Yanis Varoufakis, professor de Teoria Económica e antigo ministro das Finanças da Grécia, afirmou num artigo publicado no passado dia 11, ‘Somos humildes servos dos senhores da nuvem: bem-vindos ao tecno-feudalismo’. E Varoufakis explicava esta afirmação pelo novo capital mutante que está já a substituir o capitalismo, o capital na ‘nuvem’, capital que nada fabrica, mas possui todos os dispositivos concebidos para nos alterar o comportamento, o que lhe está a resultar muito bem.
‘Ao olhar-se para qualquer lugar, logo se vê o triunfo desse capital; nos armazéns, fábricas, oficinas, universidades, hospitais públicos, meios de comunicação, até no espaço, mas também no microcosmos das sementes patenteadas’, acrescenta ainda aquele professor.
Estas afirmações até se podem ver ‘sem óculos’, mesmo para um leigo –como eu– nos meandros próprios da ciência económica, por porem em destaque uma outra afirmação, esta de Guilherme d’Oliveira Martins, um dos nomes mais importantes do panorama cultural do nosso país, ‘Mais do que um método de funcionamento das sociedades ou do que um conjunto de procedimentos funcionais, a democracia é um sistema de valores, em que a ética, a moral e o direito se completam’.
Não é só o problema da ‘nuvem’, a pôr em destaque nomes como Bates, Bezzos, Musk ou Zuckerberg –para seguir a ordem alfabética– mas para salientar ainda que a presidente do Boletim dos Cientistas Atómicos, Rachel Bronson, ao dizer o relógio do mundo a só 90 segundos do apocalipse, ‘não só pela invasão da Ucrânia, da guerra em Gaza e do auge da Inteligência Artificial, mas também pelo facto de países como a China, Estados Unidos e Rússia, estarem a gastar quantidades desmedidas de dinheiro para modernizar e ampliar os seus arsenais nucleares, a que se junta o facto de o ano de 2023 ter sido o mais quente que alguma vez se registou’, com as inevitáveis consequências, desde as inundações aos intermináveis incêndios florestais.
E enquanto tudo isto acontece, ‘Sequestram a tua atenção com ficções estéreis, entregas-lhes a vida privada a troco de nada, monitorizam os teus movimentos, inventam necessidades fúteis que, se não satisfazes, só servem para te frustrar; também te sobem a renda da casa, a pouco e pouco te vão empurrando para fora do teu bairro, começam a dizer que aos 47 já és velho, já não haver lugar para ti no mercado, que a experiência também já nem importa e, se és muito jovem, pagam-te bem abaixo do devido, dizendo que também começaram assim. Enquanto te vão falando disto, estão a transformar-te num hóspede da tua própria existência que, obviamente, têm nas mãos, mesmo que não o digam’.
Tirei estas afirmações de uma boa quantidade de outras do mesmo género e visando o mesmo fim, da crónica de um escritor e jornalista, respeitado observador das coisas da vida de todos os dias, as que nos abocanham dias e noites, roubando-nos o descanso que nos permitirá ver o sol que está lá, mas não é, e devia ser, para todos!
A propósito ainda, quando há alguns dias, se conversava sobre tudo isto e de coisas como estas, ouvi um amigo, homem já bem antigo, comentar mansamente, ‘Não é nada mais que a normalização do desumano’
Até aqui já chegámos! E a ter em atenção os donos da tal ‘nuvem’, que nos falta ainda, aguentar mais?
António M. Oliveira
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