CARTA DE BRAGA – “de conversas e ventos” por António Oliveira

Não sei quem é, como se chama, nem o que faz, ou o que fazia. Sei que devemos andar pela mesma idade, que caminha pausada e calmamente e, algumas vezes traz com ele um cão que, a ver pelo que as pessoas dizem um ano num cão, será o mesmo que sete numa pessoa o bicho até poderá ser da mesma idade; mas deve ligá-los uma amizade bem grande, pois o cão nem sequer tem trela, nem nunca se afastam um do outro. Só o traz para a rua quando está bom tempo e ele se pode sentar ou deitar junto ao senhor, até ele se levantar, e irem os dois para casa.

Começámos e cumprimentar-nos sempre que um de nós chega ao café, às vezes já damos ‘uma de trela’ e, há uns dias, a propósito de tudo o que está a acontecer de mau no mundo, bem longe do que aqueles que o poderiam entender, alvitraram algum dia, o senhor saiu-se com ‘Nunca se agarre ou ampare em coisa alguma, porque também lha vão tirar, mesmo que lhe custe desistir do diálogo e da urbanidade’.

Na verdade, nostalgia e melancolia são boas companhias uma da outra, muito mais quando temos dentro, a pena e a dor por termos aceitado o que nos foi arrebatado sem arreganhar palavra, e aprendemos a viver assim, apesar da falta de tudo o que nos foi arrancado para amparar a esperança num futuro melhor. Até porque, escreve o poeta Luís Castro Mendes no DN, ‘As tendências actuais no mundo em que vivemos não indiciam nada de bom, e a insegurança dos líderes actuais leva-os crescentemente, a atitudes de radicalização dos conflitos e de recusa de compromissos’.

Não há muito tempo li um trabalho sobre Cícero, o filósofo, político, escritor e orador romano, que marcou decisivamente o século I a. C., onde ele classificava como ‘perverso’, um carácter com tais tendências, uma apreciação vinda já da mitologia grega, ‘síndrome de húbris’, a referir a presunção, a petulância e a insolência, todas a merecer punição por serem atitudes afrontosas para os deuses. Essa síndrome foi também descrita pelo ex-político David Owen e pelo psiquiatra Jonathan Davidson, como a imagem derivada do excesso de poder em alguns políticos, que levou e poderá levar a comportamentos irresponsáveis, próximos da instabilidade mental, do narcisismo e da grandiosidade.

E dão exemplos de políticos famosos agarrados por tal síndrome, como Estaline, Hitler, Roosevelt, Franco, Bush, Blair e muitos mais, a quem se pode aplicar o termo ‘desmesuradoexcessivo, desmedido, enorme, referindo as acções vergonhosas, humilhantes e cruéis feitas ou mandadas por tais poderosos, com motivos justificados por eles mesmos, por mero prazer, prepotência ou egocentrismo, no fundo irracionais, e ‘não há nada mais mortal que o ego, nem mais tonto quer um narciso’, garante o cabalista Javier Saban, ao ‘Vanguardia’.

Note-se aliás, de tudo os que grandes escritores, como George Orwell, Isaiah Berlin, Albert Camus, George Steiner e muitos mais, por esse mundo fora, escreveram para enfrentar a sinistra teia de mentiras, que ajudou a construir os totalitarismos do nazismo, do comunismo estalinista e afins a qualquer um deles, bem testemunhados pelos campos de concentração e morte que muito usaram, da França à Sibéria.

O autoritarismo, como qualquer um pode ler e ver agora mesmo à vista desarmada, é comum em todas as pessoas com dificuldades em se adaptarem à complexidade própria de um viver em liberdade, pela enorme dificuldade que têm em conceber a existência de liberdade e direitos humanos, com prioridade em relação aos conceitos, por eles assumidos, de cidadania, da ordem e da eficácia, e basta atentar no ‘banho de sangue’ prometido pelo gadelhas norte-americano se ele perder as próximas eleições.

E, mais uma vez, este é um ano marcado por uma carga política absolutamente fora do normal, com eleições na União Europeia, Reino Unido, Estados Unidos, Rússia, Índia, Coreia do Sul e, como se viu agora em Portugal e noutros países, onde até a ideia de democracia está em discussão, tanto como a noção de poder no que resta dos órgãos de comunicação social, em confronto com aquele que passou para as redes sociais.

                                                       Amorim

                                                    Le Monde, 17.03.24

Quando o grande público tem dificuldade em perceber a diferença entre teorias efabuladas e conspirativas perante realidades não ‘fabricadas’, também se torna muito complicado ‘separar o trigo do joio’, e essa é mais uma das enormes dificuldades que teremos de pensar muito bem, para resolver melhor, neste ano também bissexto!

Talvez nos ajude a pensar, este velho aforismo de Séneca, o filósofo estóico desaparecido no ano 65, e um dos mais conhecidos intelectuais da antiga Roma, ‘Não existe vento favorável para quem não sabe onde quer ir’, e este parece ser um ano de muitas tempestades!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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