Guerra Mundial eclodiu em setembro de 1939. Em maio de 1940, a “guerra falsa” terminou na Frente Ocidental; os alemães invadiram a França e bombardearam implacavelmente a Grã-Bretanha. O governo britânico teve de lidar com as atividades de espionagem dos países do ‘Eixo’. Para o efeito, decidiu prender imediatamente todos os cidadãos italianos e alemães. Piero Sraffa, que possuía um passaporte italiano, foi preso em Cambridge e levado para um campo de internamento na Ilha de Man. Juntou-se a intelectuais alemães como H.W. Singer, Edward Rosenbaum, e Erwin Rothbarth, que tinha ajudado Keynes a preparar a brochura Como Pagar a Guerra (1940). Esta estadia era em princípio temporária, uma vez que o governo britânico planeava transferir os prisioneiros o mais rapidamente possível para um campo de concentração nos Domínios [N.T. referência às colónias inglesas]. Em julho, John Maynard Keynes e a sua mãe, Florence Ada, Presidente da Câmara de Cambridge desde 1932, fizeram pressão para a libertação de Piero Sraffa [83]. Como salienta Charles H. Hession, Sraffa, prisioneiro, “

“escreveu-lhe agradecendo-lhe o trabalho que estava a fazer e pedindo-lhe que pedisse à sua mãe para confortar a sua própria mãe, que foi deixada sozinha em Cambridge e sem amigos” [84].

Os esforços de Keynes foram bem-sucedidos e Piero Sraffa pôde regressar ao Trinity College, Cambridge, e retomar a sua investigação.

A partir de 1940, formou-se um novo “círculo” na Universidade de Cambridge, constituído por Joan Robinson, Richard F. Kahn, Piero Sraffa e Nicholas Kaldor. Chamado ‘Circus de Guerra’, funcionou até cerca de 1965, sob o nome de ‘Seminário Secreto’; de facto, apenas alguns selecionados foram convidados a assistir às suas reuniões [85].

No início da Segunda Guerra Mundial, quando a London School of Economics foi evacuada para Cambridge, Arthur Cecil Pigou decidiu organizar uma série de palestras sobre “os grandes economistas”. Nicholas Kaldor, que relata este episódio, indica a escolha dos oradores:

C.R. Fay: Adam Smith;

Piero Sraffa: David Ricardo;

Gerald Shove: J.S. Mill;

Maurice Dobb: Karl Marx;

Joan Robinson: W.S. Jevons;

C.W. Guillebaud: Alfred Marshall.

Na véspera do seu discurso, Piero Sraffa pediu a Pigou para ser dispensado de proferir a sua conferência, invocando um “bloqueio psicológico” que o impedia de enfrentar uma audiência. Foi-lhe então pedido que encontrasse um substituto no local, ninguém menos que Nicholas Kaldor [86].

Os anos de fixação em Cambridge foram também para o nosso intelectual os anos de preparação da obra fundamental, a publicação dos escritos de Ricardo e o pequeno ensaio Produção de Mercadorias através de mercadorias, como iremos a seguir descobrir.

 


Notas

  1. «the book, as it stands, seems to me to be one of the most frightful muddles I have ever read» (J.M. Keynes, «The Pure Theory of Money – A Reply to Dr Hayek», Economica, novembre 1931, reeditado em The General Theory and after – Part. I, Preparation, The Collected Writings, MacMillan – St Martin Press, volume XIII, 1973, p.252).
  2. The Economic Journal, volume XLII, março de 1932, pp.42-53, tradução francesa por Jacques Léonard em Publications de la Faculté de Droit et d’économie d’Amiens, no3, 1972-1973, pp.179-188, reeditado em Cahiers d’économie politique, no 9,1984, Anthropos, pp.5-17.
  3. Op. cit., tradução francesa, reeditada, p. 7.
  4. Ver Keynes, Théorie générale de l’emploi, de l’intérêt et de la monnaie, chapitre 17, «Les propriétés essentielles de l’intérêt et de la monnaie», P.B. Payot, 1969, pp.229-250. Trata-se da conceção keynesiana da «own rate of interest», que na tradução de Jean de Largentaye é traduzida por “taxa de juro específica”.
  5. F. Von Hayek: «Money and Capital: a Reply», The Economic Journal, volume XLII, junho de 1932, pp.237-249.
  6. Op. cit., p.249.
  7. Piero Sraffa: «A Rejoinder», The Economic Journal, volume XLII, junho de 1932, pp.249-251.
  8. Entre as muitas recensões publicadas sobre o último trabalho de Keynes que mais me beneficiaram, penso eu, foram as Hawtrey e de Hicks; entre muitas conversas sobre o mesmo tema, as que foram travadas com Sraffa destacam-se na minha memória como as que mais inevitavelmente acabavam em furto”. Sublinhado por nós, Dennis H. Robertson: Ensaios em Teoria Monetária, Londres: King and Son, 1940, p. VIII.
  9. Angelo Tasca: «La rivalutazione della lira e la crisi della economia italiana», Lo Stato Operaio, anno I, no6, agosto de 1927, p.667.
  10. Sublinhado por Piero Sraffa, P.Sraffa-A. Tasca « Il vero significato della ’quota 90’», em Lucio Villari, editor, Il capitalismo italiano del Novecento, tome I, Bari: Laterza, 1975, pp.180-181. A consulta da correspondência Sraffa-Tasca na Fundação Feltrinelli de Milão permitiu-nos precisar as datas das diferentes cartas trocadas.
  11. Palmiro Togliatti: Lezioni sul fascismo, Roma: Riuniti, 1970, tradução francesa «Le fascisme italien – Huit leçons», em Recherches internationales à la lumière du marxisme, no 68, 3º trimestre de 1971 (ver principalmente p. 9).
  12. Op. cit., pp.182-185. Ver também o «Postscriptum», na realidade formado por um excerto de uma carta de A. Tasca a P. Sraffa de 5 outubro 1927.
  13. Op. cit., p.186.
  14. Op. cit., p.189.
  15. A. Tasca: carta a P. Sraffa de 9 novembro de 1927, conservada na Fundação Feltrinelli, Milão.
  16. Carta de P. Sraffa a Tasca, 21 dezembro de 1927, conservada na Fundação Feltrinelli, Milão. Nesta carta, Sraffa pede desculpa por ter demorado tanto tempo para dar o seu consentimento.
  17. Lo Stato Operaio, anno 1, no9-10, pp.1089-1095.
  18. Sobre este tema veja-se uma carta de P. Sraffa à A. Tasca, sem data mas possivelmente datando do meados do ano de 1930, com a menção «Cambridge, domenica», conservada na Fundação Feltrinelli de Milão.
  19. Notar-se-á que Tasca publica o estudo de David Riazanov, «Antonio Labriola», em Lo Stato Operaio, no7, setembro de 1927, pp.787-792.
  20. Sobre o marxismo de Labriola, ver Jean-Pierre Potier, Lectures italiennes de Marx – Les conflits d’interprétation chez les économistes et les philosophes – 1883-1983, P.U.L., 1986, pp.131-154.
  21. Roma: Loescher, 1895.
  22. Roma: Loescher, 1896.
  23. Roma: Loescher, 1897.
  24. Como o atesta a carta de A. Tasca a Piero Sraffa de 21 outubro de 1927, conservada na Fundação Feltrinelli de Milão.
  25. A. Tasca: carta a Piero Sraffa, 9 novembro 1927, conservada na Fundação Feltrinelli, Milão.
  26. Lo Stato Operaio, anno I, 1927, no7, setembro, no8, outubro, no9-10, nov.-dezembro; anno II, 1928, no1-2, janeiro-fevereiro, no3, março, no4, abril, no5, maio, no6, junho, no7, julho, no8, agosto-setembro, no9, outubro; anno III, 1929, no1, janeiro, no2, fevereiro, no4, abril-maio, no6, julho-agosto, no7, setembro-outubro, no8, novembro; anno IV, 1930, no1, janeiro, no2, fevereiro.
  27. A. Tasca: carta a Piero Sraffa, 9 novembro de 1927, conservada na Fundação Feltrinelli, Milão.
  28. Estas duas cartas de Labriola estão editadas na coletânea de Labriola, Scritti filosofici e politici, sob o cuidado de Franco Sbarberi, Turim: Einaudi, 1973, tomo I, respetivamente pp.320-325 et 403-06.
  29. Sraffa: cartas a Tasca de 21 dezembro de 1927 e de 13 março de 1928, conservadas na Fundação Feltrinelli, Milão.
  30. Lo Stato Operaio, anno III, no2, fevereiro de 1929, p.154 nota 1.
  31. Lo Stato Operaio, anno III, no7, setembro-outubro de 1929, p.622 nota 1.
  32. Carta de Sraffa a Tasca, 24 fevereiro de 1928, conservada na Fundação Feltrinelli de Milão. A apresentação de Tasca encontra-se no no7, setembro de 1927 de Lo Stato Operaio pp.795-796, intercalada entre o artigo de Riazanov e a primeira série das cartas.
  33. Benedetto Croce: «Note sulla letteratura italiana nella seconda metà del secolo XIX – XXIII – Giovanni Bovio e la poesia della filosofia» – Parte seconda: «Antonio Labriola – Giovanni Bovio», paragraphe VII, «Antonio Labriola», La Critica (Naples), anno V, fasc. VI, 20 novembro 1907, pp.417-421 ; Benedetto Croce: «Appunti per la storia della cultura in Italia nella seconda metà del secolo XIX» – I – « La vita letteraria a Napoli dal 1860 al 1900» – Prima parte, La Critica, anno VII, fasc V, 1909, p.334 e seguintes.
  34. Sobre a atividade de Raffaele Mattioli nos anos Trinta, ver a obra de Giovanni Malagodi: Profilo di Raffaele Mattioli, Riccardo Ricciardi ed., 1984, 87p. (publicação esgotada).
  35. Sraffa agradece a Raffaele Mattioli no «General Preface» em The Works and Correspondance of David Ricardo, Cambridge: Cambridge, U. Press, 1951, p.XI.
  36. A tradução italiana de Enrico Radaeli é de 1932-34.
  37. Sobre este livro, ver supra pp.71-72.
  38. Ver sobre este tema as cartas de Rodolfo Morandi a Pietro Ernandez de 22 maio e de 27agosto de 1932, em Annali della Fondazione Einaudi (Turin), volume III, 1969, resp. pp.464 et 467.
  39. Londres: Methuen, 1ª edit. 1904, 4ª édit. 1925.
  40. Rodolfo Morandi: carta a Pietro Ernandez, 10 março de 1934, em Annali della Fondazione Einaudi, volume III, 1969, p.479.
  41. Secretário do Partido Socialista Italiano reconstituído de dezembro de 1945 a Abril de 1946, tornou-se Ministro da Indústria e Comércio no governo De Gasperi em 1946-1947.
  42. John Maynard Keynes: Activities 1939-1945 – Internal War Finance, The Collected Writings, volume XXII, MacMillan Cambridge U. Press, 1978, pp.190-191.
  43. Charles H. Hession: John Maynard Keynes, Paris: Payot, 1985, p.382. Depois da morte do seu marido, em 1938, Irma Sraffa veio viver para Cambridge junto do seu filho. Ela morre em 1945.
  44. Nicholas Kaldor: Ricordi di un economista, Milan; Garzanti, 1986, p.68.
  45. Nicholas Kaldor revela uma divertida anedota a este propósito. Op. cit., pp.49-50.

 


Jean-Pierre Potier é professor emérito de ciências económicas na Universidade Lumière Lyon 2. Sobre as obras e publicações do autor ver aqui e aqui.

 

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