AO REDOR DO NEVOEIRO
Hoje sou eu que vou ao teu encontro
por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde.
Não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo entre dálias e gerânios
entre memórias e sonhos de um segredo…
mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou, levo comigo a razão,
único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas
e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo
para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo
e eu quero abraçar-te pela cintura
neste apagado incêndio dos sentidos
ainda que seja demasiado tarde
para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro
em meu corpo de terra antiga que já não seduz.
Vou dar um passo em falso no nevoeiro
para lá dos olhos sem luz.
Assim o decidi, ao ver-te perdida
na altura em que o nevoeiro sem sentido
caía pesadamente sobre a rua.
Mas não eras tu…
Era uma chama de lábios e lume
ardendo em estranho leito nupcial
de um qualquer tempo já perdido.
Foi então
que no ventre do nevoeiro inventei a noite entre lençóis de neve
mordidos de uma luz oblíqua que não era minha nem tua
e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse entre a lua as águas e o nada…
e fosse demasiado tarde para ser música no violino da madrugada.


