Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Nota de editor:
Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a primeira.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
11 min de leitura
Parte B: Texto 7 – Um economista não conformista, Piero Sraffa (1898-1983). Capítulo IV – A edição de Ricardo e Produção de mercadorias através de mercadorias: investigação de longo prazo (1/2)
Em
, Presses universitaires de Lyon ((original aqui)
1– PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES SOBRE A PRODUÇÃO DE MERCADORIAS ATRAVÉS DE MERCADORIAS
No início da sua estadia em Cambridge, Piero Sraffa já estava envolvido na investigação que muito mais tarde levaria à publicação do famoso ensaio: Produção de mercadorias através de mercadorias-Prelúdio a uma Crítica da Teoria Económica. Em 1926, em “As leis dos rendimentos em regime de concorrência”, referia que a teoria do valor dos economistas clássicos e os problemas que esta teoria levantava só encontravam hoje uma indiferença total, pela parte dos economistas, na sua maioria fiéis à escola marginalista. Contudo, a partir dessa altura, P. Sraffa, que não acreditava no futuro da perspetiva de concorrência imperfeita que ele próprio tinha aberto, interessou-se cada vez mais pelos problemas da teoria do valor e distribuição em Adam Smith, Ricardo e Marx, mas também pela abordagem do fisiocrata François Quesnay, que foi o primeiro a considerar a produção e o consumo como um “processo circular”. Ele vai procurar reabilitar e renovar a abordagem teórica em termos de “excedente” como um possível ponto de partida para uma crítica radical da abordagem marginalista do capital e da distribuição, baseada na noção de “fator de produção”. Uma parte importante desta investigação diz respeito à teoria ricardiana. Ricardo aceita o princípio do valor-trabalho incorporado, mas introduz uma série de perturbações, exceções como a maior ou menor durabilidade das máquinas, ou as diferentes combinações possíveis de capital fixo e circulante; além disso, procura uma “medida invariável dos valores”, uma medida-padrão invariável às mudanças na distribuição entre salários e lucros, mas também na técnica de produção de mercadorias. Pouco depois da sua chegada ao King’s College, em novembro de 1927, Piero Sraffa discutiu o seu projeto de investigação com John Maynard Keynes. Keynes fez a seguinte avaliação em 28 de novembro à sua esposa Lydia:
” No sábado tive uma longa conversa com Sraffa sobre o seu trabalho. É muito interessante e original – mas questiono-me se os seus estudantes o entenderão quando leccionar a sua disciplina” [1].
No decurso de 1928, Sraffa solicitou a Keynes que lesse um “esboço das primeiras propostas” do seu estudo. Keynes parece não querer discutir em profundidade as teses expressas, e limitou-se a que se aconselhasse claramente o leitor “se os retornos constantes não deveriam ser pressupostos “[2]. Em troca, como vimos, fez com que o jovem italiano lesse vários rascunhos do seu Tratado sobre a Moeda.
No final dos anos 20, as “propostas centrais” do futuro livro já estavam escritas. Há aspetos matemáticos na sua investigação. A este propósito, Piero Sraffa beneficiou durante um lapso de tempo muito curto, em 1928 e 1929, dos conselhos do seu amigo Frank P. Ramsey, que morreu prematuramente em janeiro de 1930. Depois de Ramsey, dois matemáticos da Universidade de Cambridge deram-lhe conselhos técnicos, Alister Watson e especialmente A.S. Besicovitch. Nos anos de 1932-1940, Sraffa desenvolveu pontos específicos da sua teoria, por exemplo a introdução de “capital fixo” e “produção conjunta” nos seus sistemas de equações; finalmente chegou à construção de uma “mercadoria padrão”, ou seja, uma medida padrão invariável a mudanças na distribuição do “excedente” entre salários e lucros, para um método de produção dado.
2- A EDIÇÃO CIENTÍFICA DAS OBRAS COMPLETAS DE DAVID RICARDO
Paralelamente à sua investigação sobre a “Produção de mercadorias através de mercadorias”, Piero Sraffa começou em 1930 a preparar uma edição científica das Obras Completas de David Ricardo, incluindo não só todas as obras, manuscritos e artigos, mas também toda a sua correspondência como economista.
O primeiro trabalho a reunir os escritos de Ricardo foi realizado por um dos seus discípulos, John Ramsay McCulloch, em The Works of David Ricardo, em 1846. A partir do último quartel do século XIX, sucederam-se várias publicações. Em 1887, James Bonar publicou as cartas de Ricardo a T.R. Malthus (1810-1823), depois em 1899, com a colaboração de Jacob H. Hollander, as cartas de Ricardo a Hutches Trower e outros correspondentes (1811-1823). Em 1895, Jacob H. Hollander publicou as cartas de Ricardo a McCulloch (1816-1823). Após a descoberta de novos arquivos pelo Coronel Frank Ricardo em 1919, Theodore E. Gregory publicou Notes on Malthus’ Principles of Political Economy em 1928. Jacob H. Hollander publicou as cartas de McCulloch a Ricardo (1818-1823) em 1932, seguidas em 1932 pelos Documentos Menores sobre o Sistema Monetário (1809-1823). Em 1925, a Royal Economic Society lançou o projeto das obras completas de David Ricardo, e confiou-o a Theodore E. Gregory, da London School of Economics. Nos anos seguintes, ele não se empenhou muito nesta tarefa. Na Primavera de 1930, J.M. Keynes, que tinha sido Secretário da Royal Economic Society desde 1923, conseguiu convencer o novo Presidente, Herbert Somerton Foxwell, a confiar esta responsabilidade a Piero Sraffa em vez de Gregory, com o acordo deste último. O jovem italiano pôs-se imediatamente ao trabalho. Em 1931, Antonio Gramsci tomou conhecimento do projeto editorial de Ricardo a partir de um artigo de Luigi Einaudi em La Riforma Sociale, “Para uma nova série de economistas“ [3]. Declarou-se muito satisfeito com isso e acrescentou:
“Espero ser capaz de ler inglês fluentemente quando esta edição for publicada e que possa ler Ricardo no texto original “ [4]
De facto, não pôde ter acesso aos Princípios da Economia Política e da Tributação para a sua pesquisa, por exemplo na tradução italiana da “Biblioteca do Economista ” (1856), republicada em 1925 com uma introdução de Achille Loria [5], e teve de se contentar com a apresentação crítica de Charles Gide no famoso livro de texto escrito com a ajuda de Charles Rist, História das Doutrinas Económicas desde os fisiocratas até ao presente [6]. Um mês mais tarde, P. Sraffa viu a sua resposta transmitida pela sua cunhada Tatiana Schucht:
“Quando escrever ao Nino, diga-lhe que o que ele diz sobre a edição das obras de Ricardo que estou a preparar me deu grande prazer; espero que saia dentro de um ano e meio ou dois, e é claro que lhe enviarei um exemplar.” [7]
O nosso intelectual, que pretende publicar não só todas as cartas de Ricardo, mas também todas as cartas dos seus correspondentes, inicia uma pesquisa de cartas não publicadas, particularmente junto dos descendentes e herdeiros. John Maynard Keynes tomou parte ativa nestes esforços. Sraffa entrou então em contacto com os bisnetos do grande economista inglês, o Tenente-Coronel Henry George Ricardo [8] e o Coronel Frank Ricardo [9]. Ele conheceu Robert Malthus, um descendente do famoso pastor. O ano de 1930 foi particularmente rico em descobertas. Em maio, o Coronel Frank Ricardo descobriu uma grande quantidade de cartas em Bromesberrow Place, perto de Ledbury, a casa do filho mais velho de Ricardo, Osman. A 1 de Junho, J.M. Keynes fala-nos do comportamento de Piero Sraffa nessa precisa altura:
“Piero estava num momento de excitação e ficou acordado toda a noite, até às seis horas da manhã seguinte, lendo-as [10].
A 5 de Junho, numa carta ao seu antigo professor Luigi Einaudi, Piero Sraffa escreveu
“Conseguimos descobrir (digo-vos em segredo por agora) uma boa parte das cartas de Malthus, McCulloch, Bentham, Trower, e o que é ainda mais excitante, cerca de 45 cartas de James Mill; para não mencionar meia dúzia de cartas importantes de R(icardo), das quais ele tinha guardado uma cópia. E eu estou no rasto de outras, espero eu”.
Nesta carta, Piero Sraffa lamenta então a sua incapacidade de encontrar em França cartas de Ricardo a Jean-Baptiste Say. Em França, André Liesse, um grande amigo de Léon Say, com quem falou, não conseguiu fornecer-lhe qualquer informação sobre este assunto [11]. Piero Sraffa acabará por encontrar estas cartas em Le Havre antes da Segunda Guerra Mundial. Elas estavam nas mãos de um bisneto de Jean-Baptiste Say, Edgar Raoul-Duval. No final de 1930, o Coronel Frank Ricardo descobriu um novo lote de cartas de vários correspondentes de Ricardo [12], que mais uma vez encheu Piero Sraffa de alegria.
No seu trabalho sobre os textos e cartas de Ricardo, o investigador italiano beneficiou dos conselhos de John Maynard Keynes, James Bonar, Edwin Cannan, Theodore E. Gregory e, em Itália, de Luigi Einaudi, que em 1936 estabeleceu dez critérios técnicos para a edição dos “clássicos” da economia política no estudo “Come non si devono ristampare i nostri classici” em La Riforma Sociale. Já em 1930, Sraffa tinha estabelecido a sua reputação como um bom conhecedor da obra de David Ricardo. Ele reagiu a um estudo de Luigi Einaudi publicado em novembro de 1929 no Quarterly Journal of Economics, “James Pennington ou James Mill: uma correção antecipada de Ricardo”, que atribuiu a Ricardo um erro de cálculo na apresentação da lei dos custos comparativos. Numa nota filológica publicada na mesma revista em maio de 1930, “Uma alegada correção de Ricardo”, Piero Sraffa demonstra que este “erro” foi realmente cometido por James Mill e foi erroneamente atribuído a Ricardo por John Stuart Mill, sem dúvida para poupar o seu pai. Luigi Einaudi, numa resposta publicada após esta nota, admite elegantemente que estava enganado [13].
Entre 1931 e 1933, Piero Sraffa empreendeu uma série de pesquisas sobre a vida de Ricardo como parte da sua edição. Os descendentes do economista ajudaram-no o melhor que puderam, em particular o Coronel Frank Ricardo, que lhe forneceu numerosos documentos e o pouco que restava da biblioteca pessoal do autor dos Princípios. Sobre a questão das origens familiares, Sraffa encomendou uma pesquisa nos arquivos da comunidade judaica de Livorno em 1932 [14]. Na Holanda, consultou os registos paroquiais e as memórias do clero a fim de esclarecer a atitude de Ricardo em relação à questão religiosa, incluindo a sua passagem pela “Seita Unitária”. Sobre atividades financeiras, consultou as casas bancárias da Lombard Street em Londres. Em 1933, pôde mostrar a Huguette Biaujaud, que tinha vindo a seguir os seus conselhos para a preparação da sua tese, Essai sur la théorie ricardienne de la valeur [15], uma primeira versão da biografia, que mais tarde apareceria no volume X, Miscelânea Biográfica das Obras Completas, em 1955. [16]
Piero Sraffa pretendia completar o seu trabalho editorial bastante rapidamente. Como vimos, em 1931 ele anunciou a Antonio Gramsci que publicaria a sua obra em março-outubro de 1933. John Maynard Keynes, por seu lado, também anunciou a publicação da obra de Piero “de quem nada se esconde” em 1933 [17]. Na Primavera de 1934, Piero Sraffa prometeu publicá-la no Outono do mesmo ano [18]. A partir de 1935, ele deixou de anunciar um lançamento iminente. As dificuldades na preparação da edição foram maiores do que o esperado, tanto para os textos como para a correspondência. Além disso, os escrúpulos científicos levaram-no a continuar a procurar as cartas perdidas.
3- UMA IMPORTANTE TROCA DE PONTOS DE VISTA COM ANTONIO GRAMSCI SOBRE O SIGNIFICADO FILOSÓFICO DA TEORIA RICARDIANA
Uma troca de opiniões muito importante teve lugar entre Piero Sraffa e Antonio Gramsci sobre a teoria ricardiana, apenas dois anos após o início da edição das obras completas. Numa carta de 30 de maio de 1932, dirigida a Tatiana Schucht, o prisioneiro consultou o seu amigo sobre o problema da importância de David Ricardo na formação do “materialismo histórico”:
(…) Gostaria de partilhar contigo uma série de observações para que as possas transmitir a Piero, pedindo-lhe alguma informação bibliográfica que me permita alargar o âmbito das minhas reflexões e orientar-me melhor. Gostaria de saber se existe alguma publicação especial, mesmo em inglês, sobre o método de investigação de Ricardo em economia e sobre as inovações que Ricardo introduziu na crítica metodológica. Penso que especialmente na altura do centenário da sua morte, há dez anos, [19] deve ter havido uma rica literatura sobre este assunto e que deve ser possível encontrar precisamente o que me interessa. O curso das minhas reflexões é o seguinte: – Será que se pode dizer que Ricardo foi importante não só na história da ciência económica, onde é certamente da mais alta importância, mas também na história da filosofia? E podemos dizer que Ricardo ajudou a encorajar os primeiros teóricos da filosofia da praxis a ir além da filosofia hegeliana e a elaborar um novo historicismo, livre de todos os traços de lógica especulativa? Parece-me que se poderia tentar demonstrar esta tese e que ela valeria a pena. Parto dos dois conceitos, fundamentais para a ciência económica, de “mercado determinado” e “lei da tendência”, que penso que devemos a Ricardo, e raciocino da seguinte forma: – Não será sobre estes dois conceitos que a conceção “imanentista” da história – expressa numa linguagem idealista e especulativa pela filosofia clássica alemã – foi reduzida a uma “imanência” imediatamente realista histórica, na qual a lei da causalidade das ciências naturais foi despojada do seu conteúdo mecanicista e foi sinteticamente identificada com o raciocínio dialético do Hegelianismo? Toda esta sequência de reflexões pode ainda parecer um pouco confusa, mas é precisamente importante para mim que seja entendida como um todo, ainda que apenas aproximadamente, porque basta saber se o problema foi vislumbrado e estudado por algum especialista de Ricardo. É preciso lembrar que o próprio Hegel, noutros casos, viu estes Homens necessários entre diferentes atividades científicas e mesmo entre atividades científicas e práticas. Assim, nas suas Lições de História da Filosofia, ele encontrou uma ligação entre a Revolução Francesa e a filosofia de Kant, Fichte e Schelling, e disse que “apenas dois povos, os alemães e os franceses, por muito opostos que sejam um ao outro, e mesmo precisamente por causa da sua oposição, participaram na grande época da história universal” do final do século XVIII e início do século XIX, uma vez que na Alemanha o novo princípio “rompeu como um espírito e um conceito”, enquanto que em França se desenvolveu “como uma realidade real”. Segundo a Sagrada Família vemos como esta ligação realçada por Hegel entre a atividade política francesa e a atividade filosófica alemã foi retomada pelos teóricos da filosofia da praxis. Trata-se de ver como e em que medida a economia clássica inglesa, na forma metodológica elaborada por Ricardo, contribuiu para o desenvolvimento futuro da nova teoria. Que a economia inglesa clássica contribuiu para o desenvolvimento da nova filosofia é comummente aceite, mas normalmente pensamos na teoria ricardiana do valor. Parece-me que devemos olhar mais longe e reconhecer uma contribuição que eu chamaria sintética, ou seja, relativa à intuição do mundo e ao modo de pensar, e não apenas uma contribuição analítica, mesmo que fundamental, relativa a uma doutrina particular. No seu trabalho para a edição crítica das obras de Ricardo, Piero poderia reunir material valioso sobre este tema. Em qualquer caso, ele deveria ver se existe alguma publicação que trate destes problemas ou que me possa ajudar, na minha situação de recluso, ou seja, na impossibilidade de fazer investigação sistemática na biblioteca [20].
Gramsci quer melhorar a sua informação sobre a metodologia ricardiana; ele pensa que o método dedutivo de “supor que” leva o economista inglês não à construção de generalidades abstratas, mas ao exame de uma determinada “forma social”, e assim ao destaque do “mercado determinado”, ou seja, de um conjunto de atividades económicas específicas que implicam a existência de uma certa relação de poder entre classes sociais [21]. Cada classe atua de acordo com uma “racionalidade” específica. Nesta base, Ricardo, segundo Gramsci, estabelece “leis de tendência que são leis, não no sentido do naturalismo ou do determinismo especulativo, mas no sentido ‘historicista’, na medida em que existe um ‘mercado determinado’[22]. No entanto, o cerne da questão é o lugar do economista inglês na formação de Marx: será Ricardo um inovador gnoseológico e filosófico, e como tal um catalisador na transição do hegelianismo para o marxismo?
Piero enviou a sua resposta numa carta datada de 21 de junho a Tatiana Schucht, que reproduziu o texto palavra por palavra numa carta a Gramsci datada de 5 de julho.
Que diz Sraffa nesta carta?
“Nino pode imaginar o quanto eu estava interessado nas suas observações. Para a observação principal, relativa ao significado de Ricardo na história da filosofia, preciso de pensar sobre isso – e para a compreender corretamente, preciso de estudar mais do que os escritos de Ricardo, os dos primeiros teóricos da filosofia da praxis. Mas gostaria de ter algumas explicações sobre os dois conceitos de “mercado determinado” e “lei da tendência”, que Nino considera como fundamentais e aos quais, ao colocá-los entre aspas, parece atribuir um significado técnico: confesso que não compreendo bem a que se referem, e no que diz respeito ao segundo, estava habituado a considerá-lo antes como uma das características da economia vulgar. Em qualquer caso, é muito difícil apreciar a importância filosófica, se alguma existe, de Ricardo, uma vez que ele próprio, ao contrário dos filósofos da práxis, nunca se submeteu a uma consideração histórica do seu próprio pensamento. Em geral ele nunca se coloca do ponto de vista histórico e, como já foi dito, considera como leis naturais e imutáveis as leis da sociedade em que vive “[23].
Curiosamente, Sraffa vê o conceito da “lei da tendência” como uma contribuição não de Ricardo, mas da “economia vulgar”. A este respeito, parece referir-se aos Princípios de Economia de Alfred Marshall (1890), que define a lei económica como uma “exposição de tendências”. Recusa-se justificadamente a ver Ricardo como um pensador ‘historicista’, e em geral permanece cético quanto à sua importância filosófica. A este respeito, declara na carta que “o único elemento cultural que nele se encontra é derivado das ciências naturais “[24]. Por enquanto, o nosso investigador sente que não pode fornecer ao seu amigo quaisquer elementos decisivos; no entanto, ele fornece uma série de referências bibliográficas. Entre estas, uma é particularmente interessante: uma coleção dos primeiros escritos de Marx publicados na Alemanha por Siegfried Landhut e J.P. Mayer, Der historische Materialismus – Die Frühschriften, publicado em 1932 [25]. O primeiro volume contém a Crítica do Direito Político Hegeliano, já publicada em alemão em 1927 [26], e uma obra inédita, os famosos Manuscritos de 1844 [27]. Piero Sraffa estava convencido de que este último texto era crucial para o esclarecimento do problema colocado pelo seu amigo.
Infelizmente, não é certo que o prisioneiro tenha recebido esta resposta, e o diálogo promissor que foi iniciado não terá seguimento.
(continua)
Notas
- “No sábado tive uma longa conversa com Sraffa sobre o seu trabalho. É muito interessante e original – mas pergunto-me se os seus alunos o compreenderão quando estiver a lecionar- “(Sublinhado por J.M. Keynes, carta de J.M. Keynes a Lydia Keynes, 28 novembro de 1927, «Keynes Papers», «King’s College», Cambridge, citado par Robert Skidelsky, «Keynes e Sraffa: un caso di non-communicazione», editor Riccardo Bellofiore, Tra teoria economica e grande cultura europea: Piero Sraffa,Milan: Franco Angeli, 1986, p.77).
- Produção de mercadorias através de mercadorias «Prefácio» Dunod, 1970, p.VIII.
- L.Einaudi: «Per una nuova collana di economisti», La Riforma sociale, no7-8, julho -agosto de 1931, p.397.
- Gramsci: carta a Tatiana, 7 setembro de 1931, em Lettres de prison, Gallimard, 1971, p.333.
- Turin: U.T.E.T., 1925.
- Paris: Sirey, 5ª edição de 1926.
7 Piero Sraffa: carta a Tatiana Schucht, 2 outubro de 1931, dans Nvove lettere di Antonio Gramsci con altre lettere di Piero Sraffa, Riuniti, 1986, p.71.
- Neto de David, o segundo filho do economista.
- Neto de Mortimer, terceiro filho do economista.
- “Piero estava muito excitado e ficou acordado toda a noite, até às seis horas da manhã seguinte, lendo-as”. J.M. Keynes: carta a Lydia Keynes, 1 de junho de 1930, ” Keynes Papers “, ” King’s College “, Cambridge, citadio por Robert Skidelsky, ” Keynes e Sraffa: un caso di non communicazione “, numa edição de Ricardo Bellofiore de Tra teoria economica e grande cultura europea: Piero Sraffa, Franco Angeli, 1986, p. 79.
- Piero Sraffa: carta a Luigi Einaudi, 5 de junho de 1930, conservada na Fundação Luigi Einaudi em Turim. André Liesse (1854-1944) foi professor de economia política na Ecole Spéciale d’Architecture em Paris, no Conservatoire National des Arts et Métiers e na Ecole Libre des Sciences Politiques ; autor de Vauban économiste (1891) e La Statistique, ses difficultés, ses procédés, ses résultats (1905).
- Piero Sraffa: «A Survey of Ricardo Manuscripts», Apêndice B, em Biographical Miscellany, The Works and Correspondence of David Ricardo, volume X, Cambridge U. Press, 1955, p.387.
- Quarterly Journal of Economics, volume XLIV, maio de 1930, pp.539-544 (Sraffa), p.545 (Einaudi).
- Sraffa: «Addenda to the Memoir of Ricardo», dans Biographical Miscellany, The Works and Correspondance of David Ricardo, volume X, Cambridge U. Press, 1955, p.18 note 3.
- Huguette Biaujaud: Essai sur la théorie ricardienne de la valeur, Paris: Sirey, 1933, nota da p.18. A tese foi defendida no dia 2 de dezembro de 1933 em Paris sob a a presidência de Gaëtan Pirou. Piero Sraffa pede a H. Biaujaud a sua ajuda para encontrar a correspondência das cartas de Ricardo a James Mill.
- Veja-se Piero Sraffa: «Addenda to the Memoir of Ricardo» e «Ricardo in Business»; dans Biographical Miscellany, The Works and Correspondence of David Ricardo, volume X, Cambridge U. Press, 1955, respetivamente pp.16-64 et pp.65-106.
- J.M. Keynes: «Thomas Robert Malthus», em Essays in Biography, The Collected Writings, volume X, MacMillan – St Martin’s press, 1972, p.97.
- Ver a carta de Rodolfo Morandi a Pietro Ernandez de 10 março de 1934, já citada p.121.
- Trata-se de facto de 1923, e não de 1922.
- Gramsci: carta a Tatiana, 30 maio de 1932, em Lettres de prison pp.429-430.
- De facto, Gramsci atribui injustificadamente a Ricardo a paternidade do conceito de “mercado determinado”, enquanto ele a encontrou no economista marginalista italiano Pasquale Jannaccone, num contexto completamente diferente, designando situações de “equilíbrio estável” como concorrência perfeita e monopólio. Ver Jean-Pierre Potier : Lectures italiennes de Marx. Les conflits d’interprétation chez les économistes et les philosophes 1883-1983, P.U.L., 1986, p.223.
- Op. cit., p.221.
- Sraffa: carta a Tatiana, 21 de junho de 1932, conservada na Fundação Gramsci em Roma. Este extrato da carta, na versão comunicada por Tatiana a Gramsci a 5 de julho de 1932, é publicado por Nicolà Badaloni no seu estudo “Gramscici: la filosofia della prassi corne previsione”, em Storia del Marxismo, volume 3, Il marxismo nell’età della Terza Internazionale, tomo 2, Dalla crisi del’ 29 al XX Congresso, Turim: Einaudi, 1981, p. 296
- Sraffa: carta citada de 21 junho de 1932, conservava da Fundação Gramsci, Roma.
- Liepzig: Kröner, 1934, dois volumes.
- A primeira edição alemã da Crítica do Direito Político Hegeliano apareceu em 1927 no primeiro volume da edição Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA) (Frankfurt am Main), do Instituto Marx-Engels de Moscovo, dirigido por David Ryazanov. Gramsci soube da existência deste texto a partir de uma recensão publicada por Benedetto Croce em 1930 na sua revista La Critica (ver Quaderni del Carcere, Einaudi, 1975, caderno 10 p., 1240, tradução francesa, Cahiers de prison, Cahiers 10 a 13, Gallimard, 1978, p. 46).
- S. Landhut e J.P. Mayer publicam a primeira edição alemã dos manuscritos de 1844 na sua coleção, mas com um texto incompleto e um título incorreto. A versão completa foi publicada no mesmo ano (1932), alguns meses mais tarde, no terceiro volume da M.E.G.A., Berlim, pelo Instituto Marx-Engels de Moscovo, desta vez dirigido por V. Adoratski.
Jean-Pierre Potier é professor emérito de ciências económicas na Universidade Lumière Lyon 2. Sobre as obras e publicações do autor ver aqui e aqui.



