Quando se apoia Israel, o que está realmente a apoiar-se? por António Gomes Marques

Quando se apoia Israel,

o que está realmente a apoiar-se?

por António Gomes Marques

 

Comentei para alguns amigos o texto ‘Sem um pingo de compaixão´, de Viriato Soromenho Marques, publicado no Diário de Notícias do passado dia 10 de Fevereiro. Volto ao tema, desenvolvendo um pouco mais, a pedido dos meus companheiros do blogue, o que faço sem hesitar, embora angustiado pelo genocídio que os sionistas de Israel estão a praticar na Faixa de Gaza, ou melhor, em toda a Palestina, tendo como alvo os palestinianos.

O texto de Viriato deve ser lido por todos, mesmo por aqueles que apoiam os sionistas de Israel, convencidos que estão a apoiar os judeus, incapazes, ao que parece, de fazer a necessária distinção dos criminosos sionistas, agora chefiados pelo corrupto Benjamin Netanyahu. Por ignorância? Prefiro pensar que sim e, também por isso, penso que temos de ir mais longe e olharmos para a história.

Escreveu a escritora e jornalista Martha Gellhorn: “Aos poucos, comecei a perceber que as pessoas engolem mais facilmente as mentiras do que a verdade, como se o gosto das mentiras fosse aconchegante e apetitoso: um hábito. (Havia também mentirosos no meu ofício e os líderes sempre usaram os factos como se fossem relativos e maleáveis. A reserva de mentiras era ilimitada.) As pessoas boas, aquelas que se opunham ao mal onde quer que o vissem, nunca passaram de uma corajosa minoria. Os milhões de seres manipulados podem ser estimulados ou tranquilizados por quaisquer mentiras. A luz norteadora do jornalismo não era, afinal, mais forte que a de um pirilampo.” (da introdução ao seu livro The Face of War, que me foi dado a conhecer pela minha amiga Maria Graciosa Morais).

Olhe-se então para o que a história nos ensina, não tendo eu a intenção de ir além do início da criação do Estado de Israel, acrescentando uns comentários finais.

O desenvolvimento do projecto sionista, com a conivência da Grã-Bretanha

Começo pelo ano de 1897, quando Theodor Herzl organizou um congresso na Suíça, de que resultou a criação da Organização Sionista Mundial (WZO), dando assim mais um passo para a concretização da proposta que havia feito no seu livro Der Judenstaat (O Estado Judaico), publicado no ano anterior, proposta essa que consistia em persuadir os judeus a formarem um Estado-nação, definindo o “sionismo como a crença «na criação de um lar para o povo judeu, na Palestina»” (Michael Scott-Baumann, 2024).

Em 1901 “foi criado o Fundo Nacional Judaico (JNF) destinado a comprar terras na Palestina. Hoje em dia, a maior parte das terras de Israel está à guarda do JNF em nome dos judeus do mundo e não pode ser vendida a não judeus.” (Michael Scott-Baumann, 2024), mais um passo no objectivo definido.

Contrariamente ao que dizia a propaganda sionista, a Palestina não era um deserto sem habitantes; com excepção do Sul, onde havia zonas desérticas, a maior parte da Palestina estava ocupada pelos árabes e devidamente cultivada, razão por que estes se opunham à imigração e posterior fixação dos judeus no que consideravam as suas terras.

Muitos dos proprietários árabes das terras viviam em Jerusalém, em Beirute e noutras cidades, sendo estas terras trabalhadas por outros árabes, naturalmente palestinianos a quem as arrendavam, tendo esses proprietários aceitado vendê-las aos judeus, atrevendo-me eu a dizer que os rendeiros foram atraiçoados pelos seus senhorios, árabes também.

Os novos proprietários, judeus, a quem o dinheiro não faltava, passaram a ser então os exploradores da mão-de-obra árabe, que tinha ficado sem trabalho pelo abandono praticado pelos senhorios árabes ao venderem as suas terras.

Os judeus que já viviam na Palestina, sefarditas e asquenazes, conviviam naturalmente com os árabes, mesmo quando estes eram seus empregados; viviam ali há séculos, por isso considerados judeus otomanos, pois a Palestina estava integrada no Império Otomano, e pretendiam assim continuar, nunca tendo pensado num estado judaico independente. Não eram apoiantes do movimento sionista.

A partir de 1882, foram chegando colonos judeus à Palestina, na sua maioria agricultores. Esta imigração foi chamada a Primeira Aliyah (ascensão em hebraico). Os que conseguiram comprar terras, mantiveram-se ali, sobrevivendo utilizando mão-de-obra árabe; os outros, passado pouco tempo, emigraram para os Estados Unidos da América do Norte e para a Europa Ocidental.

A imigração judaica intensificou-se no início do séc. XX, e estes novos imigrantes chegaram com a intenção clara de seguir as ideias de Theodor Herzl e convictos da necessidade de utilizar a língua hebraica bíblica; imigravam, dizia a propaganda que os acompanhava, para a terra que consideravam a pátria judaica. Nas terras que adquiriram, criaram colonatos, garantindo o seu cultivo e a necessária irrigação, recusando a mão-de-obra árabe, empregando apenas judeus. Em 1907, a Organização Sionista Mundial (WZO) criou o escritório da Palestina, na cidade de Jafa e, quando eclodiu a I Guerra Mundial em 1914, já havia a base de uma comunidade judaica na Palestina, conhecida pela palavra Yishuv, comunidade essa que era constituída por 75.000 judeus, que, no entanto, representava apenas 7% da população, mas nem todos eram sionistas.

As reacções árabes intensificaram-se, com ataques às terras dos judeus de que resultaram vítimas mortais, tendo também como consequência a separação entre árabes e judeus, agora duas comunidades com interesses opostos. Os árabes queriam manter as suas terras, os judeus queriam adquirir toda a terra que fosse possível e o dinheiro não lhes faltava.

Com o fim da I Guerra Mundial, a situação na Palestina sofreu profundas alterações. Mas vamos um pouco atrás.

Como regista a história, a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália constituíram uma aliança militar em 20 de Maio de 1882, a Tríplice Aliança, com o objectivo, sobretudo alemão, de isolar a França e a Rússia na Europa. Entretanto, o Império Otomano já tinha perdido alguns dos seus territórios e, na esperança de os recuperar, aliou-se a esta Tríplice Aliança, e participou, como membro desta aliança, na I Guerra Mundial. Com a derrota da Tríplice Aliança nessa guerra, parte dos territórios do Império Otomano foi ocupada pelos vencedores, ou seja, as potências Aliadas, a Grã-Bretanha, a França e a Rússia. No caso do Médio Oriente, que agora interessa referir, os seus territórios foram divididos entre a Grã-Bretanha e a França, ficando a Palestina ocupada pelos britânicos.

Durante a guerra, muitos árabes foram incorporados no exército otomano — e até alguns judeus —, sempre pensando que isso lhes traria uma maior autonomia, pensamento esse que se baseava na forma como tinham sido sempre tratados no seio do Império Otomano, com muitos árabes a serem nomeados para altos cargos na administração do império, como, por exemplo, o avô de Rashid Khalidi, o autor de «Palestina Uma Biografia – Cem Anos de guerra e resistência», obra esta em que o autor diz que o seu avô, Yusuf Diya al-Din Pasha al-Khalidi, desempenhou “várias funções como oficial do governo otomano — tradutor no Ministério dos Negócios Estrangeiros; cônsul no porto russo de Poti, no Mar Negro; governador de províncias no Curdistão, no Líbano, na Palestina e na Síria; e autarca de Jerusalém durante quase uma década — com períodos a lecionar na Real e Imperial Universidade de Viena. Foi também eleito como deputado de Jerusalém para o efémero parlamento otomano, …” (Rashid Khalidi, 2022).

A guerra começou a correr mal para os otomanos na Palestina, o que levou estes a obrigarem à incorporação de cada vez mais palestinianos e a confiscarem as colheitas e gado para alimentar o exército; por fim, muitos palestinianos foram encarcerados, embora estes procedimentos não tivessem originado qualquer revolta árabe.

Os britânicos acabaram por derrotar os otomanos e, em Dezembro de 1917, entraram em Jerusalém. A anterior potência ocupante, o Império Otomano, após 400 anos foi substituída pelo novo ocupante da Palestina, a Grã-Bretanha, o que provocou profundas mudanças cujas consequências ainda hoje se fazem sentir.

Durante a guerra, os britânicos foram tentando atrair os árabes para o seu lado e, com esse objectivo, fizeram um primeiro acordo em 1915, com o que era considerado o líder árabe mais importante, Hussein, o xerife de Meca, o qual temia que os otomanos lhe tirassem o seu poder de guardião de Meca e Medina. Este juntou as suas forças aos britânicos, tendo estes prometido a independência dos países árabes, no que os árabes acreditaram, pagando muito caro o erro, cabendo aqui lembrar o papel de Lawrence da Arábia, como viria a ser conhecido este oficial dos serviços de informações britânicos.

Um segundo acordo aconteceu entre britânicos e franceses, Acordo Sykes-Picot, no qual estipularam a divisão das terras árabes, após a já esperada derrota dos otomanos, entre as duas potências, esquecendo os britânicos o que haviam prometido a Hussein, o que os franceses desconheciam.

Nessa divisão, a Palestina interessava às duas potências, pelo que aquele acordo apenas estipulava que este território ficaria sob um qualquer controlo internacional. No final da guerra, os árabes perceberam que tinham sido atraiçoados.

O terceiro acordo, em Novembro de 1917, que se revelaria o mais importante para a Palestina, ficou conhecido como a Declaração Balfour, consistindo apenas de uma carta da autoria de Arthur Balfour, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, com o seguinte teor:

«O Governo de Sua Majestade vê como favorável a criação, na Palestina, de uma pátria nacional para o povo judaico. O Governo envidará todos os esforços para ajudar a concretizá-la. Existe um entendimento claro de que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina, ou os direitos e estatuto político de que os judeus gozem em qualquer outro país.»

Lembremos que, no momento desta declaração, a guerra na frente ocidental concentrava a quase totalidade das forças das Potências Aliadas e que os comunistas bolcheviques não escondiam que, se conseguissem conquistar o poder, deixariam de participar na guerra, o que viria a acontecer. Também de lembrar que os USA já estavam a participar na I Guerra Mundial, mas o seu empenho não era muito grande, o que levou os britânicos a tudo fazer para conquistar o apoio dos endinheirados judeus americanos.

Em todos estes acontecimentos, esteve, naturalmente, a mão de Chaim Weizmann, o dirigente máximo da já referida WZO, interessado unicamente no apoio à causa sionista. C. Weizmann era o sionista mais influente da Grã-Bretanha e soube inteligentemente servir-se das crenças religiosas do primeiro-ministro britânico, David Lloyd George, e do referido A. Balfour.

Também não podemos descurar a importância do petróleo do Iraque, de que o Ocidente necessitava como de pão para a boca, com a Palestina a ter um papel estratégico na rota para a passagem desse petróleo e onde o Canal do Suez desempenhava uma parte não menos fundamental.

No fim da guerra, a Conferência de Paz de Paris contava com uma delegação sionista, chefiada por C. Weizmann, que viria a ser o primeiro Presidente do Estado de Israel, mas a sua presença naquela Conferência visava garantir a inclusão da Declaração Balfour no acordo resultante da Conferência.

A partir deste momento, os 700.000 palestinianos, 90% da população da Palestina, deixaram de contar; todas as declarações, quer de Weizmann, quer de governantes britânicos, visavam tornar os judeus maioritários na Palestina. A imigração de judeus foi facilitada, e o direito à autodeterminação dos palestinianos nunca referida, sendo tratados como se não existissem, dizendo-se apenas que todos os direitos civis e religiosos dos habitantes da Palestina deveriam ser respeitados, como se na Palestina não houvesse uma comunidade árabe maioritária e autónoma da comunidade judaica, que se ia fortalecendo como se infere do que acima se escreve.

A agravar a situação, o mandato da Sociedade das Nações atribuiu à Grã-Bretanha a responsabilidade pelo «desenvolvimento de instituições autónomas», mas em 1921 Winston Churchill foi nomeado Ministro das Colónias, tendo participado na Conferência do Cairo, iniciada em 12 de Março desse mesmo ano.

“À meia-noite de 23 de Março Churchill deixou o Cairo, de comboio, para Jerusalém. Durante uma breve paragem em Gaza, cedo na manhã seguinte, foi acolhido por uma vasta multidão árabe, que gritava: «Viva o ministro», «Viva a Grã-Bretanha», e com um entusiasmo ainda maior: «Abaixo os Judeus» e «Cortem-lhes o pescoço!». Ignorando o que estava a ser gritado, Churchill sentiu-se encantado com aquele frenesim. O comboio prosseguiu até Jerusalém, …”

“No dia seguinte à chegada de Churchill a Jerusalém, houve distúrbios árabes em Haifa, para exigir a cessação da imigração de judeus.”

(…)

Os árabes pediram a Churchill a abolição do princípio da pátria judaica, o estabelecimento de um governo nacional «eleito pelo povo palestiniano» e a cessação da imigração judaica até que estivesse instalado um governo palestiniano. Churchill respondeu-lhes que não estava em seu poder deferir o seu pedido «nem, mesmo que estivesse no meu poder, seria esse o meu desejo», e acrescentou: «Além disso, é manifestamente justo que os judeus que se encontram espalhados por todo o mundo possam ter um centro nacional e uma Pátria, onde alguns deles possam ser reunidos. E onde poderia isto ser, senão nesta terra da Palestina com a qual ao longo de três mil anos eles estiveram íntima e profundamente associados?» A Palestina podia sustentar «um número de pessoas muito superior ao do presente»; os Judeus iriam trazer uma prosperidade da qual beneficiariam todos os habitantes; não seriam despojados nenhuns árabes. Um governo próprio com a possibilidade de uma maioria judaica, iria levar tempo. «Todos nós já teremos desaparecido desta terra, também os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos, antes que isso seja plenamente conseguido.»

Aos judeus da Palestina, cuja delegação ele recebeu logo a seguir aos árabes, Churchill referiu-se ao sionismo como «um grande acontecimento no destino do mundo» e desejou-lhe sucesso para vencer as «sérias dificuldades que se apresentam no seu caminho». «Se eu não acreditasse no vosso mais alto espírito de justiça e idealismo», disse ele, «e em que o vosso trabalho irá efectivamente conferir bênçãos a toda a região, eu não teria as grandes esperanças que tenho de que eventualmente a vossa obra será cumprida.»

(…)

Na reunião do Gabinete a 31 de Maio, ao discutir o futuro a longo prazo do mandato da Palestina, e as exigências árabes do estabelecimento imediato de uma assembleia electiva, Churchill explicou que tinha decidido suspender o desenvolvimento das instituições representativas na Palestina «devido ao facto de que qualquer corpo eleito iria sem dúvida proibir a continuação da imigração judaica».

(…) Oito anos mais tarde, quando o primeiro-ministro canadiano lhe perguntou se o objectivo da Grã-Bretanha era dar aos judeus o «controlo do governo» na Palestina, ele respondeu: «Se no curso de muitos, muitos anos eles se tornarem a maioria, naturalmente assumem o poder.»” (Sir Martin Gilbert, Setembro de 2003). A transcrição é longa, mas esclarecedora, julgo.

Aconteceram vários conflitos entre árabes e judeus, o que levou o chefe da administração britânica, o alto-comissário Sir Herbert Samuel, a suspender por um mês a imigração judaica. Este alto-comissário, em 1922, fundou o Conselho Supremo Muçulmano (CSM), colocando a chefiá-lo o Hajj Amin al-Husseini, mas os termos do mandato que lhe atribuiu dava grandes vantagens aos judeus, tendo estes muito mais facilidade em contactar a administração britânica do que os árabes. Aos judeus também eram atribuídos os cargos mais importantes na administração da Palestina.

Aquela insignificante suspensão da imigração de judeus não foi a principal causa para que na década apenas tivessem imigrado 100.000 judeus; a razão esteve na preferência dos judeus em imigrarem para os USA e para a Europa Ocidental, além de que muitos judeus na Palestina também preferiram emigrar.

Mas os sionistas não desistiram das suas intenções, aumentar substancialmente o número de judeus na Palestina, até os tornar maioritários e, para isso, criaram a Agência Judaica e a Histadrut.

A Agência Judaica era a intermediária entre a comunidade judaica e a potência ocupante, a Grã-Bretanha, ou seja, era uma espécie de governo dos judeus; a Histadrut era a central sindical dos trabalhadores judeus e que, para além da habitual acção sindical em prol dos trabalhadores judeus, tinha a seu cargo a assistência social para a saúde, a habitação e as escolas, tendo estas como uma das principais funções pôr os judeus a falar hebraico.

Os árabes continuavam a lutar pelos seus direitos e fizeram ataques a colonatos judaicos, no início dos anos 20 do século passado, o que levou a Histadrut a criar o Haganah, uma força militar, que viria a ser depois a base do exército israelita. É nesta altura que vai surgir uma figura fundamental para levar a bom porto os objectivos dos sionistas, David Ben-Gurion, que foi nomeado chefe da Histadrut em 1921 e veio a ser o principal dirigente do Yishuv, a comunidade judaica na Palestina entre as duas guerras mundiais; em 1935, chefe da Agência Judaica e, em 1948, o primeiro-ministro do primeiro governo de Israel.

Ben-Gurion foi um dos muitos que emigraram da Europa Oriental, ele com outros da Polónia, para a Palestina. Tinha consciência de que os judeus eram minoritários na Palestina e que, portanto, estavam dependentes das autoridades britânicas. Era um socialista, mas era sobretudo um sionista e, como tal, o que queria era um estado judaico.

A Histadrut juntou os dois partidos judaicos e formou o Mapai, o Partido dos Trabalhadores, que é hoje o Partido Trabalhista Israelita, e com a Agência Judaica criaram uma estrutura política e económica que viria a ser a base do Estado Judaico.

Uma outra figura emerge entre os judeus, Vladimir Jabotinsky, imigrante vindo da Rússia. Este fundou o Partido Revisionista, que será hoje o Likud. Coincidia com Ben-Gurion na necessidade de ter o apoio dos britânicos, mas defendia a criação de uma força militar que pudesse enfrentar os árabes, que, dizia, resistiriam sempre à formação de um Estado Judaico.

Ben-Gurion apostava na imigração de judeus para a Palestina e na criação de colonatos, V. Jabotinsky apostava na força militar. Ambos sabiam ter o apoio dos britânicos para a criação da pátria judaica.

Os palestinianos não aceitavam que os judeus tivessem direitos especiais, apesar das perseguições de que eram alvo, embora não negassem os seus vínculos religiosos à Terra Santa e argumentavam que se outros povos fizessem idêntica reivindicação isso seria uma confusão desestabilizadora em muitas zonas do mundo. Davam como exemplo a Espanha e o governo daquele espaço pelos árabes durante setecentos anos. Também lembravam que tinham a maior parte da Palestina na sua posse, que constituíam uma população ali instalada e que haviam contribuído para a expulsão dos otomanos, ou seja, tinham lutado pela libertação da terra que consideravam sua.

As duas comunidades, árabe e judaica, tinham posições antagónicas, mas a população árabe/palestiniana era claramente maioritária.

Aos judeus foi permitido pela autoridade britânica a criação de instituições autónomas e representativas do que viria a ser um Estado; aos palestinianos tal nunca foi consentido.

Em 1929, os sionistas já tinham a sua própria economia e devidamente separada da economia palestiniana, assim como as fundações políticas de um Estado, para o que nunca faltou o apoio das autoridades britânicas e do mundo, assim como dinheiro que chegava do exterior, nomeadamente dos sionistas dos USA. Os palestinianos não tinham nenhuma destas condições.

Perante isto, a violência entre as duas comunidades instalou-se, tudo servindo de pretexto, realçando-se a questão religiosa, de que são exemplos a luta pelo Muro das Lamentações, em Jerusalém, tido pelos judeus como o que resta do Templo Judaico do rei Salomão, e a dourada Cúpula do Rochedo e a mesquita Al-Aqsa de onde Maomé ascendeu ao céu, segundo os muçulmanos. Os lugares santos são comuns para as duas religiões; por exemplo, o Monte do Templo para os judeus é igualmente venerado pelos muçulmanos, mas chamam-lhe Haram al-Sharif.

Rumores entre os palestinianos de que os judeus queriam apoderar-se dos lugares santos muçulmanos deu origem a confrontos violentos entre as duas comunidades, em que Jabotinsky teve papel importante. A pior disputa aconteceu a propósito do Túmulo dos Patriarcas, sagrado para as duas comunidades. Nesta zona, Hebron, árabes e judeus, o velho Yishuv — sefarditas na sua maioria — conviveram durante vários séculos sem problemas; perante a nova situação criada com a imigração dos sionistas, com trágicas perdas para os palestinianos, o mais pequeno rumor de que os judeus queriam apoderar-se do Túmulo dos Patriarcas levava os árabes a atacar, o que acabava por beneficiar o projecto sionista. O que aconteceu aqui foi trágico, os judeus mortos, 113, não eram sionistas e nem os apoiavam, e muitos judeus escaparam à morte por terem sido salvos por árabes seus vizinhos de sempre. Os mortos árabes foram 116, mas quem os matou a quase todos foi a força armada britânica.

A separação entre as duas comunidades acentuou-se, tornando-se, a pouco e pouco, impossível a convivência que havia durado séculos. As tropas britânicas começaram a ser incapazes de acabar com os tumultos; os árabes que estavam incorporados nas forças britânicas também se recusavam a disparar sobre outros árabes.

Não obstante, no resto da Palestina, judeus e palestinianos não sionistas trabalhavam em conjunto, com muita mão-de-obra árabe e judaica a trabalhar, por exemplo, nas plantações de citrinos dos judeus e dos árabes, o que não agradava aos sionistas, que continuaram a desenvolver todos os esforços para que os proprietários judeus apenas dessem trabalho a judeus, quer na agricultura, quer na indústria.

Metade do orçamento da Agência Judaica serviu para comprar mais terras, agora estrategicamente situadas, e novos colonatos judaicos foram implantados.

A força militar Haganah foi reorganizada e, por pressão de Jabotinsky, foi criado um novo corpo militar mais agressivo, para não dizer violento, a Irgun.

O governo britânico, graças ao inquérito que mandou fazer, tinha plena consciência do que estava na origem dos tumultos, que não era apenas uma questão religiosa, mas também uma questão provocada pela mão-de-obra que deixava os árabes sem trabalho.

Pensou o governo britânico pôr restrições à imigração de judeus e à compra de terras pela Agência Judaica, mas aí saltou a WZO, em Londres, e Chaim Weizman e outros sionistas exerceram a sua influência, acabando com essas intenções.

Os palestinianos, que continuavam a colaborar com as autoridades britânicas, verificaram que essa colaboração não lhes trazia qualquer benefício, a compra de terras e a imigração judaica não tinha qualquer restrição. Foi o rastilho para o nascimento do nacionalismo palestiniano.

Izz ad-Din al-Qassam, que teve de abandonar a sua terra natal, era um excelente orador, facilmente atraiu os desempregados e os desalojados palestinianos, a viver na pobreza todos eles. Procurou estimulá-los à luta armada não só contra os colonatos sionistas, mas também contra a potência ocupante, luta armada essa que se tornava mais urgente por terem sido descobertas armas contrabandeadas para os judeus na Palestina com o objectivo de preparar um confronto armado entre as duas comunidades.

Tentou al-Qassam, a partir das montanhas, lançar uma luta de guerrilha, mas os britânicos depressa o apanharam e mataram. Fizeram dele um herói para os palestinianos, assim como um estímulo à unidade.

Os palestinianos mais moderados conseguiram essa unidade e fundaram a Alta Comissão Árabe (AHC), assumindo o já nosso conhecido Hajj Amin al-Husseini a liderança, tornando-se no negociador em nome dos palestinianos com os britânicos.

Aconteceram greves, motins, lutas entre as duas comunidades e com os árabes a atirarem bombas contra alvos judaicos, mas não conseguiram impedir a continuação da imigração judaica, como não conseguiram parar com a compra de terras por parte dos judeus e, o mais importante, não conseguiram impedir que a autoridade britânica acabasse por beneficiar muito mais os interesses sionistas. E, como viria a ser uma constante até hoje, que acabassem mortos muito mais palestinianos do que judeus. “Em setembro de 1936, já tinham sido mortos 200 árabes, oitenta judeus e 28 britânicos.” (Michael Scott-Baumann, 2024).

Os ataques terroristas por parte dos sionistas contra os palestinianos não se fizeram esperar; as milícias sionistas Haganah, Irgun e Stern, que estão na origem da criação do exército de Israel, as Forças de Defesa de Israel (FDI), como hoje são conhecidas. Estas milícias colaboraram com as forças britânicas na contenção da revolta árabe de 1936-1939, o que teve como resultado a morte de 5.000 palestinianos, mais 10.000 feridos e 5679 presos, ou seja, a desproporção em desfavor dos palestinianos, em 1939, era já muito grande, o que se viria a acentuar com a passagem dos anos, como agora, mais uma vez, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Desta vez, as imagens televisivas, apesar do boicote à sua divulgação, estão a mostrar como as intenções dos sionistas desde o início não podem ser mais escondidas ao mundo.

Em 1937, o governo britânico mandou fazer um inquérito, liderado por Lorde Peel, tendo sido concluído que a colaboração entre árabes e judeus era impossível, recomendando a partilha da Palestina em dois estados, um árabe e outro judeu. “O Estado judeu proposto seria constituído por cerca de 20% da Palestina, incluindo grande parte das terras mais férteis na costa e nos vales interiores onde muitos judeus se haviam instalado. A Agência Judaica concordou com o plano de partilha, embora os seus líderes quisessem mais território do que aquele que lhes fora atribuído.” (Michael Scott-Baumann, 2024). Naqueles 20% estavam incluídas as cidades de Jafa, Acre, Haifa e Nazaré. A região de Jerusalém continuaria sob o Mandato Britânico. (https://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2021/06/questao-israel-palestina-73-anos-de-limpeza-etnica/). Estas percentagens referiam-se à parte restante da Palestina, dado que, em 1922, uma parte já tinha sido separada para a constituição da Transjordânia, na margem Leste do rio Jordão (Reino Haxemita da Jordânia, a partir de Abril de 1949). Nas iniciais pretensões dos sionistas, a Palestina a Leste do rio Jordão também estava incluída, mas esta questão não vou desenvolver aqui.

Ben-Gurion já se mostrou mais próximo de Jabotinsky, não acreditava em negociações, só a guerra daria aos judeus o que eles pretendiam, e Ben-Gurion queria que toda a Palestina se transformasse no Estado judaico, o que só poderia ser possível com uma imigração judaica sem limites, uma economia forte e um exército poderoso; portanto, tacticamente, havia que dizer sim ao plano de partilha, proposto no que ficaria para a história como o Plano Peel para a partilha, de 1937, plano este que, a ser implementado, obrigava à transferência de judeus que viviam na parte destinada ao Estado Palestiniano para o espaço destinado ao Estado Judeu e vice-versa para os palestinianos (neste ponto, diz-se, na tradução portuguesa da obra de Michael Scott-Baumann, que tenho estado a seguir: “Para além de recomendar a partilha, a Comissão Peel aceitou o conceito de uma transferência de população: que mais de 200 milhões de árabes deveriam ser transferidos do interior do Estado judaico proposto para o Estado árabe e 1250 judeus no sentido contrário.”, pág. 53. Ora, o número de árabes está, com certeza, errado — teriam sido 200 mil? —, podendo o erro ser da tradução).

Para o plano sionista, a transferência dos palestinianos que pretendiam era a sua saída de toda a Palestina, devendo ser distribuídos pelos países árabes vizinhos, como neste momento estão a tentar expulsá-los para a província do Sinai, que é território egípcio.

A hipótese de dois estados foi também recusada pelos árabes por temerem que isso fosse o ponto de partida para os judeus expandirem o seu território e, como os factos ulteriores têm demonstrado, não estariam enganados.

A Alta Comissão Árabe (AHC) foi proibida pela Grã-Bretanha, como consequência da morte de um funcionário da autoridade britânica, provocando a fuga para o Líbano do seu líder, al-Husseini. Mas a revolta árabe não parou, estimando-se em 10.000 o número de combatentes de grupos armados, que incluíam alguns palestinianos da Síria e do Iraque, grupos estes que atacavam as forças britânicas e colonatos judaicos. Também liquidaram líderes árabes acusados de colaborar com os britânicos, assim como árabes pertencentes às forças policiais britânicas.

A resposta britânica foi a habitualmente seguida pelas autoridades coloniais: enforcamentos, assassínios e deportações, para além de fazerem centenas de prisioneiros, método este que, após a constituição do Estado de Israel (1948), foi seguido pelas FDI.

Em 1939, os britânicos recuperaram o controlo da Palestina, para o que muito contribuiu a Irgun com as suas acções terroristas contra os palestinianos, mas a sobrevivência judaica não teria acontecido se não fosse a acção das forças britânicas, que foram aproveitando também para treinar e organizar a Haganah. Foram treinados militarmente 15.000 judeus, a que temos de juntar o financiamento dos sionistas pelos britânicos.

Neste ano, os judeus já representavam 30% da população da Palestina.

Os árabes não tinham um comando unificado, o que lhes retirava grande capacidade na luta contra os sionistas e, não deve esquecer-se, contra os britânicos, sendo estes claramente a favor da concretização do objectivo sionista.

Para a Grã-Bretanha começava a pesar o rombo no orçamento pela sua permanência na Palestina. A situação na Europa adivinhava uma nova guerra mundial pelas acções desenvolvidas pela Alemanha e a sua acção na Palestina estava a contribuir para que os países árabes apoiassem a Alemanha, o que poria em perigo o fornecimento de petróleo de que a Grã-Bretanha tanto necessitava. Foi o momento para o governo da Grã-Bretanha lançar o Livro Branco, onde, facto talvez mais importante, se declarava que a Grã-Bretanha queria, no espaço de 10 anos, uma Palestina independente, com um Estado de árabes e judeus em que ambos partilhassem a responsabilidade de o governar.

Os judeus não concordaram, naturalmente, tendo em conta os seus objectivos.

Eclodiu a II Guerra Mundial e alguma calmaria aconteceu na Palestina, mas os judeus não esqueceram a posição britânica exposta no Livro Branco. Apoiaram os Aliados contra a Alemanha, incorporados no exército britânico, onde ganharam experiência e aproveitaram para preparar as suas forças armadas. A questão do petróleo atemorizou os sionistas e levou-os a desconfiar da Grã-Bretanha.

Ben-Gurion e os outros líderes sionistas perceberam que deveriam procurar o apoio dos USA, concluindo que seria a nova superpotência. Esta percepção tornou-se clara para os sionistas quando, numa conferência sionista em Nova Iorque — a cidade americana com mais judeus no mundo —, no hotel Biltmore, onde se tornou claro o apoio a uma comunidade judaica em toda a Palestina.

Na II Guerra Mundial, a Grã-Bretanha declarou não haver motivos para alterar a sua política na Palestina, Ben-Gurion, entretanto, ia defendendo a necessidade de transferir os árabes “de modo que ficasse apenas um número «controlável» deles dentro do Estado judaico” (Michael Scott-Baumann, 2024).

Terminada a guerra, o Holocausto nazi deu força, ou melhor, foi bem aproveitado pelo movimento sionista para a concretização do que foi sempre o seu objectivo.

Em Agosto de 1945, os sionistas organizaram uma conferência em Londres e, mesmo contra Weizmann e a WZO em Londres, concluíram pela necessidade da criação imediata de um Estado judaico na Palestina e pela oposição à continuação ali do mandato britânico. “Os líderes judeus da Palestina ordenaram ao Haganah, a organização paramilitar judaica, que cooperasse com a Irgun e o Grupo Stern, um grupo dissidente de sionistas militantes. Bases militares britânicas, vias-férreas, comboios e pontes na Palestina, bem como o oleoduto até Jafa, tornaram-se alvos desses grupos.” (Michael Scott-Baumann, 2024).

Outro apoio fundamental à fundação de um Estado judeu vinha dos 4,5 milhões de judeus nos USA, sendo uma larga maioria sionista, com grande capacidade de pressão sobre o governo USA, conseguindo que Harry Truman, o presidente americano e o mandante do lançamento das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasáqui, tenha pressionado o governo britânico a autorizar a entrada de 100.000 judeus na Palestina, e, depois, apoiando a sua partilha.

Os árabes, mais uma vez, não aceitavam e acrescentavam que deveria ser o Ocidente a assumir a responsabilidade pelas vítimas do Holocausto e não os palestinianos.

Sucederam-me os ataques judeus terroristas, desta vez contra os próprios britânicos, nomeadamente o acto terrorista mais espectacular da Irgun, (Irgun Zvai Leumi – Organização Militar Nacional), ataque esse organizado por Menachem Begin — que viria a ser primeiro-ministro de Israel —, em 22 de Julho de 1946, às 12h37, contra o quartel-general britânico em Jerusalém, situado no King David Hotel. Foram mortas 21 pessoas, incluindo 15 judeus e, segundo outras fontes, morreram 91 pessoas, sendo 28 britânicos, 41 árabes, 17 judeus e mais 5 de outras nacionalidades, para além de 45 feridos (https://operamundi.uol.com.br/hoje-na-historia/13716/hoje-na-historia-1946-hotel-king-david-em-jerusalem-e-alvo-de-ataque-terrorista).

Em Fevereiro de 1947, 20 soldados britânicos foram assassinados num clube para oficiais em Jerusalém e, ainda, aconteceu o lançamento de uma campanha sionista pelo presidente da Câmara Municipal de Nova Iorque para angariação de 2 milhões de libras para «homens, armas e dinheiro», a que se juntou o acidente que envolveu o navio Exodus, que levava 4.500 refugiados judeus para a Palestina, cujo desembarque as autoridades britânicas não autorizaram, o que deu origem a uma terrível campanha anti-britânica em todo o mundo, tudo contribuindo para que Clement Attlee, primeiro-ministo da Grã-Bretanha, decidisse o abandono, por parte da Grã-Bretanha, da Palestina, transferindo a responsabilidade para as Nações Unidas.

O Hotel King David, após o ataque levado a cabo pela Irgun
in: https://pt..wikipedia.org/wiki/Atentado_do_Hotel_King_David

O plano da ONU para a partilha, a Guerra Civil

e o plano de limpeza étnica da Palestina

A ONU nasceu no final da II Guerra Mundial. Em Fevereiro de 1947, no seguimento de um pedido da Grã-Bretanha, foi criado o Comité Especial das Nações Unidas sobre a Palestina (UNSCOP) para encontrar a forma de resolver o problema daquele território, cujo relatório foi apresentado em Agosto desse mesmo ano e aprovado por 30 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções. A principal recomendação era a criação de dois Estados, um palestiniano e outro judaico.

Os judeus constituíam um terço da população e eram proprietários de 10% das terras, mas ao Estado judaico eram atribuídos 55% do território, incluindo, por exemplo, a cidade de Haifa de maioria árabe. Nesses 55% de território havia 520.000 judeus e 400.000 palestinianos, uma forte razão para o conflito e não, como esperava a ONU, para uma cooperação entre as duas comunidades. Em contrapartida, a cidade de Jerusalém, incluída no território destinado aos árabes, já tinha uma população maioritária de judeus, assim como muitos colonatos judeus também ficariam incluídos no Estado árabe. Mas Jerusalém seria administrada pela ONU.

Ben-Gurion declarou: «Dezenas de milhares dos nossos jovens estão dispostos a entregar as suas vidas por causa de Jerusalém. Está tanto no interior das fronteiras do Estado de Israel como Telavive.» (Michael Scott-Baumann, 2024).

Benachem Begin, o líder da Irgun: «A partilha da pátria é ilegal. Nunca será reconhecida. Não vinculará o povo judeu. Jerusalém foi e será para sempre a nossa capital. A Eretz Israel será devolvida ao povo de Israel. Na totalidade. E para sempre.» (Michael Scott-Baumann, 2024).

O projecto sionista, contra tudo e contra todos — não contra todos, pelo menos os USA já estavam com os sionistas e os britânicos nunca deixaram de estar — explicado em poucas palavras.

A reacção violenta por parte dos árabes não demorou, mas estes continuavam sem organização e as suas forças haviam sido reforçadas com alguns voluntários. Dinheiro não havia e os Estados árabes não disponibilizaram os seus exércitos.

A Agência Judaica já tinha uma força de 35.000 combatentes, homens e mulheres, bens treinados, da Haganah, a que se juntaram a Irgun e o Grupo Stern. Dinheiro não faltava.

Israel declarou a sua independência em 14 de Maio de 1948, os Estados árabes vizinhos atacaram no dia seguinte, de acordo com a sua rejeição da Resolução 181 da ONU, que partilhava a Palestina entre árabes e judeus. Os árabes nunca aceitaram a Resolução da ONU, dando origem ao primeiro conflito árabe-israelita. Desde então, aconteceram várias guerras entre Israel e os Estados árabes vizinhos, embora, em rigor, devêssemos considerar que a primeira guerra aconteceu no seguimento da já por mim referida Declaração Balfour.

Mas um plano de extermínio dos Palestinianos elaborado pelos sionistas já vinha de antes desta declaração de independência, com Ben-Gurion à cabeça, plano esse ultimado na tarde de quarta-feira, dia 10 de Março de 1948, por um grupo de onze homens, composto por líderes veteranos sionistas e jovens oficiais militares judeus, o Plano Dalet, que foi posto em prática e tem vindo a ser executado sistematicamente, o que o criminoso primeiro-ministro de Israel Netanyahu neste momento já se sente à vontade para não esconder. Foi a quarta versão deste plano a aprovada, as versões anteriores foram muito discutidas na própria casa de Ben-Gurion.

O nome dos onze homens que ultimaram o Plano Dalet (Plano D, em hebraico Dalet) foi apagado, mas as investigações do historiador israelita Ilan Pappé acabaram por nos dar a conhecer os nomes desses… organizadores (estou a ser simpático) do plano, onde se tornava claro que, segundo o historiador Simcha Flapan, citado por Ilan Pappé, «a campanha militar contra os árabes, incluída a “conquista e destruição das áreas rurais”, expôs-se no Plano Dalet da Haganah». Escreve Ilan Pappé, “o plano foi ao mesmo tempo o produto inevitável da ideologia sionista, que defendia um Estado exclusivamente judeu na Palestina, e uma resposta aos acontecimentos que ocorreram no terreno uma vez que o gabinete britânico tinha decidido pôr fim ao Mandato. Os choques com as milícias palestinianas locais proporcionaram o contexto e o pretexto perfeitos para implementar a visão ideológica de uma Palestina etnicamente limpa. A política sionista, que em Fevereiro de 1947 se baseava nas represálias pelos ataques palestinianos, transformou-se numa iniciativa para a completa limpeza étnica do país em Março de 1948.” (Ilan Pappé, 2023).

Seis meses depois, a primeira missão do plano estava cumprida, expulsando cerca de 800.000 palestinianos, 531 aldeias destruídas e onze bairros urbanos ficaram sem qualquer habitante. Foi a primeira expulsão de palestinianos das suas casas e terras, acontecimento esse conhecido como Nakba, palavra árabe que significa catástrofe ou desastre, em Abril de 1948. Os palestinianos que viviam entre Telavive e Haifa foram expulsos à força, empurrados para a Transjordânia, de onde nunca mais foram autorizados a regressar às casas e terras que eram suas. “O plano adoptado em 10 de Março de 1948 e, ainda por cima, a sua implementação sistemática nos meses seguintes é um exemplo claríssimo de uma operação de limpeza étnica, algo que o actual direito internacional considera um crime contra a humanidade” (Ilan Pappé, 2023).

Uma palestiniana a mostrar a chave da casa de onde foi expulsa
in: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2023-11/entenda-o-que-foi-nakba-catastrofe-do-povo-palestiniano

Naquela altura, depois do Holocausto, a propaganda sionista facilmente deturpou o que realmente se passou, crime esse que, ainda hoje, continua a negar; mas, como lembra Ilan Pappé, com os meios de comunicação hoje existentes, com os meios electrónicos de que se dispõe, a verdade torna-se uma evidência. Mesmo assim, a versão israelita-sionista mantém-se ainda hoje, afirmando que a população nativa, leia-se a população palestiniana, abandonou «voluntariamente» o seu país; os palestinianos, quando ao mesmo facto se referem, falam de Nakba, a «catástrofe».

Em Dezembro de 1948, a Resolução 194 da Assembleia-Geral da ONU aprovava o direito dos palestinianos voltarem às suas terras, se assim o quisessem, O QUE NUNCA FOI CUMPRIDO.

“Este livro foi escrito com a convicção profunda de que a limpeza étnica da Palestina deve ficar gravada na nossa memória e nossa consciência colectivas como um crime contra a humanidade e deve ser apagada da lista de «supostos» crimes. Os responsáveis dela não são personagens obscuros, mas um grupo muito específico: os heróis da guerra de independência judia, cujos nomes serão muito familiares para muitíssimos leitores. A lista encabeça-a o líder inquestionável do movimento sionista, David Ben-Gurion, em cuja residência privada se discutiram e completaram todos os primeiros e últimos capítulos da história da limpeza étnica.” (Ilan Pappé, 2023)

O grupo que tudo preparou, incluía os que viriam a ser os oficiais dos mais altos postos do exército do futuro Estado de Israel, como Yagael Yadin e Moshe Dayan. Os responsáveis pelo Plano Dalet tiveram a colaboração de vários chefes militares regionais, como Moshe Kalman, que se encarregou de limpar a zona de Safed; Moshe Carmel ficou encarregado das transferências de pessoas em quase toda a Galileia; Isaac Rabin, o famoso por actos terroristas contra os próprios britânicos, encarregou-se de Lyyd, Ramla e da área da Grande Jerusalém; Shimon Avidan limpou o Sul do país. Sobre este último, o seu colega Rehavam Zeevi viria a dizer anos depois que, como comandante da brigada Givati, «limpou a sua frente de dezenas de aldeias e cidades». Contou também com o apoio de Isaac Pundak, que viria a escrever no diário Ha’aretz em 2004: «havia duzentas aldeias [na frente] e desapareceram. Tínhamos que as destruir, de outro modo teríamos tido árabes aqui [na parte meridional da Palestina] como os temos na Galileia. Teríamos outro milhão de palestinianos». (Ilan Pappé, 2023).

“Como um lento e interminável desastre, a Nakba desenrolou-se ao longo de um período de muitos meses. A sua primeira etapa, desde o dia 30 de Novembro de 1947 até à retirada final das forças britânicas e à criação de Israel no dia 15 de maio de 1948, assistiu a sucessivas vitórias de grupos paramilitares sionistas, incluindo o Haganah e o Irgun, sobre os mal-armados e organizados palestinianos e os voluntários árabes que os tinham ido ajudar. Esta primeira etapa assistiu a uma campanha amargamente travada, que culminou numa ofensiva nacional sionista denominada Plano Dalet, na primavera de 1948. O Plano Dalet envolveu a conquista e despovoamento em abril, e na primeira metade de maio, dos dois maiores centros urbanos árabes, Jafa e Haifa, e dos bairros árabes de Jerusalém Ocidental, bem como de dezenas de cidades, vilas e aldeias árabes, incluindo Tiberíades, no dia 18 de abril, Haifa, no dia 23 de abril, Safad, no dia 10 de maio e Beisan, no dia 11 de maio. Assim, a limpeza étnica da Palestina começou muito antes da proclamação do Estado de Israel no dia 15 de maio de 1948.” (Rashid Khalidi, 2022).

Outras guerras entre árabes e judeus/sionistas aconteceram até hoje. Pelo meio, várias tentativas de paz surgiram, até com Israel a assinar tratados de paz com o Egipto e a Jordânia, mas os resultados estão à vista, com o plano Dalet a continuar a ser executado como planeado em 10 de Março de 1948, como a actual situação na Faixa de Gaza comprova, onde o corte de água, energia e alimentos se junta aos bombardeamentos e ataques do exército para que esse plano se vá cumprindo.

Sempre tive dúvidas, e reforço serem dúvidas, quanto à actuação do Hamas, pois me pareceu sempre que as suas acções acabaram por beneficiar os objectivos sionistas, tornando possível mais uns passos na conquista de mais terras para os sionistas/Estado de Israel e na expulsão e morte de milhares de palestinianos.

Mas, não insistindo nestas minhas dúvidas, olhe-se para o que se passou em 7 de Outubro, a facilidade com que o Hamas atacou e prendeu israelitas, civis e militares., num Israel que, segundo se diz, tem o melhor serviço secreto do mundo, a Mossad, não esquecendo que o próprio Egipto avisou Israel para o que estava em preparação por parte do Hamas. Quem acredita que o governo de Israel não sabia? E porque razão ignorou? Aconteceu o que o governo sionista realmente queria?

No concerto que estava a decorrer gerou-se o pânico, centenas de israelitas e alguns estrangeiros correram para os seus carros, dando origem a um engarrafamento que levou muitos desses carros — a maioria? — a ficarem parados na estrada sem terem para onde desviar. Surgiram os helicópteros das forças israelitas que dispararam — acidental ou planeadamente? —, sobre as viaturas, matando muitos dos que tentavam fugir, maioritariamente israelitas.

Todas as mortes foram atribuídas ao Hamas, mas hoje já se sabe que assim não foi, sublinhando eu que não se pense que estou a justificar o acto do Hamas. Para mim, este tipo de actos terroristas tem de ser condenado com veemência, como os actos terroristas de Israel não o podem ser menos. E que dizer ao genocídio praticado por Israel, a acontecer desde 7 de Outubro? Mais de 30.000 palestinianos, até ao momento, já foram liquidados, com uma elevada percentagem de mulheres e crianças, o que não acontece por acaso, lembrando-me do que aconteceu na ainda recente guerra dos Balcãs, em que atiradores especiais, os chamados «snipers», tinham como objectivo matar mulheres ainda em idade fértil e crianças, um dos caminhos para a limpeza étnica de um povo.

E o que se vem passando, desde muito antes de 7 de Outubro de 2023, na Cisjordânia? O mundo está esquecido?

Os colonatos têm vindo a ser impostos pelos sionistas, expulsando das suas terras os palestinianos e matando-os se necessário — e, por aquilo que tem acontecido, tem sido mesmo necessário matar palestinianos que se recusam a sair das suas casas e terras —, com os colonos armados e a actuar protegidos pelo exército israelita.

A ONU continua com a sua retórica a chamar a atenção para a ilegalidade da implantação dos colonatos por parte de Israel, mas não passa, de facto, de retórica, por não ter força para fazer cumprir as resoluções da sua Assembleia-Geral, por não ter força para levar a Tribunal os colonos que têm vindo a assassinar sem piedade os palestinianos com terras junto dos colonatos.

Quando Israel avançou para a retaliação criminosa, foi aconselhando os palestinianos a deslocarem-se para Sul, até ao Sul extremo da Faixa de Gaza, para a cidade de Rafah. Agora, bombardeiam sem piedade os palestinianos na zona desta cidade, invadem hospitais, destruindo mais alguns dos muitos que já destruíram na Faixa de Gaza, com o pretexto de que ali há um chefe do Hamas internado, matando médicos, enfermeiros, doentes, mulheres e crianças ali internados.

O objectivo parece bem claro: mais uma expulsão de palestinianos para fora da Palestina, para a zona do Sinai, território egípcio ali mesmo ao lado.

Se a fronteira egípcia se abrisse aos palestinianos, encurralados pelo governo sionista de Israel junto à fronteira entre a Faixa de Gaza e o território egípcio do Sinai, alguém acredita que os sionistas de Israel alguma vez consentiriam no seu regresso às suas terras e lares?

A Cisjordânia e a Faixa de Gaza são dois campos de concentração gigantes, de onde os palestinianos só podem sair se autorizados pelo exército israelita, como só entra quem esse mesmo exército consente, acontecendo o mesmo com todas as mercadorias necessárias à vida dos palestinianos nos dois campos de concentração. É a morte lenta de um povo decretada pelos sionistas, que nem sequer necessitam de câmaras de gás ou de fornos crematórios para a execução do seu plano.

“Na realidade, o movimento sionista, e depois o Estado de Israel, sempre tiveram os grandes batalhões do seu lado, fossem eles o exército britânico até 1939, o apoio dos EUA e da União Soviética em 1947-48, o de França e Grã-Bretanha nas décadas de 1950 e 1960, ou a situação a partir da década de 1970 e até aos dias de hoje, em que, além de receber apoio ilimitado dos EUA, o poder militar de Israel eclipsa o dos palestinianos, e o de todos os árabes juntos, na verdade.” (Rashid Khalidi, 2022).

Muito poderia ter dito quanto ao comportamento das administrações USA, nomeadamente no tempo de Trump, no apoio à expulsão dos palestinianos, mas o texto já vai longo. Mas Biden é melhor?

Perante o genocídio que está a acontecer neste momento na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, todo o mundo começa a verificar que a verdade não condiz com a narrativa israelita, nem com a narrativa apoiada pela generalidade dos países ocidentais. As televisões mostram claramente o que se passa na Faixa de Gaza, as imagens entram todos os dias nas nossas casas, provocando reacções anti-Israel que, antes de 7 de Outubro, não eram expectáveis.

Escreve Yuval Noah Harart, a terminar o seu artigo publicado no jornal Público de 2023-10-12: “Neste momento crítico, apelamos também aos nossos amigos em todo o mundo para estarem ao nosso lado. Há muito a criticar sobre o comportamento passado de Israel. O passado não pode ser mudado, mas esperamos que, uma vez assegurada a vitória sobre o Hamas, os israelitas não apenas responsabilizem o nosso actual Governo, mas também abandonem as conspirações populistas e fantasias messiânicas, fazendo um esforço sincero para concretizar os ideais fundadores de Israel, de democracia em casa e paz no estrangeiro.”

Contrariamente aos desejos de Yuval Noah Harart, as forças armadas de Israel não estão a acabar com o Hamas, mas sim com o povo palestiniano e, sobre “os ideais fundadores de Israel”, julgo ter demonstrado quais foram, nada tendo a ver com democracia.

As manifestações de judeus israelitas contra o governo sionista de Israel sucedem-se, pretendendo-se a queda deste governo extremista e assassino e o estabelecimento da paz, ficando-se a saber, recentemente, que nas últimas manifestações estão muitos combatentes das FDI que estiveram na invasão em curso na Faixa de Gaza.

Será isto um sinal de esperança para os palestinianos?

Bibliografia

  1. Khalidi, Rashid, Palestina, Uma Biografia – Cem anos de guerra e resistência, Ideias de Ler, marca da Porto Editora, Porto, Maio de 2022
  2. Gilbert, Sir Martin, Winston Churchill – Uma Vida, Bertrand Editora, Lda., Lisboa, 4.ª edição, Setembro de 2003;
  3. Pappé, Ilan, La Limpieza Étnica de Palestina, Editora Planeta, S. A./ Crítica, S. L., sexta impresión, Barcelona, Novembro de 2023;
  4. Scott-Baumann, Michael, A Mais Breve História de Israel e da Palestina – Do sionismo às intifadas e a luta pela paz, Ideias de Ler, marca da Porto Editora, Lisboa, Janeiro de 2024;
  5. A ler também as crónicas de Alexandra Lucas Coelho e também o seu livro Oriente Próximo, Editorial Caminho, SA, 2.ª edição, Alfragide, 2024.

11 Comments

  1. https://gustavohorta.wordpress.com/2024/02/26/tendemos-a-esquecer-conveniencia-conivencia-cumplicidade/

    Tendemos a esquecer.
    O Holocausto dos povos originários nas Américas com a invasão europeia.
    O Holocausto dos negros africanos nos navios para transportar o povo escravizado e nas terras do novo mundo onde a escravização perdurou por séculos.
    O Holocausto promovido por Leopoldo II nos massacres na África.
    O Holocausto atual no Congo, outra vez pelos europeus, a “catar” minérios pra fazer ‘telefones’, o coltam…
    …Holocaustos na Ásia menor, na Corea, mundo afora.
    Tendemos a esquecer…

      1. Como mestico que sou, vindo de libaneses, negros africanos escravizados, indígenas massacrados e portugueses, carrego todas essas dores e pecados, simultaneamente.

  2. Eu penso que o que está em causa aqui não é propriamente a falta de compaixão da imprensa portuguesa, mas a deliberada ignorância a que ela se condiciona no seu enquadramento quase incondicional da hegemonia Ocidental, o que se vê na forma como lida com outros pontos de foco internacionais. Tal como o conflicto Israel/Palestina não começou a 7 de Outubro de 2023, Ucrânia/Rússia não começou apenas a 24 de Fevereiro de 2022, mas aos portugueses é recorrentemente negado esse contexto pelos principais meios de comunicação social.

    1. Eu não afirmei razão para a esperança, deixei a interrogação: “Será isto um sinal de esperança para os palestinianos?”
      Se realmente eu tivesse essa esperança, teria afirmado. Mas que haverá uma maior percepção no mundo de que o plano sionista de limpeza étnica/expulsão dos palestinianos da Palestina existe desde antes do Holocausto, disso não duvido.

  3. Meu caro Gustavo Horta, estamos a trocar ideias, com respeito mútuo -é assim quando vivemos em democracia ou quando a defendemos, que é mais este o caso-, sobre um grave problema que nos preocupa e, acredite, não tomei as suas palavras com esse sentido. Cada um de nós pode ser mais optimista ou pessimista sobre o que está acontecer, que é o genocídio de um povo. Na verdade, nunca o Mundo teve à sua disposição tanta informação para poder ter consciência do que está REALMENTE a acontecer e daí poder admitir-se que pode estar a abrir-se uma pequena luz ao fundo do túnel que beneficiará a causa palestiniana. Admito isto, mas não deixo de estar pessimista, pois Israel continua a ter do seu lado os USA, a Grã-Bretanha (que está em estado lastimoso), a Alemanha (país que bem conheço e que deve ter neste momento o pior governo desde o fim da II Guerra Mundial), de onde vim em 2022, minha última visita, muito pessimista , quanto ao futuro da Alemanha e, claro, quanto ao futuro da Europa e da União Europeia, a França, em resumo, quase todo o Ocidente.
    Abraço

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