Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 – Parte B: Texto 21 – Marx e a “Lei do valor”. Uma apreciação crítica por ocasião da  comemoração do seu bicentenário (1/3). Por Heinz D. Kurz

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Nota de editor: Este texto devido à sua extensão e nível de abstração é publicado em três partes. Hoje a primeira.

Significativamente, o economista italiano Giorgio Gilibert disse, em 1989, que Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias, publicado simultaneamente em Cambridge e em Turim em 1960, é “um dos mais fascinantes livros da história da economia” (On the meaning of Sraffa’s Equations: Some Comments on Two Conferences, em Political Economy, volume 5, número 2, pág 181, 1989).

 


Nota prévia:

Considero este texto de Heinz D. Kurz muito bom, de que que pessoalmente não gosto. E não gosto porque acho que não tem sentido andar a escarafunchar toda uma obra, a de Marx, à procura de pequenas contradições em coisas que são depois irrelevantes tendo em conta as definições assumidas da maturidade de Marx, como é o caso do salário. De resto muito de Marx é decalcado de Ricardo e reafinado por ele. O texto faz isso com o objetivo de desligar Sraffa de Marx, desligando os parágrafos 10 e 12 de Sraffa na Produção de Mercadorias e privilegiando a mercadoria padrão sem a ligação ao trabalho.

É porém um texto importante porque nos mostra muito lucidamente que a questão da unidade de medida tem atravessado todas as gerações de pensadores, desde os gregos e por isso vale imenso a pena lê-lo.

Júlio Mota


 

Parte B: Texto 21 – Marx e a “Lei do valor”. Uma apreciação crítica por ocasião da  comemoração do seu bicentenário (1/3) [1] [2]

 Por  Heinz D. Kurz

Publicado por  em 26 de Junho de 2018 (original aqui)

Investigación económica, vol. LXXVII, nº 304, 2018. UNAM, Facultad de Economía

 

Resumo

O artigo celebra os 200 anos do nascimento de Karl Marx em termos de uma discussão crítica da “lei do valor” e da ideia de que o “trabalho abstracto”, e não qualquer valor de uso, é o terceiro elemento comum entre quaisquer duas mercadorias que são trocadas uma pela outra numa dada proporção. Argumenta-se que esta visão é difícil de sustentar. É também a fonte do incómodo e desnecessário “problema da transformação”. Ironicamente, como Piero Sraffa demonstrou, os preços de produção e a taxa geral de lucros são totalmente determinados em termos do mesmo conjunto de dados a partir dos quais Marx iniciou a sua análise.

Todas as opiniões baseadas em críticas científicas são benvindas.

Marx, Capital, Volume I (1954).

 

1. Introdução

Karl Marx, cujo aniversário de 200 anos é em 5 de Maio de 2018, foi um importante cientista social e filósofo, cujas ideias tiveram impacto em muitas disciplinas, nomeadamente a economia política. Com a queda do que foi chamado de “socialismo realmente existente”, ele também caiu em descrédito e repetidamente foi culpado pelo que no socialismo realmente existente tinha acontecido. O pobre homem foi responsabilizado pelo que dificilmente poderia ter sido responsável, tendo falecido em 1883. Marx foi antes de tudo um cientista e queria ser julgado em termos das suas realizações científicas. Ele também tinha fortes convicções e aspirações políticas. Convencido de que havia revelado a “lei do movimento” da sociedade moderna, que necessariamente levaria ao fim do capitalismo e à ascensão do socialismo, Marx estava ansioso para agir como um obstetra de uma nova era que superaria a exploração do homem pelo homem, a alienação, o fetichismo mercantil e as distorções cognitivas de vários tipos. As suas escassas observações sobre o socialismo são notavelmente pálidas e inespecíficas. Será que alguém poderia confundir o Capital com um manual do revolucionário e governante da política socialista? Foi, obviamente, uma tentativa de enfrentar a “coerência orgânica interna” e o “processo vital” do “sistema burguês”, a sua “fisiologia” (Marx, 1989, p. 391).

No entanto, na análise de Marx, há um elemento em particular que desempenhou um papel muito importante não apenas no discurso intelectual sobre a sua construção, mas também nas lutas políticas em que foi utilizado como um teste decisivo de quem tinha a “crença correta” e de quem era um renegado ou herege. Marx tinha insistido: “a base, o ponto de partida para a fisiologia do sistema burguês, (…) é a determinação do valor pelo tempo de trabalho” (Marx, 1989, p. 391). Marx construiu a sua teoria do capitalismo essencialmente em torno desta posição. No entanto, o que para ele era uma premissa analítica crucial, os políticos elevaram-na a um artigo de fé.

Neste artigo, discuto a contribuição de Marx para a economia política, centrando a atenção quase exclusivamente nesta premissa— o seu primeiro princípio, por assim dizer – e se ela pode ser sustentada. Serão levantadas várias objeções e concluir-se-á que não pode ser sustentada. Este resultado negativo não deve ser lido como implicando que a análise de Marx não tem qualquer interesse e valor. Por conseguinte, o artigo discute brevemente, na secção 2, o que considero serem os seus principais êxitos, seguido do que considero serem os seus principais fracassos. A seção 3 explica então a sua “lei do valor” — o núcleo de sua construção analítica. A secção 4 volta-se para o ponto de partida da investigação de Marx, a relação de valor discutida por Aristóteles e o que Marx achou errado nela. A secção 5 apresenta uma primeira objeção à construção de Marx, que se baseia na ideia de que o “trabalho abstrato” é o terceiro elemento comum —o elemento comum de duas mercadorias que são trocadas a uma determinada taxa. Argumenta-se que existem possivelmente vários terceiros comuns, que normalmente serão valores de uso, uma ideia que Marx seguramente detestava. A secção 6 analisa mais de perto se o conceito de trabalho abstrato é significativo e bem definido. Argumenta-se que Marx apresentou definições diferentes, que não são mutuamente compatíveis entre si. A secção 7 resume os pontos de vista de Piero Sraffa sobre a questão do terceiro (elemento) comum, ou tertium comparationis, e o que ficou conhecido como a “teoria do valor-trabalho”. A secção 8 relaciona os seus conceitos de mercadoria e de Sistema Padrão  com o problema do terceiro comum. A secção 9 contém algumas observações finais.

 

2. Realizações e fracassos de MARX

A) Principais realizações

Marx melhorou as análises recebidas dos economistas clássicos em vários aspetos. Mais importante ainda, merece o crédito por ter redescoberto a abordagem clássica da mais-valia sobre a teoria do valor e da distribuição, que se encontrava sob espessas camadas de má interpretação por parte de autores a que chamou “economistas vulgares”. A caraterística da abordagem clássica do excedente é o facto de determinar as variáveis distributivas – a taxa de salário real (ou a parte dos salários) e a taxa de lucro – não simetricamente (como os defensores contemporâneos da teoria da procura e da oferta e os teóricos marginalistas posteriores), mas assimetricamente.

Enquanto a taxa de salário real (ou parte dos salários) era dada, a taxa de lucro era determinada residualmente em termos do produto excedente que se obtinha depois de todos os meios de produção e bens assalariados (meios de subsistência) usados terem sido subtraídos dos níveis de produção bruta. O rácio entre este produto excedente e o capital adiantado na economia no início do ano, constituído por meios de produção e meios de subsistência, dá, em termos materiais, a taxa geral de lucro. Uma vez que o produto excedente e o capital adiantado consistem normalmente em produtos parcialmente diferentes, ou nos mesmos produtos em proporções diferentes, para os tornar comparáveis entre si, as diferentes mercadorias têm de ser tornadas proporcionais, isto é, expressas em valores.  É aqui que a necessidade de uma teoria do valor se manifesta na economia política clássica – um legado que Marx herdou. Voltaremos a este assunto mais adiante.

Marx estudava com interesse tanto as propriedades estáticas de um sistema económico como um todo, num dado momento e lugar, como as suas propriedades dinâmicas ao longo do tempo, sujeitas ao progresso técnico endógeno, à escassez de recursos naturais, etc. . Insistiu, com os fisiocratas, em que as mercadorias eram produzidas através de mercadorias, ou seja, que a produção era um “processo circular” e não uma via de sentido único que conduzia dos fatores de produção originais (terra e serviços de mão de obra) aos produtos finais, como Ricardo fez em alguns dos seus raciocínios (e os economistas austríacos fizeram mais tarde, seguindo Eugen von Böhm-Bawerk). Isto permitiu-lhe, através do seu conceito de “capital constante”, ver que a taxa máxima de lucro correspondente a salários hipoteticamente nulos era finita e não infinita, facto que Sraffa (1960, p. 94) destacou como uma das principais realizações analíticas de Marx.

A análise de Marx era geral e não parcial, preocupada com a interação entre as várias partes que constituem o todo. Distinguiu cuidadosamente entre o lado material, o lado monetário e o lado do valor dos fenómenos ao analisar, por exemplo, os problemas da reprodução simples e alargada sem e com a mudança tecnológica.

Na sua explicação para o facto de os salários não esgotarem todo o produto líquido, Marx recorreu à especificidade do contrato de trabalho, à sua “abertura”, por assim dizer, e a uma propriedade do sistema como um todo —a geração e a reposição contínua de um “exército de reserva dos desempregados” devido ao progresso técnico que economiza trabalho. Este exército de reserva manteve as reivindicações e aspirações dos trabalhadores sob controlo e foi corresponsável pelo que Marx chamou de “exploração” da classe trabalhadora. Confirmou a “lei fundamental da distribuição” de Ricardo num contexto circular: a restrição que vincula as mudanças nas variáveis distributivas, especialmente a taxa de lucros (r) e a participação dos salários, ou taxa de mais-valia, (w):

onde R é a taxa máxima de lucros. No raciocínio baseado no valor do trabalho de Marx, a taxa máxima de lucros é igual ao inverso da composição orgânica do capital (k). Esta ideia de composição orgânica foi por Marx definida  como a razão entre o capital constante (C), isto é, a quantidade de trabalho incorporada nos meios de produção e meios de subsistência, e o trabalho vivo realizado durante um ano (L): K = C/L. daí:

A sua argumentação contrariava visões harmoniosas da sociedade capitalista retratando-a como cheia de conflitos e propensa a crises. Marx insistiu que, no capitalismo, os trabalhadores estavam alienados e as pessoas sofriam de fetichismo mercantil. Ele (e Engels) insistiram que “as ideias da classe dominante são em todas as épocas as ideias dominantes” (Marx e Engels, 1976 [1945], p. 67) antecipando, assim, o conceito de Antonio Gramsci de “fabricação do consentimento”. E compreendeu claramente que os sistemas económico, social, cultural e político co-evoluíram e estavam sujeitos a uma autotransformação endógena. A este respeito, ecoou a doutrina das consequências não intencionais da ação humana, proclamada com força pelos principais representantes do Iluminismo Escocês, mais notavelmente Adam Smith com o seu conceito de “mão invisível”. Marx apresentou uma versão particularmente radical desta doutrina: seguindo os seus estreitos interesses próprios, os capitalistas em busca de lucros cada vez maiores provocam, “pelas suas costas”, uma queda da taxa geral de lucro e, eventualmente, uma queda do modo de produção capitalista. Marx, o humanista, acreditava que a história realiza um objetivo escatológico: a salvação da humanidade.

Eis, pois,  as grandes realizações de Marx, tal como eu as vejo. Agora volto-me para os seus fracassos.

 

B) Principais falhas

A abordagem “sucessivista” de Marx em relação ao valor e à distribuição —dos valores do trabalho à taxa de lucro e depois aos preços da produção — como lhe chamou Bortkiewicz (1906-1907), não pode, em geral, ser sustentada. A taxa de lucros e os preços de produção só podem ser determinados simultaneamente e não sequencialmente. A taxa de lucros em termos de preço é diferente da taxa de lucros em termos de valor. Na sua explicação da lei da tendência à baixa da taxa de lucros, Marx não argumentou coerentemente. Assumiu que a taxa máxima de lucros está fadada a cair para zero e, eventualmente, também a taxa real de lucros. Uma taxa máxima que desaparece pressupõe, no entanto, uma composição orgânica do capital que subirá sem limites para o alto. No entanto, nenhuma razão teórica convincente pode ser dada em apoio a tal ascensão e, empiricamente, não a observamos. Embora houvesse fases em que a composição orgânica aumentava, e a época em que Marx desenvolveu a sua análise fosse essa fase, havia também fases em que ela estava a cair. De qualquer forma, não há nenhuma visibilidade quanto à tendência ascendente a longo prazo da composição orgânica. Também não se observa uma persistente tendência descendente, a longo prazo, da taxa real de lucros. A taxa de lucros parece ter sido uma variável sem tendência específica.

Apesar de muitas críticas que lhe fez, Marx tinha grande estima por Ricardo. Compreendeu que Ricardo possuía um grande poder intelectual e uma admirável capacidade de abstrair e sintetizar e era claramente um mestre em análise económica.

Marx tinha detectado várias deficiências na análise de Ricardo, especialmente o facto de que Ricardo não tinha desenvolvido o seu argumento estritamente em termos de um processo circular de produção. Mas durante algum tempo Marx parece ter erradamente desprezado alguns dos resultados de Ricardo, especialmente o seu tratamento do problema da “pequenez da natureza” no quadro da teoria da renda e do seu tratamento das “melhorias tecnológicas” na teoria da acumulação do capital e do crescimento da produtividade. Nos seus últimos anos, Marx parece ter continuado a lutar com as ideias de Ricardo e ter entendido que o seu próprio raciocínio talvez fosse difícil de sustentar e, pelo menos, ainda não conclusivo. O facto de não ter conseguido terminar os volumes II e III do Capital, interpreto eu, entre outras coisas, como um sinal de que Marx admitia que não podia resolver os problemas deixados em aberto por Ricardo.

Em Marx, encontramos relativamente pouco sobre o que constitui uma “boa sociedade” e que instituições, leis, regulamentos e estruturas poderiam ajudar a construí-la. Uma preocupação com os pré-requisitos  institucionais, legais, etc. de uma tal  sociedade formou o centro das obras de autores como David Hume e Adam Smith. Eles elaboraram as suas respetivas análises desenvolvendo primeiro uma antropologia empiricamente apoiada para entender os lados claro e escuro do homem. Na sua base, eles então estabeleceram princípios que eram considerados ideais para promover os lados claros e conter os escuros. O resultado desse esforço foi, por exemplo, o conceito de Smith de uma “sociedade bem governada”. Na sua opinião, a economia política – como uma parte importante, e talvez até a mais importante, de uma espécie de ciência política chave, abrangendo a “ciência do legislador”- tem a tarefa de ultrapassar a superstição e as falsas crenças em questões de política económica, desmascarar pontos de vista que apresentam interesses individuais como estando sempre a promover o bem geral e propor marcos regulatórios para mercados e instituições que ajudem a afastar os perigos que põem em risco a segurança da sociedade como um todo e fornecer incentivos tais que a procura de autovalorizarão individual também tenha efeitos socialmente úteis para todos (ver Kurz, 2016a). É de lamentar que Marx, para além de observações  pontuais não tenha também retomado e desenvolvido esta parte da contribuição dos economistas clássicos. Aparentemente, ele estava inclinado a contar com um big bang que mudasse  as coisas de forma fundamental e relativamente rápida e trouxesse uma sociedade melhor, na qual o egoísmo, os interesses  pessoais, a ganância, e a exploração do homem pelo homem não desempenhavam mais um papel central e, a médio prazo, mesmo nenhum papel. Ele não podia imaginar, parece-me, uma sociedade a saltar de uma frigideira ao lume, mas estava genuinamente confiante de que as condições de vida dos homens só poderiam melhorar depois que o jugo do capitalismo tivesse sido destruído. Nesta perspetiva, quase não havia necessidade de um código de conduta para governantes realmente existentes no socialismo realmente existente. Ele era otimista e acreditava que tudo acabaria bem.

Agora voltemo-nos para o que Marx chamou de Wertgesetz – “lei do valor”. Uma breve descrição deve ser suficiente, porque se pode presumir que (a maioria) das pessoas sabe qual é a questão em jogo.

 

3. A “LEI DO VALOR”

A lei do valor, insistiu Marx, não se aplica apenas ao “estado de natureza”, como afirmara John Locke, ou ao “estado primitivo e rude da sociedade”, como lemos em Adam Smith, mas também à sociedade capitalista, que é o modo de produção mais desenvolvido da história. Ao estabelecer esta “lei”, Marx procurou mostrar que o capitalismo, não menos do que os antigos modos de produção, se baseava na exploração de uma classe da sociedade, os trabalhadores, por outra classe, a classe proprietária, constituída por capitalistas e latifundiários. Como a sociedade capitalista era dominada em grande parte pelos capitalistas e não mais pela aristocracia feudal, a sua atenção  concentrou-se na relação entre capitalistas e trabalhadores, ou na relação capital-trabalho. Insistiu no facto de na sociedade moderna, na qual a vida económica estava organizada através de mercados interdependentes, as relações de troca eram estabelecidas em termos de equivalentes. Este facto não significa, no entanto, que não haja exploração. Era uma ilusão pensar o contrário. Os trabalhadores recebiam o que mereciam sob o regime capitalista, isto é, os salários que lhes eram pagos eram iguais ao valor da sua força de trabalho que tinham vendido ao empregador. Então, como poderia haver exploração?

A troca de equivalentes era definida por Marx em termos do trabalho necessário para a sua produção, ou melhor, para a sua reprodução. Fê-lo porque estava convencido de que o trabalho é a fonte, a substância e a medida de todo o valor.

O trabalho gera riquezas, mas no capitalismo também gera valor. Marx orgulhava-se de ter introduzido na economia política a distinção fundamental entre “trabalho” e “força de trabalho”. O valor da força de trabalho, ou “capital variável”, como o valor de toda e cada mercadoria, é igual à quantidade total de trabalho necessária na sua produção e reprodução. Isto é, é igual ao valor de todas as mercadorias que constituem o salário real necessário para reproduzir esta força de trabalho, que exige a reprodução do trabalhador e da sua família. Na medida em que o trabalhador trabalha mais horas do que o socialmente necessário para reproduzir o seu salário real, há “trabalho excedente” que se manifesta na “mais-valia” e, finalmente, nos lucros (rendas e juros). O trabalho gera valor, mas não faz parte do mecanismo de exploração no trabalho: é a relação capital-trabalho que está na origem da dominação e do controlo sociais.

Para ver isto, Marx estava convencido, era preciso estudar de perto a mercadoria, que é a “forma celular” da sociedade moderna e que tem um “valor de uso” e um “valor de troca”. Estes dois lados, sublinhou, exprimem uma tensão e um conflito não resolvidos entre satisfazer as necessidades e os desejos humanos, por um lado, e obter lucros, por outro. Isto ecoa, obviamente, o contraste de Aristóteles entre a forma “natural” das artes aquisitivas (oikonomiké ), que se concentra nos valores de uso, e a forma “antinatural”, que visa o enriquecimento ilimitado (chrematistiké) (Ver também Kurz, 2016b, Cap. 1). Historicamente, nos modos de produção não capitalistas, os homens avaliavam as mercadorias em primeiro lugar em termos dos seus valores intrínsecos de uso —as suas propriedades objetivas para satisfazer necessidades e desejos particulares.

Embora, por exemplo, houvesse trocas na Grécia antiga, ainda não se tinham apoderado plenamente da economia e, por conseguinte, o valor de troca era acidental, em vez de refletir algumas forças fundamentais em ação. Por essa razão, argumentou Marx, o foco da análise de Aristóteles estava no valor de uso. Na sociedade capitalista, no entanto, a crematistica (ou arte de produzir riqueza) rege o poleiro e a troca está bem estabelecida através de mercados interdependentes: é o mecanismo de coordenação dominante de numerosos processos de produção e consumo e da correspondente divisão social do trabalho. O valor de troca é regulado pelo direito económico e deixa de refletir acidentes e mesmo caprichos. Marx estava convencido de que o valor de troca, nos mercados capitalistas, expressa o “verdadeiro” valor das mercadorias.

Ele tentou  demonstrar essa proposição da seguinte maneira bem conhecida. Quando duas coisas são trocadas uma pela outra numa determinada proporção, argumentou, deve existir, “em quantidades iguais, algo comum a ambas. As duas coisas devem, portanto, ser iguais a uma terceira, que em si não é nem uma nem outra. Cada uma delas, na medida em que é valor de troca, deve, portanto, ser redutível a este terceiro” (Marx, 1954, p. 45; itálico nosso). Esta é a famosa doutrina da existência de um tertium comparationis, que para Marx é uma implicação lógica da sua vivissecção das mercadorias. Já na Ideologia alemã de 1845, ele e Engels falavam do dinheiro como o tertium comparationis de todos os homens e coisas. Em O Capital, Marx explicou:”como valores de uso, as mercadorias são, acima de tudo, de qualidades diferentes, mas como valores de troca são apenas quantidades diferentes e, consequentemente, não contêm um átomo de valor de uso” (Marx, 1954, p. 45-46; itálico nosso). Ele continuou:

Se, então, deixarmos de lado o valor de uso das mercadorias [1], elas têm apenas uma propriedade comum, a de serem produtos do trabalho. ( … ) Juntamente com as qualidades úteis dos próprios produtos, nós colocamos fora de vista tanto o caráter útil dos vários tipos de trabalho incorporados neles, quanto as formas concretas de trabalho [2]; não resta nada além do que é comum a todos eles; todos são reduzidos a um e o mesmo tipo de trabalho, o trabalho humano em abstrato (Marx, 1954, pp. 45-46; itálico adicional)

Este raciocínio é altamente sugestivo, pelo menos à primeira vista, e gerações de leitores parecem tê-lo aceite  (ou devo dizer: foram vítimas dele, incluindo o autor deste artigo ao ler as passagens acima pela primeira vez na sua juventude). Constitui o núcleo de toda a estrutura  analítica de Marx. Tudo o resto decorre disso: a sua contabilidade em termos de tempo de trabalho no resto do Capital, a sua interpretação da história socioeconómica em termos do aparato analítico baseado na sua teoria valor-trabalho, o chamado “problema de transformação” dos valores do trabalho em preços de produção, e assim por diante.

Embora altamente sugestivo, o raciocínio também é convincente?

Baseia-se em dois princípios gerais  numerados [1] e [2] na citação acima. Pede-se ao leitor que “deixe de lado” a ideia de valores de uso das mercadorias e “esqueça ” o carácter útil e as formas concretas de trabalho. Em suma, pede-se ao leitor que ignore tanto a heterogeneidade das mercadorias como a do trabalho. Nenhuma razão (para mim) convincente é dada em apoio a estes princípios. Como será discutido a seguir, também não está claro o que, precisamente, se entende por eles. Mas qualquer que seja o significado dado a cada um deles, as implicações dos dois princípios gerais são significativas e muito responsáveis pelas dificuldades da construção teórica de Marx.

Por isso, no que se segue, consideramos que a argumentação de Marx não é convincente. Isto não significa que a sua análise esteja completamente errada ou seja inútil. De modo algum! A situação pode antes ser comparada com a escada de Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus (1922). Wittgenstein argumentou na proposição 6.54 que, embora as suas proposições acabem por se revelar sem sentido, podem ser usadas como degraus de uma escada para chegar a um nível mais elevado de compreensão. Uma vez atingido o nível superior, “é preciso, por assim dizer, deitar fora a escada”. É preciso “transcender estas proposições” para “ver o mundo corretamente”. Algo semelhante se passa com a análise de Marx. Esta foi meticulosamente examinada por numerosos académicos e serviu como degraus de uma escada que lhes permitiu ultrapassar o nível que Marx tinha alcançado e deixar para trás as partes defeituosas da sua análise. O avanço nas ciências segue tipicamente um movimento deste género e não há razão para que, em relação a Marx, as coisas sejam diferentes. Não é preciso sublinhar que os seres humanos são falíveis, e Marx era um ser humano. Tratar as suas hipóteses e proposições analíticas como se contivessem verdades eternas, como se tem feito frequentemente (e ainda se faz em alguns círculos), reflecte um mal-entendido fundamental sobre a forma como a ciência avança.

Antes de prosseguirmos, convém mencionar uma diferença muito importante entre o conceito de trabalho de Marx e o dos economistas clássicos, de Adam Smith a David Ricardo, que quase nunca foi notada e avaliada nas suas implicações. Os economistas clássicos não reservavam o conceito de trabalho exclusivamente ao trabalho humano, mas equiparavam-no ao trabalho efectuado pelos animais (cavalos, bois) e pelas máquinas. (Adam Smith chegou mesmo a considerar certas actividades da natureza como parte do trabalho total realizado na economia). Não é aqui o lugar para entrar numa discussão pormenorizada deste facto. Basta referir que, para os economistas clássicos, o que importava era o facto de os diferentes tipos de trabalho estarem, como salientou Ricardo, em “concorrência constante” entre si e que, em condições de livre concorrência, o comportamento de minimização dos custos decide sobre o seu emprego. Ricardo expressou a lógica subjacente a esta perspetiva sobre o trabalho na terceira edição dos Princípios da seguinte forma:

Se eu empregasse cem homens na minha quinta, e se verificasse  que a comida dada a cinquenta desses homens podia ser desviada para o sustento de cavalos, que me propocionariam um maior rendimento de produto brutos, depois de ter em conta o juro do capital que a compra dos cavalos absorveria, então seria vantajoso para mim substituir os homens por cavalos, e deveria fazê-lo em conformidade; mas isso não seria do interesse dos homens (…) (Works I, p. 304).

 

A escolha da técnica dos produtores que procuram obter lucros determina os custos reais físicos da produção – os meios de subsistência, a forragem dos cavalos, o combustível das máquinas e os factores de produção complementares utilizados. Por conseguinte, co-determina as propriedades do sistema económico, ou seja, tem um impacto na taxa geral de lucro e nos preços competitivos.

Karl Marx não partilhava aquilo a que podemos chamar uma abordagem orientada para os custos físicos reais dos diferentes tipos de trabalho e, consequentemente, da teoria do valor e da distribuição. De facto, opunha-se-lhe rigorosamente (para algumas provas, ver secção 7 mais abaixo) e via apenas o trabalho humano como a origem e mesmo a substância do valor. Isto indica uma divisão fundamental entre as análises de Smith e Ricardo, por um lado, e a de Marx, por outro. E, embora os três autores partilhassem vários pontos de vista, neste aspeto importante, separavam-se uns dos outros. Acontece que o trabalho não é, de modo algum, a coisa simples que algumas pessoas estão inclinadas a considerar.

Agora temos de analisar mais de perto o ponto de partida da construção de Marx: A sua discussão crítica da relação de valor em Aristóteles.

 

(continua)

 

___________

Notas

[1] Conferência honorífica proferida na XIX Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Económico e Social, National Research University Higher School of Economics, Moscovo, 10-13 de abril de 2018. Neste artigo recorro livremente a algumas obras minhas, frequentemente escritas em colaboração com outras. V., nomeadamente, Gehrke and Kurz (2006, 2018), Kurz and Salvadori (2010), Kurz (2012, 2013) e Faccarello, Gehrke and Kurz (2016).

[2] Revisão de António Manuel Martins (FLUC)


Heinz D. Kurz [1946-] é um economista alemão, professor emérito no Centro Schumpeter da Universidade de Graz, tendo também lecionado em universidades no estrangeiro (v.g Roma, Manchester, Paris, México, Leicester, Nice, Pisa, Tóquio). É doutorado pela universidade de Kiel. Publicou numerosos artigos em jornais, e vários livros, entre os quais se destaca The Theory of Production (em co-autoria com Neri Salvadori). É co-fundador e editor-chefe do European Journal of the History of Economic Thought (Londres: Routledge) desde a sua fundação em 1993 (desde 2005 a revista é abrangida pela SSCI). Editor geral dos trabalhos não publicados e correspondência de Piero Sraffa, uma tarefa realizada em nome da Cambridge University Press e do Trinity College, Cambridge (três vols. com cerca de 2.000 págs). (para mais detalhe ver aqui)

Leave a Reply