ADÃO CRUZ – PALESTINA

 

 

(Ao fim de uma longa vida, nunca pensei ser possível assistir, em directo para todo o mundo, a tão incomensurável barbárie, a tão macabra carnificina, a tão cruel genocídio como aquele que acontece em Gaza. Um holocausto não escondido, como o outro, mas a céu aberto. Não consigo, e penso que será muito difícil a quem quer que seja, expressar literariamente tão desumana tragédia, mesmo deitando mão do mais amargo sabor da poesia. Por isso aqui vos deixo um poema já antigo, do tempo da Intifada, mas que traduz tanto quanto possível a vida na Palestina desde os princípios do século XX).

 

 

PALESTINA

 

Não há sol nos céus da Palestina

não há luz nos olhos da Palestina

roubaram o sorriso à Palestina.

São de sangue as gotas de orvalho da madrugada

e o vento só é vento quando as balas assobiam

roubaram as manhãs à Palestina.

O céu de chumbo esmaga as almas e os ossos

e é de lágrimas a chuva quando cai

não há sol nos céus da Palestina.

Do ventre da lua cheia

cheia de aço e de amargura

nasce a cada hora um menino com bombas à cintura

mataram a infância na Palestina.

Rasgam as mães os seios com arroubos de ternura

para alimentar a raiva

por cada filho que perdem outro nasce da sepultura

semearam a dor na Palestina.

Nas casas esventradas

rompem por entre as pedras leitos de sofrimento

onde à noite se acoitam os amantes

queimando a dor na paixão de um momento

fizeram em pedaços o amor na Palestina.

Cada instante é uma vida na vida da Palestina

cada momento uma taça de vingança clandestina

cada gesto um vulcão de raiva que nem a morte amansa

roubaram a paz à Palestina.

Na sombra do dia ou na calada da noite

cravam os vampiros seus dentes de ferro

no coração da Palestina

não há sangue que farte a fúria assassina

sangraram cobardemente a Palestina.

Para atirar contra os tanques uma pedra

agiganta-se o ódio a cada bater do coração

por não haver sangue de tanto sangue vertido

outra força não há para erguer a mão…

e dar à Palestina algum sentido.

Adão Cruz

2 Comments

  1. Uma vez mais a Poesia a despertar a consciência do Mundo. Este, porém, e hipocritamente, ignorou sempre a cruel ocupação da Palestina, seguindo, aliás, a política dos USA. Excelentes, o poema e a ilustração. Manuel Simões

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