CARTA DE BRAGA – “de anos bissextos” por António Oliveira

Temos pela frente um ano bissexto! Somos aumentados com mais um dia de trabalho, por culpa de dois imperadores romanos, do tempo em que eles mandavam, até nestas coisas –Julho era o mês com mais dias, 31, em honra de Júlio César, mas o outro César que lhe sucedeu, Augusto de seu nome, mandou também acrescentar um dia a Agosto e, por isso foram retirados dois dias a Fevereiro que só viu acrescentarem-lhe mais um dia por acerto de contas, uma espécie de IVA de 6 horas por cada ano, a receber de quatro em quatro!

Seja pelo IVA, pelos imperadores ou pelos romanos, o certo é que o bissexto está ligado a numerosas lendas e estórias, a atribuírem-lhe alguma dose de azar ou má fortuna, mas também lembro como os nascidos a 29 de Fevereiro, são os únicos autorizados e comemorar no dia seguinte! Para quem estiver interessado em saber mais do que aqueles conhecimentos herdados, ou aprendidos da História, dos tempos em que estas coisas também lá tinham lugar, podem sempre pedir ajuda ao dr. Google, a quem nunca faltam respostas para tudo, e que, por via disso, até parece estar a viver em Belém.

E este 2024, bissexto até à vista desarmada, começou com um céu de nuvens bem carregadas, não só das chuvadas, intempéries, inundações e secas, todas elas inesperadas e violentas, mas também pelas palavras do escritor e guionista Martinez de Pisón, a um diário daqui ao lado, ‘Se nos perguntarem quantas guerras há no mundo, diríamos Ucrânia e Gaza, mas de acordo com os peritos, estão a decorrer umas cinquenta mais’.

E a imprensa internacional dava conta, no passado 29 de Janeiro, ‘Altos mandos militares pedem aos cidadãos que se preparem para a guerra. Da Suécia aos Países Baixos, passando pela Alemanha e Reino Unido, os avisos à população sobre a possibilidade de a guerra se estender ao resto do continente falam também na necessidade de se mentalizarem para tal’.

El regresso
Manuel Fontdevila, eldiario.es, 27.01.24

O jornalista de investigação e fotógrafo David Álvez, tem um artigo no ‘Diario 16’, com o título ‘O preço da culpa’ salientando ‘Ser delinquente não tem custos quando se é poderoso e disposto a defender ideias populistas’, dando como exemplo o ex-presidente dos states, declarado culpado de difamação, de abuso sexual e fraude, por fugir às leis da financiação eleitoral, por posse de papeis classificados relativos à sua presidência, por tentar reverter o resultado das eleições de 2020 à base de fake news, por ser o ‘autor moral’ do ataque ao Capitólio, por ter sido condenado a pagar 130.000 dólares à actriz porno Stormy Daniels, e muitíssimas coisas mais.

Convém salientar que este candidato é a aposta clara do partido republicano, que conta cada dia com mais apoios, apesar de se mostrar exactamente como é, provocador e mentiroso, cada dia que passa e, pergunta-se também Álvez, ‘Que sentido tem então a perseguição de delitos, quando os cometem os políticos mais poderosos?

Há mais perguntas que um qualquer cidadão americano poderia fazer, depois de ter vindo a público, que esse mesmo candidato defende ‘A imunidade presidencial, inclusivamente para o assassinato de rivais políticos, se antes não foi condenado pelo Senado, em julgamento político’, argumento devidamente negado pelos juízes que têm em mãos, a enorme lista de acusações contra o penteadíssimo candidato.

Creio ainda que o problema maior não estará na cabeça de tal penteado, mas sim na democracia americana por me parecer bem doente; mas se ele começar a arranjar-se nos espelhos da Casa Branca, no caso de os eleitores norte-americanos o decidirem a 5 de Novembro deste ano bissexto, até poderá ter validade o cartoon de Manuel Fontdevila transcrito acima, porque dizia Flaubert, ‘Nunca existiram grandes homens enquanto vivos. É a posteridade que os cria’. E essa posteridade terá vida pelo vencedores, sejam eles morais, militares ou políticos, por seguirem critérios bem longe dos do presente que ali, no cartoon, poderão estar mesmo bem expressos!

Ou não seja este um ano bissexto!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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