Queiramos ou não, a política internacional –aquela bem distante dos vídeos de 15 segundos do tiktok, que só tratam de universalizações sem participação activa– está no centro das preocupações de todo o mundo, especialmente a que apoquenta a desvalorização dum termo que, só há cinquenta anos, passou a ter alguma importância neste país.
Um pequeno grupo de pessoas, conseguiu abater um regime de séculos, mas, nos derradeiros anos, as elites financeiras, militares e religiosas eram os verdadeiros e efectivos ‘donos’ da riqueza social e activa do país, e assim lhe podiam desenhar o destino, mesmo ultrapassando de forma continuada e diversa, os limites impostos pelas condição e dignidade humanas.
Não souberam, não quiseram ou não puderam interpretar os sinais de mudança na política internacional, a pedir as actualizações que só uma democracia poderia proporcionar; penso haver já muitas teses sobre esta assunto, e não vou adiantar mais nada sobre aquele dia 25 do ‘mês das águas mil’, mas também vejo como a Europa e este pequeno país a ‘desandar’ para o Atlântico, estão a deixar de ser um modelo (exemplo, marco, protótipo, forma, padrão) para uma boa parte do mundo, até por lá termos andado, mas agora submetida a distintos tipos de autoritarismo, ao mesmo tempo que a direita mais extrema, se vai sentando nesta ‘velha’ Europa, mesmo com censuras várias, mesmo a cantorias, seja qual for a interpretação que queiram dar a tal adjectivo qualificativo.
Convém ter em conta que a direita holandesa volta ao governo dos Países Baixos, a direita extrema no governo da Finlândia apoiando o da Suécia, temos a Meloni em Itália e Orban na Hungria, ao mesmo tempo que as sondagens assinalam avanços consideráveis na Alemanha, Dinamarca e Áustria, a uma direita antieuropeia complacente com Putin, mas também com discursos carregados de ódio ao emigrante, ao exilado e ao que pensa diferente.
E, no dia 18, o ‘Publico.es’ trazia este título em primeira página, ‘As eleições europeias jogam-se no TikTok’, acrescentando a seguir, ‘Itália, França, Portugal e Espanha. A extrema direita tem, nestes países, uma proporção muito mais elevada de eurodeputados tiktokers, que as outras formações políticas, e o Chega é o partido que mais tem crescido entre os jovens, nas últimas eleições’. E Filipe Teles, politólogo e professor e na Universidade de Aveiro, explica a razão, ‘O público jovem não quer receber conteúdos técnicos nem complexos’.
E repetindo o modo como comecei esta Carta, queiramos ou não, vai sendo importantíssimo dar atenção às questões e problemas nacionais, diz Viriato Soromenho Marques, numa das crónicas habituais no DN, ‘O risco de guerra europeia e global permanece ao nível mais elevado desde 1945, quando uma UE à deriva vai sofrer uma metamorfose, de dimensão e alcance incerto, e um Parlamento Europeu de pendor populista e fragmentador’, pelo que não podemos esquecer que o maior problema nacional é a realidade europeia e internacional do mundo.
Uma visão similar a esta ‘realidade’, também a podemos ir buscar a uma outra do DN, assinada pelo professor e poeta António Carlos Cortez, num dia deste mês de Maio, ‘De Trump a Bolsonaro, de Orbán ao “El Loco” que preside aos destinos da Argentina, e, à nossa escala, das cínicas atoardas dum Ventura, à não menos hipócrita babugem do bem-comportadinho discurso dum Bugalho, os populismos são fruto da linguagem tentacular que impõe o sucesso como critério de verdade para se ser político’.
Até Ford Francis Copolla afirmou em Cannes, onde foi à apresentação do seu filme ‘Megalópolis’, na conferência que a antecedeu, tem uma esta afirmação bem elucidativa, ‘É aterradora esta tendência para a direita, inclusivamente fascista, do mundo de hoje’, aqui transcrita em tradução literal, sem qualquer arranjo literateiro.
É por tudo isto temos todos de ir votar nas próximas eleições europeias, por nelas se estar a jogar o nosso futuro, bom como o dos que nos são queridos, daqueles com quem viajamos todos os dias a caminho do emprego, dos que deixamos na escola, dos que temos a espera no café, na igreja, ou no canto da rua e pedir uma moedinha, do varredor da rua ou do carteiro, daqueles todos com quem nos cruzamos e que também vão ter de dar opinião, mesmo que não muito bem preparados.
Tenho de terminar assim, com esta incerteza, por ter em conta as palavras do jornalista Ricardo Simões Ferreira, ainda no DN do dia 14, ‘Estamos de tal forma condicionados por políticos medíocres, mais preocupados com a sua carreira e sobrevivência política, que dirão apenas e só, o que esperam que os eleitores e a audiência dos putativos apoiantes da sua plataforma, gostem’. E o jornalista aproveita também aquele dia 25 do ‘mês das águas mil’, para acrescentar ‘Passados 50 anos do fim do Estado Novo, continuamos a viver numa sociedade em que o “oh srs. não havia nexexidade”, se sobrepõe a quaisquer factos’.
Talvez seja bom recordarmos todos, uma frase do grande Miles Davis, quando alguém entra no camarim e lhe anuncia ‘Miles, acaba de cair o Muro de Berlim!’ O músico sorriu e pergunta apenas, ironicamente, ‘Caiu sozinho?’
Os muros nunca caem por sua vontade, é preciso deitá-los abaixo!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor