ADÃO CRUZ – A LAIDINHA

A Laidinha veio ao mundo nos arredores de Paris, filha de emigrantes portugueses. Nasceu sem vislumbre de futuro, como toda a gente. Mas, na sua cabecita, o futuro foi-se acoitando, calmo e decidido. Seria cabeleireira.

Por volta dos vinte anos, já os cabelos se enrolavam e desenrolavam habilmente nos seus dedos. Arranjou um namorico com guita, que tinha um Porsche. Não dava uma para a caixa, mas roncava de Porsche de manhã à noite. Só queria marmelada, mas a Laidinha virou a tigela e deu um pontapé na marmelada. Nunca mais se encostou a um homem. A mãe até dizia que ela parecia que nem tinha vontades de mulher.

Um dia… apaixonou-se por um velho. Um velho a quem cortava o cabelo e arranjava as unhas. Um senhor. Não era feio, era muito simpático, professor de astronomia, não tinha família e contava coisas muito bonitas! Falava-lhe de tudo aquilo que ela não sabia e nunca sonhara: poesia, arte, música, coisas do Universo.

Um dia, levada por um impulso das entranhas, espetou-lhe um beijo na testa. Outro dia, depôs-lhe docemente um beijo nos lábios. Viveram juntos durante dez anos. Dez anos de felicidade.

O velho morreu. A casa, o telescópio, a biblioteca e uma pequena fortuna ficaram para a Laidinha.

Um dia, a Laidinha resolveu vir a Portugal visitar a terra natal dos pais. Ela adorava o mar e ficou por cá. Comprou uma casa, mandou vir os livros e o telescópio. Escreveu um livro de poemas e pintou uma dezena de quadros.

Depois de uma penosa gravidez teve uma filha, ninguém sabe de quem. Um dia escarrou sangue. O cardiologista diagnosticou uma estenose mitral severa. Foi operada e depois reoperada.

Dois anos depois morreu com cancro da mama e sem ponta de cabelo onde enrolar a saudade dos seus dedos. Tinha quarenta e dois anos e chamava-se Adelaide.

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