A “CANÇÃO DE INTERVENÇÃO” E O 25 DE ABRIL: EQUÍVOCOS GERACIONAIS – por MANUEL SIMÕES

Como é por demais consensual, a “canção de intervenção” foi um elemento determinante para o despertar da consciência cívica durante a ditadura. A origem desta manifestação musical provém, quanto a mim, da sua aliança com a poesia e da mudança operada no ambiente musical de Coimbra (daí vêm José Afonso e Adriano Correia de Oliveira), onde a balada passou a ser uma forma de reivindicação, coisa nova a cujos autores se chamou “baladeiros” (um tanto pejorativamente por parte dos reaccionários), mais  tarde “cantautores” – seguindo a terminologia italiana – e depois, com Sérgio Godinho ou José Mário Branco, Vitorino, Manuel Freire, Fanhais e outros,  consagrou-se como “canção de intervenção”. Tudo isto coincidiu com a publicação, nos anos 60, de Poemas Livres (Coimbra), da mítica Antologia da Poesia Universitária (Lisboa) e de dois livros simbólicos como Praça da Canção ou O  Canto e as Armas, de Manuel Alegre, dos quais se musicaram e cantaram muitos poemas. E cantar incomodava!

Esta importante manifestação poético-musical de resistência à política do Estado-Novo foi agora objecto de um estudo alargado por parte de Luís de Freitas Branco (A Revolução antes da Revolução), o qual parte da suposta evidência de o ano de 1971 ter sido uma data fundamental para a música popular portuguesa. Diz o Autor numa entrevista concedida ao jornalista Nuno Pacheco (“Público/Ípsilon”, 29/3/2024): «…alguma coisa tinha acontecido em 1971 e não podiam ser apenas coincidências. Sabemos dos três álbuns gravados em Paris [José Mário Branco, Sérgio Godinho, José Afonso], mas depois vemos o Gente de Aqui e de Agora [de Adriano Correia de Oliveira], o Festival de Vilar de Mouros, o Jazz de Cascais, o próprio Festival da Canção que foi muito particular, o álbum Blackground do Duo Ouro Negro, o Movimento Perpétuo [de Carlos Paredes] ou o álbum a solo do José Cid». Como já se percebeu, o título do volume provém da opinião do Autor, segundo a qual 1971 determinou uma revolução que veio antecipar a “outra” revolução, mas a primeira (revolução musical) já tinha feito um longo percurso se considerarmos que o disco de José Afonso, Baladas de Coimbra (o que contém “Menino do Bairro Negro” e “Os Vampiros”) já circulava desde o início dos anos 60: lembro-me de o ter ouvido, extasiado, no Verão de 1961.

Sobre o projecto de investigação de Luís de Freitas Branco, louvável em princípio, parece-me que o ponto de partida, programado por motivos geracionais («a minha geração é outra»), é excessivamente alargado e com um conceito de “intervenção” descontextualizado, no mínimo ambíguo sobre o conceito de “intervenção”. De facto, diz LFB na citada entrevista: «a canção independente africana, a música ligeira, o jazz e o pop são tão importantes como as restantes canções». Nada tenho contra o rock & c.ia mas não me parece que se possa considerar “canção de intervenção” a que casualmente (ou não tanto por acaso), alguns cantores resolvem integrar no seu reportório. Amália começou a cantar os poetas “políticos” porque teve um conselheiro inteligente (Alain Oulman ) e não queria perder o comboio do êxito público; Dulce Pontes ou Cristina Branco, por exemplo, cantaram poemas dos então chamados “autores malditos” mas nem por isso se pode dizer que foram cantoras de intervenção. De resto o próprio investigador se dá conta do caso insólito e impensável de ir entrevistar, para o seu trabalho, Marco Paulo ou  Paco Bandeira, eles próprios surpreendidos por verem branquear o fenómeno musical do nacional-cançonetismo, que infelizmente ainda impera nas tardes televisivas de sábado e domingo, com textos obsoletos, sem qualidade e descaradamente populistas.

 

1 Comment

  1. Caro Marques Lopes, gostei das sua análise.
    Fomos colegas de trabalho e, por conseguinte, tive a possibilidade de acompanhar o seu trabalho de
    Intervenção ,nâo no palco, mas no terreno , a enfrentar os perigos que a sua actividade implicava.

    Mariana de Brito

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