PUBLICIDADE E CONSUMISMO: O POEMA “MARKETING” DE FERNANDO NAMORA – por MANUEL SIMÕES

(1919 – 1989)

 

Fernando Namora (1919-1989)  foi um escritor da primeira geração neo-realista (lembremos que o seu volume, Terra, inaugurou em 1941 a mítica colecção Novo Cancioneiro), injustamente esquecido se considerarmos a excelência de obras como os inesquecíveis contos Retalhos da Vida de um Médico (1.ª série, 1948) ou os romances Fogo na Noite Escura (1943), Domingo à Tarde (1962), Os Clandestinos (1972) ou Rio Triste (1982), entre outros. Conhecido sobretudo como romancista, começou a sua vida literária como poeta, destacando-se, talvez, pela recepção entre os leitores, o volume Marketing (1969), em que se inclui o longo poema com o mesmo título, e onde o Autor recupera, em tom irónico, a linguagem da publicidade televisiva, explorando os jogos-de-palavras da retórica da publicidade, da qual retoma segmentos supostamente mais influentes na disponibilidade passiva do destinatário-alvo. Para nos darmos conta da ironia do discurso, transcrevem-se aqui os dez primeiros versos e os últimos sete do poema, com a conclusão pessimista mas certeira, tanto em 1969 como hoje:

Apesar de a actual publicidade televisiva (e não só) incidir sobre outros produtos, a funcionalidade não se altera; pelo contrário, actualmente é muito mais arrogante e avassaladora, sem ter sequer separadores entre um anúncio e outro, de modo que, sei lá, um creme supostamente de beleza pode entrar com surpresa e de rompante nuns hambúrgueres prodigiosos (di-lo a propaganda). Por outro lado, a publicidade televisiva é em grande parte responsável pela introdução de estrangeirismos desnecessários, mesmo quando se trata de produtos nacionais. Há poucos dias descobri no rodapé de um anúncio que um músico tinha feito um “showcase” em laboratório; e aqueles hambúrgueres com vários andares já são só designados por termos bárbaros, associados a reis e rainhas (da Inglaterra, já se vê). Não vejo, por norma, estes canais – espreitei há dias o programa de um conhecido humorista – e não percebo como há gente que suporta blocos de anúncios de vinte minutos ou mais. Em termos de aumento de vendas, julgo até que os anunciantes deveriam protestar porque, deste modo, os destinatários estarão mais distraídos.

Claro que Fernando Namora tinha razão quanto aos efeitos da publicidade em matéria de consumismo. É destes dias a notícia dos 215 mil apostadores que pediram a auto-exclusão da possibilidade de continuar a jogar e haverá muitos mais que não são capazes de resistir ao bombardeamento constante dos anúncios de apostas, sobretudo desportivas. E ainda no âmbito do consumismo, lembro um recente programa na RTP2 em que, logo a seguir a um vídeo em que se apontavam as vantagens da dieta vegetariana, foi apresentada uma reportagem alargada sobre uma das muitas feiras de  fumeiro, com a exaltação das suas delícias. É o contraditório, “meu estúpido”!

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