CARTA DE BRAGA – “o rei vai nu” por António Oliveira

Começo a Carta de hoje, lembrando as letras de dois fados, de Artur Ribeiro e Carlos do Carmo.

O primeiro, cantado por Artur Ribeiro, dizia assim, ‘Chorai fadistas chorai/ Como dizia a cantiga/ E se uma guitarra amiga/ Trinar em tom magoado/ Cantai fadistas cantai/ Com as vossas gargantas roucas/ Que anda o fado noutras bocas/ Que não são bocas p’ró fado’.

Do segundo, no jeito inesquecível de Carlos do Carmo, deixo também uma só quadra, ‘Chorai, chorai/ Poetas do meu país/ Troncos da mesma raiz/ Da vida que nos juntou’.

Assim, também aqui fica este meu lamento, por viver à beira de um charco mesmo no meio dos territórios que separam dois desatinados dum lado o desgadelhado trump e do outro o putin que até se crê imperador, por qualquer um deles lhes querer desactivar a importância que ainda terão.

Também sei que letras e o toque das guitarras não são nossos, os mais pequenos, mesmo a ter em conta as discursatas com que agora nos vão encharcando, principalmente os copistas do desgadelhado (apesar do jeito e da fatiota), mas a voz ou o som do instrumento estão desafinados, por memórias que ainda doem a muitos, e pelas impossibilidades, práticas ou técnicas, das promessas que despejam à pazada.

E convém não esquecer que, do lado de lá do charco, mais de vinte processos judiciais perseguem o das gadelhas, entre os quais a acusação de ter organizado o assalto ao Capitólio em Washington, a 6 de Janeiro, uma tentativa de golpe de estado sem precedentes na história dos states. Enfrenta ainda acusações de machista, agressor sexual, negacionista, evasão de impostos, roubo de documentos oficiais quando perdeu as eleições e teve de abandonar a Casa Branca.

Do lado de cá, como dizia um cronista há poucos dias, é o reino do putinistão, o das manobras imperiais na obscuridade, apresentando como exemplo o falecimento de Alexei Navalni, no passado 16 de Fevereiro, numa prisão árctica, em circunstâncias que ainda não foram devidamente explicadas. E termina a crónica com algumas perguntas Que se esconde por detrás dessa figura de ferro e imperial? Como funciona e como se perpetuou no poder? Quem são os ho0mens de confiança desse estado gerontocrático?

E perante esta ‘paisagem’, aqui à beira do charco, no meio dos territórios de dois desatinados, apeteceu-me deixar mais uns versos, só as duas primeiras estrofes do ‘Coro da Primavera’, a belíssima canção do Zeca Afonso, bem apropriada para estes tempos.

Cobre-te canalha na mortalha

Hoje o rei vai nu os velhos tiranos

De há mil anos morrem como tu

Abre uma trincheira companheira

Deita-te no chão sempre à tua frente

Viste gente doutra condição

Ergue-te ó Sol de Verão

Somos nós os teus cantores da matinal canção

Ouvem-se já os rumores

Ouvem-se já os clamores

Ouvem-se já os tambores

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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