O SÍTIO ONDE EU VIVO / EU VENHO DO BAIRRO… por Luísa Lobão Moniz

O sítio onde nascemos e vivemos pode contribuir para o estabelecimento de vínculos e para demonstrar como esses lugares são importantes para a formação da nossa identidade.

A nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro são os lugares onde estabelecemos as nossas primeiras relações com as pessoas mais próximas, a família.

A maneira como estabelecemos as inter-relações no nosso endogrupo vai condicionar os nossos comportamentos relativamente ao que nos rodeia e à comunidade a que pertencemos.

A partir do que vemos, do que sentimos, e da maneira como os outros nos vêem construímos e conquistamos o nosso lugar no mundo, e mais tarde seremos capazes de integrar outros lugares.

Todos os lugares têm várias histórias: a nossa história, a da nossa individualidade, a história da comunidade em que vivemos e a história das representações que os outros constroem sobre nós.

As comunidades não são passivas nem estáticas, estão em constante movimento e, ao longo dos tempos, vão-se transformando conforme necessitam para a sua sobrevivência.

Sam the Kid tem 45 anos e Sara Correia 31. Retratam a sua Chelas com a preocupação de dizer ao mundo que a Chelas em que vivem é socialmente mais coesa e que tenta resistir aos males sociais.

Há 30 anos Chelas não era assim, o que mostra que não há determinismos históricos.

SAM THE KID (nasceu em 1979)  habituou-se a contar isto mesmo: o dia-a-dia em Chelas, as curiosidades ao virar da esquina, as pessoas que o rodeiam. Muitas delas ficaram para a história, com as suas fotografias na capa quadriculada do seu álbum ‘Pratica(mente)’ – editado em 2006, e que marcou o hip hop em Portugal até aos dias de hoje.

O que é que distingue Chelas? “Ya, já não é a primeira vez que me fazem essa pergunta. Distinguir é difícil de verbalizar, também porque nunca vivi noutros bairros”. Ainda assim, Sam acredita que Chelas tem algo muito especial e que também gostava que assim fosse noutros bairros: digamos que há uma camisola que é vestida. “É um bairro tão grande, com várias zonas…”

Sam faz um apelo em geral. Quase como um convite. Para que quem está de fora tenha uma melhor noção do que é Chelas. E relata um exemplo, que obviamente o incomodou, e no qual se percebe a forma como as ideias sobre o bairro são preconceituosas. Diz que vai pegar na frase dita por um jornalista no final de uma entrevista recente que ele deu.

“E bom, tivemos uma reportagem em Chelas, um bairro na periferia de Lisboa. ‘Tas a ver?!’”. Sam realça que existe a ideia de que Chelas é na periferia. Mas não é. O táxi é tarifa 1, o Santo António é festejado ali e a distância para a Praça do Comércio é a mesma do que das Amoreiras. E pede uma explicação: “É porque é uma palavra associada a gueto, multiculturalidade, há blacks. É? Não pode haver blacks em Lisboa?”. (in entrevista com o jornalista Nuno Mota Gomes, 2023)

Chelas

Chelas, o sítio onde eu moro
Procuro a verdade e a informação que’eu devoro

Eu não ignoro, toda a espécie de pessoa
Oiço uma voz que ecoa na rotina que enjoa
É sempre a mesma coisa que se vive e que se passa
E o que mete graça é que não há nada que se faça
Queres droga vai à praça
É assim o sistema
Porque isto é real não confundas com cinema
Tempos estão mudados, nomes são alterados
Mas olhos continuam sempre atrás dos cortinados
E ficam na janela se for preciso uma noite inteira
Enquanto isso o filho rouba-lhe o dinheiro da carteira
Aqui não podes ser otário, tu tens de ser bem vivo
E tem cuidado com o monarca do distintivo
A cara podre é o escudo que faz a distância
Quando ele se quebra não existe a tolerância
Respondo e pergunto, não escondo o assunto
Disfarce à parte pondo o sincero mais junto
O jovem sonha de perder a realidade medonha
Trabalho traz preguiça, preguiça traz vergonha
De onde é que vem a censura que eu não vejo o sensor
Porque o que eu aprendi é que o talento não tem cor
Mostra-me a verdade que tu revelas
Porque a minha tu sabes que vem de Chelas

O sítio onde eu moro
O sítio onde eu vivo
O sítio onde eu paro e
Fico pensativo

Chelas
Chelas
Chelas

Os dramas são vários com problemas diários
Se és falado por trás então caga nos comentários
Porque eu tenho um arsenal de desprezo
E tu não vês o teso indefeso porque sentiu o meu peso
Consciente do Oriente pá tuga directamente
Yoh acorda e sente a brisa porque a rua é exigente
A minha inspiração surge numa noite escura
Na minha rua nem a passadeira é segura
E queres sabê-la? É Manuel Teixeira Gomes
É onde eu vivo e onde conheci muitos nomes
Uns bazaram outros baicaram mas ficam
Na memória daqueles que não complicam
A variedade predomina há de tudo um pouco
Do consciente ao louco
Do que fighta, ao que fighta* com soco
Cuidado com o cusco
Atento porque manca qualquer movimento brusco
Chelas tá no sangue Chelas tá nos genes
Imagem tá igual, banda sonora, sirenes
Vejo pitas confusas com tusas constantes
Naquela que o sexo vai fazer delas mais importantes
Mais elegantes
Mas não esse é o resultado
Inexperiência faz ela cair em qualquer corvo, coitado
Eu penso que se ela fosse minha mana
Curtia que abrisse mais a pestana

O sítio onde eu moro
O sítio onde eu vivo
O sítio onde eu paro e
Fico pensativo

Chelas
Chelas
Chelas

Sítio dividido em zonas com letras do alfabeto
Zonas divididas em lotes com mau aspecto
Chibaria em todo lado, tem cuidado
Ambiente pesado para um mal habituado
Pitas querem ser senhoras, senhoras querem ser pitas
Tão bonitas, cuidado é quem tu imitas
Os putos de hoje também querem crescer mais depressa
Mas quando crescem sabem que o tempo não regressa
Dá tempo ao tempo. Um dia vais perceber
A vida é fodida mas tenta vivê-la com prazer
Mesmo que custe ao menos faz a tentativa
Tentar calar o mundo com outra perspectiva
Muitos feitios uns quentes outros frios
Alguns não se mexem outros aceitam desafios
Sem atrofios apenas opiniões
Fazem comparações sem nenhumas instruções
Confusão noturna num prédio silencioso
Agitação mental quando a zona está em repouso
Reflexão da vida enquanto acendo um porro
É aqui que eu nasço é aqui que eu morro

O sítio onde eu moro
O sítio onde eu vivo
O sítio onde eu paro e
Fico pensativo

Chelas
Chelas
Chelas
Chelas
Chelas
Chelas
Chelas é o sítio, Chelas é o berço

*Fighta  arte de lutar

 

SARA CORREIA (nasceu em 1993)

Escrito e composto por Carolina Deslandes, palavra a palavra, a partir do bairro onde Sara Correia cresceu e viveu: Chelas. 

“ O meu bairro foi quem me criou e quem me fez ser a mulher que sou hoje. Foram as pessoas do bairro que me ajudaram a seguir o meu caminho e a ter força para continuar no mundo da música que é bastante difícil, e tive sempre o apoio do meu bairro nesse sentido.”

 “Vivo em Chelas há 30 anos e nunca ouvi tiros. Não há roubos assim, não é a loucura que as pessoas pensam”. “Pensam que Chelas é um bairro problemático, mas deviam vir cá ver como é que é”.

“A canção ‘Chelas’ é uma homenagem a todas as pessoas que me viram crescer no bairro” (in Blitz,2023)


Dizem: Sara, tem cuidado com o que dizes
Lava a cara, tu não mostres de onde vens

Põe vestidos e esconde as tuas raízes
Finge lá que és senhora, tu finges bem

Dizem: Sara, tu usa as unhas mais curtas
Fala bom português, larga o calão
Não fales da pobreza, da noite escura
Ganha quem tem poder e não coração

Mas no meu bairro eu vejo prédios de todas as cores
Que gritam ao mundo: O pobre há de sempre ser pobre
No meu bairro vejo gente, sei dos seus horrores
E que quem vem da rua é sempre nobre

Eu venho do bairro, da janela conto as estrelas
Eu venho do bairro, da janela conto as estrelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas

Dizem: Sara, a maquilhagem tá carregada
Dizem: Sara finge lá ser o que não és
Mas disso eu já sei tudo e estou cansada
Trago o fado na voz e ténis nos pés

Dizem: Sara, tu sorri, ser mais comedida
Cumprimenta os senhores, faz-me o favor
Mas o fado que eu canto, canta-me a vida
É a voz de quem nasce filho da dor

E no meu bairro eu vejo prédios de todas as cores
Que gritam ao mundo: O pobre há de sempre ser pobre
No meu bairro vejo gente, sei dos seus horrores
E que quem vem da rua é sempre nobre

Eu venho do bairro, da janela conto as estrelas
Eu venho do bairro, da janela conto as estrelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas

Eu venho do bairro, da janela conto as estrelas
Venho do bairro, da janela conto as estrelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas

Eu venho do bairro, da janela conto as estrelas
Eu venho do bairro, da janela conto as estrelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas
Não sou de mais lado nenhum, eu sou de Chelas

 

 

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